fique a dizer muito mal do passeio. Talvez que uns granulos de
antipyrina...
--Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores de cabeça. Em
dormindo, fica bem. Isto não vale nada. Quem déra que todos os dias
assim fossem!...
Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. A cada passo se
encontravam juntos: nos passeios, á tarde, pela estrada do Sobral; na
egreja, á missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr. Carvalho e
pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se a mudança de
Claudio; commentava-se já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só
elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella amizade, a ella
se entregava inteiramente e ingenuamente transformava em sentimentos
puros, d'esta vez sem plano nem preoccupações scientificas, os projectos
de conquistador com que dois mezes antes entrara em casa de Ricardo.
Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta de habitos e
costumes que é de regra entre amantes; ella cedia dos seus prejuizos
lisboetas para admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana,
elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo e os propositos de
vida laboriosa, para se confundir nas futilidades em que imaginava bom
gosto e arte.
De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas por uma crise d'amor que
lhes transfigurava o aspecto das cousas.
Para Emilia a natureza era um adorno, como as flores na meza do glutão
que, só cubiçando as viandas, se compraz todavia cercando-as de frescura
e perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito a vida gigantesca
da terra, o drama eterno e mudo em que os elementos se combatem e amam,
captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza dos seus destinos.
Nem as arvores nem as aguas nem as montanhas podiam ter significação aos
seus olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces olhos, as brizas
do poente que á tarde varriam a atmosphera ardente do estio, a sombra do
loureiro que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos e o
canto apaixonado dos rouxinoes ao luar eram unicamente a faustuosa
decoração do theatro em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas
valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos cristaes, das sedas e
dos salões dourados em que o seu temperamento se formára.
Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela: pensava que Emilia
lhe revelava um mundo novo de elegancia e arte, lançava á conta de
rudeza a simplicidade que em tempos, que agora lhe pareciam distantes,
adorava na casa de seus paes, e tomava por alargamento e complemento da
educação do seu espirito a frivolidade a que só o arrastava a anciedade
de se impregnar das graças da sua amada.
Pelo S. João acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra, a uma festa em casa
d'um fidalgo, d'appelido Albuquerque.
Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da estrada da Beira; a
pouco mais d'um kilometro da cidade, encontrava-se um largo portão de
ferro rematado por um brazão e continuado para um e outro lado pela
gradaria alta que circumdava a propriedade.
De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos, os platanos, as olaias, as
palmeiras e as eras que vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em
frente do portão, uma alameda, bordada de buxo, que em leve declive
conduzia, em linha recta, a uma curta e larga escada de pedra, de dois
lanços, formando semicirculo, com uma grande taça de pedra ao centro
d'onde a agua se derramava sobre um tanque em fios longos e
scintillantes. A casa era d'um andar, sobre celleiros e adégas muito
baixos, quasi inteiramente enterrados, tendo acima do sólo só as
estreitas frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo vestibulo
bem mobilado de escabellos em que destacava o vermelho e ouro do brazão
que os encimava; á direita a larga porta d'uma capella, á esquerda uma
extensa linha de vastissimos salões, em frente a entrada para o interior
do palacio.
O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice, o rosto vivo e
malicioso lembrando os retratos de Henrique IV, com ademanes fidalgos
recebia as senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo braço ao coração da
festa. Ao lado estava o filho que o ajudava n'essa tarefa. Fôra
condiscipulo de Claudio e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu
para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo, abraçou-o.
--Mas que feliz surpreza!...
--Tantas vezes me pediste que viesse ás tuas festas e tantas vezes
recusei que algum dia havia de quebrar o encanto. É verdade que faltei
ao dictado... Vim sem ser convidado, mas já sabia que me desculpavas.
--Agradeço-t'o muito. Déste-me agora uma grande alegria.
--Tinha vontade de te vêr, creio que ha tres mezes que não nos
avistavamos. Ultimamente tenho vindo pouco a Coimbra. Depois as
instancias da familia do Almeida...
--Escolheste bem; a companhia é excellente. Gosto muito da Emilia! D'uma
vivacidade... Que pena ter casado com aquelle homem... Mas anda cá,
continuou o filho do Albuquerque pondo as mãos na cintura de Claudio e
olhando o attentamente, reparo agora!... Estás um janota! Que é da
modestia e do estudo e d'essa austeridade d'outros tempos?
--Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me
eternamente rustico?
--Não, quero-te assim, estás muito bem. Até me pareces mais bonito. Essa
maluqueira de te metteres em casa com os livros, como n'um convento, era
intoleravel! Ainda bem, ainda bem que estás a caminho da salvação! Que
eu, verdade, verdade, tambem gosto de socego...
E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam para a primeira
quadrilha, em meio da confusão das sêdas e das joias, de cristaes, de
moveis artisticos e de louças orientaes illuminadas abundantemente pelos
candelabros de bronze que pendiam do tecto e pelas pratas cinzeladas que
pousavam nos velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques tinha
fama pelas suas festas, pelo luxo e pela alegria que tradicionalmente as
caracterisavam, e muitos corriam ali só para admirar essa ostentação de
opulencia.
Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples de Villalva e a vida
estreita que levava em Albergaria não o tinham educado a passar
indifferente pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade, pela
sensualidade, pelo preconceito bebido nos livros materialistas de que a
expansão de todos os appetites era salutar e humanamente digna, e, mais
do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de Emilia.
Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia admiravel; passava
uma epoca, que seria breve na sua existencia, de cubiça mundana.
Dentro em pouco dançava com Emilia. Ella estava radiante, julgava-se
transportada aos salões de Lisboa. Uma noite de baile era a
reviviscencia das melhores lembranças da mocidade, d'aquellas a que o
seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio apontava aquella
peça da India que só tinha egual na collecção d'El-rei D. Fernando, os
brilhantes da condessa de Murtede que o Leitão avaliára em sete contos
de réis, o vestido de setim da Costa Real, de Miranda do Corvo, feito em
Paris quando lá esteve, na primavera, a graça, a distincção do velho
Albuquerque, e toda a tremulina de fogos fatuos que lhe passava diante
dos olhos. Elle ouvia e applaudia com palavras de admiração, que o amor
lhe segredava, o enthusiasmo futil de Emilia.
Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou. No meio das salas
ficaram grupos de casacas esguias e negras, em volta das damas
formaram-se pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam com
grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o Albuquerque e as filhas
corriam as salas offerecendo os calices do precioso vinho das suas
terras do Douro.
Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas, com palavras banaes
de convencional cortezia.
Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella, pelos seus filhos e
pelo seu marido, pela sua felicidade e alegria. Os copos tocaram os
labios e dois minutos de silencio disseram o que os labios calaram,--o
affecto que n'aquelles dois corações surdamente crescia.
Á uma hora, já o Ricardo queria partir. Andára a arrastar-se pelas
cadeiras, pelas portas das salas de dança e pelos cantos das mezas de
jogo, mãos nos bolsos e luneta pendida sobre o nariz, até que chegasse a
hora de se fartar: agora, replecto, a festa terminara para elle, queria
dormir. Estava massado, dizia á mulher, e tinha no dia seguinte a
repartição. Elle é que sabia o que isso era, com o mez de julho á porta
e o semestre da contribuição predial para receber!
Claudio accudia em favor de Emilia:
--Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas as occasiões que ella
tem de se divertir...
Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; ao deslumbramento das
primeiras horas seguia-se uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga
necessidade de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso cansaço!
Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba cadeira de espaldar, ia
seguindo com os olhos Emilia que valsava ligeira nos braços d'um rapaz
estroina, todo fresco e risonho de cynismo e de saude. Comparava-a com
as outras raparigas e cada vez mais se penetrava da sua gentileza. Até
no trajar lhe parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar ao
seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá havia, um vestido preto
que os paes lhe déram quando casou e uns farrapos côr de rosa com que o
enfeitára.
Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura da manhã,
açoutando-lhe as faces, animava-os. Claudio e Emilia vieram conversando
até Albergaria. Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações da
carruagem.
--Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico mas o socego dos
nossos serões não é peior. Em regra, fico indifferente ás festas a que o
coração é alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.
--Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca como um baile; fico bem
oito dias, pelo menos. Dá-me saude.
Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e elle mesmo queria
attribuir a sua inquietação aos effeitos d'uma atmosphera viciada e da
excitação do fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno, o
corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos olhos e dos ouvidos os
rumores das vozes e da musica, o brilho rutilante das salas e a imagem
de Emilia valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes
galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria as primeiras dores
do ciume.
Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho aconselhava Claudio a
que não deixasse de ir ás caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas
podiam livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a sua experiencia
lhe tinha mostrado.
Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem... Mas o Carvalho
instava. Resolveu partir para as Caldas da Rainha.
No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, foi a casa de Emilia
despedir-se. Ella nunca tinha estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira
sempre á gente com que convivia em Lisboa que não havia terra de mais
gozo. Todas as noites se dansava; os dias passavam se em continuados
jogos e merendas á sombra do arvoredo.
--Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito bem.
E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam sussurros d'aguas
que iam descendo e um alento de frescura, sobre os milhos tenros,
mimosos, regados n'aquella noite.
A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se com a suavidade da
natureza. Teve um instante de desalento; sentiu derramar-se-lhe no
corpo, como uma uncção venenosa, um torpor em que a vontade se
aniquilava, mas, sacudindo energicamente a tentação, levantou-se,
apertou a mão de Emilia com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.
Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada, sorridente na paz da sua
alma, recommendava-lhe que tivesse cautela, tinha muito medo de
remedios. Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados, antes fosse
para Pariz.
--Tenho sempre muito medo! dizia.
Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, as ininterrompidas
cambiantes d'aspectos moderavam os movimentos de saudade e quasi lhe
davam a illusão do esquecimento.
Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta do medico, os
banhos, novas terras, nova gente, cousas novas, trouxeram-n'o durante
dois dias n'uma agitação que tomava por contentamento. Apressou-se a
escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao Ricardo, referindo o que se passava
e promettendo que voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento
tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.
Estava na firme disposição de se associar á vida mundana, assistindo aos
concertos, passeiando todas as tardes na Matta, jogando o arquinho com
as damas e o _whist_ com a gente grave que Lisboa emprestava por um mez,
dançando e galanteiando. Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a,
para mais merecer no seu conceito.
A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero e odio, fugia de
toda a convivencia, procurava os cantos affastados e ermos para se
concentrar nas suas lembranças, e opprimido, ancioso, como um tigre na
jaula, revolvia-se na estreita cella que habitava n'uma hospedaria.
A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora até onde levianamente
tinha caminhado. Dissipada toda a duvida, sabia,--com que amargura!--que
o seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o acompanhava sempre,
sempre, fundindo n'uma só ambição todos os desejos, todas as
preoccupações e todas as necessidades.
Que era feito das suas convicções materialistas, dos seus propositos de
conquistador, da alegre esperança com que d'animo leve procurava a casa
de Ricardo? Por que estranha inercia deixára transformar essa viril
resolução no affecto candente que o consumia? Mysterioso impulso!
Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a firmemente, sem um
minuto de desfallecimento, aos olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus
mais intimos amigos. Ás vezes tinha uma esperança e dizia comsigo:
--Pieguice! Tambem assim foi com a Conceição e hoje vejo-a passar,
casada, com os filhos ao collo, sem o menor desejo. Hei-de curar-me;
tudo se gasta, tudo esmorece.
Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitação constante em que ellas
o traziam determinaram um aggravamento da doença que o tinha levado
alli. Ao cair da tarde começava a febre, a noite passava-se em suores, e
pela madrugada dormia então prostrado um somno povoado de pesadellos.
Não queria medico; sabia bem qual era o seu mal.
Uma manhã, com surpreza do creado, que sempre o estranhára e nunca
podera comprehendel-o, pediu uma carruagem e correu ao caminho de ferro.
Só a viagem bastava para lhe restaurar as forças. Quando á noite chegou
a Albergaria, parecia-lhe que todos os soffrimentos tinham sido apenas
um sonho mau.
Não o sentiu porém assim a pobre e velha mãe que, recebendo-o
surprehendida e alvoroçada, ao attentar na sua physionomia escalavrada
por dez dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.
Claudio mentiu-lhe. Fôra uma constipação com alguma febre, uma noite que
se demorara na Matta. O medico dissera-lhe que só passados vinte dias
podia continuar no tratamento e por isso voltára para casa.
N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este beijo, supplica muda,
perdão da mentira. Ella estranhou-o mas, tomando o apenas como sêde dos
seus carinhos, passou-lhe a mão no rosto, affagando-o.
--Não ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me que o coração me
adivinhava qualquer cousa, quando te vi sair.
O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio perguntando pelo que se
passava em Albergaria e a mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.
--Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! exclamava. E tanta
pobreza por esse mundo...
--E Emilia!?
--Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na egreja, á missa, onde o
tinha encontrado, que a mãe não saia porque andava um pouco doente.
Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E calou-se um instante,
absorvido n'esse pensamento, entre o temor e a alegria.
Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, dizia a mãe; precisava
descansar, não lhe voltasse a febre.
O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete, a caminho do
quarto em que dormia, que era contiguo.
Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim. Quantas vezes nas
Caldas se lembrara com penetrante saudade d'elle e da sua
tranquillidade, a que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma
densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida e fresca, das
magnolias rolavam gottas d'agua caindo descompassadas sobre as folhas
seccas que juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se nos
sorvedouros que atravez da encosta as levavam aos ribeiros. Toda a voz
humana se calava, só a natureza cantava o seu infindo e eterno canto.
N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, mas a inquietação
abrazava-o, embalde o peito arquejante se dilatava nas auras matutinas.
Esperava um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que o tinham
acompanhado ante-gozára o repouso no seu leito, no silencio do seu lar e
na alegria de voltar em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe
trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse fogo estranho que lhe
corria nas veias!
Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o. Nunca o tinha feito.
Queria affastal-o, procurava motivos que lhe satisfizessem a
consciencia. Mentira, é verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra
só para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava esse amor
senão a elle, a elle só? Debalde! A razão não lograva dominar a dôr que
estava ali, como um espinho, cravada no coração, penetrando cada vez
mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, que pensava ella?...
Lembrava todo o passado, os continuados passeios, as palestras intimas,
a mutua confissão de todos os cuidados, de todos os bens e de todos os
males da existencia de cada um. Muita vez se tinham referido á sua
amizade mas nunca entre elles se fallára de amor.
Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que a paixão o consumia.
Havia de occultar-lh'a porque era uma offensa á sua honra e porque, se
ella a adivinhasse, havia de repellil-o com a sua intemerata virtude.
É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia tambem adoecera na sua
ausencia... Mas não! Era impossivel! Não cabia na sua candura a sombra
d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era crime o affecto entre
duas almas irmãs e o desprezo do homem vil a que Emilia se achára ligada
n'um momento infeliz? Convenção estupida contra que a natureza protesta,
frageis leis humanas que a vida deroga a cada instante, desmentindo-as e
escarnecendo-as!
E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção não lhe empolgava
o espirito. Mentira a sua mãe, havia de mentir-lhe todos os dias
occultando-lhe o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando o
segredo de que córava, perseguido pelos phantasmas implacaveis da sua
consciencia. A consciencia! Tambem o amor era crime? Que tinha elle com
o que o mundo pensava?
Não fôra intencionalmente que procurara aquella mulher, não era seu
direito,--lera-o nos livros, aprendera-o nos evangelhos da
sciencia!--conquistar todos os bens que a sua força podesse alcançar? A
vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha aos vencidos! Queria
a sua hora de luctador, queria a sua hora de triumpho, queria as palmas
da victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros annos da mocidade
n'um timido recolhimento. Mas voltava uma onda de amargura... Não, não
podia ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus filhos? Que
duvida! que angustia!...
Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso meditar. O somno foi
breve; pela madrugada ergueu-se e desceu ao jardim.
O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem do norte varrera a
névoa, no ceu azul corriam ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas
nuvens alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e no
renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de vigor.
A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas que iam longe,
como as nuvens para que levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da
jornada... Em poucas horas veria Emilia. Havia de occultar-lhe a
tempestade por que passara, transformal-a em pura e candida amizade.
Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe. Pezava-lhe ainda,
magoava-o. Para o futuro, porém, não teria necessidade de a repetir
porque na sua existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas as
attribulações dos ultimos dias passavam como um sonho mau, e ia seguindo
pelas ruas do jardim na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas
espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e emmurchecidas pelo
estio.
Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; sobre as aguas
boiavam as suas flores singelas e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na
terra e colheu um ramo. Era para Emilia.
Voltou a casa contente e almoçou com a mãe. Tinha dormido pouco,
dizia-lhe, talvez excitado da jornada, mas sentia se bem, com bom
apetite. O dr. Carvalho é que o aconselhara mal;--coitado!--de boa fé. O
que elle precisava não eram banhos das Caldas, era estar em casa
socegado com os seus livros e as suas flores. Ali sim, ali é que tinha
saude.
A mãe applaudia: graças a Deus nunca precisara sair da aldeia senão para
ir a Coimbra ou á Figueira, no S. João. Sempre assim vira fazer aos da
sua condição. Agora é que tudo eram doenças e banhos de mar e remedios
da botica. Muito dinheiro e pouco que fazer! Não sabia como essa gente
governava o que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre em mãos
dos creados. Deus a livrasse de tal vida! Até tinha escrupulo...
Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vêr o dr. Carvalho, explicava,
passaria por casa de Emilia, e depois viria descansar. Tinha medo do
calor, estava muito fraco.
Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.
O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas, chicote na mão e
chapeu na cabeça, ouvindo um cliente. Correu risonho de braços abertos
para Claudio.
--Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao Amial que tenho lá uma
mulhersinha com uma perniciosa,--e bem mal,--e ia vêl-o. Então como vae,
diga-me cá? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito surprehendidos ao
dizerem-nos que tinha voltado. Foi o Martins, quando veiu ao chá, que
trouxe a noticia. Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam cá
as Silvas e depois, quando ellas sairam, era tarde, já passava da meia
noite.
--Isto não foi nada. Demorei-me um dia a conversar na Matta com o
conselheiro Andrade, estava fresco,--ali nas Caldas ha para tarde um
norte mesmo frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula. O
medico do hospital disse-me que devia suspender os banhos e, em vista
d'isso, achei que o que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! Já
esta noite dormi descansado.
--Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda palido e um bocadinho
abatido. Deixe cá vêr esse pulso... Está bem, mas tenha cuidado, tenha
cuidado. Nem mesmo devia sair com este calor.
--Não vou para longe; quero só visitar os amigos. D'aqui a pouco estou
em casa.
A visita foi breve, Claudio contando rapidamente como se passava o tempo
nas Caldas e o dr. Carvalho referindo o que se passára em Albergaria.
Tudo muito desanimado com a falta de Claudio; até aos serões pouca gente
tinha apparecido. A Emilia não saia, andava um pouco incommodada do
estomago, o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas Caldas, o
Ricardo sempre a caminho de Coimbra; só as Silvas e o reitor é que se
conservaram firmes. Quasi nem havia parceiros para o quino.
Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se á repartição de
fazenda, á esquina da rua da Cruz.
O seu desejo era ir immediatamente a casa de Emilia, mas já desconfiado,
procurando evitar toda a suspeita, com a astucia vulgar dos namorados
que a ninguem illude senão áquelles mesmos que a usam, foi primeiro
procurar o Ricardo para fazer crer que o interesse e a amizade se
estendiam a toda a familia.
O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.
--Como está v. ex.ª tem passado bem? perguntou muito respeitoso,
afastando a cadeira com ruido e atirando apressado o cigarro para o
escarrador.
--Um pouco incommodado; foi por isso que voltei mais depressa.
E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite e do medico que só ao
fim de vinte dias o deixava continuar a tomar banhos.