IV

Como ninguem ignora, os sordidos palhaços

Compram, roubam às mães as loiras creancinhas,

Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços,

Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas,

E exhibem-nas depois nos palcos das barracas

Dando saltos mortaes e devorando facas

Ante o espanto imbecil da ingenua multidão;

E para lhes cobrir a lividez plangente

Costumam-lhes pintar carnavalescamente

Na face de alvaiade um rir de vermelhão.

Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,

Palhaço clerical, anda pelos caminhos

A comprar, a furtar, assim como um cigano,

As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos.

Vão leval-as depois ao negro seminario,

Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,

E escondem-nas da luz, assim como o usurario

Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro.

Dentro da estupidez e da superstição,

Casamata da fé, guardam-lhes a razão,

A analize, esse forte e venenoso fluido,

Que, andando em liberdade, ao minimo descuido

Poderia estoirar com tragica explosão.

O que o palhaço faz ao corpo da creança

Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,

Em logar do histrião que nas barracas dança,

O pobre missionario, o inutil manequim,

O histrião que nos prega a bemaventurança

A murros do missal e a roncos de latim.

As almas infantis são brandas como a neve,

São perolas de leite em urnas virginaes.

Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve

Cristalisa em seguida e não se apaga mais.

D'esta forma consegue o astucioso clero

Transformar de repente uma creança loira

N'um passaro nocturno estupido e sincero.

É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira

A marca industrial do fabricante--um zero!

A Velhice do Padre Eterno · 第 45 / 66 题