era bello e rico, e a vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a
morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo magestoso.
Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da Universidade que,
tirados de condição humilde, se curvavam reverentes perante a nobreza,
felizes de se acercarem d'ella.
Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e elle queria mais a este
tratamento, que aos seus olhos indicava funda e genuina fidalguia, do
que ao de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafões usualmente lhe davam.
Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o titulo de Dom eram
raros. De portas a dentro, em Coimbra, esse tratamento era de obrigação
e indicado aos creados, logo que entravam em casa.
Uma vez que Claudio singelamente perguntára pelo sr. José d'Albuquerque,
o filho do fidalgo, o creado apressou-se a corrigir:
--O sr. D. José está a almoçar.
D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco annos, ficára sem o pae
que tinha morrido d'uma catarrhal, apanhada andando á caça em Cercosa,
segundo lhe diziam. Ficára entregue aos cuidados da mãe e d'um tio,
filho segundo, irmão do pae, que em vida d'este tomára a seu cargo os
cavallos e os cães de caça, e de nada mais se occupava. Na verdade, póde
dizer-se que ficára unicamente entregue aos cuidados da mãe, senhora
fidalga de origem, de maneiras e de costumes, caridosa e boa, mas com
excessivo affêrro ao estreito formalismo da gente da sua egualha.
Um dos motivos por que ella, á morte do marido, se apressára a tomar nas
suas mãos toda a administração da casa, fôra o temor de que o seu
governo caisse sob as ordens do cunhado.
Temia-o e evitava-o, não por ciumes de dominio mas porque receiava a
influencia d'elle, grosseiro e rude, sempre em gracejos com as raparigas
do campo; queria affastar o filho d'essa má escola, queria, no seu
pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de modos nobres e nobres
sentimentos, como convinha á gente fina. Por isso fazia valer os seus
direitos de mãe e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade
interpôr-se entre ella e o filho.
D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora em Coimbra, sempre
acompanhado por um padre que a custo lhe ensinou a lêr e a escrever,
porque o discipulo era, além de pouco intelligente, remisso na
applicação e no estudo.
--Esperto, esperto! dizia o padre á morgada. Mas muito distraido... O
que elle quer é brincar, está sempre com o sentido no que lá vae fóra.
Por seu lado, a mãe toda se esmerava em educar os modos do filho. Até
aos dezaseis annos, em Coimbra, nunca o deixou sair que não fosse
seguido por um creado, para não se perder em más companhias; tinha-o
sempre a seu lado na egreja e em todas as suas devoções, corrigindo o
mais pequeno gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva
rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente, se deixava de se
curvar com reverente moderação e suavidade ao erguer a Deus.
Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lições completas; mandava-o
entrar e sair, sentar-se, cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma
maneira precisa as palavras, as attitudes, os logares e as distancias
que convinham a cada momento. No dia em que pela primeira vez viu o
filho descendo a escada com uma dama pelo braço, a acompanhal-a á
carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de movimentos que lhe
vinha do seu corpo moço e robusto, teve um fremito de alegria e de
triumpho. A sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!
Com intimo pezar e grande receio, era necessario entregar o morgado ao
tio para as lições de equitação. Tão má companhia... Mas d'essa penosa
impressão cobráva allivio quando, ao entrar no palacio, o tio que em
casa era sempre tratado pelo sr. D. Joãosinho, vinha dizer-lhe
enthusiasmado:
--O rapaz dá um cavalleiro! É atrevido e firme. Hoje na Calçada era tudo
a olhar para elle. Trazia o _Corisco_ numa dobadoira.
D. Pedro aproveitára as lições; exteriormente estava tal qual ella o
desejára. Interiormente, porém, o caracter era o do tio e as
preoccupações dominantes, absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito
novo ainda, não saia de ao pé das creadas que continuamente inquietava,
perseguindo-as e apalpando-as.
--Menino! Isso não se faz! Olhe que eu digo á senhora!... Que tal está o
fedelho?... Eram as vozes que a cada instante corriam na cosinha e na
casa de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava com as
creadas.
Aos creados, com quem ás vezes vinha conversar ás occultas da mãe, dizia
sempre que havia de ter um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na
serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher, com boa perna.
--Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados. Temos outro como o sr.
D. Joãosinho! Cão de caça quer-se de raça!
A mãe julgava-o uma vestal, e já elle ia longe nas suas aventuras, tendo
começado pela mulher do jardineiro e proseguindo com uma costureira
habitual da casa, quando ella, por conselho do padre, começou a dar ao
filho liberdade de dispôr de si, do que elle usou com a largueza que os
seus instinctos exigiam.
A elegancia do novo morgado, que a mãe procurava, quasi unicamente, na
sua educação, combinada com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em
resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas festas,
caçadas, conquistas amorosas e jogo.
Ás muitas despezas que provinham da lauta vida provinciana, juntaram-se
em breve alguns mezes de inverno passados em Lisboa onde D. Pedro
Albuquerque acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse
frequentar a capital com as commodidades de que era tão cubiçoso. A
abertura das linhas ferreas deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada
passo estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile do conde de
X..., para ouvir uma cantora em S. Carlos, ou mesmo, mais simplesmente,
para se vestir no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; e,
inversamente, a cada passo estava acarretando de Lisboa para Coimbra
moveis de mau gosto que vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo,
herdadas de seus avós, roliços estofos armados em casquinha que um
estofador francez, chamado Gardé, lhe vendia por bom preço, farrapos
d'algodão arrendados que vinham substituir os sumptuosos cortinados de
damasco de seda vermelha.
Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de _consommés_, _foie gras_,
_galantines_, _mayonnaises_ e outras preparações que muito confundiam e
intrigavam os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza do morgado
de Cercosa, veiu banir para a frugalidade dos banquetes da burguezia
prospera o succulento pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes de
porco e a famosa vitella de Lafões.
Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em Coimbra, se viram gordos
espargos, comprados em Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes
da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes o seu profundo
saber para usar tão exoticos petiscos, deixavam de os comer por
hesitarem na forma de se servirem.
O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas que por cortezia não
queria dizer-lhes francamente como se comiam espargos, fallava alto,
rolando-os no molho com a mão e chamando para si a attenção, a dar o
exemplo.
Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que os bisonhos convivas
acceitassem os novos manjares. Os mais ousados, os que primeiro entraram
na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois para a Via latina
gabar aos collegas menos elegantes a cosinha franceza, os espargos e as
_galantines_, pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento
d'essas cousas finas perante a gente rustica que as ignorava.
Entretanto, a administração dos bens andava por mãos de feitores e
procuradores que todos enriqueciam e serviam a contento, se tinham a
habilidade de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de Coimbra o
Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes fazia.
A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter cumprido a sua missão no
mundo fazendo do filho um homem religioso, que ia á missa aos domingos e
dias santificados e se confessava todos os annos, de casaca e gravata
preta, e um fidalgo pela distincção com que se havia n'uma sala e na
presença das damas.
A sua grande preoccupação era a manilha e os parceiros de todas as
noutes, no salão do palacio da estrada da Beira onde ella
invariavelmente se encontrava no mesmo logar, distribuido mesuras e
palavras doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu finissimo
tacto pelas cousas que os interessavam, a este pela saude dos filhos,
áquelle pelo andamento dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro
pelas colheitas das propriedades que possuia nos campos do Mondego e a
que amiudadamente se referia, para dar mostras de riqueza.
Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a casa do Albuquerque
estava na realidade escalavrada. Em Lisboa tecera uma rede de lettras
passadas a amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros de
dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados á misericordia de
Vizeu, e um negociante da Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára
em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava por uma hypotheca
das melhores insuas. Nem ao certo se sabia a quanto montavam as dividas
porque nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, havia contractos
feitos em condições leoninas e, quando se chegasse á liquidação, era de
esperar que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.
O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham privado do regabofe
que fôra toda a sua vida, com o grosseiro bom senso que acompanhou a sua
existencia descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho,
procurando convencel-o da conveniencia de se salvar pelo meio simples
que lhe ia propôr.
Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido, faltava áquella
casa uma senhora que lhe désse o tradicional resplendor; elle, D. Pedro,
estava com quarenta annos e era necessario que tivesse um herdeiro.
Demais, accrescentava, em continuação do exordio que invocava os brios
fidalgos, as dividas tinham crescido e se encontrasse uma noiva com um
dote bom...
A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado silencioso e
indifferente, de perna cruzada, limpando pachorrentamente as unhas com
um canivete, ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro e
recrudescencia de prazeres.
--Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir aproveitando a
impressão favoravel. Tua prima Maria Francisca...
--Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido umas historias com um
Mendonça, capitão de engenharia?
--Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram um pouco, mas isso passou.
Raparigas tem sempre os seus namoriscos...
--Em todo o caso...
--Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa... Tua prima está agora
com os seus trinta annos,--e é uma mulher toda perfeitaça!--o pae não
póde ir longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu bem sabes o
que ali está... um poço sem fundo! O Ornellas, do Pragal, disse-me, a
ultima vez que estive com elle, que só em ouro o velho devia ter para
cima de cem contos de réis.
O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio como quizesse. Foi para
Lisboa, a gastar por conta das suas novas esperanças e das heranças
futuras, e o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado o
casamento de D. Pedro.
Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha e Mello, tinha em Vizeu
uma historia muito sabida e commentada.
Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, dentes perfeitos e longos
cabellos d'azeviche, filha d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma
creada que elle tivera.
A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco annos; e o velho, que
tudo consentia menos que lhe pedissem dinheiro, deixou crescer a filha
ao Deus dará, entre creados grosseiros que nem na sua presença se
guardavam de toda a casta de brinquedos e gracejos maliciosos.
Demais, sendo filha natural, só muito tarde os parentes consentiram em a
receber. Ficou por isso sem a minima educação nem de intelligencia e
sentimentos nem de delicadas exterioridades.
Apesar d'isso, como era bonita e rica, não lhe faltavam casamentos que
todos se goravam, uns pela opposição do pae, que ella desde creança se
habituára a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho da
rapariga que não olhava a fortunas nem fidalguias e pretendia marido que
lhe satisfizesse os sentidos.
Entre os pretendentes, contava-se um capitão de engenheiros, homem
alentado e grande, de grandes bigodes atrevidamente levantados, jogador
e conquistador famoso.
Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda paixão e nada
poupára para lh'a demonstrar, compromettendo o seu bom nome em longas
entrevistas nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.
Mas nem por isso o casamento se realisára, porque o pae d'ella se
oppunha e o capitão, desde que não presentia probabilidades de dote,
preferia não crear obrigações e lançar mais esta á conta das aventuras
de que tinha já larguissimo ról. A rapariga chorou, desgostou-se, e em
breve, por despeito e desespero, tinha novo namoro.
A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento com D. Pedro, vinha
encontral-a na mais favoravel disposição de espirito. Perdida a
esperança de casar a seu contento, mórmente depois dos infelizes amores
com o capitão, estava com trinta annos. Que lhe restava?
Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e gosaria uma liberdade e
independencia que muito apetecia. Acceitava.
O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho estava ainda rico, não
lhe pediria dote, morava longe e não o incommodaria. Era até uma
economia! A lembrança de que ia ter menos um encargo, menos uma pessoa a
sustentar e a vestir, trazia-o contente.
Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma coisa... Parecia mal! Mas
tinha as joias que herdára da irmã, algumas pratas, peças de panno de
linho, colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro é que não!
O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de que o casamento estava
ajustado, o que só pela certeza d'uma nova fortuna a desbaratar o
commovia. Comprou ricos presentes para a noiva, depois de conseguir do
agiota da Praça Velha um novo emprestimo para o qual hypothecou as
insuas, fazendo-se então largas contas de todos os atrazados que d'esta
vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu prestar homenagem,
que era de bom estylo, á futura esposa, a qual de resto conhecia muito
de perto dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a e onde
uns leves pruridos de conquista tinham creado já entre os dois uma certa
intimidade.
Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma ligeira reparação do seu
sumptuoso palacio, que foi rapida, e sem mais delongas se realisou o
casamento.
Passados os primeiros e curtissimos tempos em que o Albuquerque julgou
de bom gosto acompanhar a mulher em visitas e apresental-a aos seus
velhos amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente eram os da
sua casa, voltou ao seu antigo viver, jogo, mulheres e bastas visitas a
Lisboa. Entregava a administração da casa á esposa para melhor
conquistar a sua generosidade e simultaneamente se desonerar de
enfadonhos encargos.
Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus e uma insaciavel sede de
mandar, exultava com tão subida investidura.
Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a de todas as magoas
presentes e passadas, incluindo a indifferença do marido que tratava
respeitosamente mas que no intimo considerava como um simples e pouco
incommodo tributo imposto á sua independencia.
Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, o Albuquerque veio com
ella a Vizeu; mas ao fim de poucos dias, já tristemente convencido de
que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que lhe tinham annunciado,
deixou-se ganhar pelas saudades dos seus prazeres habituaes e
apressou-se a voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga do
povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada dos estudantes, e que possuia
o condão de despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.
A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar a herança, o que
realisou com uma ganancia e uma crueldade que recordavam bem a
ascendencia paterna.
Foi então que ella contractou um procurador e administrador, que havia
de a acompanhar a Coimbra e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar
n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos seus olhos
significava uma corôa real.
O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco annos, lindo, d'olhos
azues e cabellos louros, occultando sob uma apparencia de doçura e
placidez um coração apaixonado e ardente.
Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma inflammada avidez de
luxuria, entregou-se sem reservas a um amor que realisava a melhor
fortuna da sua vida.
A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, dava-lhe uma
impressão de plenitude em que o contentamento do espirito coroava os
regalos do corpo satisfeito.
Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente a esse amor,
concentrando todos os seus esforços em affastar de Coimbra D. Pedro para
mais tranquillamente possuir a amante.
--Vá v. ex.ª para Lisboa, dizia ao morgado; não se prenda com os
negocios da casa. Estão a meu cuidado; não vim aqui para outra cousa. É
a minha obrigação.
O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, o padre fazia de modo
que o dinheiro nunca lhe faltasse para que não se tentasse a voltar a
casa. O fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto trabalho e
affecto; aos seus amigos não cessava de o elogiar, como um modelo de
dedicação, associando-lhe sempre o nome da mulher cujo zelo pelos bens e
pelas commodidades do marido, dizia este, a obrigava a viver quasi
sempre no meio d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida por
uma velha creada que trouxera de casa de seu pae.
Porque era Cercosa a habitação preferida dos amantes. As visitas, os
serões com os lentes e mais frequentadores do palacio da estrada da
Beira, a creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra as horas
d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio do solar de Cercosa
protegido pela discrição da creada que já em Vizeu fôra confidente de D.
Maria Francisca.
Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos intervallos, tres filhos;
Leonor, José e Laura. Até aos nove annos foram educados com os velhos
creados da casa, no abandono proprio das circumstancias em que se
encontravam; a mãe a todo o momento estava em jornada com o capellão
para Cercosa, o pae fugia para Lisboa sempre que se via com algum
dinheiro e, quando estava em Coimbra ou na Beira, passava o tempo em
caçadas, visitas e recepções, folgando continuamente, como um rapaz, ora
em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia com largueza. D'este
modo, os filhos tornavam-se um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer
aos prazeres do morgado.
Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso conversaram amigavelmente
os paes, que de resto sempre viviam em paz e harmonia, n'uma
indifferença intima e exteriormente na mais estremada cortezia.
Queriam para os filhos uma educação primorosa, diziam, como aquella que
elles mesmos tinham tido, queriam-n'os, principalmente, educados na
religião christã.
Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento das irmãs de
Santa Ignez, estabelecidas em Lisboa, umas freiras irlandezas que a
marqueza de Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias ouvir
missa, lhes tinha elogiado como um modelo de bons costumes e fina
educação.
Durante muitos annos, no 1.º d'outubro, D. Pedro era certo á porta do
recolhimento, que ficava para os lados do Campo d'Ourique, a principio
só com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos nove annos, com as
duas filhas.
Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor para a bondade, que
facilmente o levariam a ceder aos rogos das filhas, consentiria em
alongar as ferias; mas a mãe que vivia contrariadissima com a sua
presença, por causa do capellão, punha todos os seus esforços em que os
regulamentos collegiaes fossem cumpridos a rigor. Era um bom costume,
dizia ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer concessão.
No collegio elogiavam a pontualidade das meninas Albuquerques;
apontavam-na como exemplo aos mais remissos. Aquelles sim, aquelles
educavam conforme as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o
saberiam agradecer mais tarde. Não eram como a gente de Lisboa que
estragava as creanças com mimo.
Com o rapaz não se podia fazer outro tanto; o pae não consentia.
Queria-o educado em liberdade, para que fosse um homem; o collegio
tornal-o-ia maricas.
O melhor seria um professor que viesse a casa dar-lhe lições até ao
exame de instrucção primaria, depois havia de frequentar o lyceu para se
habituar a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia em
direito na Universidade.
D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma. Tinha pensado em
que a solução era boa; durante o tempo lectivo o filho estava preso em
Coimbra, deixando-lhe por conseguinte a liberdade de gozar a sua querida
tranquillidade de Cercosa, as ferias do natal e da paschoa eram breves,
e dos mezes de agosto e setembro não tinha a preoccupar-se que esses
estavam d'antemão prejudicados pela presença das filhas.
D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos regalos dos paes, até que
chegaram os desoito annos de Leonor, a filha mais velha. Era necessario
trazel-a para casa, apresental-a, para que se mostrasse em toda a sua
belleza, que era grande, e tomasse os habitos mundanos que consideravam
parte integrante, e a mais essencial, da sua educação. E assim se fez.
No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; só por isso sabia mais
doutrina christã que toda a aldeia de Cercosa e arredores. Aprendera
tambem a bordar a ouro, em branco e a torçal, copiava desenhos a lapis e
a carvão, sabia francez e inglez muito bem, escrevia regularmente o
portuguez, e ao piano tivera o primeiro premio, um livrinho de estampas,
encadernado em papel côr de rosa com lettras douradas.
Ouvira e repetia que a caridade era a primeira das virtudes, o que a
obrigava a não bater nas companheiras e não as accusar das suas faltas,
sem embargo do intimo prazer que sentia ao reconhecer a sua
superioridade e ao vêr-se louvada pelas suas mestras como a primeira.
Sabia que era uma obra de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a
quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas sem exercer essas virtudes
ou mesmo sentil-as interiormente; porque no collegio não havia miserias
nem mendigos, todos comiam á mesma meza, que era abundante, e dormiam em
leitos macios, quentes e aceiados.
Verdadeiras obrigações n'esta vida eram o modo de dobrar a roupa ao
deitar, a maneira de pegar no garfo e na faca, o modo de fechar o piano,
sem precipitação, e as lições que deviam ser bem decoradas. Feito isto,
o elogio das mestras era certo; os premios publicamente distribuidos no
fim do anno a confirmação plena de todas as satisfações da vaidade.
Saindo do collegio, a transformação era facil; tinha apenas a substituir
vaidade por vaidade, os cuidados escolares pelas preoccupações do
vestuario, os louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza feito
nos requebros e galanteios.
As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos da mãe, não
tardaram a operar rapidamente a mutação; dois annos depois de sair do
collegio, com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos e da
Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação de bondade, de
formosura e boa educação.
A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o padre, anceiando pelos
tempos de tranquillidade que com elle passava em Cercosa, espreitava o
ensejo de casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. A
victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, novo e riquissimo, que do
Porto veiu á Figueira ostentar as suas carruagens e os seus anneis e
procurava afidalgar-se pelo casamento.
Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade para ella e talvez
para toda a familia, porque o rapaz decerto ia pagar as dividas da casa
do Albuquerque que dia a dia se afundava vertiginosamente. Teve uma
certa difficuldade em convencer Leonor, que soffria d'ambições de
fidalguia, mas o amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.