Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os

hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de _whist_ e as senhoras no

quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural

curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e

fazendo comparações com outros casamentos nobres a que tinham assistido.

--Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.

--Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que

ha-de saber estimal-a... E agora hão-de dar-me licença, que são horas de

preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se lá não vou abaixo,

os creados não fazem nada. Uns estupidos!...

--Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.

E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.

Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha umas ultimas cousas a

regular na sua nova casa. Laura não procurou prendel-o, absorvida como

estava pelos cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar bella e

fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da sua vida.

O casamento foi á uma hora da tarde, na capella do palacio.

Desde o meio dia havia um incessante rodar de carruagens, que entravam o

largo portão de ferro coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar

em frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados de vasos com

hortensias.

Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, recebiam ordem de

regressar á noite, esperavam que o creado da casa, fardado de verde e

branco, batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés de

emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos magros, cobertos de

arreios baços, em que só brilhavam as ferragens amarellas,

excepcionalmente polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos

da cocheira.

Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos de seda, muitas

rendas, algumas joias, e um rumor de vozes abafadas na timidez de

indiscrição e no respeito da solemnidade. Só os convidados de Lisboa

destacavam por fallarem alto, trazerem casacas usadas e macias,

amoldando-se bem ao corpo, e sapatos com visiveis signaes de terem

servido muitas vezes; passeavam e conversavam livremente com damas e

cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os estudando elegancia,

confrontando-se com elles e procurando aprender aquella maneira tão

facil de dar o nó na gravata que muito cubiçavam.

O Albuquerque entrou sorridente, com Laura pelo braço; Claudio deu por

sua vez o braço a D. Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares,

cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o cortejo a caminho da

capella, saindo a porta principal e atravessando pelo jardim. Na rua, o

povo apinhava-se nas grades que vedavam a quinta, espreitando por entre

as arvores.

--Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo em vágas

remeniscencias a noiva e as creanças que viam nas procissões com grandes

azas de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.

A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma hora o cortejo regressava

ao palacio. Houvera lagrimas ao verem os paes abraçar a filha, mas a

missa em seguida ao casamento e os gracejos com que os mais alegres

commentavam a situação tinham desvanecido essas sombras passageiras;

quando sairam da capella, todos vinham risonhos.

O _lunch_ era ás tres horas; no breve intervallo que medeava entre o

casamento e a refeição, os convidados dispersaram-se em grupos pelas

salas e pelos jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula

esperando a hora de saciar-se.

Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos Albuquerques. Os

commentarios divergiam.

Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra d'uma olaia, podia

surprehender-se o seguinte dialogo:

--É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está e que gente aqui vem!

--Já foi melhor. Deve muito.

--Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa recebe ainda para cima

de cem moios de milho, fóra o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.

--Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia deve perto de trinta

contos e disse-me outro dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais

de quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para lhe apanhar um

vintem. Só quando estão ameaçados de qualquer penhora é que se mexem.

Olha que ha mais de quarenta annos que este homem não faz senão gastar

dinheiro!...

--Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos. Quanto não vale isto

aqui? e os bens de Pombal?

--Está tudo hypothecado ao Credito Predial e quem lá vae é alma que caiu

no inferno. Não se sae de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez

de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!

--Mas agora tem os genros para o ajudarem...

--Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem boa casa.

Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando de braço dado á beira

do lago, commentavam differentemente, em tom malicioso.

--Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes, refresca com o

casamento, arruina-se outra vez, e agora casa as filhas ricas.

--Elle merece-o, que nos tem dado muito boas festas. Não ha ninguem para

receber como este homem. Nasceu para isto!... Acabou-se.

--Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações para penhora,

vindas de Lisboa, sem conta.

--O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu cair. Foi meu condiscipulo

e era o avêsso de todas estas cousas. Retraído, muito modesto...

--Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...

--Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga, os paes haviam de

lh'a metter á cara, e caiu.

--Pois olhe que, se elle é como você diz, não me parece que vá lá muito

bem. Esta gente gosta de gastar e de luxar.

--Não, não! A Laura é muito boa menina!

--Boa!... Historias! As meninas são todas boas, mas, quando se habituam

a viver á larga, não ha quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa

gente para gozarmos com elles; de portas a dentro o caso é outro.

Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os

seus habitos, e enfadado. As suas preoccupações andavam muito longe da

alegria em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos lançavam os

convidados.

Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida e folgadamente;

toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue

escandecido. Só Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura,

supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma

religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o

coração tumido de angustias passadas e de esperanças futuras.

Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e

saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até

ao portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as

salas ficaram desertas, repetiram-se os abraços e as lagrimas que de

manhã se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa

proseguiu redobrando de animação.

Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram

para Claudio d'uma infinita doçura. Do governo da casa não havia a

cuidar; D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha creada da sua

confiança, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos

noivos fosse perturbada.

Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a pé pelos

caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza,

passeios de carruagem pelas margens do rio, e o serões em casa dos

Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.

Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da

indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello

na consciencia tranquilla pela satisfação das convenções do mundo, e

comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais

carregava de crimes e remorsos.

Emprehendia a educação do espirito de Laura, admirando com pasmo e

veneração a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido tão

precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.

Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura,

tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento

christão, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de coração,

Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.

Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a

profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio

por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e

serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher

superior.

Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de Claudio. A unica coisa que

lhe permitiu uns momentos de conversação foram as imagens do oratorio e

particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no

collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou

intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia:

--Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta vida me tem valido e

ajudado nas minhas afflicções.

Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situação.

Instinctivamente affastava uma ociosa confissão de desejos e aspirações

tão carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.

Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio

se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que já

começava a haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o azeite que

tinha levado talvez não fosse do melhor.

Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar

o vinho que havia de precisar de trasfega, e o José, o creado, não tinha

geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar um dia para

vêr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe

tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fóros de

Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com

grande allivio de Laura a quem as attenções do marido pela mãe começavam

a enfadar e que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe queria

bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, por temperamento e

inclinação hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a

perpetuamente.

Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas

horas tinha trabalhado, as arvores e as flôres que plantára por suas

mãos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava

nos salões do pae, para não dar ensejo ao riso das antigas amigas, que

lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.

Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da

estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.

Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de

Laura.

--Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.

Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom

afflictivo:

--Dize, dize-me, minha filha, por quem és... Que tens tu?

Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu arrastadamente.

--Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo. Não posso parar com dores

n'um dente, d'este lado... E indicava com a mão.

--Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...

--A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.

--Sim... sim... não posso esperar.

N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo ladeira abaixo, a

caminho da cidade. Ao pé de Laura ficára a creada que se offerecia,

suavisando a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo ella dizia.

Talvez um chásinho...

Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos de menina mimosa.

Entretanto Claudio batia á porta do dentista que veio á janella, ás

escuras, a resmungar com somno. A estas horas!... É preciso ter muito

pouco respeito pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os atura.

--Quem é que está ahi? gritou de cima.

--O dr. Claudio...

--Ah! é v. ex.ª. Eu vou abrir, respondeu apressadamente o dentista,

moderando a impaciencia e esforçando-se por sorrir perante o freguez

rico.

--Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v. ex.ª o favor de

subir.

--Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu vinha pedir-lhe aquelle

elixir...

--Pois não! Eu dou-lh'o já...

E dirigiu-se a uma estante.

--Queira desculpar.

--Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle v. ex.ª n'isso... Se a

dôr não abrandar á primeira applicação, renova o algodão no fim de meia

hora...

--Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se a descer a escada.

Infelizmente já o tenho usado... Muito obrigado, sim? E desculpe...

--Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.ª.

Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto da mulher que, logo

que o sentiu, se sentou no leito.

--Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento por vêr satisfeita a

vontade de Laura.

Com difficuldade applicou-se o remedio, porque mal se percebia uma

sombra de carie no dente, e Laura adormeceu rapidamente n'um somno

tranquillo.

Excitado pela inquietação e pelo movimento, o marido ficou passeiando na

sala. Só tarde, pelas sete horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre

um sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os seus passos o

somno da mulher.

Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos estranhos. O que seria?

Ergueu-se sobresaltado. Laura estaria peor?

A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer á creada de quarto de

D. Maria Francisca que prevenisse a sua senhora de que a menina tinha

passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera a noticia quando

ás oito horas pediu o primeiro almoço e apressou-se a vir a casa da

filha.

Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos e a góla do casaco

desapertada deixando vêr o collo que as rugas começavam a sulcar, D.

Maria Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao genro:

--Então que foi, que foi?!...

--Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe o elixir...

--E agora como está?

--Deixei-a a dormir...

--Sósinha!... Que imprudencia!...

--É que estava tão socegada que eu não quiz aproximar-me d'ella com

receio de a accordar.

Entraram no quarto.

Laura tinha dormido excellentemente depois do tratamento; nem sequer

apresentava no rosto vestigios de ter soffrido o quer que fosse.

Acercaram-se do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou á

filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:

--Estás melhor, minha filhinha?

--Parece que agora estou melhor, mas passei muito mal a noite. Ai, que

dôres, Santo Deus!

--O Alexander bem te disse, replicou a mãe em tom de mágoa e

reprehensão, que esse dente precisava tratamento. Tu não quizeste e ahi

tens as consequencias! Agora o remedio é voltar lá.

--A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade e espanto.

--Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes que a dôr volte. É um

soffrimento horroroso, horroroso!...

--Mas talvez aqui mesmo...

--Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...

--É que o dentista foi tão amavel comigo que póde escandalisar-se...

--Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.

E voltando-se para a filha, a cortar a discussão que lhe parecia ociosa:

--Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.

--Não m'o trouxeram... respondeu Laura.

--Com estas cousas é que é necessario ter muito cuidado, disse D. Maria

Francisca, voltando-se enfadada para Claudio e poisando o dedo sobre o

botão da campainha.

Appareceu a creada.

--Então são quasi dez horas e esta menina sem ter tomado o leite!?...

exclamou irritada.

--Oh, minha senhora, começou a creada a explicar, ainda agora deram nove

horas no relogio lá de dentro e eu até vinha saber...

--Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o

leite. E não fique lá quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?...

Isto quem as atura...

--Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de

araruta... Deves estar tão fraca!...

--Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o

tomar leite!

O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para não incommodar a

doente que durante todo este tempo não tivera uma palavra de gratidão

pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno

profundo, a refazer-se da interrupção da noite.

Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira

opposição de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de

tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse

elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.

Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados

de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam

duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os

theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a

humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas.

Laura temia um pouco a apresentação do marido aos parentes elegantes da

capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse;

gravatas, calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapéus,

tudo ia combinado ponto por ponto para que não discrepasse das leis

vigentes do janotismo.

Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa

felicidade. Á parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o

tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação de

Claudio á numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos

modos não destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com

a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.

Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando

no caminho percorrido, via com mágoa quanto os factos divergiam das

aspirações, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.

No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhára no seu espirito

e nas suas ambições era a imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho,

a resignação e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando

todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe

offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem

limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.

Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe

remedio para uma passageira dôr de dentes e comparava a com a serenidade

que sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da

simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas

necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.

D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões de ter errado na

maneira de realisar as suas aspirações moraes, mas breve esses temores

se dissipavam. A candura de Laura venceria as fraquezas da educação. Era

só o tempo necessario para a revelar e vêr desabrochar na sua

consciencia as flores de suave perfume que lá dormiam em botão. A

esperança reanimava-o.

Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude. As futilidades

absorventes succediam-se; a existencia consumia-se inutilmente. Laura

não dispensava a companhia de Claudio a todas as refeições, em todos os

passeios e nos serões passados em casa dos paes, prolongados serões em

que a moleza dos estomagos replectos se espreguiçava pelas flexuosas

cadeiras Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o um

instante.

O certo era que a vida de Claudio se subordinára inteiramente á da

mulher; todo o trabalho se reduzia a servil-a nos seus prazeres e nas

suas necessidades, empregado a todo o instante nos mais frivolos

misteres, em procurar um lenço que esquecera algures ou em transmittir

ordens aos creados. Já em casa dos Albuquerques se dizia que a filha

encontrára um excellente marido.

Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação aggravou-se. Laura

passava mal, constantemente enfadada, com um fastio permanente, ora no

leito, ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.

A presença de Claudio era então reclamada como um dever; não podia

abandonar a esposa, cumpria-lhe servil-a em todos os seus caprichos como

bom enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era permittido sair ao

jardim; ficava em casa, inventando jogos para a distrair, a ella que com

tudo se contrariava e aborrecia.

Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para seu prazer. Os

jornaes annunciavam a chegada a Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia

Menther, que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a noticia á

mulher e perguntou:

--Queres lá ir?

--Deus me livre! respondeu ella irritadamente e accentuando a

inconveniencia da pergunta. Estou lá em estado de cousa nenhuma! Como

queres tu que eu me vista?

--Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não apparece por cá quem se

possa ouvir...

--Mas vae tu...

--Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...

Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem

molestia alguma. Claudio não se conteve; foi ao concerto. Receiando os

seus amuos, explicou que era só por uma ou duas horas quando muito, que

o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo

de se instruir.

Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuasão

de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente

acquiescera aos seus desejos.

A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem de deixar o

theatro até ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas visões tragicas

de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.

Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das

mortificações moraes, uma agitação sádia e capitosa.

Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibração que o erguia da

prostração morbida em que os azares do seu destino continuamente o

traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito

cautelosamente.

Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um lenço a indicar as

muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e

nem se moveu nem disse uma palavra.

--Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?

Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vãos,

baldada toda a mágua afflicta com que era interrogada. Uma convulsão de

choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.

Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações dos modos de

indifferença e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o

dia que se seguiu á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com

Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste

destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe

cravava no coração.

Não era senhor de si, não podia dispôr de duas horas para seu prazer e

sua instrucção, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda

a obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus

caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa

ociosidade? Esquecia as aspirações de virtude que o tinham levado ao

casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher,

revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um

mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo

pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.

Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a

independencia, os carinhos protectores da mãe para lhe suavisar a cruz a

que o prendera o amor de Emilia.

Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de uma mulher que

constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu coração

ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o

soffrimento sem esperança de remissão que não viésse d'aquella mesma que

era a causa da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia e fé,

clarões que varriam estas sombras.

Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia

acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio

recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da esposa eram as

exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do

egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver só e unicamente para a sua

familia. Que lhe importava o resto?

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