dar animo.
Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e não podesse
avaliar na physionomia a impressão das suas palavras, perguntou-lhe:
--E tu? tambem tinhas saudades minhas?
--Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.
O incendio estava lançado. Vieram as confissões d'affecto em serões
prolongados pela noite calma, as caricias, as tentações e os impetos
d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adoração das cousas
simples que Claudio sonhára, doente do affastamento e da saudade de
Maria, voava desfeita como todas as bastas illusões da sua vida.
A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista. A luz do sol
e toda a terra cantam o amor fecundo.
Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia o solo lançando-lhe a
semente, era uma forma de fecundação, a anciedade de crear e multiplicar
as formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia com o desejo da
sua amada.
Uma noite adormeceu no regaço da sua amada; ella, cariciosamente,
consentiu-o. Dormiu um somno breve, povoado de enlevos amorosos e
acordou n'um arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica cedeu
ao sangue encandecido.
Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse com o rosto
desbotado, os olhos cavados, toda alquebrada d'uma desconhecida molleza.
Adoecia das primeiras perturbações de gravidez.
Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.
--Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando tambem. Que
vergonha a nossa!
Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua ambição. Estava
finalmente livre de todas as convenções com que tinha rompido,
inconscientemente, levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter
filhos que elle saberia guardar das tentações mundanas, guiando-os a uma
existencia de simplicidade. D'esta vez a felicidade era segura e certa.
Uma cousa, porém, preoccupava os amantes. A gravidez de Maria
adeantava-se, já na aldeia todos a suspeitavam com ditos e remoques que
a rapariga presentia e soffria resignadamente porque era a vontade
d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria de o saber tambem, mais
cedo do que tarde, que o tempo urgia.
Combinou-se que a mãe lh'o annunciaria e assim se fez.
Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e, nas primeiras palavras
que poude articular, disse apenas:
--Tira-me já de casa esse esterco! Se a torno a vêr, esmago-a!
E saiu tremulo, afogueado em ira.
--Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar em que a dôr o levava.
Se fosse outro... matava-o! Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu
protector...
Vinham-lhe á lembrança todas as esmolas que tinha recebido da casa de
Claudio; não ousava revoltar-se.
Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada. Sentia não sei quê a
cravar-se-lhe na cabeça, do lado esquerdo.
Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e pouco o corpo inclinou-se
para a frente, e caiu, perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras
agudas do chão.
Trouxeram-n'o para casa em braços, semi-morto, e foram á villa chamar o
dr. Carvalho. O velho tinha sido acommettido d'uma congestão cerebral.
--Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, dissera o medico meneando
a cabeça.
Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o pôr do sol, quando os
visinhos trouxeram o corpo do pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle
havia de ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando
immediatamente o que se passava, correu a esconder-se em casa antes que
se aproximassem e o vissem.
Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se cair sobre o escabello
da sala, immovel de assombro. D'esta vez era certo o crime! Fôra elle,
fôra elle que o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não morria
tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença. Olhava o seu corpo,
os seus braços, as suas mãos, o seu peito como duvidando da sua
existencia. Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora assassino, que
n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára erguendo a Deus as suas
primeiras orações e se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á sua
alma inspiração e conselho! Não, não podia ser! Era outro, era outro!...
O assombro crescia e a repugnancia por esse novo homem redobrava.
Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se havia alguem no
pateo. Ninguem! Provavelmente tinham corrido todos a casa do velho.
Aproveitou o ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos
desertos, escondido, ao abrigo dos muros que vedavam os campos.
Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada e profunda. Ia
descer á aldeia. Para quê? Não era melhor seguir errante, em penitencia,
expirando o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir
desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se humildemente?
Maria, Maria!...
O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella angustia os braços
estendiam-se a procural-a.
Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de Maria. Tudo dormia n'um
grande silencio e apenas por uma fresta se percebia um reflexo de luz.
Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.
--Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel! exclamou a velha creada
ao vêl-o.
--Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper com firmeza. Venho
agora de lá. Muitos annos, muitos annos... Coitado!
--Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta áquella pobre gente...
--Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia a creada alguns
momentos depois levantando da meza os pratos vasios e estranhando a
voracidade com que Claudio tinha comido.
--O passeio foi larguito, replicou elle como que explicando.
Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O que seria d'ella?
Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e no ponto em que o muro
era mais baixo saltou para dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem.
Não se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não queria tornar a
vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria o corpo e o receio da condemnação
de Maria vencia o remorso do crime.
Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido a uma pequena fresta
que dava luz á cosinha. Silencio! Ninguem se movia.
Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia ter apparecido alguem
e aquelles passos occultos seriam a confissão do seu crime. Coragem!
Porque não iria antes francamente saber do seu visinho? Era natural.
Demais, já dissera á creada que tinha lá ido e precisava que não o
encontrassem em mentira.
Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido d'uma resolução
serena e inabalavel, subiu os degraus da casa de Maria, lançou a mão á
aldraba da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.
Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando á porta que communicava a
sala com o interior. Parou um instante surprehendida. Na escuridão só
cortada pela languida claridade que vinha da pequena lampada ardendo aos
pés d'um crucifixo, a sua physionomia mostrava a mais profunda
mortificação. Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só agora
vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se, apertou-lhe
freneticamente as mãos e o peito agitado pelos soluços, sem proferir uma
só palavra, fitou-a, deixando correr as lagrimas.
Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o que se passava na alma de
Claudio e transformando em piedade os queixumes que trasbordavam do seu
coração:
--Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi a minha sorte, foi a
minha sorte! Foi Deus que assim o quiz.
As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora de gratidão pelo amor de
Maria. Era ella, a victima, que vinha consolar o criminoso! Dominava-o
uma impressão de espanto.
Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que fora a maior ambição da
sua vida, o amor. N'um lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que
lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu toda a
grandeza de Maria. Para Laura, amar era possuir, era guardar zelosamente
uma fonte de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se e
consumir se protegendo uma vida estranha e abdicando de toda a dôr e de
todo o prazer da propria existencia. Não podia furtar-se a um secreto
contentamento descobrindo em plena consciencia o thesouro de que estava
senhor. Negra aberração! pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do
crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio amargo!...
O medico voltou de manhã e achou que o doente estava melhor. Já ouvia e
já se lhe divisavam ligeiros movimentos.
--Temos homem! disse voltando-se para a familia, quando o examinava,
curvado sobre o leito. Com setenta e sete annos! É preciso ser rijo.
Claudio, ancioso por se informar do estado do pae de Maria, espreitára
desde o alvorecer a vinda do dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella
e veiu para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de flores que
estavam pousados sobre o muro sobranceiro á rua.
O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com os olhos n'elle.
--Ora isso é que é madrugar, disse chamando a attenção de Claudio.
--Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se risonho e despreoceupado.
Então já não quer nada com esta casa?
O dr. subiu.
--Como encontrou o doente? perguntou Claudio.
O dr. Carvalho explicou então em termos da sua arte, para mostrar saber,
que o velho tinha grandes melhoras. Recuperára os sentidos, percebiam-se
já alguns movimentos, e quando em tão poucas horas se apresentavam
symptomas d'aquella importancia, d'ordinario a salvação era certa. Não
dizia que tornasse a ser homem para o trabalho, mas esperava pól-o a pé.
Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o Gusmão n'aquelle mesmo estado. A
mesma cousa, exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que é lá
muito de casa de seus sogros e que se tem por um chavão, dizia, e foi de
parecer que não merecia a pena tratal-o.
--Pois, meu amigo, tomei conta do homem e já corre a casa toda,
encostado a uma bengala!
--Deus queira que o mesmo lhe aconteça aqui, respondeu Claudio.
Interiormente sentindo grande allivio com as palavras do medico, para
não revelar uma insistencia que poderia tornar-se suspeita, mudando
rapidamente de conversa, perguntou:
--E por Albergaria que ha de novo?
--A mesma paz podre. O dr. não quer nada comnosco. Tem razão e... bom
gosto. Está por aqui muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e
maliciosamente, batendo com a mão no hombro de Claudio e sorrindo-se.
Claudio percebeu a allusão. Tremendo da conversa, apressou-se a
cortal-a.
--Venha cá, quero mostrar-lhe em que me entretenho. Venha vêr os meus
mirandezes. Estou contentissimo. Comem admiravelmente, são rijos no
trabalho e conservam a carne d'uma fórma espantosa.
Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma apertada
continuidade, para que o medico não podesse rehaver a palavra e reatar a
conversa que tinha tentado encetar. Sabia até que ponto ia n'essa
materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle viesse perguntar-lhe
pelos amores de Maria, que eram já sabidos na villa, e não queria
profanal-os com os commentarios de concupiscencia que por certo não
faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade emquanto não viu sair o
seu terrivel hospede.
As previsões do medico realisavam-se. O velho continuou a melhorar; ao
fim d'um mez, embora d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices
infantis que revelavam a debilidade cerebral de que jámais se curaria,
parecia ter rehavido a razão. Não podia porém mover-se; a perna e o
braço esquerdos estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo se
conservava no leito.
Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto proposito em nunca
proferir o nome da filha. Maria deixou de lhe apparecer mal elle
recuperou a vista, por se conhecer que a sua presença o impacientava, e
elle rehavendo a sua antiga firmeza de caracter, nem uma só vez
perguntou mais por ella.
N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento em que o
desastre o lançou, Claudio, reflectindo, resolveu trazer Maria para
casa. Já que a tinha privado, por sua culpa, da protecção paterna,
devia-lhe o amparo que a sua desgraça exigia.
Demais, o seu amor não affrouxára, antes se radicára, n'essas horas
tragicas. A sorridente resignação de Maria, o piedoso carinho com que
reprimira as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio, elevaram-n'a
na sua adoração e circumdavam a sua figura d'uma auréola de bondade
simples que perpetuamente havia de a illuminar. A inteira posse d'essa
creatura angelica compensava-o de muita amargura. Apesar de tão recentes
motivos de profunda dôr, não podia furtar-se a uma intima alegria.
Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu, pareceu-lhe que a sua
vida e a sua felicidade d'esta vez se completavam na realisação de todas
as suas ambições. Olhava o berço encanastrado, coberto com um grosseiro
retalho da manta que Maria fiára emquanto no monte guardava as ovelhas.
Comparava-o com o outro que deixára na estrada da Beira, a espumar de
rendas finas, compradas caras e vindas de longe, urdidas por mãos
desconhecidas.
Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a sensualidade estreme, uma
caricia dos olhos e de todo o corpo, via na outra uma historia de
singeleza e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas serras,
as mãos tisnadas ao sol, lançando o fuso e distendendo a lã.
Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia o destino, que horas
de paz e de poesia lhe promettia aquelle berço emballado pelos mesmos
cantares que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento de
gratidão lhe penetrava docemente o peito.
Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio dramatico.
Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e commentados com rancor
por D. Maria Francisca e pela filha, com simples curiosidade pelos
frequentadores habituaes do palacio da estrada da Beira que, emquanto
esperavam o chá, debatiam o caso em voz discreta agrupando-se nos cantos
mais afastados da sala.
Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito com os ordenados
pagos em dia e as digestões abundantes e tranquillas que os encaminhavam
á obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente exclamarem:
--Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente e que podia viver tão
bem... casado com uma menina de tão boa educação...
Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura se lembravam das
suas concupiscentes ousadias com as creadas, accrescentavam
indulgentemente:
--Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe ha-de passar e elle
hade voltar á mulher e aos filhos.
Laura ficou apopletica de colera quando soube pela mãe as circumstancias
em que o marido se encontrava. A sua inflexivel vaidade soffria um
profundissimo golpe com a demonstração quasi publica de ficar preterida
por uma mulher do povo.
--Não quero ser d'esse homem nem mais um instante! Vou mandar chamar o
dr. Moraes para me tratar da separação. É demais!... Com uma mulher de
pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha para cá o que é meu...
Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou que Laura tinha
casado com separação de bens, e, reflectindo em que o divorcio poderia
trazer-lhe grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:
--Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo! Deus nos livre. O que
diria esta gente? Eram capazes de inventar que tu tinhas feito algum
mal. Não te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal. Já estás
com umas rosetas na cara que são de fraqueza. Vae tomar alguma cousa.
Anda, anda minha filhinha!
--Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o braço a Laura e
encaminhando-se á sala de jantar.
Depois de muito discutir, venceu a opinião e a astucia de D. Maria
Francisca; poz-se inteiramente de parte a ideia de uma separação
judicial. Esperavam que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar
Villalva e a voltar á companhia de Laura. Para isso iam dizer a José
d'Albuquerque que escrevesse ao cunhado pedindo-lhe que não désse mais
desgostos á mulher, que tão virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe como a
sua vida era censurada até pelos proprios amigos, segundo diziam.
Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o entre os seus
alfarrabios.
Ficou muito contrariado com a presença da mãe e da irmã que iam
interromper-lhe a leitura d'uns documentos do tempo de el-rei D. Diniz,
em que um erudito julgára ter feito descobertas preciosas, das quaes a
mais importante consistia em se provar que o motivo principal que
determinou a sementeira do pinhal de Leiria foram os amores do rei com
uma mulher do Porto de Móz, de baixa estirpe, mas com quem o rei vivia
em intimidade e, dizia o cartapacio, «eram os jogos e fallas entre elles
tão a miude, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de
similhante preço, que fazia a alguem ter deshonesta suspeita da sua
virgindade ser por elle minguada.»
Sobre este ponto trazia José d'Albuquerque grande correspondencia,
estando prestes a demonstrar triumphantemente que os documentos eram de
nenhum valor e que o texto citado não passava d'uma calumniosa e
malevola interposição d'um compilador sem escrupulo do seculo XVI, cujo
nome e naturalidade já tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo a
data do nascimento, mas tambem para isso levava adiantado o trabalho.
Apesar de ser perturbado nas suas cogitações, unica cousa que no mundo
amava com afferro, ouviu pacientemente a catilinaria da mãe contra o
cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse ameaçando-o de cortar
com elle todas as relações, se não voltasse immediatamente á casa de
Coimbra.
--Tens obrigação de olhar pela honra de tua irmã, já que teu pae não
trata senão de se divertir, dizia ella dogmaticamente. Não deves
consentir que o marido a deixe para ahi como um trapo sujo e ande por lá
mettido com um reles estafermo que o que quer é viver á custa d'elle. Eu
já conheço bem o que é essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...
--Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel que eu não me metto
n'isso, respondeu pachorrentamente José d'Albuquerque. O Claudio é de
maior edade ha muitos annos, não me deve favores nenhuns, e eu não tenho
o minimo direito a reprehendel-o. Demais, eu sei lá como essas cousas
são?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem as armou que as desarme!
Não obstante esta primeira attitude de resistencia, D. Maria Francisca
que conhecia a fraqueza do filho, lamentou-se com voz lacrimoniosa de
que tinha creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e conseguiu
por fim que elle lhe promettesse escrever a Jorge de Castro para que
este por sua vez escrevesse a Claudio e procurasse trazel-o á companhia
da esposa legitima.
De facto, escreveu, mas em termos inteiramente despreoccupados «O
Claudio», dizia a Jorge, «com aquelle genio romantico que nós sempre lhe
conhecemos, metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e das flores e
parece, segundo dizem, que arranjou lá uma amante de que já tem um
pequenito. Minha mãe e Laura andam em braza com a noticia e querem muito
que tu lhe escrevas, aconselhando-o a deixar aquella vida. Duvido muito
que o leves a mudar, que elle com apparencia de indifferente é muito
teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade, e tambem para me
livrares d'esta continua cegarrega, dize-lhe d'ahi alguma cousa.»
Depois, passava a fallar longamente das suas investigações. «Tem-me dado
bom trabalho», continuava, «o tal sr. Castanheira d'Almeida que, com uma
petulancia sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida d'el-rei D.
Diniz as mais estupidas affirmações. É claro que não era cousa que se
sustentasse cinco minutos, mas é preciso não deixar correr estes erros,
convém destruil-os pela raiz, e por isso... etc.» N'este tom escreveu
duas folhas de papel.
Jorge, porém, que, por inclinação natural e pelas circumstancias
particulares d'uma vida feliz, se habituára a considerar a familia uma
cousa sagrada, ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe
que Claudio praticára a maior das loucuras e renunciára para sempre a
toda a felicidade, lançando-se n'um mar de inquietações infinitas.
Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação do amigo, que se
lhe afigurava cruel, escreveu-lhe palavras de conselho paternal todas
impregnadas de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava convencel-o,
mostrando-lhe que a familia era o verdadeiro fundamento de toda a ordem
moral na sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara;
invocava os seus sentimentos de rectidão e de lealdade para exigir a
fidelidade conjugal, ponderando a gravidade da offensa feita á esposa
que a fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de se desaggravar
dignamente collocava em condições de obrigar todo o caracter nobre a
respeital-a; e finalmente, n'uma curta confrontação da paz d'uma união
legitima com os continuados vexames e a mentira d'uma ligação irregular,
em que nem sequer os filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem
a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio que no proprio interesse da
sua tranquillidade pozesse termo áquella vida tão contraria a uma
salutar moralidade.
Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa e compungimento. A
condemnação do seu viver pelo maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar
um dos laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava a devastação
que ha muito se vinha alastrando em volta do seu coração. Mas, passada
essa primeira dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade simples de
Maria, recobrou animo n'essa imagem e escreveu:
Meu querido Jorge:
Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou de mim toda a alegria. A
tua carta é o ultimo grito d'essa correria de dôres que ha muitos annos
me persegue e que quasi me tem vencido.
Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de condemnar o meu viver
presente; por isso mesmo tenho addiado até hoje uma confissão que só
novas magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade. Aqui me tens a
ouvir-te submisso, d'essa submissão que será o derradeiro estado da
minha alma, que não sei bem se é desengano de toda a ventura,
indifferença pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento da
propria fraqueza, abandono de toda a energia aos impulsos d'uma
fatalidade cega.
Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes de me excluires da tua
estima. Não é defeza, é confissão; não é a voz do orgulho que repelle a
condemnação, é o queixume do culpado que a acceita sem revolta.
Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado por esposa legitima,
segundo todas as convenções sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella
me tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim esconder-me nas
serras em que vi a luz, entre gente inculta, ligado pelo amor a uma
rapariga do campo, tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que
tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. Abandonei a familia
que tinha estabelecido, abandonando-lhe quasi todos os meus bens e
riquezas, deixando-a n'uma vida de ociosidade, de abundancia e de
prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que me era odiosa, e fugi a
acoitar-me nas caricias silenciosas da natureza e na protecção carinhosa
d'uma mulher que me ama servindo-me.
Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos parecerá uma vileza sem
nome, imperdoavel.
Talvez não tão grande como a tua imaginação a representa! Talvez aos
errores da minha desventura correspondam as alucinações da tua
felicidade!...