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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 6--JUNHO
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragança--Os salões, pelo
exc.mo snr. visconde d'Ouguella--Manoelinho d'Evora--A morte de D.
João--Poetas e prosadores brasileiros--Ácerca de Joaquim 2.º--Estupido e
infame (Á «Actualidade»)--Carta ao snr. conselheiro Viale--Quinta essencia
de malandrim (Á «Actualidade»)
SUBSIDIOS PARA A HISTORIA
DA
SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA
I
PEDRO DE ALPOEM
(Veja a pag. 93 do n.º 3 das _Noites_)
CARTA DO DOUTOR PEDRO DE ALPOEM CONTADOR PARA O DUQUE DE BRAGANÇA
«_Muito illustre snr. duque de Bragança._
«Obriga-me a escrever a v. exc.ª cá d'est'outro mundo de verdades e
desenganos, sobre este negocio de tanta monta, e materia tão importante
á honra, vida e estado vosso, e de todos estes reinos de Portugal, a
memoria de um avô que tivestes muito conhecido no mundo[1], a quem em
tempo tão necessitado de homens, qual elle foi na vida, por nossos e
vossos peccados, succedestes no casco da illustrissima casa, sómente,
que não na lealdade portugueza, no coração real, no zelo da conservação
do reino que houvereis de herdar afamado no mundo todo. Os oleiros,
sapateiros, alfaiates, e os mesteres do paço vos furtaram a benção, e o
lugar, mostrando-se tão inteiros, generosos e leaes n'este derradeiro
termo, que Portugal fez, e com que acabou por alguns annos, como se os
privilegios honrosos, ou os titulos illustres, e os morgados e reguengos
foram seus d'elles, e não vossos. E como se de rei natural (que podiam
ter e dar-vos) não fôra sempre o melhor quinhão o vosso, e dos mais
senhores fidalgos a quem favorecia, conversava, e sabia o nome, e com
quem distribuia a maior parte dos bens da sua corôa, ficando elle
sómente com o estado, e titulo real, com as obrigações, e trabalhos de
nos defender a todos, e governar. Porque quem vir com curiosidade as
rendas da corôa, e bens patrimoniaes dos reis nas alfandegas, nos
contos, e nas sizas da cidade de Lisboa, do Porto, e das mais, achará
esta verdade clara, a saber: que todo o bom, e grosso estava repartido,
e derramado em juros, tenças, morgados, reguengos, jurisdicções de
vassallas, e vassallos, tudo desmembrado da corôa real nos senhores, e
fidalgos do reino, de maneira que mais parecia o rei seu pai, ou
almoxarife d'elles, que rei, nem senhor. Oh! mal afortunados tempos!
Hora infeliz, e desaventurada, e lastima para sentir! Quem de todo não
perdeu o juizo com as razões castelhanas de portuguezes elches! É
possivel que chegaram estes mesmos senhores de bom sangue, de bom
entendimento, de sua livre vontade, e motu proprio, a escolher e a
negociar por todos os meios humanos e diabolicos extinguir-se com o
sceptro portuguez sua patria, nação, sua honra, fama, estados e suas
mesmas casas, vencidos de respeitos, odios e interesses! Mal me parece
que lhes lembrou aquella notavel resposta que o conde d'Ourem D. Nuno
Alvares Pereira deu a seus irmãos em outro caso semelhante a este. O
qual, tendo guerras com Castella o mestre de Aviz que depois foi rei D.
João o primeiro de gloriosa memoria, e andando os irmãos d'este valoroso
portuguez lançados da parte do rei de Castella, sendo commettido d'elles
por parte do rei castelhano com grandes promessas, e partidos que se
lançasse tambem com elles, respondeu: «Nunca Deus queira que por
dividas, nem haveres eu seja traidor, nem ingrato á terra que me creou,
e aonde eu nasci.» Os senhores fidalgos d'este nosso tempo por
interesses, e promessas falsas, assignadas em branco, não sómente
venderam sua patria, mas pregoavam, e persuadiam esta seita castelhana
com tanta vehemencia, elles, suas mulheres, filhos e criados; e com
tanto desejo de nos verem a todos convertidos a ella, que Martim
Luthero, e os outros heresiarcas que o seguiram não zelaram mais seus
erros, e falsa doutrina para a verem perpetuada na igreja de Deus.
«Ora, excellente senhor, quero-vos capitular brevemente os erros
gravissimos que n'este negocio commettestes, com os mais senhores
fidalgos d'esta conjuração, para que vendo-vos a vós, e a elles n'este
espelho claro não percaes alguma boa occasião, se a Deus der em algum
tempo, de cobrardes o nome portuguez que perdestes, tanto para cobiçar,
e perderes o que ganhastes, vós, e os mais por todas as nações, até com
o mesmo rei, e nação a quem n'isso servistes; pois chegaram a chamar á
rua onde moravam os governadores quando fugiram de Setubal _la calle de
los traidores_. E não cuido que n'isto vos faço pequeno serviço, e ao
bem commum.
«Primeiramente o senhor cardeal dos quatro coroados, jurado rei em
Lisboa, lembrando-lhe a obrigação que tinha, e perigo entre mãos de
conservar este pedaço de terra que seus antepassados tomaram aos mouros,
e defenderam aos castelhanos, ha perto de 500 annos, á custa de muito
sangue derramado d'elles, e de seus vassallos em continuas guerras com
uns, e com outros, em tomando o sceptro, e vendo os tempos que corriam,
logo se acautelou para assegurar o reino em sua liberdade, e rei
natural, com perseguir ao snr. D. Antonio seu sobrinho, e a se temer de
Bragança, mandando-os afastar de si o mais que pôde, e mettendo nos
braços os embaixadores de Castella, de quem se devia temer.
«Dous erros infames commetteu esta leal cidade[2] em nossos tempos que
eternamente nunca lhe sahirão do rosto, se houver chronistas
desapaixonados: o primeiro foi consentir, e permittir a desaventurada
jornada de el-rei D. Sebastião, que no seu porto se embarcou francamente
sem haver um vereador, ou mester que acudisse a isto com uma honrada e
portugueza doudice. O segundo erro foi aceitar esta cidade ao cardeal
por seu rei, e dar-lhe posse do reino sem mais côrtes, nem consulta das
outras cidades e povos tão nobres, e mais naturaes do reino do que é a
mór parte da gente de Lisboa, recebendo esta cidade por herdeiro
legitimo e forçado, sendo clerigo, e impotente, podendo (já que o
queria) elegel-o em nome de todo o reino por seu rei arbitrario, eleito
com protestação de por sua morte (que tão perto estava á vista) ser
outra vez a eleição dos povos. Foi este tão mau conselho, e tamanho erro
que bem parece faltar aqui um João das Regras que lembrasse e
requeresse.
«Era este principe, como v. exc.ª sabe, irmão ultimo, e inferior em tudo
a cinco que teve, e muito aborrecido d'elles todos e de seus proprios
paes, de que não faltam ainda testemunhas vivas; por ser homem de baixos
espiritos e condições, tençoeiro, vingativo, para pouco, tão inimigo da
nação portugueza, e de seu proprio sangue que por mostrar esta natureza
sua, perseguiu aos seus sobrinhos, affeiçoando-se aos castelhanos. Foi
este principe guardado com vida tantos annos, depois da morte de seus
irmãos, sobrinhos e herdeiros do reino, que foram vinte e tantos, para
nos herdar, e governar com tantas desventuras, e mofinas que até o caso
da ilha da Madeira tão affrontoso o vimos no seu governo e tempo. E para
ser deshonra de todos seus avós que com tanto animo, e esforço
offereceram sempre a vida e estados por nos não deixarem captivos de
castelhanos, lançando ainda muitos d'elles em seus testamentos e cartas
grandes maldições, e particularmente el-rei D. Manoel seu pai, a todos
seus successores, se em algum tempo pretendessem alliança d'este reino á
corôa de Castella, como se póde vêr nos cartorios da torre do tombo da
cidade de Lisboa, e de Evora.
«Algum pouco tempo depois, este velho cobarde e cruel, depois de ser
rei, dizem que esteve inclinado a declarar a snr.ª D. Catharina, mulher
de v. exc.ª por herdeira e direita successora do reino,--parece que
receoso d'estas maldições ou remordido na consciencia de algum bom
espirito com que Deus nos falta. Depois de encarniçado com as lagrimas
que via nos portuguezes por sua má e nativa inclinação, ajudado com as
pregações de D. Jorge de Athaide, o algoz da côrte, e de outros
discipulos occultos do duque de Ossuna, que pela unitiva desviava,
ajudando-se do padre D. Leão, do sobrinho dissoluto e da sobrinha, por
evitar guerras, se mudou este rei portuguez d'este santo proposito
assestando-se de maneira na devoção de Philippe, e odio dos mais
pretensores do reino que nem requerimentos dos mesteres, nem lagrimas
dos povos, nem desenganos de procuradores das cidades o demoveram nunca
d'este obstinado intento; antes vendo que o povo punha os olhos cheio de
esperança no snr. D. Antonio por sua rara humanidade, e por falta de não
verem outrem, todo o seu negocio n'este tempo foi proceder contra elle
com sentenças crueis, cartas, e editos infames, sendo sobrinho seu, e
filho do mais honrado irmão, e amigo que elle teve na vida, e a quem
tomava por terceiro quando queria que o rei D. Manoel seu pai o visse,
ou ouvisse. E para que v. exc.ª veja quão descoberto castelhano era com
os da conjuração que depois se descobriu e fez, um dia, estando em
pratica com alguns portuguezes elches, que trazia á ilharga, chegou a
dizer que lhe pesava de uma boa somma de mil cruzados de um alvitre que
applicava a obras pias, pelos não mandar gastar nos paços de Evora para
que quando entrasse o castelhano (a quem n'este caso chamou sobrinho)
tivesse logo na entrada bons aposentos onde se recrear.
«D'el-rei D. João o segundo se conta que dizia muitas vezes á mesa entre
pratica «quem me poderá fazer entre Portugal e Castella um muro de
bronze que chegasse até o céo, que nem os passarinhos de lá voassem para
cá, porque nenhum bem nos vem de lá, e males muitos.» Parece-vos,
excellente senhor, que se este santo rei lá onde está descançando, e
ainda inteiro está seu corpo, ouvira estas palavras de um seu sobrinho,
e herdeiro, que ficára contente, e as approvára por acertadas?
«Estes foram seus desenhos e intentos, nos quaes continuou sempre,
entretendo pouco e pouco com promessas falsas, que lhe daria principe
portuguez, e em paz até sua mortal doença, na qual fez um testamento tão
catholico, tão portuguez, tão pio, tão cheio de esmolas para mosteiros,
e viuvas pobres e com boa declaração do successor do reino que em quanto
o mundo durar será escandalo para quem d'elle souber: porque tão escasso
e cruel, tão descuidado nas cousas do reino se mostrou, deixando por sua
alma como um pobre escudeiro para que tudo ficasse _in solidum_ a
Philippe, que chegaram até cantar pelas ruas de Lisboa e Santarem
publicamente aquellas orações por sua alma que elle bem merecia, mas
porém nunca ouvidas da bocca dos christãos e innocentes meninos, os
quaes diziam assim:
_Viva el-rei D. Henrique nos
infernos muitos annos,
pois deixou em testamento
Portugal aos castelhanos._
«Ainda que por obra isto não foi verdade, de tal maneira deixou elle
estas cousas ordenadas, e sua tenção declarada aos que deixava
commettido o negocio, que tinha razão o povo de lhe cantar estes
louvores.
«Mas deixemos já de fallar nos escandalos que este Anti-Christo deu ao
reino: porque esperamos ainda em Deus, e na sua justiça divina, que se
forem vivos alguns portuguezes dos que agora andam escondidos, e
perseguidos, e presos, quando Portugal resuscitar, que a sua ossada que
Philippe trasladou para Belem, acompanhada das que estão em Elvas, no
espinheiro de Evora, e em outras partes, sejam publicamente queimadas.
«Os cinco traidores do governo, com titulo de defensores nossos, e
governadores do reino, herdando por morte d'este principe o odio que
elle tinha ao snr. D. Antonio, e á nação portugueza, de maneira
começaram logo, em tomando o governo, a guardar todos os respeitos a
Philippe, e a seus mexedores ou embaixadores, e nenhum aos pretensores
do reino, assim naturaes, como estrangeiros, que logo se viu, que
dominava n'elles o humor castelhano. Por onde com infame nome que então
cobraram para seus descendentes, terão sempre a culpa do nosso
affrontoso captiveiro, e de todos os males que á sombra de boa guerra se
fizeram, e ainda fazem n'este triste reino.
«Nem foi pequeno descuido, e pusillanimidade dos procuradores das
côrtes, temendo isto d'antes, darem-lhes pacifica obediencia,
reconhecendo n'elles a magestade real, porque além de n'isso abrirem mão
da occasião e posse que o tempo lhes offerecia de ser do povo a eleição
do rei, ou de quem os governasse até isto se determinar, mostraram
grande cobardia, vendo já n'elles o que d'antes temiam, e (tendo as
costas quentes em Santarem) não os mandarem todos após o cardeal a juizo
a darem conta de suas damnadas tenções: porque, á fé, se Santarem
desembainhava como o tempo pedia, a carniça começára em Almeirim por
estes traidores, e outros que á sua sombra estavam claramente já vistos
por falsos e castelhanos, e o reino despertára, e tornára sobre si para
que nunca viessemos a poder de castelhanos, nem ousariam entrar elles
cá, se viram estes começos sangrentos, porque são tambem ás vezes
sadios, e necessarios...
«D. Manoel de Portugal, e um Phebus Moniz requereram nas côrtes que
tirassem os governadores suspeitos no governo, ou lhes acrescentassem
outros cinco; mas nada aproveitou para animarem os espiritos cobardes.
Confiaram de suas palavras; e que, postos em tão alta dignidade com
titulo de nossos defensores, fariam como leaes o que eram obrigados á
patria e á justiça; mas foi claro e grosseiro engano: por onde os
traidores cobraram tanto animo de o não verem em ninguem para lhes ir á
mão, e de se verem reconhecidos por suprema e real dignidade, que sem
mais temerem, nem fazerem caso de côrtes, continuaram desembaraçadamente
com a venda e entrega do reino como lhes ficára encommendado do rei
cardeal.
«Mas para sua traição e maldade ser mais abonada e espantosa, n'este
mesmo tempo começaram a metter o insolente povo em pensamentos de
guerra, e defensão da patria para o desmaginarem dos temores, e
desconfianças que n'elles viam. Maldade foi esta nunca vista, nem lida
em historia antiga, nem moderna, porque, se nos metteram a todos nos
contractos, e partidos em que andavam com Castella, fôramos rendidos, ou
entregues com menos deshonras, e perdas. Porque não estava Philippe
desarrazoado nos partidos, e condições que nos commettia, ainda que
nunca as cumprira, como fez a elles; mas estes senhores, para melhor
fazerem seu proveito com este rei estrangeiro a quem pretendiam ganhar a
vontade, quizeram elles sómente com os seus parentes e amigos ser os que
negociassem esta contractação para que o povo (que d'estas meadas não
tinha mais suspeitas e receios) na resistencia, e defensão que fizessem
lhes acrescentasse a elles merecimentos e serviços para com sua
magestade. E, assim, que palliadamente se communicavam todos n'esta
conjuração com cartas, e correios muito tempo antes da morte do rei
cardeal. E depois d'ella (que é caso de grande espanto) correndo entre
elles esta linguagem de chamarem aos da conjuração _sisudos_, tendo por
nescios e doudos a todos os que, não sendo da sua liga, queriam antes
morrer valorosamente em defensão da patria que vêl-a entregue por
traições e manhas, sem ordem nem justiça, a seus inimigos com perpetua
infamia do nome portuguez, chamando aos taes por escarneo _os leaes_; de
maneira que n'este tempo em que o reino ardia em motins e confusões, em
temores e esperanças, suspenso e confuso do successo d'este negocio,
começaram suas senhorias a ratificar mais seus ardis, e traições com
mandarem cartas e provisões por todo o reino ao estado ecclesiastico em
que pediam e recommendavam aos prégadores e curas das igrejas que
claramente dissessem ao povo nos pulpitos, e suas estações que se
animassem á defensão do reino, apparelhassem armas e fortificações nos
muros, porque elles tinham já mandado prover os arraiaes, e ordenado
fronteiros-móres, para o que passaram provisões a fidalgos para isso
como foi a D. Diogo de Menezes na comarca do Alemtejo, D. Luiz de
Portugal na comarca de Thomar, etc. E assim, com estas falsas mostras de
leaes, alvoroçaram o povo a falsas esperanças de liberdade e defensão
para de todo ficar perdido, e abatido no futuro. Possivel é que algum
dos cinco governadores tivesse santo e leal intento n'este desenho;
porque se affirma que alguns lhe resistiram, e que o arcebispo de Lisboa
não quiz que dentro da cidade se publicasse, nem prégasse este
apercebimento; mas elles todos juntos não fizeram mais n'este negocio da
liberdade portugueza que o acima dito, sem metterem mais cabedal ou
fazerem mais despezas para este effeito que de papel e tinta. É certo
que cuidaram que assim como Philippe com estas armas conquistára a
elles, e aos mais fidalgos do reino, assim tambem com papel e tinta nos
defenderiamos dos tudescos e italianos que elle trazia enganados, havia
dous annos, para o metter em Portugal.
«Tinha entendido este cobiçoso rei por espias allemãs que cá mandou
reconhecer os fortes do reino em vida do cardeal-rei[3], que sómente
para bater os castellos da raia, se n'elles houvesse de entrar, havia
mister gastar toda a sua fazenda em polvora, porque se não tivesse por
si todas estas achegas, a saber: armas, polvora, chumbo, tirando-nos
tudo isto a nós n'este tempo, só Elvas com seu termo (aonde ha perto de
quatorze mil homens de pé, e de cavallo) bastava para nos Olivaes, antes
de chegarem os castelhanos a bater nos muros, lhes consumir todas as
suas forças com a arcabuzaria portugueza. Os traidores dos governadores
os seguraram d'este perigo.
..........................................................................
«Chegaram estes traidores a tanta cegueira e desavergonhamento, que,
tendo jurado todos não tomar voz por algum sem se dar primeiro sentença
pelos letrados deputados na causa, avocaram a si, e intentaram de que
vindo a Setubal ser juizes em caso tão grave, tão duvidoso, e dar
sentença por Philippe, para este fim se partiram de Almeirim para
Setubal, porto de mar, convocando a ella os mais fidalgos da conjuração
assim leigos, como ecclesiasticos, a saber: o meirinho-mór, D. Antonio
de Cascaes, D. Fernando de Linhares, D. Jorge de Athaide, o bispo
Pinheiro, e outros muitos que seriam perto de quarenta fidalgos
conhecidos[4]. Mandaram logo fechar todas as portas da villa de pedra e
cal da grossura do muro, deixando sómente duas abertas com guarnições de
soldados postas n'ellas para que não entrassem dentro senão os da
conjuração. N'este tempo o conde portuguez do Vimioso (herdando o
espirito do conde D. Nuno Alvares Pereira, seu bisavô) que em Almeirim
tinha já visto suas traições, os veio seguindo muito á pressa para vêr
se podia impedir tanto mal quanto se temia. O que entendido por elles,
antes do conde chegar, mandaram dar rebate ao traidor Diogo da Fonseca,
seu guarda-mór na mesma villa, que por nenhum modo o deixasse entrar
dentro. E assim o esperou ás portas com murrões accesos para lhe
defender a entrada; mas, antes d'elle chegar, vendo estes traidores que
o povo da villa sabia isto, e se começava a amotinar por parte do conde
portuguez, em que escorava grande parte de suas esperanças, tornaram a
mandar recado que deixassem entrar, em tempo que elle já vinha pelos
arrabaldes. Depois, entrado na villa, e vendo que este conde portuguez
com alguns procuradores das côrtes, que á sua sombra se foram tambem lá,
para lhes resistir a seus maliciosos intentos de quererem ser juizes, e
dar sentença, e que não podia isto ser pelas razões, e embargos que lhes
punham, usaram de outra invenção o ardil não menos desaforado que o
primeiro, querendo avocar a causa e litigio da successão do reino a
votos dos que então se achavam presentes; e porque os procuradores das
côrtes que ahi se achavam, á sombra do conde, eram leaes e muitos,
determinaram de reduzir n'este conselho e eleição os votos dos tres
estados--a saber: ecclesiasticos, fidalgos, e procuradores dos povos a
numero de tres votos sómente, dizendo que não era tempo para mais vagar
(por ser já Elvas entregue a Philippe) senão de votarem todos Portugal,
ou Castella, por favas brancas e negras, os tres estados cada um por si;
e, para onde prevalecessem os dous estados nos votos, assim se fizesse.
E porque tinham por si os votos dos fidalgos, ao conselho acrescentaram
alguns homens novos a saber: Bernardim Ribeiro, e outros por se
segurarem mais n'este voto. Tinham tambem pela segunda liga o segundo
voto que era o do estado ecclesiastico presente que era o arcebispo de
Lisboa e capellão-mór, D. Jorge de Athaide, o bispo Pinheiro; o terceiro
voto a que tinham reduzido todos os procuradores dos povos não lhe fazia
mau jogo, ainda que votasse, por Portugal. Esta panella assim mexida por
D. Christovão de Moura, e proposta no conselho pleno, não pareceu bem
aos leaes. E logo o conde portuguez acudiu, e resistiu a ella com os
procuradores de sua tenção, protestando que a tal eleição não seria
valiosa, e que em caso tão grave, e tão importante a todo o reino, já
que o não queriam deixar nos pareceres dos letrados, senão dos votos,
que mandassem primeiro chamar os mais procuradores, e senhores do reino
para que o que alli se accordasse e resolvesse fosse com consentimento e
contentamento das partes. Mas como estes traidores do governo, e
fidalgos da conjuração estavam de muito tempo penhorados por Castella, e
não sómente na villa, mas tambem nas mesmas casas do duque de Aveiro em
que se mostravam com muitos mosquetes, polvora e pellouros para fazerem
a sua mais a seu salvo, esperando d'hora em hora pelas galés de Philippe
que tinham mandado vir para este intento, a nenhuma cousa se demoveram
pelas protestações, e requerimentos que lhes foram feitos sobre este
caso, estando tão enfadados da tardança que as galés faziam em chegar,
que se ouviu um dia esta palavra ao turco D. João Mascarenhas indo pela
varanda que mandou tapar por se temer de algum pellouro bem merecido:
«Ah! Philippe, que assim és vagaroso!» E como Deus não queria que o
innocente e leal povo ficasse embaraçado na consciencia com a sentença e
abominavel eleição do rei, cursaram tantos nortes e tão rijos todo o
tempo que elles esperavam pela armada, que, depois de muitas consultas e
confusões de accordos, que houve um um dia o de apunhalarem quasi todos
os do conselho o conde portuguez.
«Deixada a traça da sentença seguiram a da eleição, determinando fazer
este auto solemne dia de S. Pedro e S. Paulo, que era d'alli a dous
dias, para que então se declarasse; e, sahindo os dous votos dos dous
estados por Castella, como tinham por sem duvida, acolheram-se todos a
uma galé e caravella da armada que tinham mandado vir de Lisboa a qual
tinham já apparelhada na bahia de Setubal. N'este mesmo dia mandou o
conde portuguez recado ao benigno rei D. Antonio que já era entrado e
recebido em Lisboa, que acudisse logo antes de se concluir a traição; o
qual sabido logo pelos mesmos da guarda dos paços, e pela gente leal que
havia na villa, começaram de se amotinar com gritos e ameaços publicos
no Sapal, defronte dos traidores, e tal que elles houveram por seu
accordo vêr se podiam pôr-se em salvo, e assim determinaram n'aquella
noite seguinte se embarcarem, deixando tudo em aberto para pôrem sello a
suas traições. Não pôde isto ser tão secreto que tambem se não
entendesse dos soldados que logo os começaram a vigiar; e recearam de
maneira que, em anoitecendo, com muito risco de suas vidas, e tanto que
um se deitou por uma corda, outro se vestiu em um chiote, e se acolheu
sobre um asno, os mais buscaram mil invenções baixas, como elles eram
dos espiritos, para se irem embarcar. Estes foram Francisco de Sá,
alcaide-mór do Porto, D. João Mascarenhas, capitão que foi do segundo
cerco de Diu, Diogo Lopes de Sousa, governador da casa do civel. Os da
villa vendo já com os olhos a traição, e engano em que os traziam,
bramiam como leões, desejando dar-lhes o pago de seu bom governo e
lealdade. A este motim acudiu o conde portuguez com animo de christão, e
leal como sempre o teve, o qual por muitos justos respeitos impediu não
se fazer carniça, entretendo com razões o impeto dos soldados por largo
espaço da noite até se porem em salvo, e se embarcarem; porque, se elle
não fôra, todos os da conjuração houveram de pagar aquella noite o que
deviam á patria, porque parece que de proposito os trazia alli seu
peccado juntos ao talho.
«Não faltou quem dissesse que o conde errava n'isto; mas a sua razão
convenceu a todos n'aquelle tempo, dizendo que mais fazia a nosso caso
fugirem elles que não matal-os em terra, o que soaria mal a quem
desapaixonadamente visse este negocio. Basta que os salvou, e deu
passaporte por terra a D. Christovão de Moura para se pôr em salvo.
«Bem visto fica n'este breve summario quaes foram os traidores em seu
officio e dignidades. Não fallo em D. João Tello porque, quando se foi
juntar com elles em Setubal, em uma galé que tomou em Lisboa, entrando
pela barra, sabendo os quatro do governo que elle era o quinto, o
mandaram servir de bombardas arrazoadamente da torre d'Outão, por não
ser da sua tenção a liga. Depois que o viram entrado pelas boccas dos
tiros, e isto visto e sabido pela villa, soffreram-no por dissimularem
até que seu peccado os levou de mar em fóra, onde andaram em calmaria
dous dias á vista da villa, desmaiados, olhando se iam os da terra
prendel-os. Este só governador se foi quietamente para sua casa por ser
portuguez, onde morreu, dizem que de paixão de vêr as injustiças dos
traidores.
«No principio d'esta conjuração já espigada, se foi v. exc.ª a Almeirim,
quando o rei-cardeal descobrira sua tenção por Castella. E logo depois a
snr.ª D. Catharina com grande estado, e capella de musicos, acompanhada
com alguns poucos de ceifões enfronhados em libré de soldados de guarda
de vossa pessoa. Já então as cousas eram taes, que para responderdes a
quem ereis, e ás obrigações do estado braganção, não sómente não vos
houvereis de temer, e ir medroso, mas ser tão temido, e entrar na côrte
com um brio portuguez, e com um coração tão grande, que assombrasse o
cardeal, e matasse por dentro a todos os traidores que lá andavam; e
entretivesseis vossos vassallos todos apparelhados a som de guerra, e
postos a piques para toda a desordem, e traição que visseis, ou no
rei-cardeal, ou nos pretensores de que vos receaveis. Porque, fallando
desapaixonadamente, vós só com vossos parentes, criados, e vassallos
tinheis bastantes forças para receber todo o poder, que Philippe tinha
apparelhado contra nós, e para obrigardes ao duque d'Alva a uma retirada
muito affrontosa. Mas faltou-vos o coração do conde D. Nuno Alvares
Pereira, vosso quarto avô. Não sómente nada d'isto fizestes, senão,
quando o snr. D. Antonio,--apesar de aborrecido, desnaturado e
perseguido não sómente do cardeal-rei seu tio, mas tambem dos traidores
do governo, depois de sua morte d'elle--com animo real que herdára do
infante D. Luiz, seu pai, se determinava defender-nos da ambição dos
estrangeiros, e traição dos naturaes, arriscar sua vida, e estado na
defensão do reino, antes que soffrer desordens na justiça da successão,
e que todos os partidos honrosos vos fazia á conta de lhe seres
companheiro n'este santo proposito, nunca jámais o pôde acabar comvosco
por mais que visseis os inimigos entrados pelo reino, e tomarem-vos os
vossos aposentos de Villa Viçosa, e armazem d'armas; antes para a vossa
culpa ser causa mais de proposito, depois de desenganado de vossas
esperanças reaes mais parvoas, dadas pelos traidores do governo, os
deixastes em Setubal, e vos fostes a Portel ter consulta com os doudos
de vossos parentes do que fazieis, estando já as cousas sem remedio: bem
se vos podéra dizer n'este tempo: «Asno morto, cevada ao...» Em vida do
cardeal-rei deverieis de cuidar em vós, e em nós. O estupido do conde
lavrador, e o arabe do arcebispo de Evora, e o raposa do commendador-mór
com os mais que se acharam presentes n'este vosso conselho, como havia
muito tempo que estavam feridos da peste castelhana, e peitados a seu
sabor com Philippe, accordaram em relação que vos lançasseis de fóra do
jogo, e visseis os touros de palanque. Pela primeira lei de Solon
atheniense, perdida tendes a casa, e estado só por esta culpa. Mandava
esta lei, que quem nas dissensões e nos motins da cidade se não lançasse
de algum dos bandos e parcialidades, esperando ser de viva voz quem
vença, pelo mesmo caso lhe fossem confiscados todos os seus bens. Nada
d'isto tivestes; antes, conforme ao conselho, que vos deram, e tomaram
para si estes senhores vossos parentes, vos deixastes ficar n'essa vossa
villa desviada, que era o que Philippe desejava e vos pedia. Com esta
invenção tomou o turco Asia, Africa, e muita parte da Europa, pondo-se
os reis christãos á mira quando este tyranno fazia guerra a algum
d'elles. Assim tomou Hungria, Bohemia, o imperio da Grecia, Rhodes, etc.
«N'este tempo que v. exc.ª se apartou do bem commum, olhando sómente
para si, o mesmo povo padecia a ultima desaventura de ferro e fogo, sem
ter armas, nem resistencia por todo o termo de Elvas, Olivença, Estremoz
e todos os outros lugares do Alemtejo. Não quero particularisar mais as
culpas de v. exc.ª por não affrontar mais os ossos de quem come a terra.
«Os fidalgos, morgados, e commendadores que em todas as idades foram os
nervos da republica, e por esta causa tão privilegiados, e venerados do
povo, d'elles (ainda que poucos) se foram para o snr. D. Antonio depois
de levantado em rei, para segurar o jogo de ambas as partes, fazendo
d'alli o seu negocio com elle, e com Philippe, cosendo a dous cabos
(como já fez Veneza muitas vezes em liga da christandade, escrevendo, e
dando avisos ao turco contra a liga, e a liga contra o turco). Assim o
faziam estes senhores, pendendo ainda mais n'isto para Castella; e
tanto, que era grande vergonha, e espanto vêr as cartas que se tomavam
cada hora, as espias dos fidalgos portuguezes que andavam á ilharga
d'este vencido rei, e entravam em seus conselhos de guerra; outros eram
capitães d'armada, que tambem foi vendida tantas vezes, que se cada dia
se tirava um capitão-mór, e se punha outro para não o arrematarem, o que
não aproveitou nada; tanto assim que o derradeiro capitão (Gaspar de
Brito d'Elvas) que era leal, o qual pela não querer vender, o venderam a
elle os capitães, ainda que escapou da morte.
«Os outros fidalgos em geral, tirando os criados, inda não todos, d'este
senhor rei eleito, parecendo-lhes ainda mau conselho de se arriscarem a
alguma desgraça da guerra, e terem comprimento com sua patria sequer nas
mostras de fóra, como todos estavam mettidos na conjuração castelhana, e
assegurada sua fazenda, e mercadoria, tomaram o conselho que v. exc.ª
tomou para si, escondendo-se pelos mattos em recintos, em bandos, como
zorzaes[5], esperando ouvir novas do mundo, como se conta de um
esforçado em uma galé, que escondendo-se na escotilha, ou coberta ao
tempo da briga, depois de acabada, perguntou de lá: «Levam-nos, ou
levamol-os?»
«Outros, depois de tomado Cascaes, batendo-se já a torre de S. Gião,
ouvindo-se os tiros em Lisboa, se esconderam dentro na cidade com tanto
segredo e resguardo para não serem chamados; e obrigados a acudir a tão
extrema necessidade, como padecia o reino, chegaram a mandar fechar as
portas de pedra e cal das casas onde se escondiam, mettidos com armas, e
cavallos dentro em casa, dando-lhes os seus de comer por janellas de
noite, parecendo-lhes que quando os reis, e republicas instituiram os
grandes, os fidalgos, e morgados, que foi para comerem, e vestirem
melhor, para jogarem mais grosso, e para terem muitos criados para
lograrem as delicias do mundo; e que, quando viesse o tempo da guerra e
do trabalho, não tivesse n'elles a republica braço e columna para se
defender e onde se encostar.
«As escusas que elles davam n'este caso são para aceitar. Diziam estes
senhores que não podiam em boa consciencia seguir ao snr. D. Antonio,
porque era um alevantado, e filho não legitimo. Não attentando, que
andando em prova a sua legitimidade, o alevantou em rei a leal villa de
Santarem em nome de todo o reino, tendo já Philippe tomado com a mão
armada Elvas, Olivença, Campo Maior, e Estremoz, não como alevantado
pelo povo, mas como tyranno, a quem elles seguiam sem nenhum escrupulo.
Tambem diziam, que o poder de Castella era tão grande, que tocava em
doudice querer-lhe resistir. A isto respondem os contemplativos que não
nascia d'aqui a tosse. E porque fallemos portuguez claro: saberá v.
exc.ª por que não queriam pelejar, nem defender o reino, e andaram com
estes contractos e traições? Foi fina cobardia, e puro medo, que os mais
d'elles trouxeram mettido nos tutanos, da destruição, e captiveiro
d'Africa, medo que damnificou o mui esforçado e invencivel rei D.
Sebastião de saudosa memoria; elles o desampararam, e entregaram aos
alarves com suas judiarias, chamando-lhe doudo, e temerario, pondo-lhe
todas as culpas que quizeram, por encobrirem as suas, que a verdade é
esta; elle os conhecia muito bem, e tinha na conta que elles mereciam;
mas não lhe lembrou, em tempo que lhe ia mais a vida e honra. Era este
um rei a quem se não póde negar muito esforço, e muita liberalidade,
muito boa conversação, ainda que os padres da companhia o crearam fóra
d'isto, e mancebo de muito raro entendimento; e, se os fidalgos que com
elle foram, o acompanharam ajudado com o animo e esforço que n'elle
viram, pelejára dobrado, ou a victoria fôra nossa, ou a desventura não
fôra tanta. Mas como estes senhores não sabiam mais que rasgar sêdas,
lograr perfumes da India, aguas estilladas, passear as damas, inquietar
donas virtuosas e honestas, andar com a barba no ar, soberbos mais do
que Lucifer, cuidando que n'isso estava o ponto e ser da fidalguia, indo
armados d'esta côr e tenção mais para bodas que para brigas: em vendo o
campo do Maluco, arraiaes calmosos, e armas pesadas e desacostumadas,
logo esmoreceram, cahindo-lhes o coração aos pés. Pelo que, ao primeiro
_S. Thiago_ que se deu, elles foram os primeiros que mostraram as costas
aos mouros, voltando á redea solta com tanta desordem e cobardia, que o
esquadrão dos aventureiros, ou desaventurados, de pé, á custa da vida
lhes deu lugar, e elles deram principio a todo o mal e destruição, que
logo se seguiu. Esta é a verdade pura e clara; o contrario é quererem
cobrir o céo com uma joeira, tapar a bocca aos soldados, e pôr a culpa
ao rei. Digam isto aonde se não sabe como elles se cruzaram diante dos
mouros, mettendo-se debaixo das carretas; sem algum esforço, e valentia
de leaes portuguezes, deixaram seu rei em Africa, sem saberem dar novas
d'elle, rendendo-se por captivos de negros desarmados. No captiveiro
houveram-se tão vãos, tão deshonestos, tão insensiveis de sua honra, e
fidalguia que muitos d'elles aceitaram resgate dos embaixadores de
Philippe com vergonhosos partidos sobre a successão do reino, que já
começavam a vender.
«Este mesmo ser e fidalguia tiveram na derrota de Alcantara, a saber:
escondendo-se, fugindo em tempo que seus avós se podiam desejar vivos
para lancearem castelhanos, e os lançar fóra do reino. Por onde digo a
v. exc.ª que podemos affirmar com muita verdade que se acabou já a
fidalguia de Portugal; e, se Deus der n'elle rei natural, poderá com
justiça, e com boa consciencia fazer o que fazia Lycurgo, e faz o
grão-turco hoje em dia, que é tirar-lhe os contos de renda, os morgados,
e privilegios, arrazourando-os com os mecanicos, e começar-se outra
enxertia de fidalgos, fundada em merecimentos pessoaes, sem opinião de
gerações, nem appellidos, porque os _Castros_, os _Menezes_, _Mellos_,
_Mascarenhas_, _Tavoras_, _Barretos_, etc.[6], já não dão fructo senão
de baixezas, cobardias, deshonestidades, e pouca christandade; e se
alguns ficaram bons, o nome e appellido se lhes houvera de tirar. Não
fallo nos portuguezes _Coutinhos_ e _Britos_, a quem pelos honrar dou
logar entre os negros, em quem se achou tanta lealdade e esforço, que
até a torre da polvora em que estava a nossa defensa se não fiou senão
d'elles, e acompanharam o snr. D. Antonio até de todo se perderem em
Vianna. O povo, cuja voz se chama _vox Dei_, ainda que nunca foi ouvido,
conservou a fé portugueza nas côrtes, e fóra d'ellas com pacto, esforço,
e desejo, pedindo, e buscando guerra: até as mulheres (que parece cousa
de espanto)! porque a ellas só vinha o mór mal d'ella.
..........................................................................
«Os inconvenientes que se seguiram dos nossos governadores e fidalguia
portugueza ser isto que v. exc.ª vê, e de el-rei de Castella ser tão
comedido, e sujeito á razão, são os seguintes. Primeiramente: se seguiu
entrar o turco lutherano duque d'Alba em Lisboa com tanta crueldade e
deshonra nossa, que, chegando a Alcantara, com menos de dezeseis mil
homens, todos irmãos, visinhos e companheiros, nos rompeu, e deshonrou a
todos para sempre, não por forças suas, mas por traições dos corruptos,
por promessas, dando o saco tres leguas de termo, com duas que tomaram
mais os soldados, estando por causa da peste a mais gente e fazenda
derramada pelas quintas fóra de Lisboa. Entrando as suas galés pelo rio,
e soldadesca pelas ruas com tanta crueldade, disparando no triste e
rendido povo toda a mosquetaria, e artilheria do mar: indo n'este tempo
muitos contentes, triumphando entre elles de sua patria, e nação nas
galés--a saber: Diogo Lopes de Sequeira, D. Antonio de Cascaes, Luiz
Cesar, e outros muitos arrenegados, de volta com os leaes, a quem o
traidor castelhano tinha passado provisões de marquezados, condados, e
contos de renda por este serviço, tão custoso não sómente ás pessoas,
mas tambem á honra d'estes senhores que lhe entregaram o reino. Mas,
assim como estas provisões foram assignadas em branco, tambem foram
despachadas em branco; porque lhes sahiu em despacho na mesa da
consciencia (qual Deus sabe) que não era Philippe obrigado a cumprir
estes assignados; mas a v. exc.ª como principal parte n'este negocio,
como verdadeiro, e legitimo herdeiro d'estes reinos, segundo dizem e
assignaram alguns juristas doutos, despachou este seu rei muito bem com
lhe fazer uma mesura muito bem feita em Elvas, quando lhe foi beijar a
mão, e renunciar todo o direito que tinha no reino, e com o acompanhar
até á porta da sala, e com lhe lançar depois o habito _del tuson_ em
Thomar, que é de mui grossa renda, e estados, mas pago em _panem nostrum
quotidianum_, e em uns poucos de maravidis para vinho, e faça-me mercê
que não mande cada dia recadar esta ração do paço com muita humildade
como cavalleiro _del tuson_, como lhe mandou dizer um dia em Abrantes o
mantieiro, ou vedor por um descuido que n'isto teve. Outra mercê fez a
v. exc.ª de condestavel do annel d'este reino que santa gloria haja;
outra lhe fez muito maior em o ter na reputação que v. exc.ª merecia
pelo seu fraco juizo.
«Os mais senhores, e fidalgos, de presumir é que tambem Philippe usou
com elles d'esta magnifica liberalidade castelhana. Porque a D. Antonio
de Cascaes fez o mesmo que a Tristão Vaz em satisfação de lhe entregar a
mór força do reino, e renunciar quatro mil reis de juro que el-rei D.
Antonio lhe tinha dado por provisão.
«Fim das razões: já v. exc.ª, e os mais da conjuração começam a vêr o
erro, e desconcerto seu, e dizem entre si pela bocca pequenina:
«Sofframol-o, pois o quizemos.» Quando isto virem, lembrem-se quanto
differentes na verdade e liberalidade eram os despachos e mercês dos
reis portuguezes, naturaes de Portugal; pois com terem tão poucos contos
de ouro, as viuvas dos seus criados, os orphãos, os fidalgos pobres, em
gemendo, eram ouvidos, e despachados como filhos; se agora, estando o
rei á porta, os despachos de tão grandes serviços pessoaes, são os que
vêmos, quaes serão depois que virar as costas? Que farão os tristes que
vieram da India, ou de Africa com serviços de paes, dos irmãos mortos, e
com vida gastada? irão caminho de Madrid, e Toledo rogar por terceiros
castelhanos que não sabem o que isto custa. Este é o primeiro
inconveniente que succedeu n'este caso.
«O segundo erro foi ficarmos captivos e escravos da mais soberba,
odiosa, e aborrecida nação que ha no mundo todo; não sómente aos
portuguezes a quem foram em tudo inimigos; e, não sem muita causa, tem
esta má nação tal fama, porque se tem isto claramente visto no caso de
Lisboa, e das mais terras por onde o arraial passou; a saber: fizeram
todos os roubos, estupros, e adulterios, homicidios, e tyrannias,
desaforamentos, commettidos por castelhanos de nação, sendo n'esta parte
mais comedidos, e humanos os tudescos, e allemães. Sómente os
castelhanos fizeram tantas affrontas, crueldades, sacrilegios a homens
nobres, a mulheres honestas, a religiosos desarmados, até nas igrejas, e
mosteiros de freiras, como se viu na igreja de Bellas, no mosteiro de
Monchique, e Vairão[7]. Muito melhor nos fôra morrer mil mortes, que
vêr, nem chegar a taes tempos. Basta que cumpriram seus desejos nossos
inimigos capitaes, e chegaram a nos dizer nas barbas com muito gosto, e
soberba quando nos viam tristes: «Teneis de tragar este bocado.» E de
tal maneira nos tem o pé no pescoço que nem para chorar nossas
desaventuras nos dão licença; e, se não fôra estarem ainda as cousas no
ar, sem assento, já os desterrados com titulo de despacho houveram de
ser tantos os occupados nas guarnições de Flandes, Napoles, e Italia,
que se não vira já mais portuguez de capa preta andar pelas ruas como se
costuma em Galliza.
«O terceiro inconveniente não menos para sentir que os outros, o qual
vai ainda em crescimento, é que as donas illustres, e as fidalgas
portuguezas tidas sempre em tanta veneração, e respeito dos
estrangeiros, acreditadas por todo o mundo por muito castas e honestas,
até nos vestidos, vencidas da cobiça dos _reales_, ou da desenvoltura
dos castelhanos, esquecidas de sua fama e honra, e do sentimento que
devem ter da desenvoltura de sua nação, maridos, e parentes, tão
desenvoltamente os namoram, e se lhes entregam, que disparam em mulheres
de mancebia, que em outros tempos se estranhava muito, e que n'estas
senhoras se vê agora publicamente. Já não podem vêr portuguezes, nem os
proprios maridos. São tantos os adulterios, e deshonestidades suas, que
os mesmos castelhanos e italianos andam espantados d'ellas, que chegaram
a dizer que se não podiam defender d'ellas, e que elles eram os
acommettidos. As visitações do arcebispo de Lisboa mofinas são taes que
já chegou um cura a nomear algumas fidalgas por publicamente amancebadas
com castelhanos. Na noite de S. João d'este desaventurado anno de 81, se
acharam algumas senhoras mão por mão com os castelhanos a vêr as
fogueiras. Tambem vão já tomando posse das carroças de Roma, e das
carretas de Sevilha como cortezãs de Castella. Os casamentos com
soldados picaros foram infinitos nas estações das igrejas de Lisboa.
Deus nos livre dos males, que estes nos vão ameaçando, para que antes
d'estes lançarem raizes, tenhamos rei natural e portuguez, e que nos
ponha com Castella no andar em que estão os chinas com os tartaros, dos
quaes affirmam que fizeram um muro por arraia de trezentas leguas quasi,
ou como estamos com os mouros nos lugares d'Africa fronteiros, e para
isto se effectuar suavemente, inspire Deus no peito de v. exc.ª, e dos
mais senhores fidalgos d'este reino animo, esforço e lealdade para que
se ao diante houver alguma occasião de se restaurar a liberdade
portugueza, ainda que seja com o soccorro de turcos e mouros, o aceitem,
e lancem mão d'elle; pois que, se o não fizerem assim, estou já vendo
que perderam todos seus estados, a patria, e muitos a vida. E sentirei
muito como portuguez leal saber lá na outra vida, para a qual estou já
de caminho, que defendem os meus naturaes com mór esforço seu captiveiro
(mandando-lhe Deus remedio), do que mostraram em defender sua liberdade.
«Muitas cousas das que n'esta carta vão, vi com meus olhos, antes de
condemnado a tratos, pelos quaes o lutherano de Paulo Coelho, meu
natural, e oppositor em Coimbra mandou pagar dinheiro aos que m'os
davam, e depois me sentenciaram que fosse degolado por final sentença,
que meus inimigos deram contra mim por amor de meu rei e patria; parte
d'estas cousas vi cá em revelação, e outros muitos males que aos
principaes d'este reino estão ameaçando, cujos nomes não digo, porque
cedo sahirá um rol geral dos portuguezes herejes, e arrenegados,
juntamente com os dos leaes na fé catholica de sua patria e nação: para
que, quando Portugal resuscitar, e Deus der n'elle rei natural, se saiba
na santa inquisição futura da lealdade portugueza a seita erronea que os
maus seguiram, e se faça justiça d'elles, e de suas fazendas conforme as
santas leis d'estes reinos, ao qual Deus tem promettido de conservar
eternamente. Dada no Seio de Abrahão a 20 de junho de 1581.
PEDRO D'ALPOEM.»
[1] D. Constantino de Bragança.
[2] Lisboa.
[3] Em um dos seguintes numeros daremos traslado da conta que os
espias deram a Philippe II do seu exame em Portugal.
[4] Provavelmente os avós dos quarenta fidalgos da restauração.
[5] Tordos ou estorninhos.
[6] Todos os fidalgos d'estes appellidos arrebanharam as melhores
commendas em tempo de D. João IV.
[7] Em nenhum livro, ou ainda tradição oral se nos deparou esta
novidade.
OS SALÕES
CAPITULO III
VOX POPULI
A definição mais exacta da democracia é chamar-lhe o reinado da
justiça.
. . .
Il n'y a que deux choses qui puissent sauver la société: _la
justice, et la lumière_.
BASTIAT.
O papel do veterano e operário dizia assim:
«O que é a democracia?
«É o governo do povo pelo povo--é a omnipotencia soberana de toda a
nação--é o predominio do poder popular em qualquer governo.
«Quanto mais um estado social se aproxima do ideal da justiça, tanto
mais se confundem os interesses particulares com os interesses publicos.
«A democracia é, entre todas as fórmas de governo, a que melhor
corresponde ás exigencias da verdadeira justiça social.
«Mas não nos illudamos. Estudemos-lhe os perigos, e evitemos-lhe os
inconvenientes. Para que um paiz verdadeiramente democratico possa
crescer, engrandecer-se e prosperar, carece de certas e determinadas
condições. A democracia nunca surgiu, nem se manifestou na infancia das
sociedades.
«Pelo contrario--a democracia exige uma civilisação largamente
desenvolvida, a completa ausencia das classes privilegiadas, a exclusão
absoluta da nobreza hereditaria, uma certa homogeneidade nas populações,
uma grande diffusão de luz--pela instrucção--, o desejo real da paz
interna, e externa, e a intelligencia, e o trabalho, como unicas fontes
da riqueza, da prosperidade, e da consideração publica. São os perigos,
e a morte inevitavel da democracia os privilegios das castas, o espirito
de conquista, a ignorancia, a ociosidade, e a falta de educação em todos
os ramos, e nas diversas aptidões de todos os homens, que compõe uma
nação.
«Os erros, e os vicios que sepultaram as republicas da antiguidade
servem-nos de luzeiro, e são o pharol, para nos indicarem as condições
em que a humanidade deve viver, nos rasgados horisontes do futuro.
«Não se illudam com a Roma pagã. Nunca conheceu a democracia--nem nas
preconisadas fórmas tribunicias da republica, nem nas grandezas, e no
fastigio do imperio.
«As republicas podem ser, e algumas d'ellas teem sido, excessivamente
aristocraticas.
«A democracia não pôde nunca eslabelecer-se em Roma, por diversas e
ponderosissimas causas.
«De passagem mencionaremos algumas d'ellas.
«Durante cinco seculos, foi o governo de Roma a guerra declarada ou
latente, entre dous corpos sociaes inimigos. Era o antagonismo das
classes, era o espirito de conquista, era a falta de homogeneidade nas
populações, era a variedade de crenças, era a hedionda e asquerosa
ociosidade das massas, era a escravidão, repugnante e execranda,
decretada na lei, era a ignorancia do povo, que o trazia submerso nas
trevas espessas da peor das servidões, e que lhe abria abysmos na
consciencia. Ora, a desigualdade de cultura intellectual é a agonia
lenta da democracia, e a arma mais poderosa da ignobil tyrannia do
poder.