VII

Quando se considera nos resultados a que póde dar causa o olvido de

todas as conveniencias, que qualquer entidade, e mormente uma nação,

deve saber guardar em sua vantagem e em seu decoro; quando se analysa a

maneira desastrosa como em seus procedimentos se houveram os adversarios

do tratado de Lourenço Marques entre Portugal e Gran-Bretanha, destinado

a regular as relações entre as suas possessões na Africa Austral

antepondo-se a este grande conseguimento, o attender de preferencia a

receios fingidos ou banáes, ou ao mero interesse de politica partidaria,

confundindo todos os elementos de hombridade em homenagem a vantagens

eventuaes de partidos e não do Paiz; quando se contempla a exaltação dos

animos, a aberração do bom senso, as vociferações atrabiliarias e as

diatribes violentas que d'ahi se suscitaram em prejuizo da ordem

interna, e em tom desdenhoso e insultante para com uma nação alliada e

poderosa, que prestára sua annuencia a entrar de mão dada e não aos

repellões, n'uma senda larga e franca para uma confraternisação e

garantia reciproca na politica intercolonial, chega-se quasi a lamentar

que a arbitragem do Marechal Mac Mahon fosse tal, que não tivesse

cortado o mal pela raiz, tirando-nos da mão aquillo que por estar em

nossa mão, havia de passar a ser um fóco de discordia, e transformar-se

mais em elemento ruinoso do que proveitoso. Seria caso de dizer _ha

bens que vem para mal!_ É verdade que se a arbitragem nos fosse

desfavoravel, perderiamos o que podia vir a ser de grande

aproveitamento; mas tambem é certo que teriamos evitado males maiores,

por isso que melhor é perder um diamante bruto e que nada rende, do que

possuil o por lapidar, mas sujeito a fazer-nos soffrer maiores prejuizos

e causar-nos mais sobresaltos do que o seu valor compensaria.

Lourenço Marques, sem o caminho de ferro para o Transvaal, e sem a

garantia da pósse que o salve das pretenções dos Boers, ou permanecerá

como está hoje, sem importancia, ou ficará sempre arriscado a ser por

elles disputado.

Melhor seria não o possuir, do que mantel-o nas condições como até ao

presente, mas isto a troco de uma situação desfavoravel perante aquella

potencia á qual nos liga uma antiga alliança, constituindo para a nossa

independencia uma garantia da qual nunca deveriamos prescindir, e que

não se póde facilmente substituir appellando para aquella federação

Iberica que nos é apontada como um salvaterio, pelo partido que teme

menos o leão de Castella do que o leopardo Britannico. A esse partido e

ás suas aspirações politicas poderá convir a substituição. Mas, poderá

esta plausivelmente ser preterida por quem vê na monarchia e nos seus

sustentaculos internos e externos, um penhor mais seguro para a nossa

independencia como nação? Não. O verdadeiro patriotismo não está em

segregar um Estado de outros, de cujo convivio póde resultar a

manutenção de suas instituições, em detrimento dos que aspiram a

derribal-as para as substituir por outras, só a titulo, mas sem

fundamento, do que aquellas são a causa de muitos males. Tambem o

patriotismo, não está nas declamações que o apregoam, afrontando os

amigos de hontem e de ha mais tempo, só para captar benevolencia dos

inimigos de hoje.

E traz-se para a discussão das praças, um tratado internacional, em cuja

celebração só entra a entidade da nação seja qual fôr a sua fórma

politica de governo, e faz-se d'ahi pretexto para recommendar a

republica como a sanação dos inconvenientes ou defeitos que

gratuitamente se lhe assacam?

Insulta-se em prosa e em verso a monarchia, aponta-se para a republica

como um bello ideal; mas os que aspiram a esta versão nem ao menos se

lembram de que onde a republica existe tão festejada, passam-se as

cousas de modo, que quem recorre a analogos expedientes de affrontrar

quem não merece affronta, soffre as consequencias d'essa ousadia;

ousadia que alias se torna em tibieza, quando é praticada contando com

aquella impunidade que encontra, onde vigoram as instituições por elles

condemnadas.

Em 26 de março ultimo, um membro do governo da republica franceza,

respondia na camara a um deputado interpellante ácerca de processos

instaurados ao jornalismo «que o governo não podia tolerar uma linguagem

compromettedora para as relações internacionaes»: E a camara approvou. E

n'aquelle paiz tão invocado como modelo de liberdade, só por ser

republicano, foram multados fortemente varios jornaes, e condemnados e

postos em prisão sem fiança os responsaveis, por haverem commettido

aquillo que impunemente commettem sob o regimen monarchico que tanto

invectivam.

Ainda assim para taes queixas poderia aqui haver facil deferimento.

Bastaria para lhes fazer a vontade, sujeital-os á multa e á cadeia, como

sendo a maneira de gozar uma parte, já que não póde ser do todo, de suas

aspirações politicas!

N'estes certamens em que as conveniencias da politica partidaria se

pertendem antepôr áquellas que se devem guardar na politica

internacional, certamens que no caso presente levam a dirigir ultrages á

Inglaterra, e a menosprezar sua amisade, a troco de uma republica

federal com a Iberia, vae tão longe a cegueira, a ponto de que os ciumes

por Lourenço Marques, não deixam vêr os perigos a que sujeitam a patria

em sua nacionalidade. Antepõe-se um falso zêlo pela parte, ao amor do

todo. Vê-se a formiga e não se quer vêr o elephante!

N'um tal procedimento, e em tal maneira de raciocinar, chegam alguns a

impugnar o tratado com a Inglaterra, não porque possam mostrar a sua

ruindade, mas unicamente por um sentimento rancoroso, allegando razões

odientas, buscando recriminações passadas, e recorrendo aos logares

communs que sempre se apresentam á mão, aos que antepõe um odio cego, á

razão clara e mente serena.

Querem malquistar-nos com a potencia alliada de antiga data; que

economica e politicamente tem sido sempre a que mais relações comnosco

entretem, e que a historia, por muitos factos, confirma ter sido por

mais de uma vez a egide da nossa independencia! Verdades são estas que

não pódem ser destruidas só porque eventualmente, e no decurso de largos

periodos tenham sobrevindo atrictos nas suas relações comnosco, devidos

principalmente a causas transitorias e faceis de sobrevir, taes como

eram as difficuldades de conciliar interesses reciprocos na grande

questão de suppressão do trafico de escravos; conflictos em que se

descobria como causa principal e excepcional, não tanto uma tendencia

hostil da nação d'onde provinham, mas sim a politica sobranceira de uma

individualidade governativa, que á sua parte os promovia, não só contra

nós, mas tambem como systematicamente, contra outros Estados com cuja

politica não simpathisava.

E todavia, n'essa epoca, em que mais razão haveria para o nosso

ressentimento, não foi este tão longe e tão infundadamente como hoje,

pois até a camara dos deputados portuguezes votou uma mensagem de

pezames pelo fallecimento do personagem politico que individualmente

mais incitára aquelles elementos de aggravo!

A imparcialidade de quem então não approvava taes homenagens de

simpathia, é a mesma com que hoje se devem condemnar os excessos da

injuria extemporanea. Esta assim é injusta, e como tal perigosa. Querem

que Portugal fique sem allianças, deixando as antigas e já provadas,

para ir aventurar-se a outras, no continente europeu ou além do

Atlantico, tão faceis de imaginar como difficeis e incompativeis de

serem efficaz e valiosamente mantidas? Veja se qual é o estado da

politica da Europa, do Mundo, a facilidade com que se fazem e desfazem

allianças inverosimeis, como se amalgamam nações, como se derribam

monarchias, como se movem guerras por pretextos frivolos e só para dar

largas a ambições, e finalmente como a força decide, mais do que o

direito e a justiça! E diga se depois, se póde um paiz pequeno e sem

largos recursos, campear de sobranceiro, confiando unicamente no seu

direito, sem se importar com o conceito que d'elle formem os outros, e

assim queira arrostar impunemente contra as insidias ou violencias dos

que o olhem com indifferença ou com desdem?

A Espanha, que sob a fórma monarchica, homogenisa o que antigamente eram

Estados e hoje são suas provincias, apesar dos numerosos partidos

politicos que a dividem, tem para todos estes uma bandeira commum, como

os mahometanos tem no estandarte do propheta; é a união Iberica. A

Espanha é uma nação militar, um povo valente e aguerrido e a sua

alliança póde ser cobiçada e já o tem sido, e talvez ainda hoje o seja,

por alguma potencia em caso de guerra Europêa. Quem negoceia com a

propria força, fica-lhe em quinhão o dispôr tambem d'ella em seu

proveito. Todo o cuidado é pouco, e não basta para nos precavermos, o

ouvir as philarmonicas tocar o hymno da restauração, nem admirar os

discursos da sociedade 1.º de Dezembro.

Dão-se ás vezes factos que parecem insignificantes mas que podem ser

simptomas de outros menos insignificantes. Veja-se como na Allemanha se

dispensam attenções excepcionaes, se fazem recepções imponentes, se

embandeiram quarteis, se banqueteiam entre vivas e saudações cordiaes,

para honrar os delegados do exercito Espanhol que em seu caracter

militar e officialmente vão tomar parte na solemnidade matrimonial do

principe, futuro herdeiro da corôa imperial! Fique Portugal indifferente

a tudo; pense só nos Boers e em não desmamar Lourenço Marques, e verá

que poderoso alliado encontrará nos futuros possuidores do seu presidio

e bahia, quando tiver dispensado e affrontado a alliança da Inglaterra,

e prescindido de fazer tratados para regular as relações das suas

respectivas possessões! Nada d'isto. A ordem é a invectiva; chamam-lhe

orgulhosa, prepotente e ambiciosa, e n'isto se concentra, a isso se

reduz o que entre nós se denomina patriotismo; e a quem não segue nem

acompanha n'esta imprecação, desde logo se atira com o epitheto de

antipatriota!

Não ha outro argumento; não ha outra logica. Nada do tratado; não porque

Lourenço Marques nos aproveite sem elle, mas porque a Inglaterra é

prepotente! É por isso que o tratado é infame, e antipatrioticos todos

que o defendem, apesar de que bem poderiam applicar a si o _bene est pro

patria mori_. Será commoda, não exige grande esforço intellectual uma

tal maneira de discorrer. Mas quem d'ella se aproveita, é porque não tem

repugnancia de ficar em divorcio com a justiça, com o bom senso e com a

verdade.

Invectivar de prepotente a potencia que aceita a arbitragem

submettendo-se a ella e cumprindo lealmente a sua decisão, e largando de

mão o territorio disputado, é pelo menos tão extemporaneo e tão iniquo

como insinuar de traidor á patria, e de doador subserviente de uma

provincia, aquelle a cujos esforços se deveu a sua reivindicação.

Não cabe bem o epitheto de prepotente a quem, se quizesse usar da força,

não se curaria de respeitar o direito. Não é merecida a accusação, a

quem ao tratar do assumpto no campo das convenções, não lhe impõe o

cumprimento peremptorio, e pelo contrario atura a pachorrenta maneira, a

discordante opposição, e a insultante linguagem com que se retribue á

sua hombridade.

N'esta ordem de assumptos, nem sempre predomina a mesma feição. Ha quem

se engasgue hoje com um mosquito, tendo hontem tragado uma caravana de

camellos!

Passaram desapercebidos, ou olhados com frieza estoica alguns factos,

onde certamente se podiam ver maiores elementos e pretextos para dar

pasto ás exaltações do espirito e á indignação dos paladinos do pundonor

nacional. Ha exemplos e bastantes que assim o confirmam. Vejamos.

A politica intercolonial e internacional e o tratado de Lourenço Marques Additamento á influencia europea na Africa · 第 18 / 22 题