Como ninguem ignora, os sordidos palhaços
Compram, roubam às mães as loiras creancinhas,
Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços,
Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas,
E exhibem-nas depois nos palcos das barracas
Dando saltos mortaes e devorando facas
Ante o espanto imbecil da ingenua multidão;
E para lhes cobrir a lividez plangente
Costumam-lhes pintar carnavalescamente
Na face de alvaiade um rir de vermelhão.
Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,
Palhaço clerical, anda pelos caminhos
A comprar, a furtar, assim como um cigano,
As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos.
Vão leval-as depois ao negro seminario,
Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,
E escondem-nas da luz, assim como o usurario
Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro.
Dentro da estupidez e da superstição,
Casamata da fé, guardam-lhes a razão,
A analize, esse forte e venenoso fluido,
Que, andando em liberdade, ao minimo descuido
Poderia estoirar com tragica explosão.
O que o palhaço faz ao corpo da creança
Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,
Em logar do histrião que nas barracas dança,
O pobre missionario, o inutil manequim,
O histrião que nos prega a bemaventurança
A murros do missal e a roncos de latim.
As almas infantis são brandas como a neve,
São perolas de leite em urnas virginaes.
Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve
Cristalisa em seguida e não se apaga mais.
D'esta forma consegue o astucioso clero
Transformar de repente uma creança loira
N'um passaro nocturno estupido e sincero.
É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira
A marca industrial do fabricante--um zero!