--E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca ao entrar em casa,

emquanto atravessavam o jardim. A Laura é muito fraquinha. Depois não

sei o que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos envelhecem

muito. Lembra-se de vêr minha prima Luiza? Casou ha cinco annos, como

sabe, e tem tres filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha! Não

faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, que está muito bem.

Demais, um rapaz!...

Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo da sogra. Sabia que

havia muito quem assim pensasse, nunca imaginára que alguem se atrevesse

a aconselhar-lh'o.

A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. Crescei e

multiplicai-vos para o trabalho e para a virtude, para que a verdade se

derrame no mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se as

relações na humanidade.

O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa seria uma das

condições do resgate das suas faltas passadas; formando para o bem

numerosas almas christãs, havia de compensar os seus erros. A

intervenção da sogra surprehendera-o e por isso se calára; mas, passado

esse primeiro momento de surpreza, revoltava-se.

D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava, posto que pelo silencio

do genro ficasse suspeitando de que elle não acceitava o conselho. Á

noite, conversando n'um pequeno grupo em que se encontravam Laura e

Claudio, julgou conveniente repetir a instancia mas d'esta vez levando-a

por outra via.

--Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do Amaral, já não ha nem

póde haver casas nobres. Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes

resista. A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia que fazia

tanto bem. Desgraçado de quem tem mais do que um filho!

--Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio a responder

bruscamente, não tentando dissimular a sua irritação Que trabalhem! Foi

assim que fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!

Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:

--Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz fino como Claudio!...

A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria do Amaral, com o fino

tacto que adquirira na sua vida de mundanismo fidalgo, accudiu a

interrompel a:

--Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós, disse para D. Maria

Francisca. Está á nossa espera para a manilha; lá entende que por ser

dia de festa não ha-de ficar sem partida.

E todos se levantaram.

--O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido quando mais tarde se

recolhiam aos seus aposentos, foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr

assim. Fico muito zangada.

--Porquê?

--Ora, porquê?!...

--Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...

--Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, Deus me livre! Só o que eu

soffri!...

--É a boa educação religiosa que vos dão n'esses collegios de beatas.

--Tomara-me eu lá! São umas santas...

--Ninguem te prende.

--Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou para me inquietar.

--É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves cuidar é de não te

inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao

cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.

Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella

asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou até á madrugada, meditando

no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes,

as phantasiosas esperanças que por alguns mezes alimentára com uma

tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da

metralha. Não queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a

extrema perversão, o repudio completo de todas as leis naturaes, a

cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expansão da vida

ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do

peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas

manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade não

transformára Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de

sacrificio não viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava,

tornando-se indomavel.

Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher as palavras

indispensaveis; taciturno, nada fazia já para lhe occultar o seu

desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma

derradeira esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e

alegria o que por instincto e instigação da consciencia não tinha podido

alcançar. Laura porém conservava-se inteiramente estranha ao que se

passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio.

Pois não era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a

cercavam?!

A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. Claudio não

podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma

condemnação formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle

esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva de Deus para

melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada

por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliteração

do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educação formalista,

dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da

bondade, no intimo creára uma plena seccura de coração. Sem as luctas da

vida em que se fórma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o

esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem reservas os seus

desejos.

Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira lucta, surda, sem explosões

retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento

uma divergencia de caracteres que, não logrando fundir-se, mutuamente

tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de

tudo se tirava motivo para discussão que invariavelmente terminava por

accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.

Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre

propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e

odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma

fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao

seu chamado. Não havia mez em que algum não fosse substituido.

--Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego do que os regalos dos

fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.

--São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher admoestando a; tem as

mesmas tentações de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo

afêrro aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. São elles que

nos servem, é sobre elles que lançamos todos os trabalhos pesados que

não podemos ou nos repugna fazer.

--Pois governa-os tu! Eu é que não estou para isso. Se te incommoda

ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles

são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios que não servem senão

para me inquietar.

A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa

contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.

Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que

a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre

as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para

alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.

Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de

negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua

parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido

para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito,

n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque,

se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois

seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça

inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar

a cruz e o altar.

Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe

era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para

ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo

seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e

ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego

promettera reservar-lhe.

Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o

livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim

o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para

a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de

emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o

Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais

de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas

lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando

a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.

--Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado...

Nunca se lembra de trazer os escalfadores.

Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em

casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já

levemente irritada:

--Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha

saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!

Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando

n'um movimento de surpreza, estacou.

A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.

Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o

despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e

a injurial-a.

--Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu

regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.

Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.

--E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!

Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber?

pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de

Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a

imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais

algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel

aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se

dissipar.

O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as

visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir

apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um

mimo! Um apetite! E que gordinho!...

--É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato

do avô.

Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e

propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella,

juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?

A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e,

despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam

dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto,

uma belleza!...

O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que

por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára

o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus

chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter

novos filhos.

Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das

longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e

paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas

aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia

reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..

Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de

Claudio.

A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham

habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados

pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus

appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus

passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de

sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que

procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda

existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria

tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar

só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em

movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida

d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só

para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por

isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por

ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder

explical-o.

--Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que

agora vejo!...

Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse

apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o

affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas

constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas

maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de

religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho

assiduo, procura servir o proximo.

Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para

os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua

existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura,

pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias

que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do

consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se

mostrava impertinente.

O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de

benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em

que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que

toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava

hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados

por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham

festejar os annos das pessoas de familia--os pretextos de festas

multiplicavam-se,--ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar

pressa, rematava a _toilette_ para passeiar de carruagem, ou se consumia

em qualquer outro frivolo mistér.

Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis

de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida

lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram

insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um

cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma

creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para

ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra

para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de

engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da

pequena casa da estrada da Beira.

Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis

além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.

--Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com

vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...

--Não, mas tudo tem limites.

--Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou

então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não

viesses procurar uma pessoa fina.

--Talvez não tivesse sido infeliz...

--Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem,

não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.

Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste

experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias

inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo

crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.

Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de

libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de

tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia

voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos

companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural

repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do

pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma

atmosphera sã.

Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de

Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha

levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites

venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado,

emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava

insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.

--Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o

chapéu na cabeça.

--Passeiar e tratar umas cousas na baixa.

--Mas eu preciso sair tambem...

--Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.

--Bons costumes! E muito delicados...

Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios

alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o

suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na

contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando

quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um

rapido refrigerio.

Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de

despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos

haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com

proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela

doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava

Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos

seus sentimentos.

Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias

de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia

e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má

nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas

vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio

medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que

constituiam, uma ameaça grave.

Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez.

Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela

sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de

santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina

acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi

só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e

depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se

sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo

aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella

que fôra a maior affeição da sua vida.

Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite,

dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe,

acrescentava, que o estado da doente era muito grave.

--Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte

que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é,

deve ter coragem para se conformar com o destino.

Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.

--Posso fallar-lhe, não posso?

--Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar

muito. Sempre excita...

Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados,

unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.

A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a

occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva.

Depois, dominando-se, chamou baixinho:

--Minha mãe, minha mãe?

--O que é? respondeu a velhinha abrindo os olhos.

--Está aqui o Claudio.

--Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mão esquerda, que o

braço direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... É

tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que cá viesses

hoje...

Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz

embaraçava-se.

--Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia

duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se

lembra de que foi ella que te mandou chamar.

Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a

velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:

--O que tem? Quer alguma cousa?

--Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.

A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da mãe, a

observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vêr melhor, desvendou a

luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bahú de

coiro, antiga herança da casa em que o pae guardava os titulos das suas

propriedades.

--Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.

O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem

articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia

inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a

eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens

para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas

horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe,

pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o

leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo,

em cima da commoda, convertida em altar.

Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de

sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços.

Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair,

entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os,

soluçando n'uma crise de lagrimas.

--Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe

havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma

santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que

correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou

a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a

mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar

contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença

perturbava-o.

Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa,

tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a

Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e

partiu.

Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado,

succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha

trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia

innumeras vezes.

Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas

e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as

suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se

na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma.

Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade

batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria?

Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.

VI

Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpção no seu

caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanações purificantes!

Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lançando os

olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou

debruçados á beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga

aspiração, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um

pullular de interrogações que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes

caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?

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