Nazareth, jogára com elle a bilharda nas pontas das botas em pleno
café-Martinho; de modo que nenhuma pessoa medianamente briosa póde hoje
roçar-lhe na cara a palma de uma luva. A parte, portanto, que
porvindouramente me houvesse de caber em despiques de pundonor,
essa--aviso á _Actualidade_--pertence á alçada do meu gallego.
Não sei se o publico portuense tem reparado que os seus bons escriptores
ou morrem ou fogem. O visconde de Benalcanfor, Ricardo Guimarães,
aquelle florido talento que disputou a Lopes de Mendonça as galanterias
do folhetim;--Ramalho Ortigão, o prosador elegantissimo, o fidalgo da
graça senhoril, a revelação mais assignalada que ainda tivemos do
espirito francez;--Alberto Pimentel, a quem se estão desentranhando em
fino ouro os minerios mais copiosos da vernaculidade; Sousa Viterbo,
dulcissimo poeta e prosador correcto, estes, que seriam para o Porto
bastantes padrões de sua litteratura, passaram para Lisboa;--e Silva
Pinto, a escoria da cainçada litterateira de Lisboa, baldeou-se no
Porto.
É sorte funesta!
Entra o homem na fiscalisação de uma sentina jornalistica; e, apenas me
vê a sombra na pagina de um livro, insulta-me. Lanço mão do ferro,
carmeio-lhe parte da lã, almofaço-lhe a carepa, e deixo-o. O leitor das
_Noites_ bem viu. Mostrei ao insolente que não sabia portuguez nem
francez; que não estava na plana dos criticos; que a sua ignorancia, com
alguma modestia, poderia grangear a caridade publica; emfim, este
sentimento da compaixão ia manietar-me, quando elle, sacudindo o aziar,
volveu a espojar-se-me na testada da casa.
O desgraçado resvalou á ignominia. Como não teve que redarguir contra as
lagantadas litterarias que lhe verberei á ignorancia, ameaça-me com
devassar os actos da minha vida particular. São-lhe franqueados os
umbraes da minha vida. Póde entrar o infame.
Ahi está o homem que denigre e deshonra as pugnas litterarias.
Estrangulado pela critica severa, resfolegará ainda pela vilta da
calumnia.
Veja-se o n.º 94 da _Actualidade_.
Ao mesmo passo (leia _trote_) que me insulta, espolia-me o ratoneiro.
Cotejemos, e veja-se que até lhe escasseia o brio para se desforçar com
palavras de lavra sua. Em um folhetim meu, intitulado a _Corôa de ouro_,
publicado em 1872, escrevêra eu as seguintes linhas:... _Uns taes cujo
nome infame ha de sobreviver ás producções gafadas, e cuja probidade é
tão sómente a necessaria para não serem enforcados, como dizia
Molière... Os magarefes da carne putrida que lhes sobeja nas alcovas..._
E vai elle, o _escroc_ litterario, com pouca alteração, como o leitor
ahi viu, faz suas, assignalando-as em grypho para lhes imprimir energia,
essas mesmas phrases.
Este bargante, se um dia vier a ganhar a vida esfaqueando a gente, rouba
primeiro a navalha á victima. Lacénaire foi muito mais intelligente e
honrado: era melhor escriptor, e comprava as facas com que escrevia as
suas locaes no redenho do proximo. E Pasquino, quando injuriava, era com
palavras proprias.
Supponhamos, porém, que o traste é originalmente insultador. Que motivos
lhe dei para o insulto? Dissera-lhe eu que elle estupidamente chamára
_trilogia_ a tres comicos. E defendeu-se elle d'essa arguição, que era o
ponto da contenda?
Veja o leitor a defeza. Primeiramente attribue a erro do typographo a
bestidade. Que villão! Se o artista, que lhe compôz o artigo, tivesse
bastante dignidade ou independencia, devia desfazer-lhe o original na
cara. Eu de mim creio que na officina da _Actualidade_ não ha typographo
tão soez como o gamenho que a redige.
Depois (veja o leitor a meio da columna) nega que houvesse escripto a
noticia como eu a interpretára. E escreve que eu _alludira ao seguinte
periodo de uma local_ do seu n.º 28: _Estão em scena Robespierre, Marat
e Danton, a trilogia collossal_ (com tres _ll_.--Nem orthographia!)
E acrescenta:
_O chapado ignorante que só serve para fabricar descomposturas, não
percebeu o porquê da trilogia applicada aos tres nomes que representam
tres quadros distinctos da_ tragedia _da Revolução.»_
Nega, pois, que chamasse _trilogia_ aos tres artistas; e o leitor mais
ou menos desmemoriado, ou indeciso a respeito da lealdade da minha
critica, fica talvez imaginando que eu distendêra iniquamente as orelhas
elasticas da besta, calumniando-a.
Ah! não. Eu vou dar á respeitavel opinião publica o fiel traslado da
asneira em litigio.
«Actualidade» _n.º 51 de 7 de abril de 1874._
«BAQUET.--_Corre que estão escripturados, ou que vão sel-o, n'aquelle
theatro os actores Polla e Pinto de Campos, e actriz Maria das Dôres, de
Lisboa._
«_É uma esplendida acquisição para aquelle theatro a da TRILOGIA que
acima fica. Agouramos bellas noites ao publico e á empresa._»
Que faz o leitor depois que leu isto? Vai extrahir da propria noticia
uma palavra composta de duas syllabas. É um passatempo que tem seu tanto
ou quê de philologico. Procuremos as duas palavras com pachorra, visto
que a temos para as charadas novissimas. Eu ponho em versaletes as
syllabas quando fôr tempo. Vamos lá: «É uma esplendida acquisição (diz
elle) para aquelle theatro a trilogia que acima fiCA. AGOUramos _etc._»
O publico depois de compor a torpissima palavra, entendeu mentalmente, e
de si comsigo, que o escriptor previa o que o leitor lhe faria na
reputação.
Agora, canalha! levanta-te d'ahi, e senta-te n'uma tripeça! Antes que
faças da penna faca de sicario, converte-a em sovella.
E tu, divino Apollo, que uma vez escorchaste Marcyas, permitte que eu te
deponha nas aras este fétidissimo bode esfolado.
CARTA AO SNR. CONSELHEIRO VIALE
_Ill.mo e exc.mo snr._
Não sei se v. exc.ª é assignante d'estas NOITES DE INSOMNIA. A certeza
affirmativa ser-me-hia por tanta maneira estimulo de desvanecimento que
eu não ouso preluzir-me a hypothese de que v. exc.ª contribue com dous
tostões para a minha gloria. Quero antes, absorvendo as fumaças da
vaidade, prefigurar-me que v. exc.ª nunca se apoucou até ás futilidades
dos meus livros. Na modesta conjectura, pois, de que estes folhetos lhe
são menos conhecidos que as lyricas ineditas de Amphião, filho de
Jupiter e Antiope, afouto-me até á temeridade de enviar-lhe este n.º 6
das _Noites_, solicitando da sua cortezia a graça de m'o lêr desde
paginas 88 até paginas 94.
O bode que eu ahi offereço a Apollo, á imitação do _cultrarius_ dos
sacrificios antigos, chama-se fulano de Silva Pinto, e diz que foi
discipulo de v. exc.ª em historia antiga, depois de ter escripto que uma
actriz e dous actores eram uma _trilogia_.
Tenho a honra, exc.mo snr., de trasladar, para escarmento de tão erudito
professor, as textuaes palavras d'este seu discipulo, estampadas no n.º
94 da _Actualidade_: ..._Nós merecemos a honra de obter do professor
Viale officiaes informações em aula de litteratura antiga._
Realmente, snr. conselheiro, este sujeito foi discipulo de v. exc.ª em
historia antiga? No caso affirmativo, deu-lhe v. exc.ª a tal citada
honra de o informar officialmente?
É de esperar que v. exc.ª me não responda; todavia ouso pedir-lhe que ao
menos se digne indicar-me como devo interpretar o seu silencio; a não
querer v. exc.ª antes, em carta confidencial ao seu discipulo, dizer-lhe
em grego: +chelenô pinein+ ao mesmo tempo que eu cá lh'o digo a
elle em portuguez.
Ponho á disposição de v. exc.ª a minha ignorancia com as informações
officiaes de que sou digno, e a relevante bravura com que entro ao circo
qual outro _bestiarius_ (+thêriomáchês+), a arcar com esta besta-fera
que sahiu da escola que v. exc.ª tão vantajosamente rege.
De v. exc.ª
Ill.mo e exc.mo snr. conselheiro Antonio José Viale
devoto humilimo e derreado admirador
_Etc._
QUINTA-ESSENCIA DE MALANDRIM
(Á _ACTUALIDADE_)
Trata-se de Silva Pinto.
Este pifio e latrinario jornaleiro da _Actualidade_, escreveu, no dia
11, que eu pedira que me apresentassem a Castellar, no theatro.
No dia 16 e 17, publicaram o _Commercio do Porto_ e o _Primeiro de
Janeiro_ a seguinte correspondencia:
DECLARAÇÃO
Constando ao snr. Camillo Castello Branco que uma local inserta na
_Actualidade_, de 11 do corrente, com a epigraphe--Elle--se refere á
entrevista que o referido senhor teve com o snr. Emilio Castellar no
theatro do Principe Real, d'esta cidade, na qual se inverte a
verdade dos factos, apressamo-nos, como testemunhas presenciaes, a
declarar com toda a imparcialidade como as cousas se passaram.
Achando-nos n'um dos intervallos do espectaculo em companhia do snr.
Camillo Castello Branco, junto á varanda que separa a orchestra da
plateia, appareceu alli o snr. D. Marcos Arguelles a convidar o snr.
Camillo para uma entrevista com o notavel orador, o snr. Castellar.
O snr. Camillo, depois de agradecer as attenções do snr. D. Marcos,
pediu-lhe escusa, apresentando para isso algumas razões muito dignas
e a circumstancia de não estar n'aquelle momento com um vestuario
proprio para uma tal apresentação. O snr. D. Marcos continuou,
porém, a insistir e, como o snr. Camillo persistisse na sua recusa,
disse-lhe por ultimo que, se era preciso, ia chamar o consul
hespanhol para o convidar, e que o snr. Castellar já estava no salão
á sua espera para o comprimentar. Foi então que o snr. Camillo se
resolveu a aceitar o convite do snr. D. Marcos.
Eis aqui a narração fiel de tudo quanto alli se passou, com relação
a este facto e que está em completa contradicção com a local da
_Actualidade_, se com effeito o que n'ella se affirma, se refere ao
snr. Camillo Castello Branco.
Porto, 15 de junho de 1874.
_João Pereira d'Albuquerque._
_Antonio Nicolau d'Almeida Junior._
Ahi fica o perfil do mariola, e a torpe vida que se vive n'aquella
gazeta.
No dia seguinte, a _Actualidade_ injuriava a probidade d'essas duas
assignaturas que me honraram com o seu testemunho.
Já ouvi dizer a certas pessoas incautas que este Silva era um bom
rapazinho, forçado pela fome a rabiscar diffamações.
Não póde ter bondade quem, de animo frio, divulga aleivosias: o mais que
póde ter é fome.
Desista o snr. Silva de trocar calumnias por meios-bifes, que eu lhe
prometto obter-lhe entrada no asylo dos _Garotos desamparados_; e, desde
já, escrevo ao snr. David, da rua de Santo Antonio, para que o vista de
novo; e, pois que a sua hyndiocrasia é o couce, recommendarei que lhe
deixe bem folgada a retranca.
FIM DO 6.º NUMERO
Nota de transcrição:
As palavras rodeadas pelos sinais + + estão em grego no original.
Nesta versão electrónica não é possível representar os caracteres gregos
pelo que as palavras foram substituídas pela transliteração para
caracteres latinos.