deixasse o collegio. Leonor tinha do marido tudo quanto queria e elle se
julgava obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella trazia ao
plebeu.
Só os calculos de resgate das dividas se desfariam em desillusões,
porque o brazileiro, rehavendo para isso toda a energia d'um bom
burguez, defendia-se tenazmente.
Não queria saber dos negocios dos outros, tinha os seus capitaes muito
bem collocados e não podia tocar-lhes.
Á sr.ª D. Leonor, como respeitosamente a tratava, nada faltaria, nem
mesmo o titulo de condessa da Maia que um deputado lhe promettera e as
vastissimas propriedades, que n'aquelles logares possuia, justificavam.
José d'Albuquerque completamente convertêra em desenganos as esperanças
dos paes. Por um capricho de hereditariedade, carecia absolutamente das
qualidades que caracterisavam o temperamento dos paes, a vivacidade, o
amor do luxo e dos prazeres.
Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente os seu estudos, não por
falta de intelligencia, que realmente possuia grande reflexão e bom
senso, mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.
A cada momento deixava os livros da aula, para se entregar á leitura das
velhas chronicas que ha muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham
pertencido a um seu remoto ascendente que fôra conego da sé de Coimbra.
Finda a formatura na Universidade, começou a passar dias inteiros entre
a livraria e o jardim, com a paixão d'um alfarrabista. Os seus unicos
jogos eram os livros e as flores.
Recusava todos os casamentos _vantajosos_ que tentavam fazer-lhe com
fidalgas e parentes da Beira; na sua indolencia, tão avêsso ao jogo, aos
cavallos e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes da sua
casa, como indifferente á administração dos bens, tornára-se, com grande
desgosto de D. Pedro, a negação do morgado que elle phantasiára
continuando o regabofe da familia.
D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam cousa alguma, tanto mais que
o filho, além das qualidades de espirito que tão accentuadamente
manifestára, era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada, mas
infinitamente resistente. Na parcimonia, no desprendimento do luxo, e
até mesmo no poder de intelligencia, fazia lembrar o avô materno, tendo
pelos livros a soffrega cubiça que o outro tinha pelo dinheiro.
Talvez por isso, por lhe recordar o pae, senão mesmo pela propria
contradicção de caracteres, a mãe adorava-o; só por elle consentia em
fazer qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansidão captivava o
seu genio ardente; onde quer que a encontrasse, acariciava-a.
Como ultima esperança de salvar a casa, restava Laura. O casamento de
Leonor só para ella trouxera riqueza, e de José todo o pensamento de
especulação se tinha affastado, graças á sua doce e energica
resistencia.
Laura tinha uma educação perfeitamente egual á da irmã. Ao tempo em que
a conhecemos, contava vinte e quatro annos de edade e havia seis que
deixára o collegio, continuando em casa com lições de piano e de pintura
cujos resultados se exibiam frequentemente nos seus magnificos salões,
como tentação aos noivos ricos que infelizmente não vinham.
A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e fundada, vivia n'uma
teia infinda de embaraços; todos fugiam de ligar o seu nome e a sua
existencia aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques estavam
permanentemente ameaçados.
Entretanto, não faltavam a Laura carinhos de educação nem vestidos
elegantes. Devia-se aos mestres e á modestia, de quem periodicamente se
recebiam cartas agridoces instando pelo pagamento, mas uma derradeira
esperança concentrava na pobre rapariga todos os desvelos e para a fazer
brilhar não havia hesitações.
Tal era muito em breve a historia e a situação da familia a que Claudio
pensava em unir-se, buscando paz á sua alma n'uma vida de dignidade, de
trabalho, de elevação e de grandeza moral.
Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o cubiçavam. Instigados pela
mesma ambição, tacitamente reunidos num mesmo pensamento de interesse,
viam ha muito em Claudio um genro que lhes convinha. Suppunham muito
elevada a sua fortuna; sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus
jantares, não perdiam occasião de se informarem.
--É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve estar muito bem. Além do
que elle comprou ao fidalgo, tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais
de cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que apenas recebeu de
lá uns quarenta contos, mas é claro que essas cousas nunca se confessam.
Ao jantar e na palestra que precedia as partidas de _whist_, emquanto o
creado punha sobre a meza as marcas e os baralhos de cartas, collocando
aos cantos os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, no
sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia o seu pé pequenino que
toda a Beira galante conhecia, não cessava de elogiar o amigo do seu
José.
--Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...
O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias para o seu futuro
genro. Não sabia ao certo... mas pelo nome era indubitavelmente
descendente d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque
d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi da invasão franceza.
Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos com isso,
nunca mais lá voltaram, foram morar para umas herdades que possuiam no
Alemtejo e mais tarde venderam tudo o que tinham no norte.
Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma cousa. Em Semide
conhecia uma familia com aquelle appellido, parente dos condes de
Montemór que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do reino.
No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira contrariedade ao pensar
no casamento da filha com Claudio. Tentando convencer os outros,
procurava ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe empannavam o
espirito. Claudio não era, infelizmente, fidalgo; só por triste
necessidade de ruina o acceitaria para marido de Laura.
Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto os Albuquerques se
davam a este novo sonho de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a
sua situação.
Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa em que como doido
deixára para sempre a capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em
que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente sobre a mesa
um livro de Paulo Bourget, _L'Irreparable_. Leu e sentiu um subito
despertar. Accordava, tinha encontrado a chave do enigma da sua
existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava o animo, n'esta
esperança que d'antemão se lhe afigurava uma realidade.
Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o que ha muito podéra ter
feito, se a fraqueza o não tivesse vencido.
Era necessario, urgente, que por um acto de energia creasse entre elle e
Emilia uma situação irreparavel em que lhe fosse impossivel voltar
atraz; e essa situação não podia ser outra senão o ajuste immediato do
seu casamento com Laura.
Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava as palavras de
sympathia que tinha ouvido da sua bocca e, recordando-as, moderava as
apprehensões que lhe provinham do confronto da sua humildade plebeia com
a nobreza dos Albuquerques.
Fosse como fosse, a hora era de acção; estava resolvido a lançar para
longe esta cruz d'uma eterna hesitação.
Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a Coimbra fazer aos
Albuquerques o pedido da filha. Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver
Laura e, confessando-lhe o seu amor, propôr-lhe-ia o casamento. Se ella
recusasse, telegrapharia a Jorge para que elle suspendesse a jornada e
partiria para o estrangeiro a refazer-se de todas as dôres no repouso e
nos prazeres.
De Emilia não cuidava. Fizesse o que quizesse, não se julgava
responsavel da loucura que a accomettera e em que ella pretendia, com um
egoismo cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas as
attribulações da sua consciencia e cuspindo palavras de escarneo e
desprezo sobre aquillo que elle amava. Era de mais! A taça trasbordava.
Sentou-se e escreveu:
_«Meu querido Jorge:_
Esta carta será para ti uma surpreza e espero que, conjunctamente, um
motivo de alegria. Vae surprehender-te o pedido que venho fazer-te, a ti
que me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e ha-de por certo
alegrar-te saberes que, embora tarde e o coração rasgado pela dôr e pelo
remorso, vou tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho,
procurando resgatar nos annos que porventura tenha deante de mim, os
erros que foram o amargo fructo de toda a minha mocidade.
Depois que estiveste aqui na primavera passada, nunca mais te fallei dos
tormentos com que tenho vivido em continuada mortificação; julguei por
um lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro, profanação da
paz risonha do teu lar ir inquietar-te com lamentos que nunca deveria
soltar porque eram unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas a
triste verdade é que ha um anno vivo n'uma constante lucta, procurando
fazer penetrar no coração de Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a
ella e a mim, no caminho da emenda e salvação.
Todos os meus esforços foram vãos; todos se partiram e desfizeram
d'encontro a um egoismo sem limites em que, invocando o meu amôr,
procurou prender-me por todos os modos, com rogos e ameaças, já
invocando os meus loucos protestos de fidelidade perpetua, já
soccorrendo-se das obrigações que me attribuia por ter manchado a sua
honra e destruido a sua reputação.
Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade e instancia com que
luctei, chamando-a ao dever, em nome dos filhos, da religião, da
consciencia e do proprio amor que me jurava e de que implorava um acto
de resignação e desprendimento, restituindo-me a tranquillidade d'alma
sem a qual me julgo indigno da vida.
Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe todos os sentidos e
não tive meio de a levantar d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por
infelicidade sua e minha, ambos nos precipitamos n'um momento de
desvairada tentação.
Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e vergonha em que me tenho
arrastado.
Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou pessoas a que muito
quero em termos que nunca julguei ouvir da sua bocca e que até mesmo
ignorava que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora mais
indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar n'um impeto de raiva, e
agora estou no firme proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer
cousa irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre de consentir em
prolongar, por mais um só dia que seja, os nossos amores.
Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa uma consciencia
imaculada nem poderás imaginar o que são as penas do remorso! Como um
Lazaro, coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, só peço a
Deus que me proteja e conduza no seu infinito amor. Todas as dores do
corpo, todas as enfermidades serão para mim melhores que o castigo das
minhas culpas nas accusações da consciencia.
Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem piedade que me perseguem e
aterram, reunindo n'um só esforço todas as energias da razão e da
vontade que ainda possa encontrar nos miserandos restos d'um corpo
exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. Quero casar-me.
Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo José d'Albuquerque; é
mesmo provavel que mais do que eu as tenhas encontrado na sociedade que
frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou no Porto com um
rapaz muito rico; a Laura está ainda solteira e é no seu nome e na sua
imagem angelica que estão hoje todas as minhas esperanças.
Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos e devaneios, posto que
a sua formosura e os seus dotes bem os justificassem. Procuro realisar
um casamento longamente reflectido e meditado, á fria luz da razão.
Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos annos a vida era para mim
uma festa pagã em que a livre expansão de todas as forças animaes
significava a felicidade suprema; mas a experiencia e a dôr ensinaram-me
que concorrentemente ha leis moraes, derivadas de inspiração interior, a
que não se póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e
prostergado, passei pelas mortificações que só agora espero affastar.
Não que a vida mystica me tente ou desconheça o que devo ao corpo. Pelo
contrario, vejo e comprehendo as suas imperiosas necessidades. Mas quero
que a existencia humana, para ser bella e nobre, se traduza n'um
equilibrio das inspirações divinas e das aspirações terrenas, na
harmonia da luz da consciencia dominando e regulando o tumultuar das
paixões mortaes.
Não contesto as leis da vida organica e tudo o que a sciencia me
ensinou; pretendo apenas que, conjunctamente e superiormente, existem
leis divinas, um impulso interior que nos domina e ordena a pratica do
bem.
N'estas condições, dada a conclusão definitiva a que cheguei sobre o que
a vida deva ser, pódes comprehender a que motivos obedeci inclinando-me
a casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal a candura, a
ingenuidade, a educação profundamente religiosa que recebeu e os
encantos da vida aristocratica, no melhor sentido da palavra, os
delicados instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana e a
cercam d'um puro deleite; eu levarei com o meu sangue plebeu os habitos
de trabalho que são o brazão da gente humilde e o fundamento da
dignidade.
E assim viveremos na modestia que convém á exiguidade das minhas
riquezas, na caridade que será para nós o premio divino, o melhor dos
bens, e no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam n'uma
aurora infinda onde o sol se eleva sempre, espargindo serenidade e luz e
jámais se afunda derramando a treva.
Quizera dizer-te todo o programma de vida que em longos mezes de
inquietação pude determinar na anciedade de paz e de virtude; quizera
dizer-te como espero resgatar estes tristes annos de loucura e de erro.
Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga d'uma noite
tempestuosa que me deixou o espirito em desordem, a esperança de te vêr
dentro em pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo pedir-te, e
é o fim principal d'esta carta, é que sem perda de tempo venhas vêr-me
para me ajudares com o teu conselho e a tua amisade e para regulares a
minha situação com Laura e os Albuquerques, conforme as boas regras de
cortezia em que és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.
Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas que me trazem
perturbado, a tua presença será para mim, estou bem certo, um grande
bem. Nem tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão!
Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras afflictivas da
noite; enche-me o coração a esperança e a paz. Meu Deus! Protegei-me no
caminho da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!
Do teu
_Claudio_.»
N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na impaciencia que o fizera
escrever a Jorge, pediu á mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe
ao seu gabinete e ambos se encaminharam para lá.
A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na
face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho
começasse. Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; sentia
sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o
tribunal supremo. Foi á janella, voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho,
pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes
movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto á sua agitação sem
poder articular uma palavra.
Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe perdão das suas
culpas. Seria o primeiro passo para a regeneração e para a virtude.
--Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar, vendo
o silencio do filho e começando a sentir certo mysterio n'esta longa
pausa.
--Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe... que, se fosse da sua
vontade... se fosse da sua vontade... já lhe tenho dado tantos
desgostos...
--Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a angustia do filho.
Senta-te, senta-te aqui, tu não estás bem.
Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, sem se atrever a fitar
a mãe:
--Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, talvez me casasse...
--Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus Nosso Senhor ouviu as
minhas orações...
E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas e soluços a agonia,
dissipando-a. A confissão que havia de ser longa, encerrara-se n'estas
rapidas palavras; o coração sentira o que os labios não souberam dizer.
Não tardou a resposta de Jorge.
«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava elle. Esse é que
era o preceito antigo e authentico sobre casamentos. Que se deixasse
Claudio de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal e que agora
mesmo não podiam prometter-lhe cousa alguma.
Que tinha feito muito bem em acabar com os amores de Emilia, se o
inquietavam, e que tambem lhe não dizia que deixasse de casar com Laura,
se gostava d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o primeiro caso era
motivo para os exaggerados remorsos de que se deixára possuir nem devia
pôr no casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro não as
podesse satisfazer. Conhecia muito bem o Albuquerque pae, que a cada
passo encontrava em Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro,
excellente homem.
Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca vinha a Lisboa, mas
ouvira que era uma senhora de muito tino e que toda se dedicára á
administração da casa.
Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era muito bonita, porque
ninguem sabe o que está dentro do coração d'uma menina que ainda não
conheceu nem póde conhecer o que seja a vida do casamento com todos os
seus trabalhos e obrigações. O tempo lhe diria a sua sorte.
Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava para a sombra dos
platanos, que tanto apreciava, a discussão de todos esses pontos que a
Claudio pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos como
agua da fonte.
Em poucos dias tinha ajustado o casamento de Claudio com Laura. Restavam
só os cuidados de ordem material, o enxoval da noiva e a installação da
casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam bastantes.
Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver em Coimbra. A mãe
voltava a Villalva, separando-se do filho com a mágoa e a resignação que
era propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo tempo contente por ir
acabar onde vivera a sua melhor vida, dando largas aos habitos de
simplicidade, ao genio laborioso e á caridade constante. O filho
promettia ir vel-a todas as semanas.
A casa escolhida pelos noivos era na estrada da Beira, a pequena
distancia do palacio dos Albuquerques. Sobre uma elevação, recolhida no
meio d'uma pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes de
jardins, de hortas e de pomares, dominava todo o valle, triste nas
tintas sombrias do olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena
garganta, entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros mimosos,
balouçando-se, lançavam um brando alento de movimento e frescura sobre a
morna placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos,
corajosamente, brandindo ao vento as tenues folhas.
Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores da arte; aos
moveis do palacio de Albergaria juntou o _bric-à-brac_ que Jorge lhe
enviou de Lisboa.
Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças, tapeçarias e
bronzes, cogitando artificios para dar relevo á belleza dos objectos.
O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; o proprio
Albuquerque, que na frequencia da gente fina adquirira auctoridade em
materia d'armador, exclamava contente nos serões do seu palacio, entre
os lentes que vinham tomar-lhe o chá:
--A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...
Quando chegou a hora de se separar da mãe, Claudio sentiu pela primeira
vez a apprehensão da inanidade de todo o esforço em que com tanto
enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.
Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? Que valia á sua vida a
riqueza e o ninho que architectára n'esse valle que agora lhe parecia
estranho? Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde estava? Laura?
Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. Desconhecia-a.
Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria, n'essa pequena sala de
Villalva, só com sua mãe, via em torno os montes escalvados, em baixo o
estreito campo a que déra todos os seus cuidados, ao longe um retalho da
varzea cortada pelo rio. Tarde de primavera, suavidade e silencio, só
cortado pela voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a hora de
jantar, a ultima refeição que teria em commum com sua mãe antes de
partir para essa jornada mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que
agora quasi aborrecia.
Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.
No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento. Dos seus amigos e
dos seus parentes só Jorge o acompanharia; a mãe e a irmã não
consentiram, por timidez e acanhamento, em deixar os seus campos. De
resto, os Albuquerques, incluindo Laura, mal se referiram a essa falta,
muito promptos em acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que lhes
viessem manchar a festa com a sua rudeza.
Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se da mãe para a abraçar
pela ultima vez antes de se casar. A lembrança de todo o passado que lhe
enchia o peito trasbordou em largos soluços e lagrimas abundantes.
Choraram unidos estreitamente, trocando um prolongado beijo, sem
articular uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda de felicidade
em que se confundiam mágoas, esperanças e um infinito affecto. Depois,
Claudio, abrindo os braços, com um gesto de resolução, deixou a mãe:
--Adeus!
--Adeus!
Foram as unicas palavras que em voz sumida se ouviram; e saiu descendo o
caminho, sem olhar para traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em
baixo.
A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e querendo acompanhal-o, o
cão de guarda da lavoura.
--Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado que estava perto.
--Leão, Leão, aqui! gritou o creado.
O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.
Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido, esta caricia ás fundas
dores que o trespassavam.
A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento e a confusão eram
completos. Rolos de tapetes, vasos de flores, escadas, louças, creados
em mangas de camisa, mulheres do campo transportando cestos com ramos de
hera e de loureiro, um ininterrompido cruzar de vozes dando ordens e
pedindo objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro que corria de
salão para salão querendo dirigir toda a esmerada ornamentação do
palacio.
--Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... Esses vasos vem ou
não vem?!... Então o tapete?... Assim... pela direita... está bem! mais
acima!
O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se da sua tarefa
n'uma desordem activa e alegre.
Ao cair da noite estava tudo completo; a casa guarnecida de verdura e de
flores, coberto o chão de tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas
postas profusamente nos candelabros e nas serpentinas para se accenderem
no dia seguinte.
Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas
e pelos sofás estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e
ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma
saia de seda que se espraiava pelo chão sobre um lençol de linho e que a
modista mandára larga, errando a medida.
Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns
fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas
e nos clubs.
Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que os transportavam da
estação do caminho de ferro, os da Beira com bahús de folha envernisada,
mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes
malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como
prata.
O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e
mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para não desmanchar
os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.
--Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um principe!
D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus
aposentos.