Em vista de todas as ponderações feitas, o tratado, de 30 de maio de
1879 entre Portugal e Gran-Bretanha, _para regular as relações das suas
respectivas possessões na Africa Sul e Oriental_, poderá ser considerado
como um objecto de tão mediocre importancia e tão limitado alcance, que
para o tornar effectivo, seja indifferente sacrificar os seus previstos
resultados, só para não affrontar a opinião que lhe seja adversa?
Serão suas consequencias politicas e economicas de transcendencia só
restricta áquelle até hoje abandonado tracto de terra Africana que se
denomina Lourenço Marques?
Ainda quando assim fosse, nunca poderia d'ahi inferir-se ser regra de
bom procedimento, antepôr o que o capricho exige, ao que a rasão e a
conveniencia aconselha. Sóbe porém de ponto o valor que o recommenda,
quando se considera a circumstancia de ser elle, não só um assumpto de
alcance local e de benefico influxo para aquelle de si pobre dominio,
mas sim um dos elementos de uma previdente politica colonial de alliança
e cooperação entre Portugal e a Inglaterra, de mais vasta e importante
transcendencia.
É elle a sequencia do principio e a antecedencia do fim n'uma grandiosa
concepção de um genio esclarecido, obedecendo a um plano systematico, a
uma generosa e patriotica idéa, qual a de levar o extenso dominio
colonial Portuguez, á altura a que só póde attingir pelos meios que a
civilisação indica, e que a boa politica internacional aconselha.
Se as restricções, os monopolios, os exclusivos, e todos os egoismos da
velha escola prohibitiva, poderam em passadas epocas constituir um
systema nas relações commerciaes do Mundo, é certo que os progressos
materiaes e as tendencias moraes das sociedades modernas, não podem
tolerar esse systema de desconfiança, de afastamento e como de
animosidade entre nações, pois á sombra de uma supposta vantagem
resultante d'esse isolamento, só poderia conseguir uma enfésada e
rachitica exploração dos seus recursos, difficultar ou impedir a troca
de seus productos, que a Providencia distribuiu variadamente por todos
os climas e povos, como para lhes dictar como lei, o trato fraternal,
impondo-lhe assim a conveniencia de as tornar dependentes umas das
outras no que concerne ao usofructo das producções da natureza. Por
outro lado, se as ambições de conquistas, os ciumes de supremacia,
podiam dar logar n'outras eras a rivalidades e acirramentos entre
potencias, ou entre Estados com interesses analogos, é certo que a boa
politica entre nações com essa analogia de interesses, não está em
manter esse perenne antagonismo. Harmonia nos exforços em commum
vantagem, preferem a repellencias, com detrimento de todos. N'este
intuito, o tratado da India, baseado n'uma união aduaneira, foi o inicio
d'esta grande obra; o tratado de Lourenço Marques era o meio util e
unico de realisar importantes vantagens para esta possessão, e para as
regiões do Transvaal; seguir-se-hia n'essa senda de confraternisação e
solida alliança com uma grande potencia, uma outra convenção
internacional para nos assegurar a posse das regiões do Congo e Zaire,
pondo-as ao abrigo das tentativas que franca ou insidiosamente empregam
outras nações que porfiadamente pretendem ter quinhão ou exercer
influencia na Africa, e por isso querem contraminar o nosso dominio, ou
disputar os nossos direitos, mediante influencias adversas aos nossos
interesses. Seria esta a realisação de um grande desideratum, tendente
não só a evitar conflictos originados pela má definição e demarcação de
nossos direitos, mas era além d'isso um grande passo politico, que
consolidando a nossa alliança com a Inglaterra por uma cordeal
cooperação, vinha dar-nos uma poderosa garantia em favor do nosso
dominio ultramarino; e da nossa independencia como nação, removendo
muitos perigos a que hoje estão sujeitas aquellas nações, que primam
mais pelo direito do que pela força.
Quando assim, com esta mira, com esta harmonia de interesses, e com
aquelle proposito sincero de leal cooperação, nos achassemos solidamente
possuidores de um incontestado e immenso dominio colonial, teriamos dado
não só material e economicamente, mas tambem moral e politicamente um
grande passo no caminho do nosso engrandecimento, e na consolidação da
nossa entidade politica como nação, independente, livre, digna e forte.
Poderiamos até aspirar a outros vôos mais altos, que levassem mais longe
o nosso prestigio tão abatido, habilitando-nos a tomar um logar mais
distincto entre as nações civilisadas, e mais saliente no convivio
d'estas.
Assim deixaria Portugal de estar quasi á mercê das apreciações
suggeridas pela ignorancia, que a seu respeito affectam os extranhos,
devida ésta ao abatimento em que as colonias tem permanecido, mais como
documento de incuria e impotencia, do que garantia e elemento de tão
auspiciosos resultados. Mas se alguma cousa justifica tal juizo dos
extranhos, é a errada maneira como a opinião se fórma, e a fraqueza com
que a ella assim errada se subordinam as praticas.
O mallogro do tratado de Lourenço Marques não significará só uma perda
actual, porquanto tudo permanece como d'antes com relação a este
questionado ponto. Nada se ganha, nem se perde com relação ao passado e
ao presente. Ficamos com o diamante bruto como está, e mal seguro. Mas
será uma grande perda com relação ao futuro, e proximo, porque lá se vae
a melhor occasião de se possuir o valioso diamante, mas lapidado e bem
engastoado.
Satisfez-se á opinião popular? É quanto basta!
A corôa de Portugal continuará a ter no seu diadema aquella pedra, mas
sem brilho e em risco de se perder por mal segura, quando aliás poderia
tornal-a uma joia de grande valía e fulgor, bem guardada e garantida,
ella e as restantes, contra quem lhes lançasse vistas cubiçosas!
Se um tal mallogro podesse affectar sómente os que d'elle são culpados,
seria caso de se dizer, soffra as consequencias da culpa, quem foi
delinquente. Infelizmente porém, soffrem não só os culpados, mas tambem
os que não commetteram culpa, mas a denunciaram, e a deploraram, sem
poder impedil-a.
Portugal tem sido um paiz das occasiões perdidas. Ésta terá sido uma
d'ellas, e das mais funestas.