ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria
despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe
apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever.
Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigação por
excellencia para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente havia
de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que não
voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos
egoistas.
Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. Essas visitas, á
proporção que o caracter de Laura se revelava, começavam a tornar-se um
problema inquietador.
Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença da mãe e das serras
de Villalva eram para o seu coração um magico lenitivo que apagava todas
as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.
Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a
mocidade e a frescura. Não o comprehendia Laura e por isso sentia, com
um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe
pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em
Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de lá ir, as
pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais
frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.
Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já não era sem receio que
Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se
contrariava.
--Vamos amanhã?
--Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação as Mendonças que vão para
o Porto e vieram despedir-se.
--Ah! é verdade!... Depois de amanhã...
--Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que
queria vêr o nosso jardim e talvez cá viesse.
--No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não sei o que por lá vae...
--O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.
Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas
as semanas. Mal passava o domingo, era necessario começar a preparar o
terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritação de
Laura.
O problema não tinha solução; estava destinado a manter-se
indefinidamente nos termos em que o punham a contradicção do affecto de
Claudio e da indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou
ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietações.
A presença de Laura importava um retraimento de expansões que por
completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a
apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a
suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se
traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro
que lhe embargava toda a felicidade.
Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o
filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos,
apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo
amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que
jámais seria o seu quinhão n'este mundo.
Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpôr a estreita porta
do casal de Villalva, para que as trevas do coração jámais se
derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações não
cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas bençãos. Mas,
voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio
como n'uma lugubre mortalha.
Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de
gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem
tem fé na recompensa divina.
Raro batiam á porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho
costume, procuravam a porta de serviço, onde tinham probabilidades de
encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das
largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a
emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louças da India,
que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando
sentiam vozes na sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas
melopêas.
Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja
miseria e immundicie repugnava á sua esmerada elegancia; apressava-se a
despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes
concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vêr sair.
Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia
pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no coração da
mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma
indifferença inabalavel.
Essa indifferença havia de transformar-se um dia n'uma explosão de
maldade em que deviam naufragar todas as esperanças de conversão.
Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do
arvoredo moderavam com uma vibração de frescura e os lilazes e as
roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoçava com Laura,
quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas
cruzadas sobre o albardão esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo
attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, ou pastasse pela
beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro
entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava
rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, procurava alcançar os
ramos d'uma acacia que tinha em frente.
--Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e
apontando o mendigo. É preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não
se póde parar n'esta casa!
--Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem mais...
--Qual precisam! Precisam menos do que nós. Que trabalhem! O que elles
são é uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi
a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.
--Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que pôde fazer um mealheiro,
mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir
serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão os que ficam por
esses casaes!... Nós é que deviamos procural-os.
--Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a
hora e a todo o instante...
--Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigação de
os ajudar. Até são bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas
cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de
miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos
calcados, quanta esperança enganada!
--E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te
parecem muito bonitos?
--Tudo é miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das
enfermidades da alma? Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a
quem te pede.
--As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando de colera e
querendo terminar; eu é que não estou para aturar isto. Tenho cá os meus
pobres que sei que são necessitados e não quero saber dos outros. D'aqui
a pouco não ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo
entulhado com pobres. Deus sabe as doenças e a porcaria que elles
trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!...
Eu é que não estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que
aturo aos brutinhos dos creados.
Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante a irritação de
Laura, e ficou scismando, com infinita mágoa, no caracter rebelde da
esposa. Enganára-se? Essa educação religiosa das irmãs de Santa Ignez,
em que tanto se fiára, seria unicamente uma série de formulas occultando
a inanidade de sentimento? As devoções bastas, as orações, as missas, as
confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos
dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de
vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma
implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria
apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o
esforço e de toda a contrariedade, só para ostentar a gentileza da sua
figura?
Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas
ruins com a vara magica do amor e da esperança. Não; Laura era um anjo.
Só a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginação
de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou
perversão moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma
simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso
eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico,
d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura
fosse mãe, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de
desabrochar na sua alma e a vida seria então para Claudio o eden que nas
attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. Esperasse; a
sua hora chegaria.
E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da
esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambições mais nobres,
tomando por motivos de bom quilate as razões que para desvanecer
suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e
porventura por um ardor de sensualidade que não attingira ainda a sua
inevitavel e satanica consumpção.
Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se á noite em casa
de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram
as classicas mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, os cinzeiros
e o panno verde, accenderam-se as vélas do piano para ouvir as walsas e
as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua
educação, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e
chicaras de chá levados nos braços hirtos dos creados, em bom aprumo,
envergando a casaca bem assente.
Laura sentia então um suave contentamento que lhe dava uma expressão de
felicidade; via ali uma reproducção fiel do viver de seus paes, toda a
sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus
serões já tinham fama de elegantes na cidade.
Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados. O arranjo das
flores, a combinação do jantar, o serviço, o modo de pôr e tirar os
pratos, a maneira de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas
reflexões e consequentes recommendações severas aos creados. Se havia
algum convidado, o que bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e
não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.
--Que te pareceu?
--Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.
--Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em cousa alguma!...
A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu cortejo de fainas
ociosas e estereis trabalhos em que a vida se dissipa sem o minimo valor
moral. Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, de
modestia e de affastamento das cousas mundanas esvaiam-se deante das
mesquinhas exigencias de Laura a quem parecia ter cedido completamente.
Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições geradas na cruz do
remorso permaneciam vivazes, bem arreigadas no fundo da sua alma,
esperando a hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de que era
seu dever dar tranquillidade á esposa proxima a ser mãe, sacrificando-se
n'esta abdicação ao culto da maternidade, mas intimamente contando os
dias que o separavam da hora da redempção. Nem poderia esquecer os
propositos com que se casára: lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a
Villalva, que Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.
D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta que o tornava silencioso
e distrahido. Porventura a sua vida teria naufragado sem remedio? O
dever que impozera á sua vontade como norma de existencia e satisfação
da consciencia havia de curvar-se á fragilidade d'uma mulher?
A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas o desalento era
breve, terminando sempre em uma cega confiança na transformação de
Laura. Toda a sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma
transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso as dôres que,
fazendo a mãe, accenderiam na sua alma as fachos do amor divino.
Quando viu approximar-se esse momento, exultou. Era a libertação de toda
a agitação vazia em que consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos
labios côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. Não mais coraria
de desespero quando os mendigos lhe calcassem o jardim; havia de
preferir á banalidade fastidiosa dos seus serões entre os convivas o
silencio da alcova singela compassadamente cortado pelo embalar da
berço. Só estranhava o borburinho que lhe ia em casa e as andadas de D.
Maria Francisca, já interrogando o medico, já segredando com a parteira.
--Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas mais para o lado
esquerdo... Que me diz?
--Isso não significa nada, minha senhora.
E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada, tinha respondido o
medico.
Voltava instantes depois.
--Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se. Se a examinasse... O
dr. Xavier, um indio que estudou lá fóra, disse-me que em Paris...
--Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que era um rude e singelo
descrente de medicinas, em Paris as mulheres teem filhos como em
Portugal. Até devem ter menos que a população diminue.
--Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria Francisca á parteira.
Já estou arrependida de não ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier.
Sempre é outra cousa!...
--Oh, sr.ª D. Amelia (era o nome da parteira) talvez seja melhor passar
outra vez as mãos pelo sublimado. Esteve agora ahi a mexer nesses
vestidos e o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. O
sublimado sempre! Para a mais pequenina cousa!...
--Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a muita mulher. Isto com a
ajuda de Deus Nosso Senhor...
--Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar ao medico, as dores
parece que são tão distantes...
--Não se afflija v. ex.ª, ellas apertarão.
--Que homem, que modos estes! E dizem que é bom medico! Ai, Senhor,
tomára já isto passado!
Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e
pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte
e esta ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? Não havia uma
religião que libertasse de tantos e tão mesquinhos cuidados elevando a
alma em extasis divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e o
berço até á formação completa do homem, o modo providencial de pagarmos
a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo
significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de
passageiras dôres que a resignação, tirada da consciencia d'uma missão
sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações
da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto
perturbava a piedade que a afflicção da esposa lhe despertava.
No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio
d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, após uns curtos
momentos, os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.
--Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens! É um
rapaz!... Adeus que não tenho aqui que fazer. Muito socego é que a
doente precisa.
--Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o
medico até á porta.
O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vêr
a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vêr os primeiros
clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras
d'uma vida nova.
Entrou cautelosamente, pé ante pé.
--Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava
sentada á cabeceira da cama de Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito
gordinho e lindo como um anjo!
Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e vermelha, apertada em
faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.
Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma uncção religiosa. Não
era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a
graça de Deus incarnára.
--Como te sentes? murmurou.
Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de repugnancia e odio,
respondeu:
--Ai, meu Deus! Que horror!
E os olhos cerraram-se novamente. Não houve uma palavra para o filho,
nem um gesto de ternura, nem o mais leve movimento que não significasse
um fastio mortal.
Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda d'aquella massa inerte
envolvida em finissimo linho uma vibração que viesse confirmar as suas
esperanças de tantos mezes.
Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do quarto de Laura esmagado de
desalento.
Embora! No seu espirito procurava razão para justificar o estado moral
de Laura e continuar a esperança que até alli tinha mantido.
Era uma reacção natural do corpo fatigado pela dôr physica, mas, quando
a saude voltasse, com ella viriam os affectos de mãe e o ardor de
sentimento em que todos os sacrificios são recebidos, na alma ávida de
amor, como favores do destino.
Todavia, pensava, que singular perversão a do genero humano! Não
acontecia o mesmo com os animaes. N'elles, o instincto materno dominava
todas as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos
immediatamente ao parto, a aproximação das mães era perigosa; havia uma
resurreição de instinctos bravios a proteger os recemnascidos.
Porque não seria assim para as mulheres? Que degeneração de sentimento
as podia levar a abandonar os filhos logo ao nascer, friamente, sem um
grito do coração offendido? Não, não podia ser assim.
Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de
operar-se a transformação milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e
mãe profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, á
existencia alheia.
Essa transformação porém não vinha. Deccorriam os dias, as forças
voltavam, e Laura continuamente se lamentava. Não podia dormir uma hora
descançada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a
entrar-lhe no quarto a cada instante, para que désse de mamar á creança!
D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua
robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentação; o calor
das creanças junto aos seios em que pousavam as pequeninas mãos,
comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para ella um instinctivo
prazer, desprendido de quaesquer razões moraes. Para a filha, porém, era
differente. A filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que
queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os
queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:
--Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito fraca...
--Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...
--Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe
disser. Pensas que os maridos gostam muito de vêr as mulheres magras e
velhas antes de tempo?
Interrogaram o medico, na presença de Claudio. O medico respondeu:
--Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos é conforme a vontade
de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas
forças, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...
--O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio que a conversação
contrariava extremamente, é como uma mulher tem forças para crear um
filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e
forte, e não não tem forças para em seguida o amamentar durante um anno.
Muita gente devia morrer entre os pobres que não tivessem para pagar a
quem lhe creasse os filhos!
--Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os
meus... Quem não tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os
filhos; mas quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal.
Nem mesmo ás creanças é util. Pois se ellas podem ter um leite bom para
que hão de estar a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?
--Até certo ponto... respondeu o medico. Mas lá isso, diga-se com
franqueza, não sei o que é o cuidado das mães! As creanças parece que
medram só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre
são madrastas.
Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama.
Era uma necessidade. Só se Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher
tisica!...
Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. Não houve razões, nem
instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao
egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio
via com espanto, que em breve se transformaria em aversão, o filho
entregue a braços estranhos.
Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu
discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de
delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com Laura o
caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado ás cinco horas da
tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunião dos intimos.
Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava e a disposição
dos moveis não era adequada á dança. Fica assim uma reunião mais
escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa,
escusamos de convidar os gebos que não sabem vestir uma casaca e não vêm
ahi senão para comer.
Claudio não concordava; não queria festa alguma. O baptisado, dizia, é
um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem
tem consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.
--Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em
miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada,
deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o
costume cá de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do
José?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O
conde de Palhares, que veiu cá de propósito, disse-me que os bailes do
Farrobo não tinham mais grandeza.
--Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é muito bom rapaz mas ha de
ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.
--Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com isso...
A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.
Tomando por singela obediencia as complacencias com que até então
Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria
Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham
convencido de que todo o dominio lhe pertencia, começava agora a mandar
em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre
as observações do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o
desejava.
Claudio começava a viver sob uma impressão de pavor que crescia á
maneira que via perderem-se todas as suas esperanças. A cada instante se
refugiava no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento em que
poderia encontrar-se só e bem de frente com a tristeza da sua vida.
Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais do que nunca opprimido.
Quasi não fallava; respondia por monosyllabos, se o interrogavam.
--O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia para D. Maria
Francisca, vê-se mesmo que está doido de felicidade! Não diz uma
palavra, vae todo entregue ao pensamento no filho.
Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade do templo,
juntando-se á febre do seu espirito, produziram-lhe um momento de oração
ardente. Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava as palavras
do padre, dirigindo se a um deus desconhecido que não via com os olhos
do rosto mas que sentia na alma dominando o mundo. Intimamente repetia
com o sacerdote: _Omnem coecitatem cordis ab eo expelle_, varre-lhe do
coração toda a cegueira, _disrumpe omnes laqeos Satanae_, quebra-lhe
todos os laços com Satanaz, _aperi ei Dominé januam pietatis tuae_,
abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, _accipe lampadam ardentem et
irreprehensibilem_, recebe a lampada ardente e irreprehensivel, _custodi
baptismum tuum_, guarda o teu baptismo, _serva dei mandata_, obedece aos
mandamentos de Deus, _ud habeas vitam aeternam_, para que tenhas a vida
eterna. _Vade in pace et Dominus sit tecum_, vae em paz e o Senhor seja
comtigo.
A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe de lagrimas. Vae em
paz e o Senhor seja comtigo! repetia interiormente.
A dôr das amarguras do passado e a ambição da felicidade do filho
confundiam-se n'um mesmo anceio. A consagração a Deus era plena,
irrompia-lhe do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!