--Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo, procurando dar á voz

uma intonação magoada.

--E em sua casa, a sr.ª D. Emilia e os pequenos como vão?

--Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez mais travessos; a Emilia

é que não tem passado bem, com uma grande falta de appetite e muito

fraca. O dr. Carvalho já lhe receitou uns granulos de quassina e de

arseniato de strychnina, mas ella teimou em não tomar nada. Que está

bem, que está bem, que não precisa remedios... Deus queira que não me dê

ainda alguns trabalhos!

--Eu hei de ir vêl-a, disse Claudio mostrando desprendimento mas

intimamente ancioso.

--Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. Fui a casa beber uma

cerveja, que este calor mata-me! Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado

o serviço!...

Claudio aproveitou o ensejo.

--Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite conversaremos com

vagar... Então, se me dá licença, vou ali vêr a sr.ª D. Emilia... Até

logo...

--Não se incommode... dizia ainda para Ricardo que se dispunha a descer

a escada e a acompanhal-o até á porta.

Os poucos passos que medeavam entre a repartição de fazenda e a casa de

Emilia foram para Claudio lentos e compassados. Dominando os movimentos,

por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade e porventura

libertar-se assim da inquietação. Á porta bateu cautelosamente, o peito

opprimido, suffocado de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez que ali

fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres esperanças de conquista, e

agora,--quanto caminho andado em tão breves dias!--ali estava novamente

mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas, turvado pela dôr.

A creada desceu, como de costume, abriu, e d'esta vez, sem hesitações,

exclamou:

--Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar. A sr.ª D. Emilia está

na sala!

Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já de pé, tendo ouvido a

sua voz e apressando-se a deixar a costura, vinha ao seu encontro.

As mãos apertaram-se n'um movimento de franca e irreprimida alegria;

n'um momento pareciam magicamente dissolvidas todas as duvidas e todas

as dores.

Sentaram-se e a conversação começou precipitada, rapida. Sentiam-se

ambos bem; á frescura da sala com as janellas semi-cerradas juntava se a

frescura do espirito faiscante no contacto dos dois corações amorosos.

Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa; as horas passavam se

ligeiras em concertos, em bailes, em passeios, n'uma festa continuada de

graça, de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas vezes de Emilia.

Como ella havia de apreciar aquelles dias que correspondiam tão bem á

delicadeza da sua educação! O peior fôra a constipação que não o tinha

deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! Paciencia. Tambem tinha

a compensação de se vêr na tranquillidade da sua casa.

Emilia estava um pouco surprehendida com a doença de Claudio. Só pelo

jardineiro que trouxera o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o

Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava para dormir e comer,

pouco fallava. Mas suppozera que se tinha aborrecido da vida e da gente

que elle chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára ao ninho.

Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; uma

inapetencia e uma fraqueza que a não deixavam um instante. Não tinha

saido de casa, nem uma só vez, depois que elle partira.

N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um momento de silencio.

Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, os olhos cavados, todo o viço

minado pela paixão.

Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a lembrança da torturante

saudade que soffrera, arquejante de desejo, caiu de joelhos, e

beijando-lhe as mãos que apertava nas suas convulsivamente:

--Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no regaço.

Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal tentou desembaraçar-se

dos laços que a prendiam.

De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito e apavorado despertar:

--Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse para Emilia.

E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em casa.

IV

Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde contar alguma cousa, dizia o

boticario para o recebedor, atirando os dados sobre a taboa do gamão.

--De quê? do calor? perguntava o Carvalho entrando. Tem sido de morrer.

Esta manhã tive de ir a Sarnadas...

--Mas responda lá, é verdade ou não é?

--Respondo... mas hei-de saber primeiro o que me pergunta.

--É verdade que o Claudio vae todas as noites, á uma hora, para casa da

D. Emilia emquanto o bebado do Ricardo está no melhor do seu somno?

--Ora...

--Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a semana passada

umas mulheres, que iam ás tres horas da noite para a feira de Monteiros,

os encontraram sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem agora só de

noite... que de dia não se pára com calor.

--Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade o que vocês querem

dizer, ella ia deixar o marido, os filhos e a creada, e sair para fóra

de casa! Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.

--Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na toca como um rato

dentro do queijo. É que arranjou coisa melhor que a nossa companhia. E

faz bem. Olhe que eu antes me queria com ella aos couces que com o nosso

recebedor aos beijos. Não é peste nenhuma.

--Não sei... essas cousas são faceis de dizer. Vejo-os em minha casa

todas as semanas, ainda não descobri n'elles signaes de namoro.

Conversam, jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem se

aproximarem um do outro.

--Não que elles iam mesmo namorar-se para sua casa! Se não fallam um com

o outro é porque andam entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o

doutor deve defendel-os... Tambem nos saiu bem bom...

--Adeus, adeus, que estão hoje com muito má lingua, apressou-se o

Carvalho a dizer, fugindo com receio de que lhe fallassem na Silva que

continuava a seguir, com boas esperanças de conquista.

Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e meio depois que vimos

Claudio saindo como um louco de casa de Emilia. De facto, retraira-se;

com o pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se em casa

e quasi ninguem o via. Entregara-se por completo ao drama da sua

existencia.

Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido vêr Emilia, ficára-lhe

na lembrança. Fôra a hora mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a

todo o instante, como se trouxesse cravado no peito um punhal que lhe

rasgava as carnes a cada movimento.

A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar. Não era nada, resultado

da fraqueza e do calor; ia dormir um pouco... Fechou-se no quarto,

atirando-se para um sofá, succumbido de pavor. O que fôra? Que loucura o

fizera ajoelhar aos pés de Emilia? O que pensaria ella? Perdel-a-ia,

julgando-o um vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor? Que

fizera dos seus propositos de amisade e da energia com que havia de

dominar toda a paixão? Por outro lado, pensava, ella resistira

frouxamente quando elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o

amava?

Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a mãe? Ai! mentira-lhe; tão

cedo olvidára as torturas da noite! Não, não seria assim, não seria

levado por uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa de Emilia,

poderia agora abrir-lhe completamente a sua alma, fazer-lhe inteira

confissão do seu amor, das suas duvidas e ella, se o amava,--era certo,

era certo!--havia de querer, como elle, uma vida pura, uma vida sem

macula, em que nenhum tivesse de córar nem perante o mundo, nem perante

a propria consciencia.

A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. Onde, em que livros, em

que systemas aprendera a guiar-se por esse feitiço interior, onde vira

provada a sua existencia? Imaginação doente! Não havia consciencia, não

havia deveres deante de dois entes aproximados pelos impulsos do amor

que os abrazava e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava ali sua

mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, saber se dormia. Não

fosse adivinhar o que lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de

tamanha dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, pelas

noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se agora! A consciencia, a

consciencia!

Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o vigiava

implacavelmente.

Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem que o erguia do

abatimento e da duvida. Mas não!... Delirava.

Não eram escrupulos que o atormentavam, era o receio de perder o amor de

Emilia, de se ter apartado para sempre do seu coração, ferindo-a na sua

virtude. A que baixeza descera!

Não eram melhores os remorsos, a consciencia atribulada, que esta misera

prisão á fragilidade d'uma mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não

havia de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! Havia de

a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu perdão,--ai! quanto lhe seria

doce! depois... talvez, talvez...

E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o coração vogava em ondas

de dôr.

N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se á mãe. Ainda não

se sentia bom. Se fosse estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe

bem a mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme fosse a

noite.

Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! O que iria

passar-se entre elle e Emilia? Contava uma a uma as horas que o

aproximavam d'esse momento decisivo e, por mais doloroso que o

imaginasse, apetecia-o.

Ás oito horas batia á porta da pequena casa da rua da Cruz. A custo

subiu a escada; o corpo mortificado arrastava-se pesado e lento, banhado

n'um frio suor d'agonia.

Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. Emilia

estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais pallida ainda do que elle a vira de

manhã, com lagrimas de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio olhou em

volta. Estavam sós. Podia fallar.

--Por certo me terá julgado severamente, mas se quizer fazer-me a esmola

de me ouvir,--é uma esmola,--ha-de perdoar-me.

--Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella tremendo, escusa de me

dizer cousa alguma, sei muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é

que sou infeliz!

E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.

Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.

N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava, sentiam-se ambos bem;

partiram-se as cadeias que os prendiam n'um mutismo oppressivo e as

palavras voaram como um bando de rolas soltas á luz por uma alegre

madrugada.

Claudio podia contar todos os soffrimentos por que passára e Emilia

responder-lhe, descobrindo a seu turno o intimo do seu peito.

Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer esta affeição.

Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a palavra amor em que sentia mais de

perto a quebra da fidelidade conjugal.

O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir o dever e a

religião, sem todavia sentir a profundeza d'aquellas obrigações.

Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, contradizia os

preceitos da sua educação e não cabia no convencionalismo estreito que

era toda a sua regra moral, vasia de sentimento.

Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas mesmas razões que a

levavam a passar noites crueis procurando tirar dos seus farrapos trajos

elegantes, para competir com a gente fina cujas relações frequentava.

Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração perante tão sublime

virtude, ingenuamente julgando ter encontrado par ás suas duvidas e

atribulações, onde de facto só havia um fragil simulacro de grandeza

moral.

Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava em ambos os amantes

uma tranquillidade profunda.

Tudo agora ficava determinado d'uma vez para sempre.

Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta do arrebatamento

produzido pela presença de Emilia ao fim de tantos dias de saudade,

quebrada toda a repressão dos sentimentos intimos, podia assim

reconhecer sem remorsos o seu mutuo affecto todo impregnado de respeito.

Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia lenitivo á

tristeza da infelicidade conjugal, aconselhando-a, guiando-a e

amparando-a pela presença d'um coração fiel, ella havia de banir a

aridez das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu espirito. A

vida tornava-se perfeita.

O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem providencial para ambos,

perdida uma em busca de carinhos, perdida outra na desventura d'um

destino amargo.

Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava nas brizas propicias do

amor triumphante. O espirito vergou-se ao sentimento e acceitou, sem

perplexidade nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o por uma

aurora luminosa e serena.

Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, a refazer-se n'um

somno povoado de venturas. No dia seguinte podia dizer á sua

mãe:--Graças a Deus, estou melhor;--e ella veria contente, como a benção

das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do filho.

Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos regatos e a natureza

havia de povoar-se de vozes harmoniosas e clementes, cantando em côro

com os amantes felizes.

Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas as vagas aspirações

sentimentaes que nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe e de

Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper com perniciosos habitos

de ociosidade provinciana, gastando-se a inquirir das intrigas do

soalheiro e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da gente rude,

allusões ás suas relações com Emilia que outros poderiam interpretar

injustamente. Por isso deixára de frequentar a botica, armado para uma

vida de pureza e de saber. Na seccura das suas preoccupações

racionalistas infiltrava-se um desconhecido fermento de poesia cujos

primeiros e rapidos movimentos lhe davam a illusão da felicidade.

D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era completa. Rapidamente

esquecera o dia em que Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade

mulheril, entregava-se sem reservas ao prazer da hora presente.

Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido que cada vez mais se

entregava aos seus vicios, sentia como uma infinita suavidade a nova

atmosphera de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem

unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem confidente,

afflicção que não tivesse soccorro. A imagem de Claudio

entranhava-se-lhe no coração como o supremo bem e sabedoria. Era bello

tudo o que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. Deixára de a

tentar o ruido das festas, a vã agitação por que algum tempo suspirava,

para esquecer as mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus

mysteriosos murmurios diziam-lhe agora mais que todos os artificios que

com delicia lhe deslumbravam os olhos.

Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade. Estava

bem, não havia remorso que lhe pesasse, poderia confessar toda a sua

vida. Mas não a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o seu

amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se que algum dia pensára em

fazer d'ella sua amante? Não estava resgatada essa affronta, que nunca

communicára a ninguem, pelo respeito com que agora a idealisava,

santificando-a e adorando-a como martyr? Embora!

Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse com ruins

desconfianças este amor immaculado. Nem á sua mãe o confessava; na

ingenuidade do seu pensamento condemnaria talvez o affecto por uma

mulher casada e não poderia comprehender a isenção do filho.

Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros com que

francamente ria de amorosas aventuras picarescas, arrastando dentro de

si, como um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante reserva e o

temor do que elle julgaria injustiça. A sua vida era feliz, mas

apertava-se dolorosamente, cercada de phantasmas.

N'este idyllio se consummiram quatro mezes. Claudio frequentava pouco a

casa de Emilia, sempre perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da

honra da sua amada.

Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez cada semana, via-a na

egreja, acompanhava-a nos seus breves passeios. Só de longe em longe a

procurava na rua da Cruz, contando os dias, para que a frequencia se não

tornasse notada da visinhança. Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor

inspirado do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a realidade,

satanicamente commentava a familiaridade e sorria.

Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á hora em que o sol ia

baixando e um frio sereno e humido annunciava os gelos da noite, Claudio

entrava na villa, regressando d'um passeio a Palhares, com Emilia, com

as Silvas, a mulher do dr. Carvalho e o Maia.

Este, tendo partido um casamento rico que tentára na Beira, voltava-se

agora com mais insistencia para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito

que ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam herdeiras.

Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente, e viera a saber que

o homem era realmente rico; pagava uns noventa mil réis de contribuição

predial, tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro que

guardava em casa, como grande avaro que era. Não constava que tivesse

testamento, nem o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros

eram as sobrinhas.

A herança devia estar para breve. Elle contava setenta e quatro annos,

já o anno passado tinha tido um antrax que o pozera ás portas da morte,

e os medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens no

funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.

A duvida era uma unica: este homem tinha um filho natural d'uma creada,

mas nunca o reconhecera, correndo-o com uma bengala uma vez que o

pequenito, por conselho da mãe, lhe pedira a benção no meio da rua.

Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com quem a rapariga tivera

amores, mas, para maior segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos,

mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e que de lá soccorria a

mãe, a quem o velho abandonára na miseria.

O Maia, porém, não se assustava com isto; já conhecia alguns casos mal

parados de investigação de paternidade illegitima que o affoitavam,

quasi se sentia tentado com a demanda para dar largas á sua actividade

profissional, e conhecia o processo por que ordinariamente estes

terminam casos.

O rapaz não tinha dinheiro para custear o pleito e viria a uma

conciliação, contentando-se com uns magros contos de reis.

Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima cantando louvores á

natureza,--a tarde estava lindissima! não se cansavam de

repetir,--cuidava apenas de amores.

O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava a sua Emilia; a

Silva, a mais velha, que dizia agora que não se queria casar porque não

estava para aturar homens,--queria a sua independencia!--a cada instante

olhava para traz, a vêr se descobria o dr. Carvalho que tinha ido á

Varzea visitar os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito

inflamada em ciumes, vinha guardando a amante do marido.

Pararam na praça. Havia alli um grande ajuntamento, em volta d'um

trapezio erguido no meio da calçada e tapetado em baixo com immundos

farrapos.

No trapezio estava sentado um homem magro, as faces cavadas, vestido

d'uma desbotada malha côr de rosa, calçado de cothurnos brancos; em

baixo, de pé, uma mulher, tambem vestida côr de rosa, saia curta,

coberta de lantejoulas que se estendiam em arabescos pelos hombros,

levantava do chão uma creancita magra, longos cabellos louros e olhos

azues, e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita, voltando-se no

ar, soltava um grito agudo e o homem recebia-a nos braços.

Claudio voltou-se constrangido, para não presencear este quadro de

miseria, e, ao lado d'elle, uma rapariga do povo, que era linda, voltou

as costas tambem.

--Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vêr! disse ella.

--Eu tambem não gósto, respondeu Claudio.

--Quem ha-de gostar de vêr o innocentinho alli aos trambolhões?! Até

parece que o desmancham.

--São modos de vida. A fome tudo póde.

--Antes pedir esmola.

E trocaram ainda mais umas breves palavras, com uma subita sympathia

tirada da mesma compaixão.

O dr. Carvalho não tardou a chegar, risonho e animado.

--Vamos para casa, disse para a Silva, antes que se faça noite, que lhe

quero dar um ramo de violetas como ha muito não vê. Tenho-as lá

magnificas. Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria. Uma

maravilha!

A mulher do Carvalho córou, e lá seguiram todos a caminho do jardim.

Claudio acompanhou-os até á porta e voltou a casa, para não mais sair

n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.

--Tão calada? perguntou Claudio.

--Estou com frio.

--Deus queira que não lhe vá fazer mal.

E separaram-se.

No dia seguinte, á tarde, Claudio foi á rua da Cruz saber de Emilia.

Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo que a mulher estava

muito incommodada desde a vespera.

Logo ao chegar a casa, fôra atacada de vomitos; desde então nunca mais a

tinha deixado uma violenta dôr de cabeça.

--Até chorava, dizia o Ricardo.

Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se exaltára com a

lembrança, dizendo que isso ainda lhe fazia peior, que nunca se chamou

um medico por uma dôr de cabeça e que o maior beneficio que lhe podiam

fazer era deixal-a só, em paz e socego.

Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente, tratava-se d'uma doença

grave, para que Emilia não fizesse o esforço de se levantar do leito e

vir vel-o quando não podia ignorar que elle ali estava. O seu primeiro

impulso foi instar pela assistencia d'um medico, mas depois,

reflectindo, receiava contrarial-a e aggravar o mal. Resolvia esperar

mais vinte e quatro horas que antecipadamente sabia serem de agitação.

A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de Emilia perseguia-o

como um espectro, povoando-lhe a escuridão de visões tenebrosas. O

despontar do dia, porém, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia

dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. Não seria cousa grave! A

sua imaginação é que tinha certa tendencia a representar-lhe o peior.

Até poderia ser que áquella hora tudo estivesse passado! O que o

preoccupava agora era determinar a hora de ir vêr Emilia.

Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado. Oh! Senhor, que

vida! Não ter a liberdade de confessar os seus sentimentos, sempre em

continuados temores, fugindo como um criminoso... E não o era!

Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!... Teria ainda dez

horas. Impossivel. Iria depois de almoço. Que lhe importava o que

podessem dizer. Ia ás occultas, porventura?...

Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á creada perguntou por Emilia.

Estava melhor, já se levantára, até de manhã descera um bocadinho ao

jardim.

Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que

estava deserta, Emilia tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz...

Era singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...

Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos,

compassados, parando a meio do corredor, para dar á creada umas ultimas

ordens. Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos dois passos

que medeavam entre a meza e o sofá.

De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha

para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que já um dia lhe

conhecera e em que só os seus grandes olhos ficavam boiando como

pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais

finos cabellos.

--O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mão.

Estranho-a.

--Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dôr

de cabeça, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse

uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...

--Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu

tenho soffrido ha algumas horas...

--Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga

fresca e nova que o cubiçasse. Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos

uma bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de nós. Não lhe

pareceu?

Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o

sangue ao coração, seccaram-se-lhe os labios e, como uma féra

precipitando-se sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura de

Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões de desejo.

--Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?

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