II

Aquelle objectivo tão ciosamente invocado agora, até pelos que nunca

d'antes ouviram mencionar tal nome, e ignoravam a existencia d'aquelle

ponto do globo, Lourenço Marques, é um districto dependente do governo

geral de Moçambique, possuindo uma extensa bahia, que constitue o melhor

porto da Africa Oriental, e que foi descoberta desde os principios do

seculo XVI pelos portuguezes que a denominaram bahia de Lagoa, até que

em 1544 explorada por um navegador e explorador tambem portuguez passou

a ser designada pelo nome d'este.

D'aquelle dominio, encontra-se grande parte sujeito a differentes

regulos cafres, de modo que a colonisação europea quasi se limita á área

occupada pela villa ou presidio d'aquelle nome; e apezar da sua posse

datar de tão longe, o estado de atrazo em que se acha é um contraste com

o que elle n'outras condições poderia ser. Privado de recursos e sem

vida propria, assim jazeu quasi de todo esquecido, sem aproveitamento e

sem que nenhum enthusiasmo popular da metropole se manifestasse em pró

da sua importancia, nem se exaltasse perante as variadas e alternativas

invasões de europeus ou correrias de cafres, a que andou sujeito desde o

seculo passado até quasi á primeira metade do actual. Tanto assim é, que

o escriptor Bordallo, na sua publicação official dos ensaios

estatisticos das possessões portuguezas, consignava em 1859 que Lourenço

Marques pouco se differençava de uma aldeia de cafres, e computava a

população de todo aquelle districto em 1857, como constando de um total

de 880 individuos de todas as edades, e religiões, sendo só 73

portuguezes, soldados ou degredados, e incluindo n'aquelle total 384

escravos. N'aquella data, a sua importancia commercial era designada

pelo rendimento da alfandega que de 1856 a 1857 fôra de 1:993$959 réis.

Vinte annos mais tarde, depois que algumas disposições legislativas,

bazeadas n'um systema commercial e aduaneiro menos restrictivo, e outras

provisões locaes foram adoptadas, algum incremento adveio áquelle

districto, e por isso vemos que em 1877 para 1878, o rendimento

aduaneiro de importação e exportação se elevou a um conjuncto de

39:481$240 réis.

Ainda assim, a sua população constava ainda n'esse anno, apenas de 458

individuos brancos, incluindo sob esta designação europeus e seus

descendentes, aziaticos, baneanes, gentios, mouros, parses e africanos

mulatos. Extremando d'este total os portuguezes propriamente ditos, eram

estes sómente 77 homens e 9 mulheres! Isto passados tres seculos e meio

depois da nossa occupação! Não é titulo de recommendação que abone o

estado d'aquella possessão, e muito menos a consideração que se lhe deu

durante tão longo periodo.

A par d'este progresso negativo, vê-se que a colonia ingleza do Natal,

confinante a oeste de Lourenço Marques, e cuja existencia como tal data

de uns quarenta annos, contém em si uma população branca de 25:000

individuos, e o commercio é alli de tal vulto que no anno de 1880, a

receita cobrada em suas alfandegas, attingiu em 9 mezes a £ 183:215, o

que corresponde a cerca de 1:000 contos de réis de rendimento annual,

devido em grande parte ao commercio de transito para as regiões do

Transvaal, feito com grandes dificuldades, e despezas, como se não

dariam se elle se derivasse para Lourenço Marques.

Quanto a este ponto, este já agora historico pomo de discordia, a

nomeada que nos ultimos tempos obteve, proveio não da sua riqueza

propria, nem de ser apto para uma colonisação improvisada ou cerebrina,

que lhe desse vida propria e robusta; mas sim foi devida á sua relativa

situação geographica, visto que sua extensa e segura bahia se presta

para vir a ser o grande porto que se torne o interposto para aquelle

importante commercio com o interior d'Africa, facilitando-o, uma vez que

se construa o caminho de ferro n'aquella direcção, e por se prestar a

isso muito mais idoneamente do que o porto de Durban, no Natal.

Aquelle crescido commercio do Natal teve o seu maior desenvolvimento,

desde que os boers ou familias rusticas descendentes dos hollandezes da

colonia do Cabo, internando-se n'Africa vieram estabelecer-se no

Transvaal, de cujas fronteiras apenas a bahia distará umas 40 milhas. A

não ser esta circumstancia, esta perspectiva de um aproveitamento, filho

de condições locaes, a sorte de Lourenço Marques em nosso poder, não

seria outra senão ficar condemnado a permanecer qual tem estado até

hoje, isto é, um presidio sem importancia, um territorio inculto, sem

industria, sem commercio, com uma população estacionaria e de todas as

castas, e luctando com a escassez de recursos, e a insalubridade do

clima. É pois aquella vantagem da situação geographica, junta á

pretensão da Inglaterra de ter direito á posse de uma parte da bahia,

que para esta resultou o ser desde ha cerca de 30 annos um objecto de

discussão, e de ser em parte contestada entre Portugal e Inglaterra a

sua soberania territorial. Essas discussões, e as correspondencias a tal

respeito trocadas entre os dois governos, acham-se publicadas desde

varios annos nos _livros brancos_ apresentados ás côrtes; todavia parece

que ninguem as lê, ou pelo menos parece que não as tem lido, muitos dos

que mais se tem esfalfado nas apreciações aggressivas a que o assumpto

tem dado causa.

O estabelecimento dos boers no Transvaal, tendo alli dado logar a

constituirem um Estado independente, deu causa a que elles pretendessem

estreitar relações com a auctoridade portugueza afim de obterem

facilidades para o seu commercio exterior, mediante a faculdade de

estabelecerem o transito entre o seu territorio e a bahia de Lourenço

Marques. Já desde 1868 o _Argus_, jornal publicado no Transvaal, sugeria

que Portugal devia alienar aquelle seu dominio, e o pouco escrupulo com

que isto se aventava, dava logar a que em abril de 1869 o presidente

Pretorius publicasse uma proclamação, declarando pertencer á sua

republica o territorio confinante com a bahia, vindo porém

posteriormente a caducar esta arrojada pretenção, quando em julho de

1869 se celebrou o tratado de paz, amisade, commercio e limites, que

regulava estes, e fixava as regras de reciprocidade commercial.

A colonia ingleza do Natal, não podia sympathisar com uma versão que

viria affectar o seu commercio com o interior da Africa, por isso que o

desviava do porto Natal, fazendo-o affluir a Lourenço Marques.

A pretenção até então mantida pelos dois governos, de Portugal e

Inglaterra, ácêrca da posse da parte contestada da bahia, passou a ser

submettida a uma arbitragem de terceira potencia por accordo reciproco;

e o principio da arbitragem sendo acceite, foi confiada a sua decisão ao

marechal Mac-Mahon, presidente da republica franceza, e é sabido que deu

em resultado a sentença de 24 de julho de 1875 favoravel aos direitos de

Portugal, ao que a Inglaterra nobremente deu prompta execução.

Desde que em virtude d'esta sentença ficou definida a favor de Portugal

a posse de Lourenço Marques, poude em seguida e desaffrontadamente

effectuar-se o tratado de 11 de dezembro de 1875 entre Portugal e o

Transvaal, no qual se consignavam os principios geraes, de paz, amisade,

liberdade de commercio e livre transito e residencia, e fazendo-se

referencia só eventualmente á possibilidade de estabelecer os meios para

o transporte de mercadorias do Transvaal a Lourenço Marques, pois que em

tal caso, seriam cedidos gratuitamente por parte de Portugal, os

terrenos para a construcção de abrigos e armazens. Seguiram-se as

tentativas para a construcção de um caminho de ferro. Era este o grande

desideratum, já para o Transvaal como meio de poder dirigir seu

commercio para um porto facilmente accessivel, já para Lourenço Marques,

como sendo o unico e o mais efficaz aproveitamento das suas condições

geographicas.

Por parte de Portugal, fez-se a concessão a mr. Moodie para a

construcção da linha ferrea no territorio portuguez. Moodie, vendeu a

concessão por £ 15:000 ao governo do Transvaal cujo presidente, mr.

Burgers, vindo á Europa contractar um emprestimo de £ 300:000 que só em

parte realisou, empregou o producto em compra de material n'um valor de

£ 90:000, material que desembarcou em Lourenço Marques, mas só para alli

ficar jacente e ser arruinado pela acção do tempo, pois ou por falharem

os calculos feitos ou por escassearem os meios, ficou assim annulada a

realisação do que era o grande desideratum.

Ficava critica a situação financeira e politica do Transvaal, ameaçado

pela bancarrota e pela anarchia. A guerra da Zululandia e as

contingencias a que ella deu logar, tornaram mais precaria a sua

situação. Enfraquecido e exposto ás correrias dos negros, seguiu-se a

occupação do seu territorio pelas forças inglezas, sendo declarada a sua

annexação aos dominios britannicos em abril de 1877, acto este, devido

menos aos designios do governo inglez, que para com elle não mostrou as

maiores sympathias, mas sim promovido por sir Theophilus Shepstone,

commissario especial, e auctoridade predominante na Colonia do Natal; o

que permitte explicar a consummação do mesmo acto, como sendo devida ao

indicado antagonismo e ciume manifestado n'esta colonia contra a

realisação do caminho de ferro entre Transvaal e Lourenço Marques, em

vista dos auspiciosos resultados que d'ahi proviriam para este ponto, em

detrimento do Natal.

Esta nova phase politica e economica, vinha annullar todas as

perspectivas de realisar aquelle grande e importante meio de

prosperidade para Lourenço Marques qual era a construcção do caminho de

ferro.

Dois annos se passaram n'este estado de coisas indeciso, e que não

deixava antever senão a annulação de todas as anteriores tentativas, e

isto com grande sentimento dos governos de Portugal e do Transvaal. Não

escapou porém á perspicacia do ministro portuguez dos negocios

estrangeiros e do Ultramar, o sr. Corvo, a conveniencia de persistir nas

suas anteriores vistas. A questão vital a resolver era a de estabelecer

uma communicação facil atravez de uma nesga de terra sem cultura e sem

vida como a de Lourenço Marques, ligando o accesso ao mar, com um paiz

immenso e fertil, mas sem saida, como o Transvaal.

Effectivamente a annexação d'este aos dominios britannicos era um facto

consummado e reconhecido. Como consequencia d'este facto, o tratado

preexistente com o Transvaal havia _ipso facto_ caducado. Succedia o

mesmo, como _caeteris paribus_ poderia acontecer a quaesquer tratados

com o Hanover, Toscana, Napoles, Meklemburgo ou Hamburgo, desde que

perderam sua autonomia. «Le traité s'évanouit, diz Vattel, si l'une des

nations perd par quelque cause qui ce soit sa qualité de nation ou de

société politique indépendante.» E diz mais: «Quand un État est détruit

ou quand il est subjugué par un conquérant, toutes ses alliances, toutes

ses traités périssent avec la puissance publique qui les avait

contratés.»

O tratado com o Transvaal tinha pois caducado. Mas desde que o que fôra

pactuado com aquelle Estado quando independente, era o meio de salvar

Lourenço Marques, e de o transformar de uma _aldêa de cafres_, em um

grande emporio commercial, melhor perspectiva d'este resultado se

offerecia, desde que o mesmo objectivo fosse estatuido e garantido em um

tratado com uma potencia tal como a Grã-Bretanha, visinha nas possessões

africanas, bem como alliada de longa data na communhão europea.

Era isto conciliar o direito com a conveniencia. Negociar pois o tratado

com a Grã-Bretanha era realisar legalmente o que as circumstancias

sobrevindas tinham d'antes impedido. É isto o que se praticou.

Entaboladas as negociações, estas proseguiram, e quando em janeiro de

1879 se abriu o parlamento portuguez, no discurso da corôa se annunciava

o seguinte:

«Com o fim de melhorar e desenvolver o commercio das nossas possessões

da Asia, e para as pôr em communicação directa e rapida por meio de um

caminho de ferro com a India Ingleza, celebrou-se um tratado com o

governo de Sua Magestade Britanica. Com a mesma potencia se occupa o meu

governo de celebrar outro tratado no intuito de estreitar as nossas

relações com a região do Transvaal, pela construcção de outro caminho de

ferro na provincia de Moçambique, engrandecendo por este modo o porto de

Lourenço Marques. Espero que examinareis attentamente estes documentos

quando vos forem apresentados, e folgarei que possam ter o vosso

assentimento.»

É pois o tratado de Lourenço Marques aquelle que a tanta celeuma tem

dado causa, um acto publico não sómente já annunciado desde 1879, mas

até authorisado pela responsabilidade solidaria de um governo que o

proclamou em tão solemne documento; assim como era a realisação

d'aquella importantissima vantagem pela qual já anteriormente se havia

sempre suspirado.

Os factos que posteriormente tiveram logar, as excitações politicas que

d'ali mais modernamente se originaram, as diversas feições que assumiu

este importante assumpto internacional, as contradições nos

procedimentos officiaes a que as successivas mudanças de governo deram

causa, a falsa opinião que no publico se pretendeu propalar e se

conseguiu incutir a tal respeito, são circumstancias que obrigam a ter

que lamentar o mau fado de um paiz, que antepõe á comprehensão das suas

vantagens reaes, o aproveitamento de quaesquer incidentes que se prestem

a ser explorados como campo de batalha das questões partidarias, e com

tanto mais e maior prejuizo quando se recorre para tal fim a fazer jogo

com questões internacionaes, sem considerar o perigo que d'ahi resulta,

mas sómente por serem estas as que mais se prestam a excitar a opinião

das massas, desde que dão ensejo para se invocar, embora falsamente, o

sentimento patriotico, como sendo aquelle que mais se presta para

deprimir os adversarios politicos. Erro este, crime quasi se poderia

chamar, desde que por tal meio se sacrifica o bem do paiz, á vantagem

ephemera de qualquer politica partidaria.

A politica intercolonial e internacional e o tratado de Lourenço Marques Additamento á influencia europea na Africa · 第 14 / 22 题