IV

A importancia politica do tratado dito de Lourenço Marques reconhece-se

logo de um modo generico e independentemente de suas estipulações, desde

que se considerar que um tal acto só por si, constitue para as nações

contratantes, um documento da sua _independencia_ e da _liberdade_ que

lhes assiste para celebrar taes pactos, de onde lhes resulta a

confirmação de seus respectivos direitos de _igualdade_; vindo assim as

nações pequenas, quando tal praticam, a ficar politica e moralmente

equiparadas em seus direitos e regalias, ás nações mais poderosas; e por

tanto, bem longe de offender a dignidade e a independencia de um paiz,

vem antes exaltar este no conceito das demais nações.

Esta importancia politica do tratado de Lourenço Marques ainda se

encontra no facto de vir elle _ratificar e não alienar_ a posse de um

dominio de Portugal, n'um territorio d'antes contestado entre este paiz

e a Gran-Bretanha, assim como d'antes cubiçado sem cerimonia pelos

visinhos do Transvaal. É isto o que acontece, desde que a _concessão_ de

reciprocas vantagens e usufruições, tem no proprio sentido da palavra, a

prova de que se reconhece no consentidor, o direito de negar ou facultar

tal concessão. Mas quando não bastasse esta consideração para inferir a

importancia politica que elle tem, bastaria notar que um pacto d'esta

natureza entre Portugal e Inglaterra, é mais uma garantia de perpetuar e

conservar firme e efficaz uma alliança tão inveterada, e que quaesquer

que tenham sido os conflictos occasionaes que tenham occorrido

eventualmente nas relações dos dois paizes, e devidos a causas que hoje

não tem razão de se renovarem, é certo que tal alliança é uma das

garantias da nossa independencia, e um recurso constante para onde

appellar, quando possam surgir dificuldades nas evoluções da politica

européa.

Pelo lado economico, o tratado além de ser um meio de definir e estatuir

definitivamente muitas das relações reciprocas entre as duas nações

européas que mais extensos dominios e interesses possuem na Africa, é o

meio conducente a tornar proficua, pelo unico modo possivel, a posse de

Lourenço Marques, e a dar em resultado, que um ponto do globo hoje quasi

tão abandonado como na epoca do seu descobrimento, passe a ser um centro

de grande actividade commercial, e um dos meátos mais eficientes para a

grande obra da civilisação da Africa; obra não só de transcendente

alcance para o Mundo civilisado, como tambem de merito e de renome para

as nações que para ella contribuirem. E o renome de um paiz vale a par

de outras vantagens materiaes.

É realmente incomprehensivel como apezar d'isso, haja a audacia de

mentir aos factos, desfigurando-os, antepondo a falsidade á verdade;

audacia nos que assim mentem e enganam, simplicidade nos que tão

grosseiramente se deixam enganar.

O tratado de Lourenço Marques, se as suas clausulas fossem lidas pelos

que tão fallazmente d'elle se serviram como pretexto politico, não

poderia ser alcunhado como maliciosa e levianamente o foi, de cessão de

territorio, indignidade nacional, traição e venda! Accusações que para

serem tão ridiculas como ousadas, bastaria notar a indecente

contradição, de assacarem injuria a quem mais pugnára pela reivindicação

de Lourenço Marques! Mas, quantas contradições, quantas inconveniencias,

quantos erros nos deixa vêr, a subsequente maneira como foi explorado

este delicado assumpto!

Ainda ha poucos annos, olhava-se para Lourenço Marques como uma

possessão sem importancia, mas que no futuro a poderia adquirir, se se

abrisse uma estrada carreteira para o paiz dos boers. Tão pouca attenção

merecia aquella colonia, que quasi passou desapercebido e sem ser

festejado, o resultado da arbitragem que nos adjudicou a sua posse.

Depois, o tratado de 1875 com o Transvaal foi applaudido como deixando

antever a construcção de um caminho de ferro, cuja realisação passou a

ser a idéa mais bem acceite por todos. Veiu depois a annexação do

Transvaal aos dominios britannicos, e d'ahi as lamentações, não _pelo

facto_, mas _pela consequencia_ que seria o impedir aquelle desideratum,

desde que o tratado caducára. Celebrou se em seguida, o tratado com a

Gran-Bretanha tendente a levar a effeito o que tanto se appetecia, e

todas as iras e invectivas são poucas contra o tratado e seus

negociadores! O que era bom com os boers do Transvaal, tornou-se mau com

o governo de uma grande potencia que passára a ser dominante n'aquella

região, e cuja alliança e boas relações nos garantem interesses mais

vastos. É na verdade surprehendente! Fez-se alarmante questão da

concessão de passagem de tropas e munições em transito pelo caminho de

ferro, questão que para ser deslocada e infundada, bastaria lembrar que

nem um revolver que se deposite nos armazens, deixa de ser guardado por

uma sentinella portugueza; e por outra parte esquece-se que ainda ha

poucos annos desembarcou em Lourenço Marques artilharia, metralhadoras e

munições que o governo dos boers tinha comprado na Europa; e que tentou

debalde conduzir pelo territorio portuguez á força da tracção de bois,

vindo a perder por abandonado no caminho quasi todo esse material!

De sobejo está já demonstrada a inconsistencia e futilidade d'aquelle

melindre ácerca do transito, o qual sendo referido exclusivamente ao

caminho de ferro, ficaria este considerado como uma grande arteria de

trafico e communicação, como uma via neutralisada politicamente, mas

destinada economicamente aos mais prosperos resultados para uma nossa

possessão, que ahi teria o unico expediente pratico para se transformar

de uma aldeia de cafres (como dizia Bordallo) em um centro de

actividade, o mais importante da Africa austral. Equivaleria

materialmente a estabelecer condições do trafico tão facil e tão livre,

como se em logar de um caminho de ferro devido á arte, alli houvesse a

natureza collocado um grande rio como o Danubio ou o Amazonas. Seria

egualmente como se em vez de um rio de curso natural, se houvesse

cortado um canal maritimo como o de Suez, aberto a todas as nações, e

por onde navios de guerra e mercantes de todas as bandeiras transitam

com ou sem tropas de transporte. Nem por isso o Egypto receiou pela sua

independencia ou se considerou lesado na sua dignidade, desde que por

este meio, pôde vêr convertidas as margens limitrophes, de areáes que

eram e desertos, em terrenos cheios de vida. Os lagos Amargos e de

Timsah, d'antes imagem da natureza inerte, hoje dão accesso a novas e

buliçosas cidades como Ibraila e Port-Said! E sob quantos pontos de

vista se poderiam estabelecer a confrontação entre o canal de Suez em

seus immensos resultados, e os que adviriam do caminho de ferro, via

continental cujo Port Said seria Lourenço Marques, e cujo Suez e Mar

Vermelho seriam as hoje incommunicaveis regiões da Africa central! O

canal de Suez e o caminho de ferro de Lourenço Marques, differiriam

materialmente em serem via maritima ou continental; mas as condições de

soberania e independencia territorial seriam identicas e sem nada

soffrerem em ambos os casos.

Entre nós impugnou-se o tratado, recorrendo ás diffamações e invocando

razões de melindre e de ciume, só pela circumstancia de ser celebrado

com a Inglaterra, visto ser nação poderosa prepotente e cubiçosa!

allegações tão extemporaneas, tão futeis e tão gratuitas que só podem

ser explicadas por um sentimento de antipathia, de acrimonia e de

rancor, paixões estas que podem ás vezes actuar nas questões

individuaes, mas que tem altos inconvenientes no trato internacional.

E todavia é innegavel que taes sentimentos foram os que dominaram o

espirito d'aquelles, que nas suas declamações e nos seus exforços,

procuraram excitar e arrastar a opinião do vulgo, para tomar parte

n'essa opposição ferrenha e inconsiderada contra um acto internacional,

que ainda havia pouco ou era olhado com plena indifferença, ou aliás

eram almejados os seus resultados como sendo a aurora dos melhores dias

para Lourenço Marques! É verdade que o odio ou a simpathia tomam ás

vezes a feição de moda. É moda mostrar-se cheio de rancor contra a

Inglaterra, com a mesma facilidade como d'outra vez é moda ir render

homenagem e tocar musica á esquadra franceza surta casualmente no Tejo,

e sem haver quem explique o motivo da serenáta. É questão de simpathia

ou antipathia onde, como diz o rifão, _cada qual come do que gosta_; mas

não deve ir a ponto de provocar os mais a terem indigestões perigosas.

A linguagem e as moções apresentadas e votadas entre a vozeria dos

meetings transudava esse rancor inconsiderado. Declamações de

patriotismo, embora infundadas e baseadas em tão falsas apreciações,

sempre acham echo nos que se deixam imbuir pelo que ouvem, e não pelo

que discorrem; e por isso crearam vulto, as que denunciavam o tratado,

como cessão ou venda de territorio, attentado contra a integridade e

independencia nacional, ignominia, traição, infame entrega de uma

colonia á ambiciosa Inglaterra, crimes de que aliás o tratado era

innocente. Mas a inconveniencia foi mais longe, desde que no proprio

parlamento se aventuraram opiniões e phrases menos comedidas, e que para

terem imputação, só lhes valia a respeitabilidade do logar onde eram

proferidas, o que não impediu de as tornar muito mais para estranhar.

Alli se apresentou uma moção, propondo que o tratado se não discutisse,

_em quanto estivesse fundeada no Tejo a esquadra ingleza!!_

Seria difficil de acreditar, se isto não fosse um acto tão publico, pois

a pretenção era tão disparatada, que importaria o postergamento de todas

as regras de procedimento entre nações cultas e livres; e significaria

um acto de aviltamento desde que fizesse suppor que a presença eventual

e habitual de uma esquadra n'um porto aberto a todas as nações, podesse

actuar pressivamente no procedimento de um corpo legislativo; pretenção

emfim que se podesse ser adoptada como regra, e n'este caso como

excepção, estabeleceria um meio indirecto mas desconhecido entre nações,

para obstar á acção regular dos poderes do Estado.

Tal foi o espectaculo que infelizmente se desempenhou n'esta tão

inconveniente maneira de tratar um assumpto grave. E o que mais aggravou

este singular episodio foi que uma tal moção, que por insolita e

impertinente merecia ser desde logo repellida como uma opinião exotica,

passou a ter fóros de tolerada, desde que em logar de ser _in limine_

escarmentada e regeitada, foi addiada para quando se discutisse o

assumpto do tratado!

O correctivo veio, embora tarde, quando o presidente do conselho,

ministro dos negocios estrangeiros, dias depois expressava a sua plena

regeição áquella proposta, e aos sentimentos que a dictavam. Melhor fôra

porém que ella tivesse sido estrangulada logo á nascença, como merecia;

assim não faria incorrer os que a não repelliram, na suspeita de

cumplices na inconsideração de quem a apresentara. E ainda bem que houve

um deputado, que na sessão de 21 de março, poucos dias antes de ser

elevado aos conselhos da corôa como ministro da marinha, soube com nobre

desassombro e recto juizo redarguir a analogas declamações de outro

deputado, expressando-se por este modo:

«Se o que se disse a respeito da Inglaterra, fosse pensado e dito por

toda a assembléa, haveria dentro em pouco uma reclamação da parte

d'aquella potencia. Mas não é assim, o bom senso da Inglaterra está

acima das arguições que s. ex.ª lhe dirige.

«Em parte nenhuma se falla de uma potencia estrangeira principalmente de

uma potencia alliada, com a censura e aspereza com que fallou o illustre

deputado.

«A França, a França republicana, impediu a sua imprensa de censurar a

Russia na questão do Oriente, e a imprensa não tem tanta

responsabilidade individual como qualquer membro de uma assembléa

legislativa.

«As nações devem-se reciprocamente o mesmo que se devem os homens, a

delicadeza e a cortezia.

«A alliança com a Inglaterra não póde ser bandeira de nenhum partido,

porque se o fosse, esse partido teria na sua ascensão ao poder, de

romper uma alliança consagrada pela tradição de seculos e talvez pozesse

em perigo a integridade do nosso territorio. Não vejo perigo nenhum na

nossa alliança politica e colonial com a Inglaterra. Nós necessitamos

d'essa alliança para o desenvolvimento das nossas colonias.

«Quando a Inglaterra se estender pelo interior da Africa, a nossa acção

fiscal e aduaneira em Moçambique hade fazer-se de accordo com aquella

potencia, e o commercio que tem de passar por esses portos, levando a

riqueza para o interior, será egualmente proveitoso aos nossos dominios.

«Não esqueçamos que nos prendem a esta potencia os mais estreitos

vinculos.

«Aceitemos a cooperação d'aquelle povo para que se não diga lá fóra,

como se diz nos periodicos estrangeiros, que _aonde começam as colonias

portuguezas, acaba a civilisação ao sul da Africa_.»

Para se avaliar a pouca seriedade e nenhuma consciencia, e em alguns

casos a supina inopia com que se procedia, no intento de fundamentar as

deliberações tomadas nos meetings, e nas assembléas de declamadores

contra o tratado, basta ler as representações que a titulo de expressar

a opinião publica, eram levadas ao parlamento, como sendo o acto

complementar das vozerias e declamações, que só viam venda de

territorio, ignominia nacional, e procedimento infame, onde só havia o

unico meio e fim de tirar um ponto d'esse territorio nacional da sua

vergonhosa situação de atrazo, mais vergonhosa ainda desde que ésta

significava a incuria no aproveitamento das suas condições especiaes.

N'uma d'essas representações, elaboradas n'um meeting em nome do partido

republicano, faziam-se allegações tão pueris e descabidas, que parece

incrivel que partissem de gente adulta. Ahi se atacavam os primeiros

artigos do tratado, cujo objecto é consignar a faculdade reciproca para

os subditos das duas nações contratantes, poderem residir, transitar,

commerciar, possuir bens, e outras analogas disposições que são de uso

entre nações cultas independentemente de tratados; e inculcavam-se como

sendo uma cessão da Africa á Inglaterra, como um attentado, um grande

capitulo de accusação, e isto sem perceberem que a doutrina d'esses

artigos é a que se consigna geralmente em todos e quaesquer tratados de

commercio entre nações amigas, e que eram por assim dizer stereotypadas

de todos os tratados já existentes, não só com a Inglaterra, mas ainda

nos que Portugal tem celebrado com outros Estados.

Tal se tornou a phase predominante nos acontecimentos, desde que por

esta fórma se levou a opinião publica do vulgo, a não querer acceitar

nem ouvir explicação alguma em contrario. A venda, a cedencia de

Lourenço Marques á prepotente Inglaterra, essa mentira grosseira tornada

em axioma indiscutível, era a unica resposta a qualquer observação em

contrario, o unico argumento empregado contra quem ousasse interpor sua

voz em abono da verdade e da fiel interpretação dos factos.

Dir-se hia a reproducção d'aquella tumultuaria assembléa dos Ephesios,

quando, sem quererem ouvir a palavra que S. Paulo lhes dirigia, elles a

tudo sómente replicavam exclamando sem cessar e em continua berraria

_magna Diana Ephesiorum_; e assim surdos a qualquer exhortação,

obrigaram o apostolo das gentes a reduzir-se ao silencio, _et vox facta

una est omnium, quasi per horas duas clamantium, magna Diana

Ephesiorum_. Um tal procedimento dos nossos Ephesios, justifica o rifão

que diz _não ha peior surdo que o que não quer ouvir_.

V

Apezar da turbulenta excitação promovida pelos meetings e pelos jornaes

apregoadores do systema republicano, que para formar partido recorriam a

aggredir o tratado sob pretextos do mais puro patriotismo anglo-phobo, a

camara dos deputados não cedeu a taes intimidações e o tratado foi

sanccionado por grande maioria. Nem outra versão poderia ser plausivel,

desde que o governo portuguez o havia negociado, e depois sollicitado e

obtido uma modificação de accordo com as suas exigencias. A annuencia a

estas obrigava a nação que as propozera, a sustentar o que se havia

mutuamente pactuado, sob pena de incorrer n'esse justo stygma de má fé

ou de leviandade em assumptos dos mais serios, e que se ligam ás

relações entre Estados, independentemente da politica interna do

governo.

Um facto porém extraordinario, e inesperado que então occorreu, e que a

muita gente surprehendeu, foi que a minoria da camara electiva, e

representante do partido que fizera o tratado, saiu da sala das sessões

recusando-se a votal-o. Deu isto logar a que se dissesse que os autores

e defensores de hontem foram os indifferentes ou cumplices de hoje! Em

verdade, sem querer prescrutar intenções, difficil cousa seria o

comprehender e explicar um tal procedimento, que, pelo menos

apparentemente vinha collocar os representantes d'aquelle partido que

fizera o tratado, em contradição com os seus anteriores actos e

tendencias; pois mediante esta maneira de proceder, embora mirassem ao

fim de hostilisar o governo, se collocaram praticamente como auxiliares

ao lado d'aquelle outro partido, que para fazer proselitismo não

duvidára aggredir ferozmente aquelle acto internacional, que d'esta

fórma era agora tambem repudiado pelos que mais afastados deviam estar

do partido d'esses novos aggressores.

Se o fim de tal abstenção ou recusa, era como um desforço vingativo para

deixar a plena responsabilidade da approvação aos que d'antes o haviam

impugnado, e para assim os fazer passar por contradictorios, impunham-se

a si mesmos uma pena de Talião; ou se um tal procedimento era ardil

tendente a captar as simpathias dos declamadores em nome do que diziam

ser opinião publica, em qualquer das versões o conseguimento do fim, não

poude plausivelmente justificar taes meios; pois renegar as convicções

da véspera só pelo engodo de uma popularidade ephemera, equivale a

antepôr o interesse de facção ao interesse da causa publica. Qualquer

portanto que fosse a causa de taes viravoltas, a situação dos partidos

ficou desde então anormal. E na difficuldade de explicar plausivelmente

aquella abstenção, e a causa que a motivou, poderá acceitar-se a

apreciação que d'ella fez o _Times_, quando em linguagem grave e não

atrabiliaria, discutiu o assumpto de um modo que contrastava com o que

era usado por grande parte do jornalismo portuguez, que menos discutia

do que imprecava. O _Times_ notava que o partido que d'antes havia

repellido o tratado, e que portanto menos se distanciava dos

republicanos que violentamente o aggrediam e á Inglaterra, appellando

para a federação iberica, era o que se apresentára agora firme na

sustentação da boa fé internacional e n'um assumpto que interessava ás

boas relações com a Grã-Bretanha; emquanto que o partido do qual nascera

o tratado com ésta potencia e que por suas tradições representava não só

as idéas mais conservadoras, mas toda a intransigencia com qualquer

fórma de iberismo, era o que vinha a ficar como que alliado dos

republicanos nas suas aspirações a pôr de parte o tratado! Notando mais

que quando dias depois, uma moção de censura na camara alta, dava logar

a cair o ministerio, impedindo assim de ser alli votado o tratado, subiu

ao poder um novo governo tirado do partido que até ao momento fôra

opposição e d'onde originariamente saira aquelle pacto; governo que

subindo ao poder em taes circumstancias poderia suppôr-se compromettido

com seus novos auxiliares a pôr de parte o mesmo tratado, ou a

estrangulal-o!

Tal era a linguagem do jornal politico mais importante do Mundo, que

punha assim em relevo a maneira pela qual, um acto internacional de

summa importancia por seu valor economico e alcance de politica

internacional, ficára sujeito ás contingencias d'esta emaranhada

situação, onde difficil seria descriminar quem menos erradamente tivesse

andado em tão contradictorios procedimentos!

Não ha passo inconsiderado, ou procedimento leviano, que não encontre um

subterfugio a que se recorra como sendo a mitigação para lhe cohonestar

a causa ou atenuar o alcance. Para este caso, serviu a circumstancia

contemporaneamente sobrevinda da revolta dos boers do Transvaal contra a

authoridade soberana da Inglaterra.

Este acontecimento, que em direito publico não significa senão uma

sedição interna n'um paiz sem affectar as suas relações externas,

quiz-se interpretar como sendo uma nova phase que vinha actuar sobre as

condições do tratado entre Portugal e Inglaterra! Fallou-se em respeitar

a neutralidade!

Reconhecer o direito de qualquer partida de insurgentes n'um Estado

constituido e reconhecido; dar-lhe fóros de belligerantes, e

conseguintemente reconhecer-lhe direitos de neutros, é doutrina que

importaria uma innovação na sciencia da diplomacia e na pratica do

direito das gentes.

Porventura constituem os boers uma potencia reconhecida ou um Estado

independente?

Qual é no Transvaal a soberania reconhecida internacionalmente?

Existe alli guerra publica e publicamente notificada?

Teem elles os direitos dos partidos belligerantes?

Quem lh'os reconheceu e por qual acto publico?

Quem authorisa uma nação qualquer a reconhecer n'aquella sublevação uma

guerra de Estado a Estado?

Quem contestasse a estas perguntas, dizendo que o que se proclama é a

manutenção da neutralidade, avançaria uma doutrina audaciosa,

commetteria um erro que em certas contingencias diplomaticas e de

politica internacional, poderia até dar logar a conflictos resultantes

de tal apreciação, e ao agastamento da potencia soberana que visse assim

seus direitos intimos serem invadidos pelo arbitrio alheio, o que

equivale a intervir nos assumptos internos de um paiz cujos direitos de

soberania o põe a salvo d'essa interferencia.

Pois durante a grande luta entre os Estados do Norte e do Sul da União

Americana, pelos annos de 1864 e 1865, não se viu, que emquanto os vasos

de guerra em que fluctuava a bandeira listrada da grande republica,

fundeavam e permaneciam surtos nos nossos portos como navios de nação

amiga e reconhecida, ao mesmo tempo os vasos dos insurgentes do Sul,

cuja bandeira não era reconhecida, apenas tinham o direito de refugio

temporario e limitado, e eram intimados para deixar as nossas aguas?

Pois não é conhecida a maneira como foi mal aceite e como deu logar a

notas cheias de ressentimento, o facto de serem pelo governo inglez e

francez, restringidos egualmente aos navios do Norte e do Sul os prazos

de demora nos portos, equiparando-os n'esta parte nas condições de

admissão e de permanencia, embora não chegassem aquellas duas potencias

a reconhecer officialmente a neutralidade dos confederados do Sul?

Indo mais longe, não vimos no seculo passado por occasião da luta da

independencia da America, que a Inglaterra declarou a guerra á França

porque esta reconhecera como belligerantes e concedêra os direitos de

neutros aos americanos revoltados?

Como poderá pois razoavelmente e sem offensa de direito das gentes

consuetudinario, ir mais longe, fazer politica aventuroza ou de

simpathia a pró de uma população insurgida, quando n'isto se offende a

potencia que é reconhecida internacionalmente como unica soberana no

territorio onde a insurreição tem logar?

Não estamos no caso de fazer politica platonica nem romantica; nem

estamos no direito de intervir só por simpathias mais ou menos

merecidas, nos assumptos domesticos de qualquer paiz.

A sublevação dos boers está n'este caso.

Póde ser que sejam muito dignas de simpathia as pretenções que allegam e

que defendem, mas muitos exemplos se poderiam produzir analogos, que

nunca deram logar a taes manifestações. Um bem recente. Póde ser que

fosse simpathica a causa dos Cubanos pugnando pela sua emancipação; mas

nem por isso, e quando assim fosse, restava a qualquer nação em paz com

a Espanha, a faculdade de pôr de parte sob tal pretexto quaesquer

tratativas, nem o direito de se interpôr na resolução das pendencias

entre entidades, para as quaes só reconhecemos uma bandeira, um titulo

de nacionalidade, e de soberania. Cubanos e castelhanos, para nós, em

direito, todos são espanhoes. Boers ou bretões, para nós em direito só

ahi vemos subditos inglezes.

Se em direito internacional, mesmo quando se proclama a neutralidade,

são reconhecidos eguaes os direitos dos belligerantes no que diz

respeito aos effeitos da guerra, é certo todavia que ainda assim a

justiça da guerra sempre em direito se considera duvidosa de parte a

parte. Não é pois pelos variados sentimentos a que a simpathia ou

antipathia póde dar logar, que se regulam os procedimentos das nações

estranhas ás pendencias entre Estados ou partidos em luta.

Deixámos de tratar com a Espanha porque sustentava a guerra civil em

Cuba, ou mesmo nas Vascongadas?

Houve alguma abstenção no trato, fundada em simpathias?

Impéde que discutamos um tratado com a França o estar ésta em operações

contra os Krumirs de Tunis?

Mas, a eventualidade da luta!

A este argumento de previsão capciosa, respondem uma assersão, e um

dilemma.

A assersão é, que em politica internacional, o direito funda-se no

existente e não no problematico.

O dilemma é; se o Transvaal ficar independente da Inglaterra, caducará

_ipso facto_ o tratado preesistente onde se torne irrealisavel, e n'esse

caso competeria á Inglaterra o denunciar essa impossibilidade

sobrevinda, para se livrar do compromisso resultante; e decerto, não

vale a pena antes de tempo, affrontar quem comnosco pactuou quando fruía

o direito do _uti possidetis_.

Se o Transvaal é submettido, nenhuma razão obsta a sanccionar o que foi

legitimamente pactuado, por quem tinha direito de o fazer; e não ha

razões especulativas que moralmente possam justificar a recusa em o

submetter ás formulas de sancção. Faltar sob pretextos cerebrinos, á

palavra de um contracto, é acção reprovada entre individuos. É desdouro,

é pouco nobre, quando entre nações.

Nem se diga que a approvação do tratado em questão, implicitamente

influiria na lucta pendente, attenta a concessão n'elle inserida de

transito de tropas; pois um tal transito sómente se refere ao uso do

caminho de ferro, e não indistinctamente ao territorio; e além d'isso

foi officialmente participado em côrtes pelo presidente do conselho e

ministro dos negocios estrangeiros, que o governo britannico de seu motu

proprio e independentemente de solicitação, havia declarado que

quaesquer disposições do tratado não seriam aproveitadas no que podesse

influir na lucta travada com os Boers. Deviam pois cahir por terra todos

os escrupulos os mais comesinhos.

A politica intercolonial e internacional e o tratado de Lourenço Marques Additamento á influencia europea na Africa · 第 16 / 22 题