Mas nem essa lhe concediam os detrahidores que se chamavam os _Meninos

de Evora_; e eu não sei o que lhe fariam em 1640, se elle não tivesse

morrido em 13 de julho de 1639, fóra da sua diocese em Lisboa, onde o

tinham chamado Miguel de Vasconcellos e os outros que se temiam do rugir

soturno do vulcão popular.

Vai vêr o leitor pela primeira vez, se me não engano, qual era a prosa

do _Manoelinho_. No proximo numero d'estas _Noites_, lhe darei amostra

das musas acamaradadas com os heroicos revolucionarios de Evora.

Eis a _carta_:

«Á noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v.

s.ª a origem de que este reino tão catholico padeça oppressões tão

insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se vê,

tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos

vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que até considerada

envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por

prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo

pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de

satisfeito, cessaria a ambição. Mas um prelado, a quem havia de faltar o

tempo para dar graças a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia

de dizer: _tribuo vobis pro omnibus quæ retribuis mihi_--grão maldade! e

com razão podem dizer por vós o que Platão por Dionisio: _Vidimus

monstrum in natura honimis_.

«Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir lá das

Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso

Alemtejo que, como filho tão mimoso de seus paes, sentiu como de

padrasto o pão de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que é a mesma

verdade, diz no _Deuteronomio_, cap. 4: _Colligite ex vobis viros

sapientes, et nobiles_. A sciencia em vós é em tudo um retrato natural

da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi

um dos mais torpes tyrannos do mundo, até chegar a matar sua propria

mãi, como vós agora quereis fazer á amada patria; porque em fim,

sciencia sem virtude, não vem a ser uma nem outra cousa; mas elle já

nenhuma professava, e vós professaes ambas, e não exercitaes alguma. A

nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na

benigna clemencia, é para que, convocando os animos, esqueçam a baixeza

dos seus progenitores. E vós, pelo contrario, querereis dar vida ás de

Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os

extremos todos são maus. Temos rei catholico, não o façaes tyranno; é

principe benevolo, não o façaes cruel. Deixai Portugal ser pobre já que

vos deixou ser bispo. Não vêdes que por Targa ser de herejes, vos

fizeram do Porto? e que por o Porto não querer, vos faziam de Coimbra?

As cidades são como os parentes; corre-lhes a dôr pelas veias como o

sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de

fazer por este arcebispado, tomando o pé atraz como Sebastião de

Mattos[8], mas não seja d'estas partes. Não sei se vos poderão valer os

fóros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo,

madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero,

abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se é traidor á patria, não ha

emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre não

desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que

vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.

«De muito atraz trazemos por criação a distribuição de tres cousas: a

alma para Deus, o melhor para nós, e a fazenda para el-rei; e quem se

viu n'isto, não duvída dar quartos, mas quintos para quintas; e por

vosso conselho não havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que

de canella já nem sabemos de que côr é) soffre-se mal. E se vós quereis

excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve

Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o céo subverteu, haverá

meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.

«Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos

trabalhos. Disfarçado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece á

morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scævola renunciou a

esperança da vida por a tirar á propria que como vós a perseguia[9]. E

os naturaes que a isto não se oppõe vem a acabar n'ella, como Annibal em

Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: _Anna

militiæ nostræ non sunt carnalia, sed spiritualia._ Sois christão, sois

sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que

n'elle vêdes, informai das Necessidades; e, se não sabeis d'ellas, ahi

amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos

padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o

ouro, a prata; o contracto, por que vós não faltaes, que nem Deus o quer

dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a

Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as

guerras que se levantam são por uma de tres causas: ou por haver muitos

deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero

ser senhor de todo o mundo e rei para que não haja n'elle mais que um

Deus, nem se conheça mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.

«Elle era pagão, e vós christão; elle rei, e vós bispo; elle creado na

terra, e vós na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vós jurastes

defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se

o fazeis por fama, já é geral, pois nós vos sabemos o nome. O vosso nome

é _flagellum patriæ_. Se o fazeis por interesse, já basta o que tendes;

se mais quizerdes, já cá passamos signal; se nós podermos, com o mais

constará a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo

antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um _Rêgo_. Nosso

Senhor vos converta, e vos traga a nossas mãos, para augmento d'este

reino, e vida e paz e quietação de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637.

Por mandado do povo todo junto

_Manoelinho Menino_.»

[8] Este Sebastião de Mattos é o arcebispo de Braga que depois

conspirou contra D. João IV, e morreu no carcere.

[9] Não nos parece clara a redacção, ou ha elisão de palavra no meu

traslado.

A MORTE DE D. JOÃO

(POR GUERRA JUNQUEIRO)

É um livro de 330 paginas que eu li sem intermittencias.

A poesia é quasi sempre portugueza e dos mais altos quilates; mas a

substancia do livro é estrangeira.

Aquellas podridões, desenhadas do vivo com primorosa execução, não

fermentam n'este paiz mais atrazado e menos devasso que o restante da

Europa.

É verdade que ha creaturas um tanto putridas nos hospitaes, e lá se

dissolvem: peor seria, se não tivessem aquelle paradeiro onde a

misericordia humana lucta com a fatalidade da morte á beira do catre da

agonia.

O D. João portuguez, por via de regra, aos quarenta annos, tem a espinha

dorsal amollecida, cauterisa as frieiras e lima os callos. As Imperias,

entre nós, não acabam por tanger cornelim em companhia de ursos; mas tem

ursos e dromedarios, uns Tenorios farinaceos que lhes tornam a velhice

divertida e, ás vezes, serodiamente honesta.

Não obstante, eu, em Lisboa, conheci um D. João, que, tirante a chalaça

e o urso, era o D. João de Guerra Junqueiro.

Conheci-o gentil, capitão de lanceiros, com um appellido dos mais nobres

do reino, bizarro, petulante, fatuo, bandarreando com os seus cavallos

oriundos da Lybia alli pelo Chiado. Amavam-no as burguezas e as

princezas. Amavam-no tão doudamente que se perderiam, se não estivessem

perdidas quando elle as achava. Alli, em Lisboa, um D. João acha sempre

uma D. Joanna tão boa como elle.

Era isto em 1849.

Onze annos depois, estando eu na _casa-da-saude_, vi entrar, no quarto

de certo doente, um homem maltrapido, com o nariz rubido, a cara

esvurmando brotoeja, os dentes ferruginosos, os beiços esfoliados como

escama de sarda de barrica, os olhos broslados de malaguêta, e a pupilla

oleosa. Era o capitão de lanceiros, que vinha alli visitar um homem que

costumava dar-lhe um tostão para aguardente. E n'essa tarde levou o

tostão e roubou-lhe um relogio de prata, um caldeirão que valia um

quartinho!

--O meu relógio!--exclamava o pobre Sousa Netto--é o que me restava da

minha mocidade!

Sousa Netto orçava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de

demencia, havia sido tambem D. João, e usava constantemente habito de

Christo no peito, mouras vermelhas nos pés, e um capacete de lontra na

cabeça.

O outro, aquelle que encontrava Imperias no paço, esphacellou-se na

testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus

narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da

natureza, mãi carinhosa do cão podre, do homem podre e de tudo que é

perfeito n'este mundo.

O homem espoliado do caldeirão ensandeceu a final, abrazado em

concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos,

que me recitava a mim e a Matheus de Magalhães com uns olhos tamanhos e

tão accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.

Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.

* * * * *

As mais nervosas e engraçadas paginas de versos que eu tenho lido de

lavra portugueza são a parte d'este poema intitulado _Romanticismo_, e a

outra chamada _Os saltimbancos_. São trovoadas de talento. Paradoxos

assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.

Ás vezes, magôa uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo

que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a

ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron

e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das

invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo

que de certo lhe não está no coração, nem na educação nem nos

irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi é tudo alegria; e até,

quando a musa philosopheia por transcendentes contemplações, lá surde a

palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que não tem

nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim é como se

querem os livros, porque lá diz Aristoteles no 2.º da _Ethica_, cap. 12,

que _a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o coração_.

* * * * *

Este modo de poetar será o _Ideal_ moderno? É, com toda a certeza.

Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o

espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, não tem que vêr com

o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os

carnalissimos assumptos alli poetisados não pareçam ideaes, abona-os o

indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--põe o

fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita

e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por

tanto, concebeu a idéa d'esse caracter, e, a sabor da sua idéa,

transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe

conforme á idéa, ou, para melhor o dizer--é o ideal. Assim, pois, passam

as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as

altera a bel-prazer da sua idéa, etc. (_L'Ideal dans l'Art_).

Quer dizer, ao que parece, que o ideal é uma modificação do real a

talante do artista; por maneira que o sobrepor miserias imaginarias ás

miserias positivas--exulcerar desgraças inevitaveis com a imprecação de

desgraças ficticias--é o _Ideal_.

Em fim, são seitas, e o impugnal-as quando ellas ainda verdejam é

perigoso: o melhor é deixal-as apodrecer.

O que ha de ficar e sobreviver ás escolas (porque o snr. Guerra

Junqueiro de certo não crê em Taine, e é _realista_ na maxima latitude

da palavra) são estas paginas da _Morte de D. João_, alumiadas pelos

relampagos do genio. Este livro será lido por aquelles mesmos que o

malsinarem de propagador de peçonha em calices de ouro. É a obra

prodigiosa de uns annos muito em flôr. Quando a mão do tempo, a desgraça

dos annos, e algumas noites de meditação dolorosa, levarem á consciencia

do admiravel poeta a imagem da Justiça, enquadrada na moldura fatal em

que ha seis mil annos a conhecemos na historia, então os poemas do snr.

Guerra Junqueiro serão por igual bem versejados, mas muitissimo mais

consolativos para os infelizes que elle deplora com generoso coração.

POETAS E PROSADORES BRAZILEIROS

Seis livros de variada leitura me vieram aligeirar as horas da aldeia,

n'este inverno de junho; que no decantado Minho já não ha primavera nem

estio, nem melros nem rouxinoes. D'esta familia de cantores tão gabados

nas eglogas de Sá de Miranda e Diogo Bernardes abalou-se a especie,

desde que o Minho, policiando-se do agro primitivo da sua natureza

alpestre, estrondêa com o caboucar das vias-ferreas e o estridor das

diligencias. De rouxinoes restam-nos apenas aquillo que os francezes

chamam _Roussignol à gland_, e _Roussignol d'Arcadie_. Estou a vêr se me

desmente o meu presado amigo D. Antonio da Costa no seu promettido livro

das delicias do Minho.

Eu por mim, se quero convencer-me que estou na sazão do calor e das

flôres, mando abrazar o fogão, accendo a machina do café, espalho uma

abada de rosas no estrado, cubro-me com um cobertor, imagino que estou

no junho de Fernão d'Alvares do Oriente, e, com o nariz de fóra, e

espirrando, exclamo, em nome do poeta:

_...................... Pomona e Flora

Seus dons vem pelos campos espalhando,

Cantando espalha Fauno a voz sonóra.

Fazem doce harmonia os arvoredos

Que o vento bole, e as aguas derivadas

Das asperas entranhas dos penedos.

As aves umas d'outras namoradas

Enchem de saudosa queixa o monte

N'um desconcerto alegre concertadas.

Boninas varias vai regando a fonte

Que convida, correndo manso e manso,

O rouxinol, que suas maguas conte.

A qualquer parte, pois, que os olhos lanço

Materia me offerece de alegria

Tudo quanto co'a vista alegre alcanço._

_Etc., etc._

E, ao mesmo tempo, vou aconchegando os pés do varandim do fogão, e

fazendo-me um estio interior de café de Moka.

N'esta situação, deixa-se a natureza aos naturalistas; e a gente, que

vem ao campo em cata de brisas olorosas, não sahe de casa, e lê sempre,

a fim de desviar a tentação ao suicidio inglez, que é a congestão

fulminante do _tædium vitæ_.

Tenho, pois, seis livros de escriptores brazileiros, a quem devo a

fineza de m'os enviarem a esta região de getas.

Os IDYLLIOS do snr. doutor Caetano Felgueiras. As TETÈYAS, em prosa do

mesmo poeta. Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. J. C. da Gama e Abreu

(1.º tomo). O PANTHEON MARANHENSE (1.º tomo). SCIENCIAS E LETRAS.

APONTAMENTOS PARA A HISTORIA DOS JESUITAS NO BRAZIL (1.º tomo). As tres

ultimas obras são do mesmo author, o snr. dr. Antonio Henriques Leal.

Ha annos que o snr. Felgueiras me enviou a sua EPISTOLA _a Machado de

Assis_. Era a revelação de um espirito antigo no affecto ás maviosas

cousas do campo. Versos que recendem o tomilho e a madre-silva. Desenhos

correctos da corporatura gigante das arvores americanas. Rumorejos dos

meandros que serpejam na tige das boninas. O estridor das cascatas que

ruem estrepitosas. A suavidade dos jardins. O verde das arvores, e os

pomos a lourejal-as. E, depois, o espirito da alegria no sorriso da paz

a colher as bençãos que Deus cruza por sobre as almas modestas que se

alam até Elle, desde o estrado de seus pés, desde as magnificencias da

terra até aos estrellados silencios do céo. Esta formosa poesia vem

entre os IDYLLIOS, que se lhes irmanam na alteza do pensamento e no

primor da phrase.

Não me agradam por igual as suas prosas (TETÈYAS). Sobram ahi arabescos

de linguagem: muito rendilhado, muita filagrana, que enreda a idéa, e

accusa o escopo muito moroso de Cellini. Sei que o snr. J. de Alencar

tem dado o exemplo d'este esmerilhar da phrase, que, a meia volta, se

desaira no amaneirado. Isto não é pobreza da lingua: é um luxo vicioso

da abundancia. Augmentemos, porém, quanto ser possa o concurso dos que

nos percebam, e imaginemos sempre que até os mais cultos nos agradecem a

simplicidade de Luiz de Sousa, o nitido puritanismo dos Castilhos, e a

correcção chã, sem plebeismo, de Teixeira de Vasconcellos.

Os APONTAMENTOS DE VIAGEM do snr. Gama e Abreu é um livro muito bem

escripto, com resaltos de humorismo discreto, graça anecdotica a

interpôr-se nos usuaes fastios das descripções de viagens; apreciações

de Portugal na maior parte benevolas, e, por excepção, reparaveis; a

França e as suas recentes desventuras atiladamente compendiadas em

poucas paginas, que se revalidam com bem cabidas noticias historicas. É

um livro de cunho moderno, com o superior quilate da despretenção, sem

desvanecimento, por onde se nos antolha optima lição, bom discernimento,

critica despreoccupada, lhaneza de apreciação, e excellentes

predicamentos de espirito. Os subsequentes volumes hão de corresponder

ao titulo que amplia as viagens desde o _Amazonas ao Sena_, _Nilo_,

_Bosphoro_ e _Danubio_.

O PANTHEON MARANHENSE, do snr. dr. Henriques Leal, como do titulo se

transluz, é um selecto feixe de biographias de homens, que se

illustraram no Maranhão, por prendas da intelligencia. Este livro é

tanto mais de estimar entre portuguezes quanto nós andamos arredados da

convivencia de escriptores brasileiros. O snr. Leal, que reside em

Lisboa, ha annos, é o escriptor a quem os seus conterraneos mais devem

no pregão incessante das eminencias intellectuaes do Brazil. É vêr o

esplendido, e, ainda mal, que incompleto, vestibulo que elle erigiu como

entrada para as obras completas de Gonçalves Dias, o portentoso poeta, o

prosador inviolavel na pureza da dicção.

Larga resenha da litteratura brazileira nos dá o snr. Leal no seu livro

intitulado LOCUBRAÇÕES. Ahi se queixa judiciosamente das graves

iniquidades com que alguns syndicos, sem legitima alçada na critica,

desdenham dos escriptores brazileiros, não lhes sabendo sequer o nome de

baptismo. Que quer o illustre escriptor? A necedade impa de petulancia.

A barateza dos prelos, a profusão dos periodicos e a mingua de

escriptores escorreitos abriram praça a todo o adventicio, tanto monta

que elle proceda das covas de Salamanca como do café da Aurea. Gonçalves

Dias, apoucado pela ignara bitola de um zoilo vêsgo, tem dous

monumentos: um de marmore na sua patria, outro nos livros que são

d'ella, que são nossos, que os temos na memoria do coração desde a

mocidade. Mas a nossa mocidade era tão amoravel com os seus

contemporaneos, quanto respeitosa com os antepassados. Nós não

ousariamos descrêr dos mestres, e desacatar-lhes as cãs aureoladas sem

que o longo estudo, sem que a consciencia nos désse a intima certeza de

que não eramos tão nescios e tão ignorantes quanto hoje se faz mister

para abrir barraca de mordacidades, mascaradas em critica.

Derivemos d'este mau trilho para as placidas e serenas regiões do livro

chamado APONTAMENTOS para a historia dos jesuitas no Brazil.

N'este complexo de rapidas biographias, narrativas, e, esclarecida

analyse das chronicas da companhia de Jesus, e onde a fórma, a execução

e o castiço da linguagem se aprimoram mais, de envolta com a riqueza das

noticias históricas. É trabalho de mão experimentada, de consulta

detençosa, e juizo muito attento. Quando o tomo 2.º me vier satisfazer o

desejo de o lêr, formarei mais dilatado e completo conceito d'esta

importante publicação do abalizado escriptor.

ÁCERCA DE JOAQUIM 2.º

(RESPOSTA A UMA CARTA)

A carta, a que respondo, veio do Porto. E o periodo respondido reza

assim:

_.....Asseveram-me que o teu Plutarco, annunciado na ACTUALIDADE, é o

Joaquim de Vasconcellos, que tem batido á porta dos teus antigos

inimigos, pedindo factos e calumnias para urdir a tua biographia. Se

isto é tão verdade como é verdadeira a pessoa que m'o afiançou,

prepara-te para desprezar a affronta, e veste arnez de aço que rebata o

ferro do couce. Alguem lhe perguntou que motivo teve para te provocar;

respondeu que apenas te conhecia de vista; eu, porém, se a memoria me

não falha já te ouvi dizer que este Joaquim de Vasconcellos foi teu

hospede em S. Miguel de Seide, etc._

RESPOSTA

Tens boa memoria. Joaquim de Vasconcellos foi meu hospede em S. Miguel

de Seide; mas procedeu honradamente, e logo te direi a razão que tenho

para te affirmar que se houve briosamente na hospedagem que lhe dei.

Foi assim o grão caso. Um dia, no anno do 1870, me escreveu de Guimarães

o maestro Francisco de Sá Noronha, prevenindo-me que viria a S. Miguel

de Seide apresentar-me um seu amigo de grande talento, notavel theorista

musical, educado em Allemanha, e litterato de muitas esperanças.

Alvoroçou-me a noticia, tanto pela visita do celebre violinista, como

pela apresentação de um moço prendado das bellas cousas do coração e do

espirito, que todas brotam de seu onde o amor das amenidades litterarias

e das deleitações da harmonia lhes aquece os germens.

Em uma alegre manhã de julho chegaram os snrs. Noronha, e Vasconcellos a

esta casinha, á volta da qual os sylphos da poesia borboleteam, desde

que o visconde de Castilho e Thomaz Ribeiro por aqui estiveram.

Recebi o snr. Joaquim de Vasconcellos com quanta cordealidade e lhaneza

cabia nas minhas posses de aldeão. Dei-lhe o lugar de honra na minha

mesa. Ouvi-lhe attenciosamente por espaço de dez horas as suas idéas

republicanas, sem lh'as impugnar, e as suas theorias sobre musica sem

lh'as perceber, e os seus dislates em litteratura sem lh'os contrariar.

Ao cahir da tarde, o snr. Vasconcellos, que não podia demorar-se, fez-me

o obsequio de aceitar o meu cavallo, que teve a honra de o levar á

estrada do Porto. Ao despedir-se de mim, o meu affavel hospede

abraçou-me com effusão de vehementissimo jubilo por me haver conhecido e

devido alegres horas tão rapidamente passadas.

Devolveu-se um anno, sem que eu tornasse a vêr o snr. Vasconcellos; não

obstante, a imagem d'este cavalheiro, uma vez por outra, acudia ás

minhas reminiscencias d'aquelle dia tão litterario, tão cheio de

palavras, de systemas, em fim, de mutuas promessas, que me faziam

esperar d'aquelle moço alguma cousa menos cruel que um inimigo.

Eis que o snr. Vasconcellos dá á luz um livro de critica á versão do

_Fausto_, pelo snr. visconde de Castilho; e, ainda antes de o lêr, já eu

sabia que o meu hospede tão graciosamente recebido, me insultava como

escriptor e como homem, enxovalhando-me com vilipendiosas aleivosias,

como se não bastasse ao seu injusto rancor malsinar-me de ignorante.

Aqui tens, meu caro amigo, repetido o assignalado successo do advento do

snr. Vasconcellos a esta quinta de Seide.

Como elle está escrevendo os escandalos da minha vida, que naturalmente

veio espionar quando cá entrou, bom seria que elle dissesse que ca tenho

grandes infamias na minha historia lendaria, e uma das mais graúdas foi

recebel-o em minha casa.

Falta-me explicar-te onde está o procedimento honroso do snr.

Vasconcellos na hospedagem que lhe dei. Está no seguinte: quando elle

sahiu da minha mesa, contaram-se as colheres de prata, e não faltava

nenhuma! Honra lhe seja!

Teu do coração,

_Etc._

_P. S._ Se o snr. Joaquim de Vasconcellos, depois da publicação d'esta

carta, entender que me deve pagar o aluguer da cavalgadura, o almoço e o

jantar, authoriso a thesoureira das Velhas do Camarão a receber a

importancia, e passar recibo.

ESTUPIDO E INFAME

(Á _ACTUALIDADE_)

Alguns rapazes sem habilidade, nem estudo que lhes supprisse a

incapacidade do engenho, appareceram ahi a pinchar na vaza das letras

como sapos de lameiro em tarde trovejada de julho. O mais sapo nas

_verdes podridões_, consoante o phrasear colorido do snr. Guerra

Junqueiro, é este marau da _Actualidade_.

Veio de Lisboa assoldadado para a imprensa do Porto, em serviço de um

ignobil aventureiro. Pôz o seu pulso á disposição do estomago, e aviltou

a probidade de homem no começo da vida publica, prestando-se a dar

vaias,--_piadas_ no calão fadista do birbante que o estipendía--a

pessoas que pareciam respeital-o com o seu desprezo silencioso.

Fui eu, desde muito, insultado em livros e folhetos por este gandaieiro

da vadiagem lisboeta. Perguntei um dia quem era o enxovêdo, e que razões

lhe teria eu dado para não perder lanço de me offender. Responderam-me

que era um dos Báthylos do Joaquim Theophilo; e que um dia, o sordido

Anachreonte, que poetára amores de Gomorrha na _Visão dos tempos_,

desembuçára-se da mascarrada chlamyde, e dera á luz este safado _pinto_

que sahiu grôlo do ovo.

Já sabem d'onde elle vem.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12) · 第 3 / 4 段