culpa é sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?
Já não era o timido que nós viramos soluçante, implorando perdão, por
uma calma noite de julho. A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza
de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia,
defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha,
inconscientemente dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar
como boas as razões que o amante ardilosamente inventava para a levar a
quanto lhe apetecia.
Não valia a religião nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe
dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da
sua.
Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos,
todas as preoccupações se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera
nos braços, ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia ainda nos
labios.
A animalidade vencia, a satisfação da carne punha em debandada os
terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes
esperanças. Voltaria á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, quando
Ricardo estivesse na repartição e os filhos na escola. Sequioso dos
beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubiça absorvente.
Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fôra e
seria ainda o theatro das suas inquietações, esperando o bater do meio
dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha
fita ao toque do clarim que marcará a partida.
Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol tão
brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores
desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e a
meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e
inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.
Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua
amada que havia de pôr no sacrario a que não chegariam as palpitações da
concupiscencia impura? Sonhos vãos, vãos propositos! Nem d'isso já se
lembrava! Varrera-lh'o da lembrança a chama em que todo o seu ser ardia
n'uma transformação gloriosa.
Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os
olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavôr que nem o anceio de
vêr o amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... Ricardo
desconfiára, estranhára as visitas áquella hora, ameaçára-a. Tudo porém
se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam
encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passára; não se
demorasse, saisse quanto antes. Que não se affligisse, ella era a mesma.
E abraçaram-se.
Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era
sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulações e
resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem
confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo para os céos, á
serenidade olympica do amor victorioso.
Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro annuncio da
desconfiança de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.
O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, ás dez horas
da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto á casa, na
rua da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.
Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, no fim do jantar. Teve
de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse
lá á noite. Estava com um ataque de gotta e não podia sair.
--Foi-se metter na eleição da junta de parochia e agora ha-de querer que
eu lhe dê os votos de Villalva!...
Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu ás oito horas. Não era
verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E
ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a
escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.
Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando
a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia;
mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um
quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se já á capella; poderiam vêl-o e
comprometteria Emilia.
Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, á beira do
caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.
Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado;
a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forçada
despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; a
paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem
mesmo a Ricardo que fôra o primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava
aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo é uma
conquista; queria a sua parte. Mas porque então este sentimento
d'amargura á hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e
a mentira repugnava-lhe.
Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao receber a carta?
Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e
pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em
torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! não, tinha-o
escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fôra loucura...
Porque não fugiu, porque não se affastou para longe a primeira vez que
encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!...
Devia-lhe amparo, fôra elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra
elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com
que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para
sempre.
Queria vêl-a, queria abraçal-a,--fortuna suprema! E o amor e a compaixão
casavam-se na mesma anciedade.
Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da capella da rua da Cruz.
Claudio não a conhecia.
Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão, apenas cortada pela
escassa luz que vinha da porta lateral que abria sobre os campos e dava
passagem para um alpendre da casa de Ricardo.
A capella estava abandonada; servia apenas de palheiro e arrecadação de
alfaias de lavoura. Iam sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação
que havia no pavimento lageado e raso.
--Tambem alli está um confissionario velho, disse Emilia, mas só tem um
assento, o do padre.
--Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar aos teus pés e pedir-te
perdão das minhas faltas.
--As suas faltas!...
--Suas?... Não me chames assim. Parece que me affastas.
Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo e frio, gelado pelas
longas horas de espera na estrada deserta e mortificado pelas
angustiosas cogitações em que o lançavam as luctas interiores da paixão,
as contradições do dever e do desejo, da realidade cynica e das
aspirações ideaes. Caíra como prostrado, mudo de emoção, esmagado de
duvidas em que a amargura e o contentamento se confundiam n'uma mesma
vibração.
Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado das complicações
d'uma consciencia intelligente e timida. Estava nos braços do amante,
que lhe envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima
circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia duvidas intimas; tudo
se reduzia a convenções mundanas que, illudidas ou compridas, ficavam
sempre igualmente satisfeitas.
Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da amante. A sensibilidade
vencia. E tarde, pela noite calada, recolhia a casa n'uma plenitude de
vida e de contentamento que ha muito lhe era desconhecida.
A sua existencia tornára-se completa, julgava elle com a fé mais firme;
ia entrar n'um periodo de fecunda e longa tranquillidade. Considerava-se
unido para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella era a legitima
esposa do seu corpo e da sua alma, a que devia fidelidade que do coração
lhe votava. Quizera o destino, por um capricho cruel, que essa mulher
vivesse separada d'elle, n'uma vida de privações e de penas, mas esse
facto não enfraquecia nem prejudicava a união. Pelo contrario,
sublimava-a, introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia e resignação
que inflamavam os amantes pela lucta perpetua.
Restava a Claudio dispôr as cousas externas conforme as novas condições
da sua existencia.
Para illudir a mãe, faria um pequeno gabinete, em baixo, ao pé do
jardim, em que passaria as noites, sem ninguem o sentir. Iria á rua da
Cruz nos dias em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto possivel
os passeios e jornadas que o affastasem de Albergaria,--convinha ao bom
nome de Emilia, cuja honra se lhe afigurava immaculada,--e evitaria
mesmo frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade que até então
usára. Voltaria a completar os seus estudos que d'esta vez tinham todas
as condições de proseguir até ao fim, satisfeito o corpo e envolvido o
espirito n'uma atmosphera de poesia. Assim seria a sua vida até á hora
derradeira em que queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era o
sangue do seu sangue, a sua razão de ser.
N'este novo caminho, em que affoitamente entrou, deu aos seus estudos
uma nova direcção. Era necessario resolver o problema moral, que ha
tantos mezes o inquietava, era necessario pôr de harmonia a razão e o
sentimento, descobrir os motivos que haviam de justificar plenamente a
sua existencia e banir todas as duvidas que o turvavam.
Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis da lucta pela vida e do
transformismo nunca lhe podéram explicar nem porque era doloroso mentir
a sua mãe nem por que motivo havia de occultar os seus amores com
Emilia. Conveniencias sociaes? Mas então os instinctos naturaes não são
o melhor juiz dessas conveniencias e não conduzem á perfeição final? E,
se assim não é, se ha parallelamente outras leis, quaes são, em que se
fundam, que princípio as sancciona, como e em que modificam as
primeiras?
Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada lhe dizia sobre aquillo
que mais o interessava e mostrava-se incapaz de lhe offerecer
tranquillidade. Porque era verdade que vivia inquieto.
Voltava-se para os livros de religião e de moral. Devia haver uma outra
sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio, os padres da Egreja e, entre os
modernos, Renan, Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes, o
desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o destino, a exaltação
no amor e na humildade. Os primeiros serão os ultimos e os ultimos serão
os primeiros. N'este mundo, todos somos irmãos. «Irmãos, amae-vos uns
aos outros!» As palavras do evangelista tornavam-se uma obsessão.
Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade, na traição e na
mentira! Dominava-o um impulso de arrependimento. N'uma tragedia intima,
repetia: Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus apetites não
eram uma realidade tambem? Sim, de certo, mas melhores seriam as
privações do que a tortura d'aquella vida sem repouso...
N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos olhos dos estranhos, a
quem os amores escandalosos, por muito continuados, se tornaram
indifferentes, a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum
obstaculo de natureza material existia.
A mãe de Claudio não se julgava no direito de pôr estorvos á sua
vontade, desde a morte do marido; nos seus inveterados habitos de servir
e obedecer, considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou fosse
ignorancia, aliás nada provavel, dos amores da mulher, ou fosse um
cynico interesse na amisade de Claudio de quem sempre esperava protecção
e com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, amiudando e
prolongando as suas noites de Coimbra em casa da amante, acabára por
deixar Emilia n'um desafogo que lhe permittia longas horas do mais
repousado amor.
Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não encontrava solução moral
que importasse justificação plena do seu viver. A duvida e a inquietação
eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma abysmos de mysterio,
perante os quaes a todo o instante tremia e se apavorava. O mais pequeno
incidente revolvia toda essa vasa que o suffocava, um dia de ciumes de
Emilia, a suspeita de que o tinham visto entrar na capella, um gesto,
uma palavra de sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.
Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados os apetites que
as graças do seu corpo despertaram, via em plena nudez a inanidade do
seu pensamento moral.
Instinctivamente boa e simples, amando Claudio ingenuamente com o
afferro caracteristico das mulheres apaixonadas, era todavia incapaz de
se elevar á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella, que se
sentia contente com a sua sorte, não percebia que o amante podesse, sem
reservas, deixar de partilhar o seu contentamento.
Presentiram o juizo que o publico formava das suas relações?
Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam por lhe tirar toda a apparencia de
razão; mas viera tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira
mais que um passageiro desgosto com que ambos em breve e facilmente se
conformáram. Que tinham os outros com a sua vida? Olhassem para si que
teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho sempre de braço dado com
a Silva? E a outra não ia casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da
fortuna.
Era sabido que ella na Figueira tinha namorado um rapaz de Lisboa que
lhe vinha fallar ao terraço, á uma hora da noite.
Um dia, na primavera, exactamente tres annos depois que conhecera
Emilia, Claudio recebeu uma carta de seu amigo Jorge de Castro,
annunciando-lhe uma proxima visita.
Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia o Jorge ir
abraçal-o; que preparasse os cavallos, queria visitar todas as aldeias
suas conhecidas, que a visita não era só para elle, era tambem para
aquelles montes de que se lembrava com saudades.
A carta respirava uma grande alegria, denunciando uma natureza sã,
vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. Porque não havia elle de viver
assim contente?... Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo
d'aquella fortuna.
Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos estavam promptos,
tinha-os n'aquelle momento ligeiros como gamos, do campo de Coimbra.
Traçava já varios passeios, em Albergaria e em Villalva onde lhe queria
mostrar os jardins que créara no meio de rochedos. Promettia-lhe mais
varios regalos da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons patos
com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra e vinhos da varzea de
Villar que não os havia melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava
muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.
--Até precisava muito conversar com elle... repetiu Jorge, lendo a carta
na presença da mulher. É capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte
oito annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres ao seu
alcance... Eu, se agora me visse solteiro, não me casava antes dos
quarenta annos. É muito bom, mas uma prisão...
Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma tarde serena, o ceu
limpo e azul, os campos rebrilhando de reflexos multicores.
--Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se, depois de abraçar
Claudio. Com um tempo assim, até os inimigos se podem visitar.
E encaminharam-se para a carruagem.
Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos e na apreciação da
paysagem. Jorge ia maravilhado. Que vigor, que frescura! Aquillo devia
fazer mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os olhos e adormecer
por alli, á beira dos comoros toucados de madre-silva e de giesta. Uma
natureza assim desmoralisava. Por isso Claudio se quedára n'aquella
apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar a dolorosa
ferida que tocava.
Ás cinco horas da manhã do dia seguinte, Jorge passeiava no jardim
esperando que Claudio despertasse. Este não tardou.
--Ainda bem! exclamou Jorge. Até é peccado dormir por uma manhã d'estas.
Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema, n'um turbilhão alegre e
scintillante, de murmurios de regatos, tremulas manchas d'um sol
benigno, gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.
--Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se n'um banco de pedra, á
sombra dos loureiros, em frente d'um platano magestoso, opulentamente
curvado sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos vogavam.
--Não tão bem como te parece!
Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro encontro com Emilia, a
leviandade com que se lançára na sua conquista, o amor sincero e a
paixão que d'ahi resultára, a angustia em que vivia n'uma vida de
constante mentira, as tentações que tinha de pôr termo a essas torturas,
o receio e a compaixão pela infelicidade da amante, sempre que se
lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se torturado de
arrependimento e remorsos; a sua felicidade, tão cubiçada dos estranhos
que o julgavam satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima
agonia.
Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo, por casualidade, cedendo
a uma inclinação natural, sem maior esforço da vontade. Não dizia que o
casamento fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem e louvava a Deus por
o ter feito, pois sabia d'outros casos semelhantes ao de Claudio e todos
tinham mau fim.
Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, apaixonou-se pela
mulher d'um amigo e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um
sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,--brincadeira!--e a
mulher toma o caso a sério, abandona o marido e vem metter-se-lhe em
casa. E ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente para toda a
vida. Estes eram casos recentes, mas outros aconteciam a cada passo.
Elle fugia d'isso. Era quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o
sabia, mas ao menos que descanço!...
De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer resolução. O tempo
a indicaria. Era sempre uma loucura querer substituir inteiramente o
destino e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe até uma
falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, o peccado não era grande.
Tinha amores com uma mulher casada cujo marido a deixava a cada momento
por uma amante?... De quem era a culpa? As cousas do mundo não se podiam
tomar todas em casos de consciencia. No bom senso vulgar havia muito de
razão e justiça.
Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia e contasse aos
companheiros d'outro tempo o que lhe succedia, alguem tomaria a serio as
suas duvidas? Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, só o
Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez a boa regra. Afinal, o
amante era vencedor. Por conseguinte, dormisse descansado e levasse as
cousas alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha a fazer. Não
havia de tardar... que aquelle viver aborrecia.
Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de Claudio outra impressão,
além da tristeza em que caia comparando-se com elle.
Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa aos braços da mulher
e dos filhos, a um ninho de caricias e de affectos de que abertamente e
tranquillamente podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre de todo
o remorso.
Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára n'uns amores que a
consciencia lhe condemnava, fossem quaes fossem as razões que o espirito
buscasse para os legitimar? E porque não havia de emendar-se? Porque não
havia de converter Emilia ao dever, como elle mesmo se tinha convertido?
Ella seria então a primeira a desejar o seu casamento, a desejar vêl-o
emendado d'uma vida de mentira, olvidando o passado, que pelas suas
amarguras lhes serviria a ambos de lição, para os affastar de nova
queda. Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a breve
loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem lagrimas, com a risonha
serenidade da virtude, apartar-se-iam. Quanto a vida lhes seria então
suave e boa!
Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes sem se atrever a
communical-o a Emilia. Temia a impressão que havia de lhe produzir a
lembrança do abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica alegria,
d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue ao marido que a desprezava,
perdida no mais arido ermo de carinhos.
O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira; ia addiando, addiando
sempre a hora d'uma confissão que imaginava o seu dever e salvação e de
que todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão resignado
mas por Emilia que já então sabia ser moralmente fragil, inconsistente.
Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra, a casa dos Albuquerques.
Claudio ia contrariado, absorvido, como andava, em preoccupações moraes
que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; mas Emilia, em
rapidas fulgurações, mostrava ainda todo o seu antigo ardor pela
futilidade elegante.
--É mais uma occasião que tenho de te vêr de casaca e gravata branca, e
assim é que ficas bem. Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina
bonita!
Era a recommendação habitual, quando partiam para essas festas.
D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e distrahida, fallando a
custo e evitando os olhos de Claudio. Este já não se illudia com taes
modos e gestos; por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. Quantas
horas afflictivas passára na capella da rua da Cruz para affastar essas
tempestades que eram uma das dores com que a leviandade de Emilia
sobrecarregava a sua atroz situação!
Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira entrevista depois do
baile, toda consagrada a explicações e a mentiras. Mentiras? Sim,
mentiras. Emilia tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os
olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, cheia de graça e de
candura, valsando com uma travessura infantil.
Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia de a convencer de que
era sempre a victima dos seus zelos infundados, mas era certo que Laura
lhe deixára uma impressão profunda, e vagamente, com uma tenacidade
perigosa para os amores de Emilia, pensava em que talvez estivesse ali a
sua salvação. Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual d'um
temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, uma surda concupiscencia?
Talvez não. Laura era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, sem a
minima instrucção, sabendo com segurança apenas valsar, brincar e montar
a cavallo e a Claudio, burguez por habito e por educação, d'uma
delicadeza moral doentia pela aturada insistencia dos problemas da sua
vida, repugnava uma existencia tão vasia e inutil.
Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem aqui o espirito e a
reflexão não lograram vencer o sentimento.
Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe o que se abrigava
n'aquelle corpo de creança? Talvez um coração apaixonado, uma d'estas
mulheres que se consomem n'um só amor.
A imaginação representava-lhe prazeres infinitos, n'um lar todo
illuminado por essa luz de sacrificio. Havia de a dominar pelo amor,
havia de banir dos seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria
bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga prevenida e, quando
tivesse amamentado um filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de
labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.
Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem saberia mandar a quem não
soubesse amar. A herança paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.
Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então n'uma fadiga e n'um
desespero invenciveis; entre o desejo de sair d'uma vida, a seus olhos
criminosa, e a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo innundado
de lagrimas que era precioso transpôr. Recuava. Nunca! Pobre Emilia...
Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava uma onda de
scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, o adulterio... phantasias!
Fugisse d'ali, fosse viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas as
delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever dominava-o, não havia
modo de se libertar, n'uma vida facil, d'essa pesada escravidão a que
desde a infancia fôra votado.
Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe como uma visão de
candura, o anjo que lhe annunciava a paz, e caia na tristeza da infinita
saudade das cousas cubiçadas e impossiveis.