COMO SE FAZ UM MONSTRO

I

Elle era n'esse tempo uma creança loira

Vivendo na abundancia agreste da lavoira,

Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados,

Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,

Atravessando á noite os solitarios montes,

Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes,

Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos,

No rijo e negro pão cravando os dentes brancos,

Radioso como a aurora e bom como a alegria.

Quando no azul do céo cantava a cotovia,

Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada

Transportava ao casebre o leite da manada,

Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,

Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos.

E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens,

Na fantasmagoria esplendida das nuvens,

Colorista febril, lança, desfaz, derrama

O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama,

Elle ia então sosinho, alegre intemerato,

Conduzindo a beber ao tremulo regato,

A golpes de verdasca e gritos estridentes,

N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes.

O seu olhar azul de limpidez virtuosa,

Onde brilhava a audacia heroica e valorosa

A candura infantil e a intelligencia rara,

O timbre da sua voz imperiosa e clara,

A linha do seu corpo altivamente recta,

Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta

Em miniatura.

A Velhice do Padre Eterno · 第 42 / 66 题