na sociedade e tambem eu outra cousa não pretendo. Se a familia é a
união de dois seres ligados por sentimentos congeneres de trabalho, de
consagração das suas forças á educação d'uma nova geração, de auxilio
mutuo e mutua submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de caridade
e amparo para todos os desvalidos, não ha por certo melhor força para
manter a ordem e a belleza moral na humanidade. Se a familia é a união
de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de riqueza, de
tranquillidade e de socego egoistas, de comodidade e de luxo, de meza
lauta e de ninho tepido e macio, com os filhos entregues a mãos
mercenarias desde o berço até que a escola os entrega á sociedade,
poderá ser uma inutilidade para os estranhos, mas, quando se tem a
fortuna de possuir todas essas cousas apetecidas, é, para os seus
favorecidos, um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia é porém o
encarceramento, sob o mesmo tecto e em volta do mesmo lar, de dois seres
guiados por aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a ceder das
suas ambições, em permanente conflicto, consumindo n'esses
dissentimentos toda a energia que deveriam consagrar ao cumprimento da
sua missão social, então não sei o que a familia signifique, além d'uma
enorme e torpe mentira quando esta discordia se abriga sob formulas e
exterioridades d'um falso respeito.
O que eu ainda não pude saber ao certo é o que venha a ser, como
principio de moralidade, essa tão famosa fidelidade conjugal. É o
concubinato legal em que a mulher gravida e a mulher que amamenta se
prostituem e aviltam, ás mãos do que tem o nome de esposo, confundindo
no mesmo leito a mãe e a amante? Mas isso é sem duvida a maior aberração
das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida dos animaes
inferiores que todos, sem evangelhos doutrinados, respeitam a femêa
prenhe e são repellidos raivosamente pela que guarda e aquece os filhos.
É essa outra especie de concubinato em que cautelosamente se evita a
procreação para que os prazeres e a belleza do corpo não soffram quebra
ou interrupção e para fugir aos encargos sociaes que do matrimonio
resultam? N'este caso, significa a degradação pela cobardia moral e
pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora em virtude e que a
sociedade acceita como joia de bom quilate.
Só como inicio de perfeita castidade poderei julgar a fidelidade
conjugal um valor moral; só como principio de abstinencia e de completa
annulação das tentações da carne poderá aos meus olhos tornar-se digna
de ser considerada por aquelles que um anceio de vida superior domina.
D'outro modo, confunde-se nas labaredas da luxuria que todas fascinam e
matam igualmente. Que a prostituição se dê dentro ou fóra dos limites do
codigo civil, pouco importa; será sempre a sujeição deprimente da alma
aos incitamentos impuros da sensualidade.
Pensa um momento; porventura convencer-te-ás de que os meus erros não
são tão grandes como pretende mostrar-t'os a tua felicidade que não é,
como toda a felicidade, o resultado do teu esforço mas a concorrencia de
elementos fortuitos.
O meu crime foi procurar soffregamente a virtude e tentar a sujeição da
minha vida á realisação d'um destino consciente, em logar de acceitar
humildemente os azares da propria fortuna. Nas minhas aspirações de
santidade houve talvez um orgulho sem medida de que a providencia me
castigou transformando-as em corôa de espinhos.
Que sonho mau, que instigação satanica me levou um dia a descer estas
escarpas para ir procurar na riqueza e na sciencia a felicidade que
deixava na vida simples? Porque não fiquei aqui, como meus paes, na paz
laboriosa d'uma existencia ignorada e singela?
Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado das infinitas asperezas do
longo caminho por que me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de
saber, mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto tão ensanguentado que
jámais as minhas feridas poderão cicatrizar, jámais poderão estancar as
chagas em que o animo se me esvae.
Não póde a razão e a vontade resgatar o que uma vez ao coração foi
roubado. Debalde o pensamento, em rodeios sem fim, tentára restituir-me
a tranquilidade.
Não penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa que elle espere no
abandono a hora abençoada de voltar á terra, a esse pó em que todos os
crimes e todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem
resgatados n'uma fecundidade infinita.
Teu
_Claudio._
Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, era certo que a
carta de Jorge lhe deixára uma profunda impressão de mágoa. Todo o
passado se dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava em
sombras de que se affastára a vida que só no coração residia; desligados
do seu affecto, morriam para os seus olhos perante os quaes passavam
como espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle que errára? Não
significava esse isolamento que elle tinha deixado o bom caminho,
aquelle em que as almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam
suspeitas, duvidas cruciantes.
Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia ter caido na mais
absoluta calma. Na aldeia já ia esquecido o escandalo e o povo acceitava
sem murmurio os amores de Maria; a caridade, a modestia e a singeleza
que continuavam a ser os espiritos bons do casal de Claudio varreram
rapidamente a repugnancia que ao maior numero inspirava a sua desregrada
paixão, substituindo essa passageira aversão pelo mais carinhoso
respeito.
O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava da cama para o
quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar os gados, tentando ainda
relembrar a antiga vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não
pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com a peculiar resignação
que a gente rude põe na acceitação das cousas sem remedio, perdoára a
Maria a sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como a do
visinho a que mais queria.
A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, como flores
silvestres disseminadas pelas montanhas aridas, das aguas que se
escoavam espumantes na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas
raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras que erguiam os braços
robustos batendo turgidos linhos sobre as pedras da ribeira, dos
zumbidos das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, do sol
espargindo-se nos orvalhos com que a noite mansamente cobrira os campos;
brotavam do palpitar da natureza em que todo o movimento é sem peccado,
e brotavam ainda do coração de Maria em que a simplicidade e o amor
fulguravam, protegendo em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito
e enfermo de Claudio.
Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando o calor era muito,
Claudio descia de manhã ao campo e só voltava a casa ao pôr de sol.
Maria trazia-lhe o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.
Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a refeição fazia-se n'um
recolhido silencio que era como uma prece perante a magestade olympica
da natureza.
Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na contemplação das flores
que se abriam ao sol exalando aromas n'uma mysteriosa fecundidade.
Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como de costume, trazer o
jantar a Claudio, o cesto á cabeça coberto d'uma toalha alva e
grosseira; nos braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro da
mãe, no abandono em que o somno o vencia.
Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre o chale, debaixo d'uma
oliveira, proximo d'um muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava,
caindo das serras.
Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e Maria sentou-se tambem, em
frente d'elle, no chão, desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora
exuberante no primeiro despertar da maternidade.
Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que eram frequentes e em que
perpassava uma palpitação d'amor e de ventura.
A creança tinha uma belleza angelica, os olhos cerrados, os finos
cabellos loiros desalinhados, o sangue agitado pelo calor da atmosphera
e os labios humidos, levemente entreabertos, como segredando palavras
ignoradas d'uma doçura divina.
O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se d'aquelles
peitos impenetraveis á corrupção um refrigerio que instantaneamente
corria as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou a
Maria:
--Gostavas de ter muitos filhos?
--Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia da estranheza da
pergunta. Cada um tem os que Deus dá!...
Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. Era a voz da virtude
ingenua que chegára aos seus ouvidos, da coragem na acceitação da
condição humana, da religião no amor sem limites, na conformidade do
destino.
N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava o que nem o saber
nem a razão tinham podido conceder-lhe.
Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer do coração em jorros
cristalinos como a agua que rebenta entre os rochedos.
Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia era profanal-a. A
candura maculada jámais recupera a alvura.
N'este labor continuado, em que o amor da terra o absorvia, havia ainda
para Claudio horas de repouso e de ocio, já por simples fadiga, já
porque o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.
Vinham então a leitura, a meditação e as longas caminhadas pelas veredas
desertas, pelas cristas despidas dos montes ou pelos valles apertados,
entre o arvoredo cerrado.
Procurava, avidamente, em interrogações infinitas, conquistar para si um
retalho d'essa paz augusta em que toda a natureza se envolvia. Escutava,
na doce luz do crepusculo, o brandir compassado da Ave Maria em que
sentia murmurios de orações, supplicas e louvores de gratidão
erguendo-se da aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica união,
com o repouso que a noite vinha derramando.
Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente d'amor e de fé,
purifical-a no contacto das almas simples, mas sempre sentia o tumultuar
d'um passado que o despertava dos sonhos bons para o torturar nas
angustias da consciencia.
Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias pesados e humidos que o
obrigavam a enclausurar-se na estreita sala de Villalva. Renasciam
phantasmas que julgára dissipados, visões sombrias que a luz do sol e os
carinhos humildes de Maria pareciam ter varrido para sempre.
Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras; um infinito
desalento se apossava do seu espirito, prostando-o de desesperança,
convencendo-o da infelicidade sem remedio.
Porque não casára com a Conceição e passára de animo leve sobre as suas
lagrimas? Porque abandonára Emilia á miseria que elle mesmo por suas
mãos tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente fôra
buscar tal qual era, com todos os seus prejuizos? E Maria,--pobre
Maria!--para que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor sadio do
seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações impuras que tinham perdido a
sua alma, lançando-a nas chammas do remorso.
Revoltava-se contra a miseria do corpo que com seus doidos anceios o
tinham transviado do caminho de caridade e de sacrificio em que,
imolando as suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.
Tentava desprender-se d'esse pesado involucro carnal com frequentes
jejuns e esforçando-se por ser casto. Por momentos, quando as minguadas
forças physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade que o enlevava em
delicias, tinha a illusão de que chegára a hora de renascer n'uma vida
de pureza e resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento a
Deus de toda a sua existencia, calcando como reptis venenosos os ardores
dos sentidos.
Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha a enxada ao hombro e,
revolvendo a terra, communicava-se-lhe essa gigantesca vibração de
fecundidade que é a propria vida de todo o universo. Crear, reproduzir a
sua força e o seu sangue nos seus filhos, nas flôres e nos fructos que
regára com o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista o
novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se a esse movimento, outras
bençãos, as bençãos do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre
a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.
N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças decaiam rapidamente. Ás
vezes dominava-o um abatimento, uma prostração em que sentia proximo o
seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára por um
rejuvenescimento não era mais do que uma desesperada excitação em que
inteiramente e para sempre ia anniquilar-se.
Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria lhe ter dado o segundo
filho, recolheu tarde. Maria já por mais d'uma vez viera á porta,
olhando o caminho a vêr se o descobria, quando elle entrou.
Vinha contente, risonho, como que alliviado das suas preoccupações
sombrias.
--Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. Foi-me preciso...
--Não, logo me lembrei que andasse a passeiar ou tivesse tido alguma
coisa que fazer, mas nunca se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se
espera estão trabalhos.
--Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem guardado. É o teu pão e
dos nossos filhos, se eu faltar, disse elle, entregando-lhe um papel
azulado com grandes manchas de lacre.
Era o seu testamento em que lhe entregava, por sua morte, os bens de
Villalva.
--Para que é isso? respondeu ella recuando com uma anciedade triste.
Deus Nosso Senhor hade levar-me primeiro.
--Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.
A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e, os olhos rasos de
lagrimas, beijou as mãos de Claudio.
Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção que a turvava, mas era a
sua vontade, a vontade d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.
Sentaram-se á mesa. Não se ouviu nem mais uma palavra sobre o
testamento, e a ceia começou. Claudio estava alegre, perguntando pelos
filhos, pelos gados, pelo que em casa se fizera n'aquella tarde,
fallando dos trigaes que vira na varzea e que promettiam uma boa
colheita.
No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando na sua pacifica faina.
O trabalho era a sua alegria, não ficavam horas nem para recriminações
nem para idyllios.
Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, só houve um momento que
lembrasse as horas de paixão que antigamente o crucificavam.
Uma manhã, Claudio veio a casa almoçar. Como o orvalho no campo fosse
muito e trouxesse os tamancos enlameados, deixou-os á porta e entrou
descalço. Maria estava em pé, no meio da sala. Parecia procurar vêr,
atravez a janella, qualquer coisa que se passava fóra, mas occultando-se
ao mesmo tempo para não ser vista. Era o pae d'ella que em frente,
encostado ás muletas, se arrastava no estreito carreiro do seu quintal,
vendo as ervilhas que se prendiam na sêbe grosseira.
Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir. Comprehendeu rapidamente
toda a amargura que lançára n'aquelle coração, dilacerado de remorsos.
--Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a nos braços e beijando-a na
fronte.
E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluçar, banhada em pranto.
Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente tranquillo na paz da
vida do campo, interiormente minado de duvidas que por vezes a
consciencia lhe apresentava como espectros. Maria era sempre a mesma que
fôra na hora em que a conhecera, humilde, laboriosa, singelamente
amoravel. Mas Claudio, possuindo-a, via n'ella, repassado de contricção,
a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a merecer; as lembranças
do passado perseguiam-n'o implacaveis, já não havia alegria que não
fosse cortada d'um travor de arrependimento.
As forças decaiam sempre. Não tinha doença alguma; sentia uma depressão
de vigor que todos os dias se accentuava, uma velhice precoce que
caminhava incessantemente.
Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o. Parecia dormir,
mas, como o somno se prolongasse excessivamente, accordaram-n'o.
--O que tem? perguntou-lhe Maria. Não quer hoje levantar-se?
--Não é nada, respondeu elle, fitando-a mansamente e procurando saccudir
a somnolencia que o dominava. Estou muito constipado, tenho o peito
muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem apanhei lá em baixo.
Isto com agasalho cura-se.
--Mas é melhor chamar o medico. Quer?
--Para mim não era preciso. Mas se tu ficas assim mais descansada,
manda-lhe dizer que venha cá.
Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um somno pesado, a respiração
frequente e anciada.
O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente até então não cessára de
dormir. Apenas accordava quando o chamavam, e logo cerrava os olhos,
continuando em torpor.
--Está muito doente! disse o dr. para Maria. Eu vou á villa e volto já
para lhe pôr um caustico. Tenho medo que não lhe façam isso em termos.
E saiu a entrar na carruagem que o levou á pharmacia.
--Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro, vem hoje muito
atarefado!
--Quero um caustico para o dr. Claudio que está muito mal.
--Sim!?... Então com quê? perguntou o boticario abrindo um armario
envidraçado e tirando um grande frasco com um rotulo em lettras d'oiro.
--Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...
--Se aquelle organismo não estivesse tão depauperado, continuou o dr.,
sangrava-o, mas assim... não me atrevo.
--Não sei o que será... não sei o que será, repetia inquieto. Olhe,
deixe-me vêr uma folha de papel que sempre quero avisar a familia. Que
elles não se importam mas, se não vierem, não ha de ser por minha culpa.
E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que mandasse a carta para
Coimbra, no correio da tarde.
A applicação dos medicamentos não deu resultado. A pneumonia seguiu os
seus tramites.
Claudio conhecia mal o seu estado. Ás vezes chamava as pessoas de casa,
levado por uma vaga saudade, procurando combater o somno que o ia
dominando e luctando por despertar a consciencia! Tinha então palavras
carinhosas, principalmente para Maria.
--Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia, tem paciencia, sim?
Esses momentos eram, porém, cada vez mais raros.
Ao terceiro dia, já noite adeantada, perguntou por um velho creado que
fôra de sua mãe e se chamava Luiz.
O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio adormecia novamente.
--Está aqui o Luiz, está aqui o Luiz, disse Maria tentando despertal-o.
O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama e inclinava sobre o
doente o craneo calvo, orlado de raros e longos cabellos brancos.
Claudio entreabriu os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente o
braço, e a mão rolou pela cabeça do velho, caindo novamente, quasi
inerte, sobre o leito.
Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois não se sentiu mais que um
estertoroso arfar.
Pela manhã, abriram a janella, cuidando que a frescura do ar alliviaria
a agonia. A luz do sol foi bater no leito e cercou o moribundo d'um
esplendor de gloria entre o perfume da madresilva e o canto das aves que
alegremente cantavam a eterna alleluia dos seus amores. Distante, ouvia
o balido do rebanho que o pastor levava a beber no regato. Era uma festa
de canticos angelicos.
De repente, a respiração pareceu baixar docemente. Houve no quarto um
murmurio de lagrimas e de soluços; instinctivamente todos ajoelharam, e
alguem disse:
--Acabou.
Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver, cerrou-lhe os olhos e,
soluçando, abraçou-o.
Algumas horas depois chegava Jorge.
No alvoroço que em casa de Laura produzira a carta do dr. Carvalho,
tinha resolvido D. Maria Francisca, porque o marido estava para a Beira,
pedir a Jorge que viesse vêr o amigo.
Ainda se lembrou de aconselhar á filha que fosse a Villalva. Parecia-lhe
elegante, de bom effeito no publico, esta reconciliação á hora da morte.
Mas a filha revoltou-se.
--Isso nunca!... Não é pelas offensas que elle me fez, é porque a minha
dignidade não me permitte entrar ali n'aquella casa e pôr-me a par com
uma mulher réles...
--Bem, bem, não te exaltes, filhinha. Eu cuidarei de tudo, rematou D.
Maria Francisca.
Foi então que telegraphou a Jorge.
Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber os desejos dos
Albuquerques.
Laura desmaiou mal o viu, e a mãe levou-a em braços para o quarto,
voltando á sala alguns minutos depois.
--Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como ella póde...
Mas logo, sem poder conter-se, continuou:
--Eu o que receio é que haja algum testamento e elle tenha passado tudo
para as mãos d'essa mulher que lá tem!... O meu querido Jorge verá. Se
não houver nada, peço-lhe que tome conta de tudo e, se houver, faça
então como entender. Elle está muito mal, segundo o que o dr. Carvalho
me diz, até talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe peço tambem
é que me mande um proprio, a cavallo, para se tratar do enterro logo que
elle falleça.
Com estas instrucções partiu para Villalva onde foi encontrar o amigo,
morto, sobre o leito, já lavado e vestido pelas mãos de Maria e do
creado Luiz.
Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem a Maria. Ella veiu
recebel-o á sala.
Jorge não teve coragem de articular uma palavra, tão grande era a
commoção em que todo este drama o lançava.
Foi Maria que singelamente resolveu a situação, dizendo-lhe magoadamente
e reprimindo as lagrimas:
--Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que pena não ter vindo mais
cedo!... Fallava tanto no Jorge quando delirava... Parecia que lhe
queria dizer alguma cousa...
Immediatamente, como prescrutando n'um breve esforço o que significava
ali a presença de Jorge, entre as lagrimas que já não podia mais conter,
perguntou:
--Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que tanto queria ficar ali ao
pé da mãe!...
Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos negros, a balouçarem-se
no macadam, sobre o qual pozeram o caixão que continha o cadaver de
Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, orando ao pé da janella e
pedindo, não a Deus que o tivesse junto de si porque no seu espirito não
podia haver duvida sobre a salvação de Claudio, mas a Claudio que junto
de Deus a protegesse e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu
entre as ramagens dos choupos que orlavam a estrada; ella voltou os
olhos para os cyprestes do cemiterio, como querendo instinctivamente
prender-lhes qualquer cousa que lhes roubavam, e ergueu-se a dar o peito
ao filho que se movia no berço.
Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa Cruz e pozeram-n'o
sobre um catafalco rodeado de tochas accesas e muitas velas em
serpentinas de prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos,
em fórma de flores, e aos pés do caixão, do meio d'esse montão informe
de enfeites, pendia uma fita preta com grandes lettras douradas,
dizendo:
_Eterna saudade da sua Laura._
Em seguida aos responsos, pôz-se tudo a caminho do cemiterio. Um lente
da Universidade dizia na carruagem para o juiz que o acompanhava:
--Vão mais de quarenta trens! Este Albuquerque tem ainda uma grande
influencia!...
--Pois não tem! respondia o juiz. O genro, se não fosse tolo, podia ter
feito uma linda figura. Ainda nas ultimas eleições se lembraram de o
eleger deputado por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora vivesse!...
Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio costumava trabalhar,
uma creança brincava á sombra das oliveiras. Ao lado, uma mulher,
vestida de negro, ceifava o azevem. Era Maria.
Á mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens a caminho do palacio dos
Albuquerques. Ali, trocavam-se palavras doces em meio das paredes
despidas dos seus adornos. Laura e a mãe discutiram longamente,
maduramente, quantos vestidos havia a fazer, e resolveram mandar vir da
capital uma modista em voga.
--Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre é lucto de mais d'um anno!...
Aqui fazem-te lá alguma cousa em termos?! Não has-de andar todo esse
tempo com vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas ter
com que te apresentes. Tu bem sabes como aquella gente de Lisboa
repara...
FIM