N'uma tarde d'outomno a somnolente trote
Um macho conduzia em cima do albardão,
Já columna da egreja, o novo sacerdote,
O muitissimo illustre e digno padre João.
Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes,
Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito
Um velho recebeu nos braços paternaes,
Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito
Que acabava de vir das jaulas clericaes.
Que transfigurão! que radical mudança!
Em logar da innocente, angelica creança,
Voltava um chimpanzé estupido e bisonho.
Com o ar de quem anda hallucinadamente
Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho.
Seu corpo juvenil, robusto e florescente
Vergava para o chão exhausto de cansaço:
Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina
Já vai pesando mais que as armaduras d'aço.
A ignorancia profunda, a estupidez suina
A luxuria d'egreja, ardente, clandestina,
O remorso, o terror, o fanatismo inquieto,
Tudo isto perpassava em turbilhão confuso
Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto,
Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso.
Metida nas prisões escuras de Loyola
A sua alma infantil, não tendo luz nem ar.
Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola
Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.