O bello ideal, esse sentimento que faz com que muitas vezes o nosso
espirito se assemelhe a uma bussola moral, que percorre um horisonte
cujos rumos são os vôos da nossa phantazia; esse bello ideal que em
muitos casos é como um sonho passageiro que a reflexão bem depressa
dissipa, tambem algumas vezes nos sorri á idéa com a perspectiva de o
ver tornado em realidade.
O bello ideal que mais caro se apresenta a quem tenha coração que pulse
com amor patrio, será decerto aquelle que permitte phantasiar o
engrandecimento do seu paiz, seu bem estar, e seu renome.
Entre os elementos conducentes a conseguir tal resultado, estaria
decerto uma sã e perspicaz politica, que levasse Portugal a firmar em
bases solidas a sua independencia, seu progresso material e moral, e a
sua posição digna, elevada e considerada entre as nações civilisadas.
A perspectiva d'estas aspirações, será pois um vôo de imaginação de
breve duração e desengano certo, ou poderá ter visos de se tornar um
pensamento persistente e uma feição susceptivel de realidade?
A decisão pertence ao futuro; mas para que possa ser favoravel, ella
dependeria da maneira de proceder no presente. Depende d'aquella sã e
perspicaz politica que tivesse vontade, força e coragem, na tentativa de
chegar a tão grandioso resultado.
Lancemos um olhar sobre o mappa do Mundo, e folheemos a historia do
passado; e depois meditemos um pouco nos commetimentos de outras eras, e
nas tendencias e praticas da epocha presente; e com estes elementos
proponhamos-nos a evocar as eventualidades do futuro.
Era limitada a area do Mundo conhecida na antiguidade. Abrangia ella na
velha Europa o grande tracto desde as regiões Boreaes até ao Atlantico:
na Asia as vastidões que desde a Scythia vão até á India Trasgangetica
para o Oriente, e até á Arabia pelo Occidente: e na Africa o vetusto
Egypto, e seguindo a orla septentrional d'este continente, a Lybia,
Numidia até á Mauritania, banhadas em seus littoraes pelo _mare
internum_, ou Mediterraneo, até findar nas columnas de Hercules.
A historia, á sua parte, durante milhares de annos, desde os tempos
heroicos da Grecia, desde as nacionalidades mais remotas, Egypcias,
Chaldéas, e Assyrias, deixa-nos ver as emigrações dos primeiros povos, a
vida das gerações que se succedem, as navegações dos Phenicios, a
grandeza de Carthago, a vastidão do poderio Romano, as invasões dos
Barbaros, a destruição d'aquelle imperio collossal, a formação de novas
nacionalidades, as invasões dos Sarracenos da Asia sobre os vandalos da
Africa, e depois d'alli sobre a Europa, e mais tarde as cruzadas
seguindo do Occidente sobre o Oriente. É certo todavia que essas
grandiosas luctas de antagonismo, esses aturados conflictos, onde se
debatiam os elementos constitutivos e as aspirações successivas da
humanidade, tinham por ambito geographico aquella limitada porção do
Mundo, cujo centro de actividade, cujo campo de seus mais notaveis
feitos, por assim dizer, era aquelle mar, que por sua situação bem lhe
cabia o nome que os geographos lhe deram, de Mediterraneo.
Mas ao findar da edade media, ha apenas pouco mais de tres e meio
seculos, a geographia veiu alargar os horisontes do Mundo. Novos
continentes, novas regiões, novos mares e archipelagos se revellaram, e
ainda antes que um seculo decorresse, já o Mundo conhecido dobrava em
extensão, o que por tantos seculos constituira a theatro dos feitos
humanos.
Se n'aquella limitada área do antigo Mundo é que se agitavam as questões
vitaes para a humanidade, e que se decidiam pelo poder da força e pelo
enthusiasmo das crenças, as questões e luctas em que ora o Norte
assoberbava o Meio Dia, ora o Oriente invadia o Occidente, ora se
trocavam as invasões em sentido inverso, tambem por outro lado é digno
de attenção o notavel e importante papel que n'estes dramas da
humanidade coube áquelle mar o Mediterraneo, cujas agoas banhavam
littoraes das tres partes do Mundo conhecido: Europa, Asia e Africa.
Mas a obra dos seculos passou por successivas transformações. Iniciada a
epoca dos descobrimentos, e alargados os horisontes da geographia,
abriu-se o caminho que devia levar ás regiões até ha pouco ignoradas, a
nova civilisação, a que o renascimento das artes, e das sciencias havia
de dar impulso. Hoje o mappa do Mundo assim desdobrado, deixa-nos ver
uma transformação completa no sentido não só geographico, mas tambem na
sua divisão politica, ao passo que a historia nos diz até onde foi a
revolução operada no modo de ser social da humanidade.
Comparem-se os mappas que nos fornecem a antiga e moderna geographia.
D'ahi poderemos ver, como essa obra dos seculos, ao passo que mudava a
face do Mundo novo, deixava que parte do antigo permanecesse quasi nas
condições primitivas, ou quasi que esquecida e desattendida pelos
obreiros da civilisação e do progresso.
As margens d'aquelle mar interno, no littoral d'aquella antiga Africa
que o Mediterraneo banha, passaram quasi que incolumes na grande
transformação que o Mundo experimentou desde uma dezena de seculos. E
todavia foi ahi, n'essa zona do globo terraqueo, que mais se disputaram
os pleitos em que a humanidade andou por tanto tempo empenhada.
Sem remontar ás guerras Punicas, quando Carthago e Roma disputavam a
supremacia do mar e o dominio da Sicilia; quando a posse de Sagunto
contestada, levava Annibal á Espanha e d'alli a passar os Alpes e a
bater ás portas de Roma; ou quando Scipião passava á Numidia e ia
destruir os muros de Carthago; sem ir buscar exemplos dessas insistentes
luctas no norte da Africa ás expedições de Belisario ou ás sangrentas
invasões dos mahometanos sobre as Espanhas, só detidos quando achavam
nas Gallias a barreira que lhes oppunham as hostes de Carlos Martel; sem
ir tão longe emfim, basta partirmos de epocas mais recentes, para ver
como aquellas antigas regiões ao Septentrião do Saharah, constituiram o
objecto e o alvo de renhidas luctas, e de aturados esforços em que se
acharam empenhadas as nações do velho continente.
Figura já na edade media o Mediterraneo e o seu littoral, nas tentativas
do Soldão do Egypto contra a christandade; na ultima cruzada capitaneada
por S. Luiz, o IX de França, e já no seculo XVI na expedição do
Imperador Carlos V contra Tunis, sendo auxiliado n'essa empreza por
Portugal, um de cujos galeões foi o que com seu talhamar de aço cortou a
grossa cadeia que fechava o porto de Goleta. Figura o Mediterraneo e o
littoral Africano, nos reiterados ataques que as potencias maritimas
dirigiam e sustentavam contra o Estado de Argel, valhacouto de piratas,
ataques que por vezes representaram grandes expedições, e formidaveis
bombardeamentos.
Figura ainda e notavelmente na expugnação de Ceuta emprehendida e
effectuada por Portugal na cavalheirosa epoca de D. João I e de seus
heroicos filhos. Foi este o ponto de partida, o signal de execução, o
toque de avançar, que teve por complemento aquella grandiosa obra que
dotou o Mundo com o dobro da sua superficie conhecida.
Sagres, d'onde sahiram as primeiras expedições de navegadores, e Ceuta,
onde provaram seu exforço os denodados guerreiros que iam com suas
lanças abrir as portas do Mundo desconhecido, são dous pontos ligados
por uma idéa. Essa idéa é a base onde assenta aquella prodigiosa epopéa
que já foi uma realidade; idéa que já teve um periodo de desempenho, e
que soffreu interrupção. Essa idéa é tambem a que póde alimentar nas
suas variadas concepções e consequencias, as aspirações que constituem o
bello ideal, com que o futuro nos poderia sorrir!
E porque?
Em quanto que pelas regiões transatlanticas ou sul equatoriaes, onde ha
quasi quatro seculos tudo era ignoto, já o progresso da humanidade
implantou suas leis e suas praticas; ainda ás portas da velha Europa em
frente das nações civilisadas do antigo continente; adjacente a esse mar
que banha seus littoraes n'aquella orla septemptrional da Africa,
contemplavam-se ha pouco, e ainda hoje em parte se contemplam Estados,
cuja condição politica e social, cujas leis e cujo fanatismo fatalista,
formam a antithese mais completa, entre a civilisação e a barbarie.
Já era decorrido um quartel do seculo XIX e ainda a margem africana do
Mediterraneo jazia sujeita em toda a sua amplitude, aos sectarios de um
obscurantismo invencivel, e de um fanatismo intransigente com a nova lei
das nações; e as regencias barbarescas de Tripoli, Tunis, Argel, e o
imperio Marroquino, constituiam em seu conjuncto, a vergonha dos Estados
cultos, desde que estes toleravam que aquelle mar, que fôra desde outras
eras o centro das relações entre povos maritimos, ainda se conservasse
como sendo o campo de depredações systematicas, área da mais authorisada
ou tolerada pirateria, flagello da navegação pacifica, e objecto
constante de fadigosa lide para a vigilancia e para a acção repressiva
das potencias maritimas e fronteiras d'aquem mar.
Ao findar do primeiro quartel do corrente seculo, quando já não se
offereciam novas regiões do Mundo para descobrir, e poucas por explorar;
quando já o novo hemispherio dava largo campo para n'elle implantar a
civilisação, via-se ainda a dous dias da Europa, como era possivel
tolerar a existencia de taes Estados, vivendo da pilhagem, e da exacção,
e subsistindo nas mesmas condições como quando ha tres seculos Carlos V
lhes fôra inflingir castigo, e D. Sebastião de Portugal se ia aventurar
á mallograda mas grandiosa tentativa de dilatar para além mar, a
conquista e o dominio já realisado e só interrompido, dos Algarbes
d'aquem mar.
Ao ultimo rei de França do ramo directo de Bourbon, estava reservada a
empreza de começar essa liquidação de contas. O Argel submettido á
França por conquista, foi o primeiro passo na realisação da obra de
limpar o Mediterraneo d'aquelles fautores do latrocinio barbaresco.
Tunis, a herdeira geographica da antiga Carthago, está hoje com
apparencia de seguir a mesma sorte que Argel, ou de a imitar nas
consequencias.
Tripoli será depois, ou o pomo de discordia entre as nações do
Mediterraneo que se disputam alli a supremacia de sua influencia; ou
será quinhão que venha servir de compensação para a Italia, já que a
França se antecipou sobre Tunis.
O que se passa n'aquelle mar, em tudo leva á apparencia de que as nações
maritimas cujas aguas por elle são banhadas, veem o seu futuro prestigio
dependente de alli terem dominio ou influencia, como nos tempos de Roma
e Carthago. Mas tambem se deixa perceber que a influencia da acção
politica Europea de onde quer que ella venha, ou quaesquer que sejam os
interesses que alli a chamem, é o meio conducente a modificar a feição
moral e a estagnação material de que tem sido causa o impassivel
fanatismo mahometano.
Como ultimo dos Estados em que o dominio da raça Agarena ainda se
perpetúa, résta Marrocos, esse imperio da Mauritania Tingitina, que deu
aos Sarracenos ingresso na Peninsula, e que mais tarde foi d'elles o
refugio, quando ao baquear do califado de Cordova e do reino de Granada
elles foram de todo expulsos da Europa para as plagas d'além mar; e onde
ainda assim por mais de uma vez Portugal conseguiu pôr pé, e dar
sequencia á conquista sobre seu sólo. E conquista éra ésta, que não
tinha o mar por limite, mas o tivera como motivo de lhe retardar o
proseguimento.
Em vista das lições da historia, e das evoluções da politica, ninguem
póde hoje duvidar, que um imperio nas condições de Marrocos, esteja
destinado a ter contados os dias que hão de conduzil-o a um
desmoronamento. Alli rége uma administração a mais despotica e brutal;
as leis são a vontade do Sultão; as finanças são as extorsões
tributarias e o absurdo fiscal; a justiça é o bastão dos alguazis,
movido ao capricho dos Pachás e dos Caíds; o estado moral é a ignorancia
a mais rude, de mão dada com o fanatismo mais intransigente. Em toda a
extensão do seu fecundo sólo, não existe aberta nem uma unica estrada
rodada, nem uma pósta, nem uma obra d'arte. Inutil é fallar em telegrafo
ou locomotiva. Pressões externas e continuas agitações internas, umas
provindas de desforços dos extranhos, e outras devidas á intermitente
anarchia, e ás periodicas correrias das tribus kabylas, alli perpetuam a
desordem, a instabilidade dos fracos elementos de vida social, e
promovem as fómes, a miseria e as epidemias.
É assim que aquelle Imperio, que olha para a Europa pelo horisonte dos
dois mares, Mediterraneo e Atlantico, pelo seu estado politico, social e
economico, justifica plenamente as previsões que ainda ha pouco
consignava uma Revista Militar Espanhola, isto é, «que com seu systema
de governo vexatorio e repugnante ás leis da humanidade, elle vive
sómente pela apathia das nações civilisadas; porém a gangrena que o
devora pouco a pouco, é tão alarmante que ameaça exterminal-o.»
Todos quantos conhecem das cousas intimas do imperio Marroquino,
consideram como um axioma aquella previsão fatal, que para os menos
conhecedores do seu estado, pareceria uma mera opinião pessimista.
N'essa previsão de uma tal eventualidade, disputam alli á porfia as
nações do Mediterraneo, a manutenção de uma influencia e prestigio, para
que lhes possa melhor aproveitar quando chegar a hora do _dies magna_.
A Espanha fronteira, senhora de Melilla e de Ceuta, ainda não ha muitos
annos fez alli ensaio da sua pujança militar, ostentando n'uma guerra a
força do seu poder, e revelando as vistas da sua politica previdente.
A França, senhora de Argel, e confinante nas suas fronteiras,
interessa-se como tal, em manter aquella preponderancia que sempre
resulta, quando os aggravos recebidos nos conflictos de má visinhança,
são liquidados por um processo, como em Isly ou Mogador, quando seus
canhões, em terra ou no mar, impozeram aquelle respeito que leva á
submissão.
A Inglaterra, que no Mediterraneo possue dominios taes como, Gibraltar
guardando-lhe a porta, Malta e Chypre como postos avançados, tem n'essas
outras tantas _Gáres_ do seu caminho aquatico, seguros os vinculos que
lhe garantem a influencia no Egypto. Não carece de dominar em Marrocos
quem abandonou Tanger; mas a grande potencia do mar, não póde
descurar-se de que a influencia de outras não seja alli contrabalançada
pela sua propria.
A Allemanha, potencia continental, mas avida e solicita em não descurar
sua ostentação, tambem tornou alli saliente a sua nova vitalidade,
correspondendo com uma representação diplomatica permanente, á embaixada
que recebeu em sua côrte.
A Italia, tambem não se descura de por este meio, dar alli amostra da
sua solicitude como nação do Mediterraneo. E é assim que todas as
potencias européas, ou como ciosas do seu prestigio, ou por vigiar seus
interesses presentes ou futuros, mantêem suas legações permanentes,
estabelecidas na cidade maritima de Tanger, que assente graciosa e
alvejante nas faldas septentrionaes da cordilheira do Atlas, banhadas
pelas aguas do Estreito, parece ser como a guarita onde estão postadas
as vedêtas européas, que á porfia entre si combinam a vigilancia, ou até
certo ponto disputam a tutella, sobre aquella região, d'onde á mourama
ainda é permittido contemplar de longe as costas da Europa, povoadas de
espaço em espaço pelas torres em ruinas, que recordam as epocas em que o
crescente dominava onde hoje se ergue a cruz!
Quem da bahia que dá ingresso á cidade mourisca, estender um olhar por
sobre o alvejante montão de casas que pelas encostas vão apinhadas desde
a porta do mar ao alto do castello El-Kasbah, verá fluctuar em varios
pontos, sobre edificios mais salientes, as bandeiras das differentes
nações que alli mantêem seus representantes, tornando assim Tanger,
cidade diante da qual se unem os dois mares, como sendo o latego
politico das relações diplomaticas entre a Europa e o imperio de
Marrocos.
Por entre aquellas divisas das nações que alli policiam e espreitam os
paroxismos sociaes dos ultimos restos da velha Mauritania, tambem lá se
descobre a bandeira de Portugal.
E onde ha tradições historicas de tão subido valor como as que recordam
as proezas do immortal infante D. Henrique, e a heroica abnegação do
Santo Infante D. Fernando, haveria incentivo para que a patria de taes
heroes, não descurasse quaesquer elementos conducentes a manter alli seu
renome a par de outras que menos fizeram pelo passado, mas que mais
ambicionam no presente. E todavia é para lamentar que ainda hoje a
cathegoria official do representante de Portugal, esteja inferior á que
alli mantêem os que representam aquell'outros paizes, que não tem mais
motivos do que o nosso, nem nos titulos que possuem nem nas razões que o
aconselham, para ter bem accentuado e definido o alcance politico e
diplomatico da sua missão. Suppre em parte a esta lacuna, a este
esquecimento de nossas conveniencias e interesses n'aquelle imperio, a
consideração pessoal e o merecido conceito de que alli goza entre
nacionaes e estranhos, o chefe da antiga familia Colaço, familia na qual
se tem perpetuado de ha muitos annos aquelle cargo, e em cujo
desempenho, o patriotico zelo e a influencia individual do
representante, é um penhor que por si garante as considerações e
vantagens do representado. Bem conceituada portanto lá se arvora a nossa
bandeira, como de nação, que tendo já posto de parte os velhos
ressentimentos, alli se apresenta e concorre, como mantendo um benevolo
trato de amisade e reciproca estima.
Um facto occorrido ha menos de um anno, confirma ésta verdade; pois
quando em setembro de 1880 alli aportou o actual representante de
Portugal, a bordo de um navio de guerra, quando recolhia a seu posto
depois de alguns mezes de ausencia, as honrarias com que foi
oficialmente recebido foram tão distinctas e ruidosas, que bem
demonstraram o quanto deve á influencia pessoal e local d'aquelle
funccionario, o prestigio e bom nome que Portugal ainda alli conserva.
Ha impressões moraes que não escapam até áquelles cujo viver é quasi
subordinado ao regimen brutal da força que lhes atrophia o espirito.
Conhecem os mouros marroquinos que se nós fomos os primeiros em ir
n'outras epocas combatel-os no seu ninho africano, a isso fomos com
titulos mais legitimos e mais justificados, do que outros que mais pelo
adiante e até em nossos dias os tem ido molestar, ás vezes mais por
pretextos de prepotencia frivola, do que por justo desaggravo de
offensas.
Entre populações faceis de impressionar pelo apparato material das
cousas, convêm não faltar ás praticas que tendem a dar força moral
aproveitando aquelle meio.
Mas, estando as costas Marroquinas do Oceano, a menos de dois dias de
distancia das nossas, dezenas de annos são decorridos sem que um nosso
vaso de guerra, em missão pacifica, mas ostentosa e imponente, percorra
de tempo a tempo aquelles tantos portos onde outr'ora abordámos em tom
guerreiro. Valeria bem, que para exaltar alli o nosso prestigio entre os
naturaes, e simultaneamente animar os nossos brios nacionaes, a bandeira
das Quinas alli comparecesse, e permittisse aos nossos marinheiros
contemplar aquellas muralhas de tantas praças maritimas, onde ainda
estão salientes as armas de Portugal, e que recordam o valor portuguez,
que alli se amestrou para poder cumprir os grandes feitos no remoto
Oriente.
Os velhos ressentimentos e antagonismos extinguiram-se de ha muito,
cedendo o logar ás relações pacificas.
Já no seculo passado, reinando D. José I, a embaixada que em 1773 foi
enviada a Marrocos assentar pazes, recebeu alli demonstrações de
deferencia, e honrarias, que a outras nações não eram concedidas.
Mantidas essas relações durante o seguinte reinado de D. Maria I, ainda
ellas se perpetuaram regendo el-rei D. João VI a ponto que, querendo a
côrte de Vienna pôr termo ás desavenças que entre ella e o imperio
Marroquino se suscitaram, recorreu aquella ao governo Portuguez, como
medianeiro para as compor amigavelmente.
As relações pacificas e o trato commercial entre Portugal e Marrocos
nunca mais foram alterados. Não será pois a Portugal que convenha ou
pertença o rompel-as prepotentemente. Mas o que não deve esquecer, nem
perder-se de vista, é a idêa, de que quando o destino d'aquelle Estado
tiver de obedecer a outras influencias que hajam de promover o seu
desmembramento, existe um conjuncto de circumstancias politicas que
constituem outras tantas disposições aproveitaveis, para que sem ser a
causa directa d'essa versão, não seja indifferente aos seus resultados.
Quem já foi adiante de outros e não quizer ficar atraz d'elles, deve
pelo menos ir a par.
A epoca das conquistas, tomando por pretexto unico o antagonismo de
crenças ou o ressentimento de armas, é já passada. Hoje estão em campo
na politica outras luctas de interesses e de preponderancia. Vae
decorrido o tempo em que a guerra se considerava mais um fim do que um
meio. Estamos porém vendo adoptar uma politica nova, que como meio
conducente a seus fins, acceita os factos e d'elles faz regra de direito
pela medida da conveniencia, e entre essas regras, vemos entrar como
admittido o systema de fazer partilha da presa.
Quando os presentimentos que ácerca do destino de Marrocos se vão
fundando não só em supposições, mas em probabilidades que se hajam de
realisar; quando houvesse de soar a hora da partilha como resultado de
uma expropriação inevitavel, ao menos que ella seja effectuada de modo
que a equidade não tenha a queixar-se da justiça.
E Portugal sob o ponto de vista historico, geographico e politico,
deveria e poderia preparar-se para estar no caso de aspirar á
competencia a que seus titulos possam dar-lhe direito.
A historia o ensina, a geographia o indica, a boa politica o aconselha.
A historia, porque fomos os primeiros que alli assentámos dominio como
alargamento do nosso territorio, e como um serviço então prestado á
humanidade pelos resultados que d'ahi advieram. Ceuta é o padrão que diz
tudo d'essa gloria passada.
A geografia o indica, porque as columnas de Hercules, onde o
Mediterraneo termina e o Atlantico começa, marcam e dividem o limite até
onde as nações fronteiras d'aquem mar, teriam razões para disputar
preferencia e competencia; e lá estão Arzila, Larache, Azamôr e Çafi,
todas no Atlantico e ao nascente do Spartel, mostrando ainda em seus
derrocados baluartes, que aquelle era territorio de Portugal!
A politica o aconselha, não só porque a geografia o indica, mas tambem
por isso que, se as questões de supremacia entre as nações do
Mediterraneo, podessem dar a estas competencia para promover um
desenlace que trouxesse o _delenda Mauritania_, como ha vinte seculos
ellas sentencearam o _delenda Carthago_, outro elemento de politica
internacional e de preponderancia de nações, não toleraria facilmente
que o engrandecimento de alguma d'aquellas se estendesse sobre o
Atlantico, dando logar á formação de um vasto dominio que traria a
reproducção e os perigos do _summum jus, summa injuria_.
A Inglaterra, que no Mediterraneo tem seus postos de vigilancia, não
poderia ver com bons olhos, que a sua preponderancia maritima e
continental houvesse de ser contrabalançada por uma tal dilatação de
imperio que fizesse de qualquer nação um potentado, e que assim
justificasse seus ciumes e suas rivalidades. Mas haveria uma versão que
as poderia evitar; um desenlace, que neutralisaria aquelle
desequilibrio; uma partilha que não encontraria taes perigos. Essa
versão seria, a que restituisse a Portugal o que já fôra seu por
conquista de armas sobre inimigos, mas que n'estas condições seria
restituição pelo pacifico assentimento de amigos, e pela cooperação nas
conquistas da influencia Europea na Africa, contribuindo para o
progresso e bem estar da humanidade.
É certo que em todas as concepções especulativas, quer grandiosas quer
cómesinhas, ha pontos de partida, escalas no caminho e rumos obrigados,
e a que é indispensavel attender para a segurança da derrota.
O ponto de partida, n'este caso seria a observancia de uma conducta em
_politica internacional_ franca, sensata, solicita e previdente, e por
modo que os planos concebidos com largas vistas e meditados com
discernimento, não houvessem de ficar á mercê dos estorvos, dos
comprometimentos e dos perigos, provenientes dos desvarios da opinião
que se diz publica só por ser gritada em publico; e ainda menos expostos
ás consequencias das volubilidades dos que tibiamente transigem com
ella; não porque ella lhes mereça conceito, mas a troco de outros
interesses que mais podem servir ás exigencias partidarias do que á
vantagem do paiz.
Como ponto obrigado para se chegar a bom termo n'este caminho, seria
condição indispensavel o firmar a nossa situação _politica
internacional_ em bases solidas, por um accordo mutuamente sincero, e
uma leal cooperação com a potencia maritima e colonial, a Grã-Bretanha,
que por muitos compromissos de longa data, por analogia de interesses
nos respectivos dominios ultramarinos, e pelas relações intimas não só
politicas mas commerciaes, é aquella com cuja alliança poderemos melhor
manter incolumes, não só aquelles dominios e promover o desenvolvimento
de seus recursos, mas tambem assegurar efficazmente a posse d'elles, e
ter garantida a nossa independencia, isto a par de uma posição digna,
desassombrada, e considerada na communidade politica Europea.
Se procedermos differentemente, se nos desviarmos d'este rumo na nossa
derrota, se fugirmos de antigas allianças, se ficarmos sós, sem amigos,
ou buscando outros de fresca data, não sómente perderemos qualquer
contingencia de elevar o nosso conceito como nação considerada, mas até
poderemos incorrer no perigo de ficar um dia abandonados, desde que por
nosso procedimento dermos causa a que todos nos olhem, não com simpathia
ou interesse, mas com indifferença ou despeito.
Para attingir a uma tal posição assim desassombradamente firme e
definida, é essencial que a maneira de conduzir as praticas da politica
externa, seja tal que as duvidas, as hesitações, a lentidão, as erradas
apreciações, a subserviencia a estas, e todas as inconveniencias
resultantes d'esta acção combinada de ruins elementos, não hajam de
offuscar os bons creditos de que uma nação não póde prescindir: n'uma
palavra, é essencial que não demos exemplos analogos aos que entre nós
se tem dado... na questão do tratado de Lourenço Marques.
É mais digno, o confessar os erros, e emendal-os, de que insistir
n'elles e repetil-os.
Adoptando e seguindo uma politica nobre e elevada é que Portugal poderá
acertar no caminho a que o poderiam levar aspirações mais grandiosas,
como as que constituem o ideal acima indicado. É este como se viu um
ponto mui vago para exame; uma idéa d'onde pódem germinar mais amplos
concebimentos; um calculo politico que póde subordinar-se a muitas
probabilidades e eventualidades. Póde mesmo ser um sonho; mais do que
isso, um delirio de visionario. Mas se o festejado Calderon de la Barca
diz em seus versos sublimes, _la vida es sueño_, tambem ha sonhos que
sem serem delirios, podem ser justas aspirações de quem tem vida.
O bello ideal ahi fica assim consignado, não como imagem poetica, antes
como caso para meditação prosaica. Poderia ser, e poderá não ser! Mas,
na dependencia em que elle está de tantas eventualidades, ha um ponto
que se tornaria obrigado e imprescindivel, para não destruir de todo a
sua melhor perspectiva de ser. E esse é, ou antes, esse seria, o ter
sempre em lembrança, que o futuro bom ou mau, depende de que, todos os
partidos em que o nosso paiz possa estar dividido nos manejos da sua
politica interna, pactuassem entre si o seguirem um systema harmonico em
tudo quanto diz respeito á sua politica externa; e de modo a que sejam
sempre tratados com seriedade, discernimento, hombridade, e sem espirito
faccioso mas sómente patriotico, aquelles assumptos que dizem respeito
ás relações internacionaes; pois são elles os que em si involvem
consequencias muito mais transcendentes e de mais lato alcance, do que o
successo ou a fallencia de qualquer questão de politica local ou
partidaria.
Para este fim, com este nobre e elevado intuito, seria mister adoptar e
respeitar uma divisa commum, qual é que acima dos individuos e dos
partidos, está o bem da Patria e da Humanidade; e acima de Patria e
Humanidade, só Deus.