VI

Commetem-se ás vezes indiscrições, quando se deixa ao sentimentalismo o

que se não soube ou não quiz subordinar á rectidão e á justa apreciação

das cousas. Talvez a este motivo se possa attribuir uma feição

incidente, que embora revestida de toda a suavidade na sua forma

pathetica, veio como que deitar novo combustivel no fogacho que já

escandecia as iras dos impugnadores do tratado.

A sociedade de geographia de Lisboa, uma associação respeitavel por sua

missão scientifica, cujo fim é contribuir para o estudo, diffusão e

adiantamento dos conhecimentos geographicos, e dar toda a amplitude e

auxilio aos meios que para tão importante conseguimento podem depender

da direcção, conselho, e pratica dos homens de sciencia e de acção,

tomou a seu cargo manifestar-se a respeito do tratado de Lourenço

Marques, não tanto pelo que das disposições e resultados d'este podiam

provir de vantagem e de lustre para a sciencia geographica, ou para a

civilisação colonial, porém mais sob um aspecto que daria razão aos que,

illudindo se ácerca da missão propria d'aquelle gremio scientifico, o

denominassem Sociedade de _Geographia Politica_.

Manifestando n'uma sua representação aos poderes publicos o desejo de

que o tratado fosse addiado em vista da lucta empenhada no Transvaal,

apoz varios considerandos formulava as suas conclusões por esta forma:

«A sociedade espera que os poderes publicos portuguezes, mantendo _como

é de uso e de direito_ a mais escrupulosa neutralidade, _meditará_ na

conveniencia de addiar qualquer resolução definitiva ácerca do tratado

de Lourenço Marques.»

A consideração que merece uma associação tão distinta pelos seus

propositos e pela illustração de seus membros, não impede todavia, que

em vista da sã e verdadeira doutrina internacional ácerca da

neutralidade, haja quem avaliar possa aquellas suas aspirações como

menos bem cabidas, e de conveniencia _menos meditada_; já porque no caso

em questão não é _de uso_ nem _de direito_ nem sería _escrupulosa_ a

neutralidade, já porque dá lugar á supposição, de que um méro sentimento

de simpathia se antepoz á recta e imparcial apreciação das

circumstancias e á consideração das vantagens economicas e politicas,

cujas o tratado é o incentivo e o instrumento.

E ainda mais é para notar o escorregadio terreno em que se collocou,

desde que, passados dias e em homenagem a um delegado do comité dos

boers em Londres, recebido em sessão plena, foi feita solemne profissão

de voto em favor d'aquelles insurgentes, augurando-lhes victoria na sua

lucta, isto é, quiz-se moralmente dar alento a uma insurreição no

territorio de uma nação amiga, fazendo implicitamente votos contra a

authoridade soberana d'essa nação, unica reconhecida n'aquelle

territorio insurrecto.

Não é este um exemplo que sirva de lição ou norma, para quem desejar

manter a fiel observancia, não já da extemporaneamente recommendada

neutralidade _escrupulosa_, mas nem mesmo de uma opportuna

imparcialidade ou politica de abstenção.

Visto ser a simpathia pelos Boers a feição predominante nos

procedimentos indicados, justo é considerar até que ponto poderia ser

justificado um tal affecto, tão excepcional e como não fôra d'antes

professado a pró de outros povos quando trataram de reagir contra um

dominio mais oppressor e menos transigente do que aquelle contra o qual

elles agora se insurgiram e tomaram a offensiva.

O que são os Boers? São os descendentes d'aquelles Hollandezes que se

apoderaram do Cabo de Boa Esperança no seculo XVII, e que depois de

haver esta possessão passado ao dominio Inglez, já n'este seculo

emigraram para o Nordeste, desgostosos de um regimen que lhes restringia

a plena liberdade de pastagens, que igualava os direitos civis da

população, e que estabelecia leis repressivas do trafico de escravos.

Augmentou o seu odio contra aquelle dominio, a questão da emancipação

dos hottentotes em 1837 e a dos negros dois annos mais tarde. D'ahi

resultou a emigração dos Boers, uns para as margens do rio Orange,

outros para o territorio do Natal, d'onde depois passaram para além do

Vaal, e ahi se constituiram independentes desde 1852 proclamando um

governo sob a fórma republicana.

O estimulo á simpathia que elles nos merecem póde attribuir-se, ou ao

seu amor pela independencia, sentimento que se não condemna, ou aliás

pelos seus antecedentes para comnosco, ou pelas suas aspirações actuaes,

e pelas que tem em vista quanto ao seu futuro.

Pelo passado são elles descendentes, como se notou, dos que foram os

nossos maiores inimigos no Oriente, os hollandezes; pelo presente, são

os que teem declarado que Lourenço Marques hade ser d'elles, e que a

Africa desde o Zambeze até Simon's bay é sua e só d'elles, doutrina

sustentada nos seus jornaes, e proclamada pelos seus chefes,

analogamente á de Monroe na America, por isso que sustentam que a Africa

austral só póde pertencer aos _Africanders_, isto é, os indigenas

brancos, descendentes dos Europeus que primeiro a colonizaram. Lá está

Lourenço Marques arrolado no seu pretendido patrimonio, como um dominio

do qual não prescindirão.

E se essa mira de conquista não basta como um titulo de simpathia para

os actuaes zeladores de Lourenço Marques, ainda outros se podem

apresentar respectivos á primitiva origem d'aquelles pretendentes, e que

a historia nos fornece para lhes não dar grande direito á nossa

gratidão.

Pois para estimular este sentimento, annuncia de Paris o telegrapho, em

março ultimo o seguinte: «Foi publicada a mensagem das notabilidades

politicas e litterarias francezas em favor dos Boers. Diz que os Boers

são não sómente filhos da Hollanda, antiga alliada da França, mas

descendem dos protestantes francezes expulsos pelo edito de Nantes. Que

além da fraternidade de sangue, existe a fraternidade de pensamento.»

São pois os Boers, segundo o comité, os descendentes dos huguenotes, e

como taes os recommenda á simpathia das nações. Mas visto que a historia

é registro de factos, e estudo confrontativo da vida das gerações que se

succedem, vejamos que especie de argumento é aquelle. A historia que

julgue. Abram-se os _Annaes da Marinha Portugueza_ pelo vice-almirante

I. da Costa Quintella, obra publicada pela academia das sciencias em

1839. Alli se relata como em 1570, D. Luiz de Vasconcellos fôra nomeado

governador do Brazil, e saiu de Lisboa em 5 de junho com sete navios em

que levava muitas familias e sacerdotes que iam estabelecer-se n'aquelle

paiz. Chegando á altura da Madeira partiu adiante o navio _S. Thiago_,

cuja viagem descreve assim

«Depois de varios contrastes de tempo que o obrigou a perder alguns

dias, achou-se a 15 de julho defronte de Porto Palma, e á vista de cinco

navios de corsarios da Rochella, de que era chefe Jacques de Soria,

almirante da rainha de Navarra. Este com o seu navio grande, bem

guarnecido e artilhado, abordou o S. Thiago, cujo capitão e equipagem se

defenderam valorosamente, animados pelas exhortações do veneravel padre

Ignacio de Azevedo, da Companhia de Jesus, e dos seus quarenta

companheiros que iam para as missões do Brazil; mas como era tão

desigual a contenda, foi o navio entrado, e todos os religiosos _feitos

em pedaços ou arrojados vivos ao mar_; tanta era a raiva dos

huguenotes!»

Não pára aqui a narrativa de Quintella, que descreve como D. Luiz de

Vasconcellos depois de varias tentativas de emprehender a viagem e

soffrendo grandes contrariedades, arribou á Terceira, d'onde partiu em

setembro para o Brazil; e a esse respeito narra, que

«Chegando á altura de Canarias, foi atacado por quatro navios francezes

saidos da Rochella, cuja esquadra commandava João de Cadeville. D. Luiz

ainda que não duvidava do resultado de uma acção entre forças tão

desiguaes, determinou vender cara a sua vida. As abordagens de Cadeville

foram tres vezes rechaçadas, e mesmo depois de entrado o seu navio,

fizeram os Portuguezes desesperada resistencia. D. Luiz atravessado de

uma balla e com as pernas quebradas de outra, mas sem render-se, acabou

de uma lançada. Os franceses mataram na peleja, ou _deitaram ao mar dois

dias depois_, treze religiosos da Companhia, que iam de passagem para as

missões, como os outros companheiros do padre Azevedo.»

Ora visto que o comité de Paris, promotor das simpathias pelos

descendentes d'aquelles heroes, não esquecia de ir buscar questões de

intolerancia ou de fraternidade, ahi fica indicado um valioso titulo,

para o reconhecimento das nações; mas não dos que tiveram seus

compatriotas trucidados pelos antecessores dos que tanto se recommendam,

em nome de tão sanguinaria fraternidade de sangue!

Não valem de muito argumentos d'esta especie, e postos n'este terreno.

Vale porém alguma cousa não deixar correr á revelia a carta de

recommendação do comité de Paris.

A politica intercolonial e internacional e o tratado de Lourenço Marques Additamento á influencia europea na Africa · 第 17 / 22 题