Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas

primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da mãe, agora sempre

presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, na

exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia a sua existencia,

recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago,

esperanças de salvação.

O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas sobre a situação a que

chegára, a historia da sua vida era um livro aberto em que não ficava o

mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos

da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que

seus paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo ininterrompido, via

como depois surgira a tentação accendida pelas fascinações da sciencia

materialista e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com angustia

a tortura em que o lançára o tormentoso desvairamento do adulterio.

Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda sobre a significação

moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do

espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga

sonhando a alliança d'uma simplicidade christã com os requintes

artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.

Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e

profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em

palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta á

sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrára uma inconsciente

crueldade onde phantasiára uma perenne bondade e denguices sentimentaes

no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem

remedio.

Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomeçar a sua

vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraça sem

remissão. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os

continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes

definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os

creados, a aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação e

essa avidez feroz com que reclamava o marido só para os seus prazeres,

para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, não lhe

permittindo um momento de liberdade, não lhe concedendo, n'uma hora de

bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos,

para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas

meditações.

Na verdade, não tivera com Laura um só acto de violencia, não podia

dizer quando começára esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua

presença e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissolução

era menos completa; infiltrára-se-lhe na alma, subtilmente,

impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fél

que trasbordava jorrando um sombrio desespero.

Como supportára até então essa cruz, porque não fugira ha mais tempo do

logar em que um tormento incessante o perseguia? Não tinham sido as

esperanças de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas

perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma

revelára-se então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma arreigada

convicção que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.

Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, n'um exame da

propria consciencia, que só por amor de sua velha mãe occultára a sua

desgraça tentando deixar-lhe sempre a impressão de que vivia feliz. Sim,

só por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma

apparente contracção, para que a tristeza não perturbasse a sua velhice

e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus

por ter abençoado de felicidade a sua próle.

Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço que o ligava á terra!

Aquelles cyprestes que além oscilavam ao vento junto á egreja, tinham

agora para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos não se

desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, fitando os tumulos,

buscando a revelação do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua

mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. Para Laura, sua

esposa? Era alheia ao seu coração e, ámanhã, quando o tivessem lançado

ali ao pé de sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, em

carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e

bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os

mendigos do jardim.

Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dôr

mentirosa, ávida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do

mundo crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada podia esperar

d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da mãe. Já uma

atmosphera de louvores e constante lisonja começava a tornal-o enfadonho

e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a

perversão mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus

olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu

destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida

de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando

consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta,

consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo,

lançando para longe todas as preoccupações moraes, despindo-se

affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando

a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher,

sentira os impetos d'uma reacção naturalista que o vigor dos annos

atiçava mas de todas as tentações logo accordava pela lembrança dos

tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores

de Emilia e pela perseguição de invenciveis espectros da consciencia em

que as aspirações de virtude se confundiam com a imagem da sua mãe, no

intimo sempre presente.

Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as

alegrias que ambicionára, continuamente retalhada de dôres? Tivesse a

coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia

n'este mundo? O pão que o alimentava queimava-lhe os labios como um

roubo ao trabalho dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio não

seria um crime nem uma deserção, era uma obra de caridade livrando a

humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justiça,

reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em

sonhos vãos e agora sacrificada á frivolidade d'uma mulher. Uma pesada

sombra lhe escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo eternamente

mysterioso como o mar calmo em que precisava lançar-se para seu repouso,

para sua gloria, para sua redempção.

N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, desde que fallecera a

mãe de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos

devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella

dependiam.

Vinham regular as suas contas, pedir perdão das dividas em atrazo ou que

lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam

contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.

Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa

grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descalça, tendo

deixado á entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham

tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a

cosinha, em pequenas cestas.

--Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que

Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.

Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, começavam a falar dos

seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenças que

houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos maus preços.

Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua mãe...

rematavam.

Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, não tinha coragem de

resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreição de qualquer

cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.

De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e

com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas

obrigações, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os

comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do

mundo encerravam-se em algumas medidas de pão guardadas na arca, em meia

duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae

traçando o pasto, e tecido nos serões de inverno á minguada luz d'uma

candeia.

Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás o pão com o suor do

teu rosto», é tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o

sustento que ella nunca recusa ao teu suor, não contes os teus passos,

nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos,

para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; não penses

para que nem para quem, os necessitados te virão buscar o pão, como nas

horas de miseria tu irás tambem viver do trabalho alheio.

A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada

pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambição, de todas as suas

cogitações e de todos os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli

correctivo.

Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que,

creança ainda, pela primeira vez deixára Villalva para ir buscar riqueza

e saber que tão cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte

voltava como a unica redempção.

Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia que crimes eram os seus

para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos

elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se

por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que

diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber

que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam

de o condemnar.

No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação do que Claudio por

demais conhecia, a vaidade da mulher, a crença nos seus merecimentos

alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade

insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as acções do marido.

Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para

seu uso e regalo e não para viver para elle, sacrificando-se.

Confirmando a sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de

desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitações

podesse surgir.

Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao campo em que empregára

tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha

caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de

Emilia em que julgára ter alcançado a felicidade. Com que risonha

esperança alli se sentára em mornos crepusculos do estio e em que

desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua culpa!

Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No seu proprio abandono

havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva,

as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse

desalinho da natureza a que era estranha a mão do homem, cantava a vida

ingenua e simples em emanações de viço e de frescura.

Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra e o campo brilhava

todo aljofrado de gottas de agua.

Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras que a enleiavam e

olhou procurando um carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam

todos os caminhos.

Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher.

Reparou então que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho,

rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das

acelgas.

Instinctivamente, começou a limpar o chão das plantas parasitas,

primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas,

depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na

terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e

bastas.

Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim não podia mais, todo o

corpo mortificado pela posição em que estivéra, abaixado. Levantou-se,

contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e,

para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem

receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.

No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, á tarde, depois de ter

recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vêr as violetas.

Abaixou-se novamente, teve tentações de continuar, mas não podia mais,

os membros entorpecidos.

--Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.

Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. Apetecia-os com

frenesi.

Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a

ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em

outro trabalho. Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo dorido

ainda do exercido da vespera. Começou a sachar um alegrete, mas o

serviço ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava

aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava a apertar

pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mão tremia-lhe, o

córte era incerto, mal rematado.

Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do

inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado.

Não poder trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... Seria a

salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, o prazer de cuidar das

suas flores que a mãe vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque

não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as forças

voltariam com o uso.

Cada dia começou então a ter para Claudio os seus momentos de prazer. As

violetas expandiam-se agradecendo os carinhos de quem lhes déra espaço e

sol, as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e já da cylindra

se erguiam suavissimos perfumes. Era uma festa interminavel que

recrudescia a cada instante em novas vibrações de vida, coroando e

abençoando o esforço humano.

Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira da sua vida, a

natureza, e tenazmente procurava vencer e sujeitar o corpo debil ao seu

grande amor.

No dia em que pela primeira vez lançou mão da enxada, passou-se na sua

alma um grande drama, uma lucta gigante entre o destino e a esperança.

Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e cravou-a no sólo.

Depois, firmando-se, recuou o corpo e voltou a leiva cortada cerce,

rompendo a terra de cuja escuridão se desprendia um alento de

fertilidade, como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, cravou-a,

recuou e voltou uma outra leiva. Triumphava! De repente, porém, cairam

os braços e um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. Não

podia! O esforço era superior ás suas forças; uma reacção violenta quasi

o prostrava. Encostou se á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe

pela fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!

N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A esperança, succedendo ao

desalento, reanimaria o corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e

casta, sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar a fome aos

miseros famintos e para restituirem á vida a alma angustiada.

Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco horas no seu campo,

vencendo pelo exercicio e pela perseverança a debilidade physica,

affrontando as instancias dos servos, que se julgavam humilhados vendo

regeitados os seus serviços, e desprezando risos equivocos dos visinhos

que entre si discutiam se Claudio era um avaro, se um louco.

--É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. Muito agarrado!

--Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que lhe deu. Elle não faz

aquillo para poupar. Parece até que se importa pouco com o que é seu.

Tem perdoado as dividas todas e traz as rendas de rastos.

Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do trabalho n'aquella

estreita lavoura, Claudio tomára á sua conta alguns serviços de casa

mais ligeiros. Era elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que

breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua caracteristica e

descompassada alegria, abeirando-se do seu senhor com as caricias de

gratidão que elle recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas

dadivas.

Mas não podera banir ainda todas as horas de angustia; a fadiga e os

novos prazeres d'esta existencia nas graças da natureza não tinham

vencido inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes voltavam os

zumbidos demoniacos do desespero e com elles a prostração do espirito.

Não, não havia modo de se libertar e desprender do passado! A sua vida

estava finda, precisava ter a coragem de comprehender e esperar com

resignação o esphacelamento d'esse involucro que se lhe afigurava

desprezivel e que era o seu corpo.

De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha animo para um rompimento

formal; a dissolução dos antigos vinculos ia lenta, com bastas

interrupções, prendia-se em conveniencias que não conseguira combater

victoriosamente, e com os estranhos mostrava cuidar da administração da

casa e estar preso em Villalva por interesses temporaes.

Laura recebia-o com um azedume que não procurava encobrir, mitigado de

contentamento por ter ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas

ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente vaidade, julgava se

perfeita; attribuia o affastamento de Claudio a sentimentos brutaes e

ruins.

Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações entre os intimos a

infelicidade da filha e não perdia occasião de repetir:

--Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem aquelles gostos

extravagantes. Só está bem entre brutinhos.

Claudio comprehendia o que se passava em volta de si; pouco fallava,

cortando sempre abruptamente qualquer tentativa de explicação sobre o

seu viver.

Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem a mulher lograria

fazel-o mudar de rumo nem elle conseguiria emendar o insubmisso caracter

da mulher, formado para o egoismo e para a vaidade n'uma atmosphera de

inconsciente perversão. Por isso se tornára taciturno. Quando por acaso

se encontrava nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se a

tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem de conversar e não o

perseguissem com indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus

passos e os seus actos.

Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a Villalva, lançando fóra com

desprezo o casaco que o embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha

por um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal calçado,

começava a visitar os gados e as plantas, retemperando-se no silencio

d'aquellas montanhas; e este regresso ao ninho, como lhe chamava,

deixava-lhe invariavelmente nas primeiras horas a impressão d'uma

felicidade reconquistada e segura. Accordava-o uma vibração salutar,

emanada d'esses milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes

para os que palpitam na mesma onda.

Em frente da casa de Claudio morava um velho que fôra creado de seus

paes. Juntara um escasso mealheiro á custa d'uma economia inflexivel,

casára com a visinha que possuia aquelle albergue em que habitavam, e

com isso e com as terras que o seu antigo senhor lhe déra de renda tinha

prosperado em certa independencia.

Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns tinham ido para o

Brazil, outros trabalhavam em Lisboa, outros tinham-se casado, outros

morrido, e em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze annos

que o ajudava na lavoura e uma filha de vinte annos, e de nome Maria,

que no labutar domestico auxiliava a mãe alquebrada pelos partos, pela

creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas fadigas.

Claudio olhava aquelle casal como um templo em que se guardava pura a

felicidade e a virtude. Era aquillo que elle hoje desejaria para si, se

podesse recomeçar a sua vida;--ter tirado da terra com o suor do seu

rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo uma numerosa próle de gente

honesta e sã.

Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas a conversar com o

visinho, interrogando-o com uma curiosidade insaciavel, como começára,

d'onde viera para alli, como conseguira crear os filhos. O velho contava

singelamente; parecia sentir prazer em rememorar o passado. Para comprar

os primeiros gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que o do

mealheiro não chegava.

--Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, tinha aquelle

genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe

andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo

que ás vezes me dizia: Porque não compras mais uma junta de bezerros?

Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli,

áquella arca da sala onde a sr.ª sua mãe, Deus lhe perdoe, guardava as

arrecadas e o cordão. Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem

me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais

cedo, era um rapagão! tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á

garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia dó. Mas

emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.

Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortaliça lavada na

ribeira; accendia a candeia, e começava a cortal-a num alguidar, sobre a

meza. A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, em que a agua

já fervia.

Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração em que se envolvia a

tristeza da sua vida desbaratada.

Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse já alto e a fadiga o

prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao pé

da cancella, enxugando o suor.

Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descalça, o pé

comprido e magro, erguendo os braços a amparar o açafate que trazia á

cabeça, cruzado no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.

--Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse ella avistando Claudio.

Isso até é peccado andar assim a cançar-se sem precisão...

Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á rapariga, embaraçado,

como desculpando-se, attentou na sua belleza.

Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e assim de pé,

sorrindo, os braços erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em

que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.

--Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se

das suas fadigas que Maria tanto estranhava.

--Eu! Linda!...

E riu-se.

--Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha

aqui ás tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes

encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no braço e o

fio d'algodão preso no hombro. Agora estás uma moçoila que os rapazes

hão-de cubiçar.

--Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo

envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.

E seguiu ladeira acima.

D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á rapariga. Prolongava a

conversa, á noite, com o pae d'ella para a vêr risonha e deligente a

cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á cancella

do seu campo. Não trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o

seu viver, sobre as suas ambições e os seus prazeres, procurando

penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel

sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.

Claudio, reflectindo na attracção que sentia por Maria, tentava

convencer-se, a poder de logica, de que não tinha tomado novos amores.

Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema

sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo,

agradecendo-lhe a revelação d'esse mundo de paz e de felicidade. Não

passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria

coroar pela castidade esse novo culto.

Maria tinha um campo proximo áquelle em que Claudio trabalhava e onde

elle, na impaciencia de a vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde

a conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou na estrada um rapaz

ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se

mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:

--São horas. Vou-me até casa.

E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.

Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.

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