«Alumiemos o tugurio do proletario, levemos a luz da instrucção até ao

antro mais recondito da desgraça.

«Que as ondas de luz se diffundam, emittidas pelas ultimas classes

sociaes. Todos os despotismos fugirão espavoridos, porque são elles, na

sua pueril tyrannia e oppressâo teimosa, os escravos das ridiculas e

insustentaveis tradições de épocas que passaram.

«Interroguemos o seculo.

«Perguntemos aos democratas: quem sois?

«Somos milhares de familias, menos algumas--a classe media, e a

nobreza--que queremos um regimen de igualdade, em que honradamente

possamos viver do fructo do nosso suor, sem olhar com inveja nem

despeito para o patrimonio de ninguem. Vós, as classes privilegiadas,

vós, que vos dizeis distinctos pela casta, pela raça, pelos nomes que

sabeis de vossos avós, tendes arvores genealogicas, e apresentaes-nos

pergaminhos carcomidos pelos seculos.

«Nascemos nós hontem por acaso?

«Vimos de tão longe como vós. Dizeis-vos catholicos por

excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crença, a origem

de todos nós. Os nossos brazões não datam de nenhum salteador afamado,

que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria,

pelos seus feitos e façanhas, a pena de prisão cellular ou de degredo

para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza não os devemos a

complacencias cortezãs, nem á officiosidade torpe e obscena de alguns

avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a

alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que não sabiam, nem sabem

resistir á lascivia e impudicicia dos reis. Não foi nos prostibulos, nem

nas encruzilhadas, que calçaram os nossos avós as suas esporas de ouro.

Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem

de mais longe os nossos brazões, e estão gravados, por fórma indelevel,

na superficie do globo.

«Quereis vêl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos,

datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que

descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que

desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho,

as vastas solidões do oceano.

«Fomos nós que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto,

n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a

palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: _ut operaretur eum_.

«Se os céos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o

firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que é a

nossa obra--narra a nossa propria gloria.

«Fomos nós que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos,

aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas,

rolaram pela vastidão das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua

propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se

cruzam, e estendem por toda a amplidão da esphera terrestre. Fomos nós

que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus

inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. Não ha flôr, que desabroche

nos campos, não ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastidão da

cultivada leziria, não ha fio de linho, nem de algodão, nem de sêda, não

ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, não ha pedaço de pedra,

prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que não

conserve o cunho das nossas mãos, e o perfume do nosso amor. Sim, o

perfume do nosso amor--porque o trabalho é a oração--e o perfume do

nosso amor é o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas

ao Eterno.

«Subi da galeria subterranea das minas até á cupula das sumptuosas

basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das

elegantes capitaes da civilisação moderna e devassai as praias selvagens

mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do

povo: _a democracia_.

«Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra

laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o

segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio;

o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e

boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda,

empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os

artefactos da creação humana; e o commerciante, que leva e faz circular

em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da

terra, e os productos das mais variadas industrias.

«Nós somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive

soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvão, que alimenta a

machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o

ferro; o carpinteiro, que aperfeiçoa e adelgaça a viga; o pedreiro, que

abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que

estende na roca a estriga de linho; o tecelão, que faz o panno,

transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites

sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares,

levando bem alto o pavilhão, que é o emblema d'um povo, e o estandarte

sacrosanto do seu paiz.

«Nós somos tudo. O nosso nome é _legião_.

«Somos nós, que nutrimos, vestimos, e abrigamos a humanidade, e que lhe

damos a paz, a abundancia, o repouso moral, e a tranquillidade publica.

As artes, que alindam, e encantam a vida, as letras, que robustecem,

desenvolvem, e fortificam a alma, as sciencias, que a illuminam, e

esclarecem, somos nós, que as cultivamos, que as honramos, e

desenvolvemos. Quaudo fallamos, quando reivindicamos os nossos direitos

é sempre pela voz dos nossos apostolos.

«Temos tido guerreiros para vencerem, poetas para cantarem as nossas

fadigas, e as alegrias modestas do nosso lar, e artistas para

commemorarem os nossos heroismos no trabalho, e esculpirem, no bronze,

as imagens dos grandes inventores.

«Temos tido operarios, para crearem machinas maravilhosas, e astronomos

para nos narrarem as maravilhas dos céos, devassando os esplendores e

magnificencias do universo. As lentes, preparadas por nós, teem-nos

feito conhecer, pelo telescopio, os globos luminosos que giram no

espaço, e teem descido comnosco, pelo microscopio, aos mundos

infinitamente pequenos.

«Os raros talentos d'essas ociosas, e rachiticas aristocracias, d'essas

estereis, e inuteis classes privilegiadas, quando lhes estala a ultima

corda da lyra, nas tristes estrophes das suas sinistras e tenebrosas

lendas de familia, vem sentar-se na lareira do povo, e buscar ahi as

harmonias mais sonoras, mais suaves, e mais duradouras--as unicas que

hão de achar echo nos seculos do futuro--as lutas incessantes, pelo

progresso, em que lida a geração actual. A sua derradeira canção é para

o povo: o canto do cysne é o hymno da democracia.

«Nós somos a arvore gigante e immensa da humanidade, com as raizes

perdidas nos limbos do passado, com o tronco vigoroso, que resiste aos

embates dos tempos, com os festões de flôres que desabrocham, e

emmurchecem passando, e com os fructos sazonados do presente, na

esperança das odoríferas flôres, que, com o seu calix radiante de vida,

hão de perfumar o espaço no futuro.

«Eis-aqui a democracia.

«E quem são os seus adversários junto d'esta frondosa e copada arvore da

humanidade?

«São os cogumelos parasitas e venenosos, que vegetam á sombra d'este

cedro magestoso e secular.

«Os privilegios e as castas são o absurdo, são a torpeza dos costumes,

são o desconhecimento completo do seculo que atrevessamos, são as

tristes relíquias das épocas feudaes, são os distinctos das ridículas

nobiliarchias byzantinas, são a ignorancia e o odio ao trabalho, são,

finalmente, a protecção dada em premio, por feitos e acções, que, as

mais das vezes, tem sido um poderoso obstaculo ao progresso, e á

civilisação da humanidade.

«As recompensas, as glorificações, e as apotheoses, quando justas,

quando bem merecidas, quando conquistadas pela aptidão, pela sciencia,

pela arte, pela industria, pela propria virtude ou pelas grandes

dedicações, são vitalicias, e passam á posteridade com o nome que se

engrandeceu, e vem a historia esculpil-o nos marmores dos seus fastos.

«A democracia, como hereditario, só reconhece um direito, um dever, e

uma nobilitação para o homem: é o trabalho.

«É absolutamente necessario que se contem todos os partidarios sinceros

e leaes da justiça, e que pela palavra, pelo livro, e pelo exemplo,

arrastem os indecisos, e abandonem o restante--os poderosos do

dia--aquelles, que não aprendem, nem esquecem nada.

«Attendam a que chegou a hora, em que a menor hesitação, a menor duvida,

o menor passo irreflectido, ou a mais timida concessão, podem fazer

recuar, para muito longe, o reinado da justiça--o governo do povo pelo

povo.

«E povo somos nós todos, que vivemos debaixo do mesmo céo, sujeitos ás

mesmas leis, e que exercemos, na sociedade, funcções e misteres

diversos, mas igualmente uteis e necessarios.

«Hoje, ha uma só nobilitação: é o trabalho.

«Trabalhemos todos para a revolução nos espiritos--porque concorremos

para o advento da verdadeira liberdade, para o governo da justiça

social, e para a emancipação da humanidade.

«E assim realisaremos a democracia.»

* * * * *

Terminava aqui o papel, escripto pelo ancião, condecorado em Souto-Redondo.

O MANUSCRIPTO DO DESEMBARGADOR

IV

CARTHAGO

Cæturum, censeo Carthaginem esse delendam.

MARCUS PORTIUS CATO.

L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice.

LAMARTINE.

A philanthropia ingleza é puramente mercantil, assim como o são

todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se não

conformam com os seus interesses.

FREIRE DE CARVALHO.

Na deslumbrante e magnificente descripção da aurora biblica do nosso

globo, diz o Genesis, que o Espirito de Deus era levado sobre as aguas:

_Et Spiritus Dei ferebatur super aquas_.

Parece que a magestade divina escolhera este elemento, na sua esplendida

grandeza, para encetar a obra da creação.

Seja assim n'este modesto trabalho.

Busquemos os primeiros salões do nosso seculo nas solidões immensas do

oceano. E a Carthago moderna, a nobre e fiel alliada de Portugal, á luz

sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao clarão

avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congréve, ensaiados no

acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-ha o Bellérophon, o

Windsor Castle, e o Belfast, tres salões em que a fé punica da

Grã-Bretanha se expandiu, no seio das ondas, á sombra das suas

flammulas, que são a divisa dos bastardos da raça latina.

Ha duas infancias na vida: a juvenil, e a senil. Perdoem ao homem, que

já vê a sombra projectada na beira do fosso da sua ultima jazida, estes

echos longinquos, que vem ferir-lhe o tympano nas vesperas da sua

dissolução physica.

Convém que nos entendamos:

A Carthago na designação latina, a Karkhédôn no vocabulo grego, a

Kereth-hadeshot ou em pronunciação dialectica Karth-hadtha, segundo os

termos punicos e phenicios, finalmente a cidade nova pela traducção e

tradição da capital carthagineza significa, para mim, na actualidade, a

futura ruina da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoista

Albion. E nada mais.

Deixemos passar as correntes historicas.

A analyse verdadeira, justa e consciente d'uma sã e severa critica atira

ás faces dos romanos com esse ignominioso epitheto de _fé punica_, que

só a elles cabe na antiguidade das ambições latinas, e no ardiloso

espirito dos Machiaveis da Italia, transmittido até ao ultimo papa. E a

mais ninguem.

Desde Romulo até Antonelli são vastas as concepções de perfidia,

erguidas, a principio, no capitolio, para ficarem mais tarde, como

tradição e doutrina, nos salões do vaticano.

Havia um dia em Roma, em que, ao commemorar o supplicio e resurreição de

Christo, subia ás sumptuosas varandas da basilica de S. Pedro o

escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incendio, o emblema do

inferno á praça publica, anathematisava os herejes, e invocava sobre

elles a colera do Eterno.

Era a fé punica, na singela e curta interpretação de Scipião o Africano.

A igreja catholica, na ingenuidade d'estas crenças ferozes, segue as

tradições latinas, e a innocencia virginal de Scyla, de Mario, de Nero,

de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos, e de todos os Simões de

Monforte, e de todos os Torquemadas da religião do operario nazareno.

Olhemos para Carthago.

Vejamos o que era a fé punica.

A cidade phenicia assombrava Roma. Dobrava-se, porém, aquella diante do

orgulho da cidade de Romulo. Curvava-se submissa a raça semitica na

presença do povo indo-europeu. Carthago sujeitára-se á dura condição de

não defender os seus direitos, nem a sua propria independencia sem

authorisação de Roma. Aproveitou-se Massinissa, principe da Numidia,

d'este abjecto e humilissimo pacto, para avassallar o emporio das

riquezas d'Africa;--e quando a commissão, enviada pelo senado, voltava

ao Lacio, depois de ter fomentado e atiçado a discordia, Catão--no seu

odio implacavel, e cego pela torpe e abjecta cubiça, que o movia,

terminava constantemente os seus discursos com a celebre phrase, que

revelava toda a negrura d'aquella alma: «E de mais é preciso destruir

Carthago»--_Delenda quoque Carthago_.

E quando Carthago, confiando na lealdade romana, entregava e depunha

todas as suas armas e machinas de guerra, ficando indefesa, e

inerme--agradecia-lh'o com a mais hypocrita e pungente das ironias, o

consul Marcio Censorino, dizendo aos carthaginezes: «Louvo-vos pela

vossa prompta obediencia em cumprir as ordens do senado. Sabei agora a

sua ultima vontade: manda-vos sahir de Carthago porque resolveu

destruil-a.»

E mais tarde--ardia dezesete dias a cidade nova dos phenicios, por ordem

expressa do senado, e, na voragem e horror do incendio, saqueava a

soldadesca infrene as immensas riquezas, que sete seculos alli tinham

accumulado.

A fé punica é uma calumnia historica, inventada pelos romanos, cujo odio

e ciume, sem repouso nem tregoa, sobreviveram á carnificina mais cruel e

hedionda de que rezam as chronicas e lendas da antiguidade.

Aceitemos, pois, Carthago como a imagem do aniquilamento, e da

destruição.

Seja a fé punica, na inversão da phrase, o estigma e ferrete da lealdade

latina.

A Grã-Bretanha será a Carthago do futuro, como é, na sua machiavelica e

perfida politica, a Roma do passado, do presente e do porvir.

Alliança e alliados, na bocca de qualquer governo inglez, diz um

escriptor liberal, quando não são palavras enganadoras, são, pelo menos,

palavras sem sentido.

Sem sahirmos do seculo XIX, desde o porto da capital da Dinamarca até ás

muralhas de Metz e trincheiras de Sédan, são longas e monstruosas as

provas da fé britannica, e da lealdade ingleza. Hudson Lowe, o

carcereiro do Prometheo moderno--imagem do abutre roendo-lhe as

entranhas nos rochedos de Santa Helena, será a ignominia e affronta

eternas dos algozes da Irlanda.

Estamos nas amuradas de Bellérophon.

Entremos no convez.

Antes do desenlace final d'esta tragedia antiga, que parece modelada por

Sophocles ou Euripides--escrevia Napoleão ao principe regente de

Inglaterra a seguinte carta:

«Alteza Real.

«Alvo das facções, que dividem o meu paiz, e da inimizade das grandes

potencias da Europa, acabei a minha vida publica, e, á semelhança de

Temistocles, venho sentar-me no lar do povo britannico. Abrigo-me á

sombra das suas leis, e para isso invoco vossa alteza real, como o mais

poderoso, o mais constante, e o mais generoso dos meus inimigos.

«_Napoleão._»

Responder com um asylo magnanimo, e grandioso a esta invocação escripta,

teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganças, e a pagina mais

magestosa da sua historia.

Irrisoria illusão! A orgulhosa Albion não vive de gloria: vive de

dinheiro. Quem deixou mutilar a Polonia, quem escravisou a India, quem

fomentou a guerra civil nos Estados-Unidos, quem viu impassivel as

desgraças da França, e quem subjuga, pisa, e tortura a Irlanda, escolheu

adrede os leopardos, para insignia e emblema heraldico dos seus armazens

da _city_. A Inglaterra é a feira da Ladra da Europa. Seja assim para

honra da raça latina, onde não ha filhos espurios dos chatins do

Oriente.

Napoleão vestiu aquella farda dos caçadores da velha guarda, como se

estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker, e

com os legionarios dedicados da sua heroica Iliada, n'um escaler--ultimo

refugio das suas glorias--e subiu para o brigue francez, que ia leval-o

á esquadra ingleza. Becker quiz acompanhal-o n'esta via dolorosa. «Não,

não, general, bradou-lhe o vencedor de Arcoli, cuidemos da França. Se

entrardes commigo no Bellérophon dirão que me entregastes aos inglezes.

Não quero que a França soffra a responsabilidade, a suspeita, e nem

sequer a apparencia d'uma traição tamanha.

A bordo do Bellérophon estava o commandante Maitlaud, os seus officiaes,

e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava

na bahia de Plymooth o Bellérophon ás ordens do almirante Keith, que o

recebeu com o respeito obrigado com que o visitára a bordo d'um pontão

inglez o almirante Hotham.

A Inglaterra aceitou a affronta e o escarneo das potencias alliadas.

Disseram-lhe estas no artigo 2.º da sua famosa declaração: «A prisão de

Napoleão Bonaparte é confiada especialmente ao governo britannico.»

Foi a Inglaterra o carcere, foi o traidor, e foi o algoz.

Aceitou tres papeis infames.

Entregou á Europa o banido, que lhe vinha pedir refugio e hospitalidade,

investiu-se na missão execranda de carcereiro, e gizou, com a sua fertil

imaginação, o carcere da aguia da Corsega, o antro onde ia sepultar o

genio das batalhas.

Cuspam na memoria, em parte talvez calumniosa, de Judas de Kerioth, no

drama sanguento de Jerusalem, e respeitem e curvem-se reverentes diante

dos suffetas da Carthago britannica.

Arrancaram-lhe a espada epica das cem batalhas, quando elle, abandonado

e indefeso, meditava encostado á proa do seu carcere fluctuante--e foi

preciso, que o genro do imperador da Austria, o antigo tenente de

Toulon, os encarasse face a face, para que os almirantes da velha Albion

estremecessem de vergonha, e corassem de pejo, satisfazendo-se, no seu

vil orgulho, com as adagas de Bertrand, Savary, Lallemand, Gourgand, e

de todos os outros legionarios d'esta phalange homerica.

Napoleão não sabia chorar. Passou impassivel por sobre quatrocentos mil

homens, que juncavam os gelos da Russia. Viu immovel os desastres de

Leipsick. Escutou silencioso, em Fontainebleau, o ruido surdo da

catastrophe quando o imperio desabava. Afastou-se de Waterloo sereno,

implacavel e severo como o destino--e nem uma lagrima deslisava por

aquellas faces, assentes n'um busto grego, e que pareciam rasgadas pelo

scopo de Phidias, como ornamento do mais vasto craneo, que a Providencia

ousou modelar.

Mas rebentou em pranto desfeito, e corriam-lhe as lagrimas como em

torrente caudal, ao lêr os pormenores aviltantes da segunda occupação de

Paris.

Não era o imperador, não era o general, não era o tenente d'artilheria,

não era o corso: era o ultimo dos francezes, se assim querem--que

chorava de vergonha e de raiva ao vêr a nobre e formosa terra das

Gallias pisada vilmente pelos cossacos do Don, e pelos ignobeis escravos

do Czar de todas as Russias.

Virtude, tu não és mais do que um nome!--Estas palavras, attribuidas a

Bruto, e que são apenas a citação d'um verso da _Medéa_ de Euripides,

vieram reboar em Sédan, e feriram, ainda n'esta geração, as traições, as

insidias, e os ardis do segundo imperio, que cahiu a pedaços esphacelado

e podre sob as garras da aguia da Prussia.

O almirante Keith recebeu o ultimo protesto de Napoleão. Era o seu

testamento de vingança arremessado á posteridade.

Terminava assim:

«Appello para a historia: dirá ella que um inimigo, que durante vinte

annos combateu o povo inglez, veio, em liberdade, no seio do seu

infortunio, buscar um abrigo á sombra das suas leis--que demonstração

mais brilhante podia elle dar da sua estima, e da sua confiança? Mas

como respondeu a tanta magnanimidade a Inglaterra? Simulou estender-lhe

mão hospitaleira, e quando o segurou nas garras, quando elle se lhe

entregou na grandeza da sua boa fé--trahiu-o, e immolou-o.»

O nome do heroe firmava este protesto. Foi com a mão habituada a

empunhar a espada da victoria, que o vencedor dos reis, escolhidos por

direito divino, escreveu: Napoleão.

Pouco depois, um vaso de guerra, o Northumberland arrostava as vagas do

oceano, levando a seu bordo o homem, que fôra o terror do commercio da

Inglaterra, e o missionario inconsciente da liberdade europêa.

E no meio d'uns rochedos de granito, na solidão dos mares, na insulação

completa de todas as aspirações d'aquella vasta e grandiosa

intelligencia, amarravam ao poste da mais tremenda perfidia o homem, que

o mundo inteiro acclamára imperador, e a quem a Inglaterra, mesquinha e

ridiculamente, nos seus odios e pavores vilissimos, regateava o _ave!

imperator!_ que duas gerações lhe votaram, mandando-o appellidar

seccamente: o general Bonaparte.

Detesto o heroe, mas choro ao lado do martyr. Curvo-me perante os altos

designios da Providencia, que levantou sobre os broqueis da victoria o

Attila moderno, o açoute de Deus--e vélo a fronte cheio de horror e de

indignação, quando considero este homem feito á imagem do Creador,

caminhando sobre cadaveres, na sua sêde insaciavel de conquistas; e por

um rasto de sangue humano subia ao throno das monarchias do occidente,

depois de perdidas as illusões com que sonhára o imperio da Asia.

Morreu em Santa Helena, no seio dos mares, para além das lutas

democraticas da Europa, o mais ambicioso dos conquistadores, e o maior

genio d'este seculo.

Alexandre lia Homero. Napoleão meditava os commentarios de Cesar. E

Alexandre, Annibal, Scipião, Cesar, Attila, Frederico II, e Carlos XII,

são pallidos meteoros, que fulgiram, e passaram diante d'este esplendido

luzeiro, d'esta magestade immensa, que, como o astro do dia, tingindo de

purpura o firmamento, vai immergir-se lentamente nas vastas solidões do

oceano.

Hudson Lowe foi a synthese dos odios selvagens, e das cubiças

inexcediveis da nação ingleza.

Por mais que a Inglaterra simule os enthusiasmos d'um povo livre, por

mais que apparente respeitos, e affirme sentimentos generosos, e

magnanimos--em quanto Santa Helena fôr uma ilha e Hudson Lowe uma

verdade historica, temos nós todos, nós--raça latina--o direito, e o

dever de lhe atirar ás faces, no soberano desprezo da nossa lealdade,

com um nome só:--o nome do Bellérophon.

Este vocabulo é o epitaphio sinistro, lugubre, e affrontoso da

generosidade britannica.

VISCONDE D'OUGUELLA.

MANOELINHO DE EVORA

É errada a presumpção historica de que o _Manoelinho_--pseudonymo

grutesco de uma assembléa de revolucionarios--figurasse tão sómente nos

decretos expedidos durante o levantamento do povo eborense, acaudilhado

por Sezinando Rodrigues e João Barradas, em 1638.

Consigne-se de passagem que eu ainda não vi algum d'esses decretos, nem

D. Francisco Manoel de Mello, o mais detençoso historiador dos tumultos

de Evora, nos transmittiu traslado de algum.

Representações a Filippe IV, e satyras aos portuguezes infamados de

hespanholismo, em fim a gazeta manuscripta, como ella podia

clandestinamente correr n'aquelle tempo, começou a circular, em 1635,

logo depois, que a duqueza de Mantua chegou a Lisboa.

Entre os manuscriptos relativos á ultima decada do nosso captiveiro,

possuo dous. É um assignado por _Manoelinho menino_, em Evora, aos 29 de

agosto de 1637, poucos mezes antes do motim: _Uma carta que os meninos

de Evora mandaram ao bispo do Porto_.

Este bispo era D. Gaspar do Rego, nomeado n'aquella prelazia n'esse

mesmo anno, anteriormente bispo de Targa, muito affecto a Filippe IV de

Castella, e um dos tenacissimos alvitristas dos impostos sobre a sua

patria. O seu biographo padre Agostinho Rebello da Costa (_Descripção da

cidade do Porto_, pag. 83) exalta-lhe as virtudes prelaticias, a termos

de o sentar no refeitorio comendo com a sua familia, virtude que todos

nós possuimos pouco mais ou menos.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12) · 第 2 / 4 段