--Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito boa noite, sr. doutor,

gritou de longe o rapaz alegremente.

--Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, parecendo-lhe na

frouxa luz do crepusculo que um ligeiro rubor se derramava nas faces da

rapariga.

--Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as boas noites.

--Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter visto.

--Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio da Azinhaga. Móra lá

mesmo.

Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no espirito. Áquella

hora... fazendo caminho por ali.. o modo como se dirigiu a Maria...

Adivinhava! Era o seu namorado!

--Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.

--Creio que sim, respondeu Maria serenamente. Pelo menos assim o diz.

--E tu gostas d'elle?

--Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me que não são comigo.

Nunca acredito no que me dizem.

A conversa não continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.

--Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está tão lindo!...

Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da varzea ladeada de

oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a

sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava,

erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante

de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplação

as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo!

As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava

pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as

aguas que desciam pressurosas, todos n'um côro unisono cantavam louvores

ao seu destino. Só elle estava proscripto da alegria, pela propria

loucura!

Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, amparada entre as mãos,

n'uma agonia de tristeza.

D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o

sabia; o seu coração já não se illudia. Uma oppressão de inveja e de

ciume,--eis o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu namorado. Corára

quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em

poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na

madrugada a sua união e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua

desgraça. Que importava?! Não fizera voto de castidade? Não era Maria

uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adoração da simplicidade?

Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambições terrenas,

elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.

Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O espirito é prompto mas a

carne é fraca», e não conseguia libertar-se da propria fraqueza,

reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios

eram impotentes para dominar a dôr. A lembrança de que estavam

terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira,

lhe fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. Iam

roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.

A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da manhã, por que

anciava, ergueu-se e de casa começou a espreitar a saida de Maria. Não

tardou que ella apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. Ia

á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.

--Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu tormento?

E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe

o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e começou a subir a encosta.

Em breve a encontrava.

--Bom dia, minha rola!

--Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para casa e vi tudo socegado.

Pensei que ainda estivesse a dormir.

--Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou abruptamente: Quando

é o teu casamento?

--Para a semana dos nove dias.

--Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós, quer casar comtigo...

--Quer... mas eu por emquanto é que não quero casar-me. Já lh'o disse.

Para Claudio estas palavras foram um completo allivio.

Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos para a sua admiração,

para na sua singeleza reanimar a alma enferma de cogitações e

contrariedades. Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma

confissão em que temia manchar a candidez dos seus sentimentos, e voltou

a casa alegre e repousado, cantando, a cuidar dos gados.

Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o trabalho na lavoura.

Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas fadigas o alquebravam. Pela

madrugada estava a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava um

pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha para o campo. Não havia

já serviço de que não fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e

alternar. Prendia-se á terra com um amor febril, talvez n'uma vaga

ambição de igualar Maria e por isso melhor a merecer. A rapariga

estranhava todos os devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era

melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões que elle lhe dava

e que despertavam no seu coração um impulso de meiga sympathia.

Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda ter visto Maria. Algumas

vezes isso lhe acontecia mas sempre o deixava aprehensivo e triste;

então, o trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam com a

enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria é que distribuia o serviço e

nem sempre podia saber antecipadamente em que se consumiria a manhã.

Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido mais cedo e

resignou-se com a lembrança de a vêr no regresso. Embalde porém a

esperou. Maria não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava

inquieto. O que seria? Doença? Teria partido para fóra da aldeia? O

espirito perdia-se-lhe em conjecturas. Pensava em parar á tarde a

conversar com o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a casa de

Claudio para vêr umas vitellas que este mandára vir de Miranda e por ali

se quedou, no pateo, até á hora da ceia.

Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou. Para a acalmar,

saiu n'um longo passeio, subindo pelos atalhos da serra. Queria muito

áquella aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma sentimentos de

força e tenacidade na vida ingrata, sujeita ao açoite de todas as

intemperies, despida de todo o viço e de toda a doçura.

A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido as dez horas. Desceu á

aldeia.

Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir um vulto debruçado

no muro da eira que era junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita

confirmava-se. Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações iam

cessar.

--Boa noite, Maria. Que fazes aqui?

--Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o adormecer e agora

estava á sua espera. Quero muito fallar-lhe.

Na sua voz percebia-se a perturbação interior. Claudio sentiu um fremito

de terror.

--O que foi?! perguntou confundido.

Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que elle a namorava, que

todas as manhãs a esperava á porta do campo. A mãe reprehendera-a e

prohibira-lhe que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou quando

outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a de o dizer ao pae, que

nada sabia ainda, e de a mandar servir para longe, se continuasse.

--Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o singelo pedido com que

respondeu a todos os rogos e protestos apaixonados de Claudio que a

deixou assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia de procurar

esquecel-a. Bem sabia que não poderia fazel-o, que isso não dependia da

sua vontade, mas queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo

sacrificio.

Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem

macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicação de

todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma

maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.

Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria

a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e,

quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria.

De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a

encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a

roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.

Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes aos creados os gados,

as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a

saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que

careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao

pasto.

Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles

sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas,

prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a

abundancia e a belleza.

Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas

vezes vencer pelo movimento e pelo cansaço a agitação do espirito; por

experiencia sabia quanto o silencio e a contemplação da natureza lhe

eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da

sua serenidade.

Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza.

Não que elle tivesse deixado completamente de lá ir mas, sempre que o

fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a

carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando

solução aos negocios da casa e entregando pontualmente á mulher todos os

rendimentos. Ficára assente pelo simples uso, sem qualquer declaração

formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que

d'elles dispunha como queria, e para elle só reservaria os bens de

Villalva.

De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a

casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o portão da estrada

da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles

rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. Ás vezes,

parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu

casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente,

porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e

aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem

tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com

um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.

Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito discutido. Em geral,

julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um

homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da

mulher e do filho, que aliás viviam na abundancia e no luxo,

pareciam-lhes um crime. Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára

muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem

a sua.

--Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Está no seu direito! E

tu, dizia para a mulher, não gostas de trazer plumas no chapéu e de

jogar o _whist_? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom

rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam

d'elle!

A vida desregrada e a estreiteza de espirito não tinham pervertido o

coração do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um

constante pendor á indulgencia e tinha, como homem enfastiado do

mundanismo, certa attracção para os caracteres que se desviavam dos

typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.

Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas

caçadas se encaminhava para esses lados.

Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala,

offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e

eburnea.

Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas

proezas D. Pedro logo começava a narrar.

D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da

sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido

dormisse em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo em companhia

dos seus hospedes beirões, não deixava de o reprehender, escarnecendo.

--Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se

lá dormir muito bem e com muita limpeza!

--Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O

Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela

ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo de porco,

assado no espeto, alli á lareira, nunca mais esquece.

No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi á noite a casa dos

sogros.

A sua presença despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram

muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza,

perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doença.

--Não, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso,

respondia Claudio.

Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas.

Illudia-se tomando por vigor a excitação em que o trabalho physico e a

intensidade das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.

--Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o

cercavam.

--Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o

doutor?

Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina

e se preparava para lente da Universidade.

Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenças

nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e

deixava perceber, sem abertamente o declarar, para não crear antipathias

que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada

sabiam. Elle é que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o

consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos,

e fallava pausadamente, cathedraticamente.

--Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia

tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, são quasi

completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, estuda-se

muito pouco; com excepção de meia duzia de homens de verdadeiro talento

e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a

medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças nervosas

conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi

theses, tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes.

Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus

collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a

sciencia aconselha é não só o exame de todo o organismo mas

particularmente a observação das manifestações nervosas. É cousa que

demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que

o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes.

Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O

dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com

apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a

força organica e a actividade nervosa, que é necessario combater. Uma

vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo

da quietação é o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso

algum; a sua agitação é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio

ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.

--Não digo que não, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarçando mal

um sorriso, mas nem sempre se pódem tomar remedios... tão energicos.

São, ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto grau. Da algibeira,

é claro.

--Sim... mas nas circunstancias de v. ex.ª isso não é motivo.

--Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dóse

mais moderada. Uma digressão pelo Minho será o bastante.

--Mas creia v. ex.ª que isso não lhe dá resultado. O que tem

desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna é deixarem de a seguir

com todo o rigor que a sciencia aconselha.

Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando o conselho,

porque lhe convinha. Já antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra

não podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que

nem o abandono do marido a curara, os serões em casa dos Albuquerques,

toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter da

vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.

Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, por Montalegre e

Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar á provincia da

Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens

haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o amor o trazia.

Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de

posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse

levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pôr-se a

caminho.

Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia.

No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas

dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses

pagãos, em ondas claras.

Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão da vida

ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordação amarga.

Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles

estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se

espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as

cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas

quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora

magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas,

quanta tortura e miseria despertavam com a manhã d'aquella massa

obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o coração, e logo o

remorso começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era

criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os

seus desvarios o fogo das paixões que alimentam a miseria!

Porque saira de Villalva, porque não ficára ali como seus paes modesto e

ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito...

Talvez então vivesse contente com Maria, no seu casal abençoado e

fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que só em sonhos

sentira!

Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava

comsigo a saudade da vida que jámais o abandonaria e que agora se

personificara poeticamente na lembrança de Maria.

Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficára-lhe d'aquellas

terras uma boa recordação. A belleza das mulheres, altas, d'um raro

concerto de majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem

viçosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas

extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do

povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.

Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma

impressão de silencio, de calma, de desolação que provocava a tristeza.

O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os

seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganára-se; não era aquillo

que tinha na memoria.

Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para

a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o

almoço e o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se

abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a a companheira da sua

vida; voltariam á tarde, a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho

durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos

ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem

áquella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela

serra aspera.

A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava deserta, era o animo

que faltava ao seu coração. Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava

em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.

Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil.

Ia proseguir, mas adivinhára já o que o esperava. Toda a terra lhe

parecia arida e silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que

lhe recordasse a existencia de Maria.

Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, aos primeiros

reverberos das estrellas, passeiava á beira do rio e, como se sentisse

fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste

batia as cumiadas dos montes, açoitando as arvores que se curvavam

desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente

nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o

favôr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com

gratidão n'este espectaculo de feliz remanso.

Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se ás palpitações da

natureza. O rio transfomára-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu

leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma apparição,

em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e

uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em

labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as

cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiçava o

calor vivificante que irradiava do facho luminoso.

Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos

annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das

suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se

a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginação

sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.

O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em

vão! em vão!... Mais uma vez repetia estas palavras com que tão

dolorosamente terminara tanta illusão da sua vida.

Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela

saudade. Vinha na persuasão de que o trabalho na lavoura e a simples

presença de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava de fallar-lhe,

não precisava d'essas arrastadas conversas á beira da estrada que os

estranhos viram com suspeição. Não estava ella divinisada no culto que o

seu coração lhe consagrava? Uma adoração muda e casta bastaria a

satisfazel-o.

A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de familia disse que se

apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia

muito que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, seguiu

immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.

Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do

estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella

pacifica solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os

estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.

Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, julgava-se victorioso e

começava a sentir, penetrado de delicias, a realisação dos seus sonhos

de castidade.

Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle

apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em

inquietações d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia

esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o

segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.

--Amanhã, amanhã!...

N'esta risonha esperança adormecia tambem.

Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que Maria apparecesse

tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vêl-a sentiu como uma

vertigem em que o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria.

Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á noite, muito tarde, junto ao

muro da eira, quando ninguem os visse.

Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor

desusados. Estranhava as suas forças. Como acontecia que, depois de

tanto tempo de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação em que

o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um

triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.

Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes

vezes para acalmar a inquietação do espirito.

Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um

ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando

descalça a caruma que cobria a eira.

Claudio começou então a contar o que soffrera na jornada, como os dias

lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.

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