simplicidade um alento purificador. Loucura! A felicidade fugira-lhe
para sempre, de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása de todas
as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno movimento. Só o dever
seria a sua ambição; deixasse como um forte, por justo castigo da sua
culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, felicidade, que
estranhas vozes eram essas?
Luctar era bom para quem tinha os favores do destino. Elle não; vinha
batido dos erros e contrariedades e só na escuridão da terra encontraria
repouso.
Comprehendia agora. E pensava na doce paz do cemiterio e nas flores que
haviam de lhe cobrir a sepultura.
Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o ensinára sua mãe?!...
Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse voltado a casa dos
Albuquerques, como costumava depois dos bailes, por obrigação de
cortezia. O seu desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado
pelo receio d'um novo accesso de ciumes de Emilia.
Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por indifferente e fatigado
de tanto meditar, metteu-se na carruagem e partiu.
A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.
--Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella. Se algum dia lá
passar, quero pedir a meu pae que m'o deixe vêr.
--Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada tenho notavel; só uma
collecção de rosas que não é má. N'este tempo, porém, póde dizer-se que
não há rosas.
Ficava confundido com a lembrança de Laura. Que mysteriosos instinctos a
attraiam á sua casa e ás suas flores, ás cousas que elle tanto amava.
Ah! Se Emilia o soubesse... Tremia.
D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado, um vaguear
permanente, os olhos cavados, o corpo quebrado, com todos os symptomas
physicos da paixão.
A fadiga era extrema; com ella veio um somno profundo de que despertou
n'uma tranquillidade que ha muito desconhecia.
O que fôra? Que se passára? Porque tantas inquietações?
A indifferença vencia. Voltaria aos braços de Emilia mais firme do que
nunca nos seus propositos de eterno amor.
Para que abandonal-a? Não era o dever que o instigava, não; era o
egoismo, o desejo d'uma vida repousada, uma sêde de carinhos e de
affectos.
Ingratidão! Tão cedo esquecia o que Emilia era para elle...
Voltasse aos seus livros, ao estudo e ás suas occupações habituaes,
resignado com o destino. A felicidade dependia unicamente d'elle; era
conformar-se com a natural expiação do seu erro, sacrificando
humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.
Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a sabedoria suprema. Fôra
o que sua mãe lhe ensinára e era o que o coração n'aquelle momento lhe
repetia.
Da incerteza em que então começou a viver ficou testemunho no «diario» a
que Claudio confiava as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura que
as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:
_7 d'agosto._ Tranquillidade, abandono. Entregue ao tempo e ao acaso,
vejo correr os dias n'uma resignada desesperança. N'esta calma perpassa
a imagem Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade. A vida é
mais alguma cousa do que esta apathia na dôr, a vida é a pratica do bem.
Até a minha serenidade é crime!... Não! enganei-me. As bençãos da
resignação não desceram ao meu peito, vivo na tristeza das cousas
desejadas e inaccessiveis. Sinto uma prostração das luctas vãs, não
chegou ainda a hora da conformidade.
_16 d'agosto._ Scismo. A intensidade da aspiração instiga-me a romper
com o passado. As fézes d'um amor illegitimo toldam-me a alma até ao
azedume. Que direitos tem Emilia sobre mim? É cumplice d'um mesmo crime?
Seja pois victima do mesmo resgate.
_17 d'agosto._ Esta tarde fui surprehendido pela visita dos
Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram, e desceram para vêr o meu
jardim. Laura veio tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo
espirito? Desconfio. Apressa-se a não perder o ensejo de remendar a sua
fortuna escalavrada. Nos primeiros instantes, esta lembrança de que era
instrumento de especulação revoltou-me; depois, a presença de Laura tudo
desvaneceu. A graça, a candura, a ingenuidade! Só esse alento me
restituiria a vida. Acompanhei-a colhendo flores para ella, recebeu-as
com avidez, á partida não as quiz pousar na carruagem, guardou-as nas
suas mãos carinhosamente. Ella tambem quererá prender a sua descuidada
ventura á miseria da minha alma ensanguentada? Talvez... talvez a guie
um mysterioso impulso de caridade! Sinto renascer a esperança.
O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle. Prometi-lhe que iria
muito em breve.
_18 d'agosto._ Noite terrivel. Fui encontrar Emilia n'uma exaltação de
loucura com a noticia da visita de Laura. Quando lhe annunciei que tinha
promettido ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me com uma
seccura brutal:
--Vá, está livre, póde ligar-se a quem quizer. Nada me deve. Na minha
desgraça não perdi a dignidade, fique sabendo! Os nossos amores
terminaram hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito bem o que me
cumpre fazer; é voltar áquillo de que nunca deveria ter saido.
Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e aquella firmeza; a
alegria de vêr terminadas as minhas hesitações e as minhas duvidas lança
para longe todas as demais preoccupações. Livre emfim!... E sem lagrimas
nem manchas de sangue, sem os espectros que me guardavam o somno. A vida
é uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto póde perturbar-te e
aprende na miseria moral quanto vale a sã alegria do corpo repousado na
satisfação dos seus apetites. Para traz, para traz todas as atribulações
da consciencia; retempera-te no vigor d'um naturalismo ingenuo.
_19 d'agosto._ Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que queria saber quaes
seriam em publico as nossas relações.
--Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. Nem outra cousa se
justifica. Não valia a pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.
Mentia; o que eu procurava era a confirmação das palavras do dia
antecedente. Tudo acabou. Conversamos duas horas, com a animação que o
contentamento intimo me dava, sem uma referencia d'amor, sem a mais leve
tentativa de reconciliação. Quando parti, pareceu-me que os olhos se lhe
humedeciam. Porque? Comprehendeu que a separação está consumada? Para
sempre!
Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes nos poderiam
prender, e essas desvaneceram-se ao vêr por terra todas as illusões de
emenda, de doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar a
nossa falta commum. Restaria a compaixão pela sua desventura e o receio
de uma allucinação que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas
dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! Eis-me livre e
tranquillo.
_20 d'agosto._ Fui talvez cruel, abandonando Emilia á sua miseria. Se
não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi á virtude ou ao egoismo, a um novo
apetite, ao cansaço do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao
proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me o coração.
Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se esvae.
Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o soffrimento dos que
choram por nós! Talvez uma vága saudade...
_27 d'agosto._ Uma hora cruel, extrema angustia. Hoje recebi uma carta
de Emilia, pedindo-me que fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia
fiquei na maior inquietação. Passeei de tarde procurando accalmar-me com
a fadiga do corpo. A excitação crescia e foi na maior anciedade que ás
dez horas cheguei á rua da Cruz.
Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se na terra, a
meus pés, suffocada pelas lagrimas, disse-me que me chamára porque já
não podia soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma viagem
longa, não podia crêr que tivesse acreditado o que n'um momento de ciume
me tinha dito, tres annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não
podiam terminar com duas palavras de separação. N'isto, ergueu-se.
Succumbido de terror, vi ressuscitar, deante de mim, banhada de luar,
aquella pallidez e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei ebrio
d'amôr; e da humida escuridão da capella vieram aos meus ouvidos, como
uma anathema, como a eterna excommunhão da paz e da virtude, lentamente,
pausadamente, estas palavras:
--Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não posso contar mais com o seu
amôr. Quero suicidar-me!
Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou de mim e menti, menti
com firmeza, vilmente. Tudo era falso; nunca amára Laura, nunca pensára
em casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de cousas urgentes,
o meu amor por ella não afrouxara um só momento, queria só castigal-a
dos seus imerecidos ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. Entre os
meus labios e a sua face interpunha-se uma sombra que em vão procurei
dissipar, a sombra da mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um
instante as ambições de regeneração. Só o temor do suicidio me contém.
_30 d'agosto--Lisboa._ Vim até aqui calcando as supplicas mais
compungentes que podem sair d'um coração humano. Se ouvisse sómente a
compaixão e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro esmagado
entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o orgulho e ergue-me um impulso
de rectidão. Rectidão ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o
tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer na vergonha ou
ensaguentar a virtude? Vae, não receies, diz-me uma voz occulta.
As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo aos beneficios do seu
crime. Não seria a tua compaixão uma fraqueza tambem?
Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te guia, é a crueldade;
não é o amor do bem, é a paixão por Laura.
_31 de agosto._ Esta manhã encontrei F... que me fallou dos
Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito com ella. É encantadora de
singeleza e de bondade, disse-me. Passei o dia no maior contentamento.
Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor. Esqueci que ao longe
uma mulher afflicta, semi-doida, bebe o calice da minha culpa. Nem as
lagrimas, nem a deshonra alheia, nem a consciencia do proprio
aviltamento podem perturbar-me a alegria.
Serão assim os outros homens?... Será a virtude um acaso e a miseria
moral a lei comum?
_2 de setembro. Lisboa._ Tristeza, desalento. Impossivel conservar-me
aqui, tenho de voltar a Albergaria. O que me espera? Vou luctar? Cederei
abdicando para sempre da paz da consciencia e da felicidade na virtude
em proveito dos caprichos e da fraqueza de Emilia? Hora maldita a da
tentação! Tudo na minha vida é incerto, só o soffrimento me resta por
companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu erro!
_4 de setembro._ Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a fatigada, abatida,
mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe d'uma candida alegria.
Julgava-me restituido ao seu amor. Quando, tentando novamente
desprender-me, lhe declarei que só para a tranquillisar lhe tinha dito
que nunca julguei terminado o nosso amor mas que, na verdade, o tinha
acreditado e estivera em risco de tomar compromissos com Laura, não teve
uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de espanto, na paralysia da
dor, só lagrimas se moveram na face immovel e queda. O que se passou
dentro em mim, não o sei; uma compaixão profunda, angustiada, e, mais
alto do que ella, o bramar da consciencia e a tortura do dever. Que me
resta? Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão e separar-nos.
Deixal-a-hei pois na miseria e no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as
lagrimas, dou-te a paz da minha consciencia e serei só a soffrer,
soffrerei resignado, sem um lamento!
Desde esta hora, durante longos dias, todo o «diario» de Claudio revela
uma incerteza e uma confusão infindas.
O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão pela miseria de Emilia, a
lembrança de Laura, cujo affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida
inquieta e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia oscillar
constantemente entre os mais desencontrados propositos.
Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia e a vontade haviam
naufragado nas ondas do seu coração.
A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem rumo, desvairada, em
meio de esperanças, desillusões e desalentos.
_27 de novembro._ Um dia chuvoso, pesado, humido, escuro. Tres horas de
leitura junto ao fogão, no doce goso de aprender e de pensar. Mas esta
cella é vasia.
Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral. Nunca o tive. A
affeição illegitima que contradiz o dever, rasga e esphacela o coração
sem o aquecer; é uma consumpção doentia.
Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua piedade pelas minhas
dores, quero um alento que me restitua á vida corajoso e são, não quero
os balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.
_28 de novembro._ Não póde ser boa a caridade que alimenta o peccado. A
minha compaixão pela sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!
Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na sua treva por um vento
inclemente. Succumbo; invade-me um suave desejo de morrer. A morte seria
a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas as hesitações, das
interrogações da consciencia. Não!... Seria cobardia e vaidade: a
cobardia de arrastar a minha cruz, a vaidade de ungir o meu cadaver com
as lagrimas dos que me amaram. Devo viver. Quero resgatar pela virtude
as offensas a Deus.
_28 de novembro._ A dissolução do passado torna-se um encargo em que só
entra a razão implacavel e fria. Injustiça?... Não. A severidade é
tambem um meio de ser caritativo; a minha complacencia com Emilia é uma
falta d'amor.
_30 de novembro._ Um dia alegre, sorridente; a atmosphera quieta, a
paysagem rutilante. Na minha alma, um esvoaçar de esperanças boas.
Laura, Laura!... Toda a natureza me repete o seu nome.
_1 de dezembro_. F... veio vêr-me. É um antigo companheiro que se quedou
no materialismo natulista. Durante duas horas, fallou-me de
transformismo e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto o ouvia,
erguiam-se na minha lembrança as illusões do passado e a tristeza caía
mais pesada sobre o meu coração que sobre a terra as sombras da noite.
Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua alma, Laura, sentir o
palpitar d'esta vida dilacerada pela amargura e havia de protegel-a,
abrigando-a na sua pureza!
_2 de dezembro._ Destino cruel! Quero terminar uma vida de mentira,
mentindo áquella mesma que foi a minha amada. Degradação extrema.
Quizera dizer aos que passam:--Fugi d'este ser impuro, cuspi-me na face
e desprezai-me!
_14 de dezembro._ Emilia morreu no meu corarão; apenas o dever e a
piedade me prendem. Sinto-o bem, vendo a meu lado permanentemente a
imagem de Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição de
repartir com uma alma pura as agruras das minhas culpas? Talvez... Ai!
Quanto a duvida me opprime!
_16 de dezembro._ Enganas-te. Não é remorso, é orgulho o que tu sentes;
não é o amor da virtude, é o pejo de confessar a tua mesquinhez e
fraqueza. Aprende a humilhar-te.
Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim sonhos de paz e de
conforto domestico, as ambições do corpo dissipam as atribulações da
alma.
_18 de dezembro._ Um immenso desgosto da vida, cansado de luctar em vão.
A morte seria para mim a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me.
Porque? Saudades de Laura, ambição do seu affecto.
Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, a noite vem descendo
suave, humida e negra. Só o repouso da minha alma não vem; em vão o
imploro da natureza propicia!
_20 de dezembro._ Indifferença, fadiga, reacção da intelligencia. Que te
importa a miseria estranha, as lagrimas que espalhaste? Que te importa o
passado? Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu destino,
fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a vibora nos brejos ou a abelha
sobre a rosa. A natureza não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das
vaidades!
_31 de dezembro. Meia noite._ Atmosphera limpida e calma, o céu
estrellado, nem a mais ligeira nuvem nem o estremecer d'uma folha.
Interrogo os astros. Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me
traz?
_1 de janeiro._ Saí sósinho. Impressão de abandono, ao pensar nas
alegrias do novo anno em volta do lar. Só minha pobre mãe me resta por
companhia. Advinha talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste.
Na praça encontrei um mendigo mal abrigado nos seus farrapos de burel.
Serenamente, estendeu-me a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho.
Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo, descendo para o rio, os
gados que meus sobrinhos guardam. O amor divino, o burel, o
trabalho--suprema sabedoria! Por que estranha loucura os abandonaste,
por que aberração voltaste a face á felicidade que tinhas deante dos
teus olhos e te lançaste nas vagas da ambição e da vaidade?
_3 de janeiro._ Passei a manhã no jardim, cultivando as minhas flores.
Alegria plena. Cantava, arrebatado no palpitar de energia que se
desprendia á luz tépida e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um
lugubre rebate de remorso, phantasmas da consciencia voando levados
pelos balsamos a exalarem-se da terra que o sol beija e fecunda,
castamente.
A crise terminava para Claudio n'uma inacção de impotencia; o ardor do
sentimento e a intensidade da razão quebravam todas as energias da
vontade.
Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; a melancolia,
o remorso, a indignação, a alegria, o desprendimento, confundiam-se
obscuramente, ora no desejo de possuir o amor de Laura, ora no temor do
abandono de Emilia, ora n'uma viril resolução de emenda, ora finalmente
n'um cansado scepticismo.
Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se n'uma conformidade de
desesperança ao seu triste destino.
Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem sequer para ahi podia
volver o pensamento que logo na memoria não surgissem lembranças crueis
dos espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço da sua mocidade.
Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços do naufragio,
incolume, resplandecente, irradiando uma luz divina que penetrava a alma
de beatitude,--sua mãe.
Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o tumulto da paixão
convertia-se n'um culto singelo, purificador e ardente.
Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da sua vida. A
consciencia parecia adormecer,--não se repele um drama interior,--e essa
indifferença, quasi satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se ao
egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel ciume e habituara-se
tambem á presença de Laura que sabia ser o fructo prohibido.
Exteriormente, a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma satisfação
completas; cuidava das suas terras, passeiava, vinha bastas vezes a
Coimbra conversar com os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e
até mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, sem
aquelle receio de que as suas visitas fossem sabidas, que em outro tempo
tanto lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação pueril.
Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das suas relações com
Emilia?! Era claro que todos as percebiam e advinhavam. Pasmava de que
só agora tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.
Assim se consumiram cinco mezes, durante os quaes Claudio muitos dias
visitou Emilia sem que em longas horas de palestra banal houvesse uma
unica referencia ás luctas passadas. De longe em longe, o problema
voltava á discussão, mas agora quasi friamente, á parte a ligeira
irritação de Claudio, que provinha do sentimento da sua escravidão, e os
fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe a preza.
Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem termo a uma vida que
os envergonhava; Emilia respondia-lhe com a obrigação em que elle estava
de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a ella, a perda da sua
honra.
Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite do filho do
Albuquerque para jantar. Era no dia dos seus annos; festa intima para
que só convidava Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava,
eram sempre convidados.
Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia, que pouco se amedrontava
já com estas visitas, convencida de que os amores por Laura não
adeantavam. De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, no fim
do jantar, e ás onze horas estaria na capella.
Debalde o esperou até á meia noite, hora a que, receiando a entrada de
Ricardo, se deitara para soffrer uma noite de insonia, torturada de
despeito e de ciume.
Claudio ficára até tarde em Coimbra, bem certo do que na primeira
entrevista o esperava, mas intimamente indifferente, n'esta indifferença
que a frequencia dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel egoismo
tanto ajudára a crear.
A noite estava tépida e serena. Depois do jantar, todos os convivas
sairam para o jardim e Claudio foi sentar-se no banco que dominava a
varzea, ao lado de Laura, que para ali se tinha affastado pelo braço de
uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra para dar lições de piano
com uma mestra afamada.
Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites e prazeres de cada um,
trocando entre si impressões e ideias que se lhes afiguravam da mais
perfeita conformidade.
Laura adorava a musica, dizia; estudára-a cinco annos em Lisboa, no
collegio das irmãs de Santa Ignez, com uma senhora irlandeza, e
continuara depois, tres annos, com um professor que vinha do Porto uma
vez por semana, para a ensinar. Claudio admirava os primores de educação
de Laura e tristemente se deixava levar em devaneios de ventura e em
vagas esperanças d'um futuro feliz.
Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, tão magoado de saudade como
enfadado de Emilia, que n'aquelle momento não representava nem um
affecto nem um remorso; era apenas um estorvo.
Estranhou que no dia seguinte Emilia não lhe mandasse o convencionado
aviso para ir á capella.
--Ou o marido saiu ou está desesperada com ciumes, pensava; seja como
fôr, em boa hora!... Não sentia o menor desejo de a vêr, antecipadamente
aborrecido das explicações que tinha de lhe dar.
Não tardou porém a carta da amante. Dois dias depois da sua visita a
Coimbra, exactamente áquella hora em que o silencio e a suavidade da
noite mais lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em ouvira a voz
de Laura confundindo-a n'uma só delicia com as caricias d'uma atmosphera
impregnada d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente para
a rua da Cruz.
Emilia estendeu-lhe seccamente a mão e foi sentar-se affastada, no
degrau do altar-mór.
--Então como estás, perguntou elle, ao fim d'uma ligeira pausa, tentando
tomar-lhe a mão que ella distraidamente retirou.
--Bem, tenho passado muito bem.
--Antehontem não pude vir porque o jantar acabou tarde, o Albuquerque
instou comigo para me demorar e pareceu-me que não seria muito
delicado...
--Fez muito bem, como é proprio da sua educação. Nem eu mesmo o
esperava.
--Estás a dizer isso maliciosamente, e não tens razão. Pódes crêr que
fiquei muito contrariado. Deus sabe o que me custou!
--Imagino! disse ella então levantando-se e dando largas á sua colera.
Que impostor!...
--Não sejas injusta comigo. Magôas-me tanto... Se adivinhasses o mal que
me fazes...
--Muito grande! Deve soffrer muito, calculo bem!
--Talvez mais do que julgas...
--Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e quer vêr-se livre d'este
trapo velho. Pois case-se!... Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo
é que fosse já amanhã, para me vingar... para lhe vêr coberta essa
cabeça de cornos como a mãe d'ella fez ao pae!
Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados, o olhar dardejante, os
labios e as narinas palpitantes de frenesi, cresceu para Emilia.
--Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.
Um lampejo da propria indignidade, como um relampago, lhe illuminou o
espirito; n'um salto, transpôz a capella, lançou a mão á porta e saiu.
--Canalha!... ouviu ainda.
E começou a fugir atravez dos campos sobre que poisava, quietamente,
bafejando-os, o véu de humida gaze que se desprendia dos regatos.
O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde a razão e a
consciencia tinham sossobrado, debatendo-se passivamente no remorso e na
duvida.
V
D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque era todo o nome com que
nos actos solemnes se assignava o fidalgo que vivia em Coimbra, na
estrada da Beira, e cujas relações Claudio frequentava.
Senhor de grandes propriedades e muitos bens no valle de Lafões, onde
era conhecido pelo morgado de Cercosa, reunira nas suas mãos, por
successivas heranças dos seus antepassados, uma das maiores fortunas
territoriaes que por aquellas regiões se conheciam.