Um dia o pae, um bravo aldeão,
Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:
«João:
Á força de trabalho e a força de canceiras
A moirejar no monte e a levar gado ás feiras,
Consegui ajuntar ao canto do bahù
Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu,
Além de ser mais novo, és mais intelligente.
Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente.
Hasde-me dar ainda um grande prégador.
Hoje padre é melhor talvez que ser doutor.
Aquillo è grande vida; é vida regalada.
Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada.
Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço!
Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço,
Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas,
Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,
E a missa seis vintens e doze os baptisados.
Depois independente e sem nenhuns cuidados!
Olha, João, vê tu o nosso padre cura:
É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura.
Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos;
Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos.
Isto é desenganar; padres sabem-na toda...
É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda,
É pinga da melhor, é tudo quando ha!
Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá.
Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não
Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição.
Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira!
É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira
Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova
Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»