depois começa-se a descer e no fim d'uns tres ou quatro kilometros
encontra-se a povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; os
pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, esses são d'uma extraordinaria
belleza, cortados de ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes
abundando em vegetação. Um retalho delicioso de natureza montanhosa!
Todos desejavam vêl-a.
--É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de manhã, levamos o almoço,
passamos por lá o dia e ao anoitecer estamos em casa. Depende só da
vontade de v ex.as. É marcarem o dia e eu me encarregarei de tudo.
--Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não falto!--grande alarido de
vozes confusas em torno da meza.
Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a mulher, Emilia e
Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira
que tinha vindo advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas dez
pessoas.
Assim é que os passeios são bons, diziam; onde vae muita gente,
d'ordinario não se passa sem qualquer cousa desagradavel.
Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo do palacio de
Claudio, um char-à-banc ordinario tirado por dois magnificos cavallos,
nédios e impacientes nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes,
esperavam os convidados. Em cima do carro havia tres cestos de verga, da
ilha da Madeira, dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha por
baixo da qual se adivinhavam as garrafas de vinho.
Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os á porta. O primeiro
foi o reitor que, contava, já tinha dito missa e tomado a sua chavena de
café; era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago vasio. A
isso, graças a Deus, devia a sua saude; não havia de fazer como o seu
collega do Eiral que não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia para
as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas melhoras. Incommodo,
despeza, e no fim viria bem ou mal, como Deus quizesse:
Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado um pouco e pedia
desculpa, mas não quiz sair sem vêr a mulher do José Manco que estava
com uma pneumonia, muito doente.
--Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas pneumonias como as
d'estes sitios nunca encontrei. Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei
se é do clima, se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo e a
sr.ª D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só faltam as Silvas. Não pensei,
ainda assim, que fossem todos tão pontuaes.
Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido que conversava com o
advogado, queixando-se ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita
azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça e grande chapéu
de palha clara com papoulas vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a
burnir o vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e a
enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa que tinha comprado ha
dois annos e as flores que trouxera no chapéu de inverno.
O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas e envergonhada, ás
occultas, andava constantemente remexendo os farrapos para improvisar
enfeites que satisfazessem os seus appetites de elegancia.
Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom gosto começava a
admirar, esmerara-se e vinha contente, julgando que elle havia de
reconhecer no traje a distincção da pessoa.
Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; intimamente fazia
confrontos entre as senhoras da villa. Emilia era decididamente a unica
com educação. Fina, muito fina! concluia no seu juizo.
Pelo seu lado, procurava tambem não decair no conceito da sua amada e
pedia-lhe agora desculpa da pobreza da carruagém. Uma grande falta de
recursos para fazer alguma cousa em termos! Tinha procurado um _breack_
decente, mas nem em Coimbra o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se
obrigado a remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. Se
continuasse por ali, porque pensava em se estabelecer definitivamente em
Albergaria, havia de comprar uma carruagem propria para aquelles
passeios.
Eram quasi sete horas quando appareceram as Silvas, acompanhadas d'uma
creada ofegante, com uma pequena cesta á cabeça.
--Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! Mas a culpa não
foi minha. A mana não quiz vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,--é
muito bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D. Adelaide
Saldanha,--e aquelle forno é um castigo. Primeiro que aqueça...
--Ora v. ex.ª a incommodar-se... interrompeu Claudio.
--Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que mostrava com ellas
grande confiança, quem corre de gosto não cansa. E visto que foi para
nosso regalo, havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali vão,--e
apontava para o cesto das garrafas.
Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando ao sair o portal.
O reitor e Ricardo tomaram logar ao pé do cocheiro.
--Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, escusamos de aturar
senhoras. É bom para o Maia que está novo e o Carvalho tambem...
chega-se muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço versos.
Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que já ia.
--O sr. tambem está sempre com essas cousas! Ora não seja má lingua...
dizia o reitor.
Ao passarem na botica, estava o boticario á porta a conversar com o
regedor do Sobral.
--A vida está para aquelles, disse despeitado por não ter recebido
convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!
A companhia ia alegre.
As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um
casamento, sua ambição capital. Fallavam das suas flores, das suas
gallinhas, dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar d'azeite,
procurando com deligencia pôr em relevo as suas virtudes domesticas.
Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, não havia má
cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem,
constantemente nos campos, á frente dos bandos na apanha da azeitona,
entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e
berrando aos trabalhadores:
--Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada em ordem! Que estupidos!
Não póde a gente ter um momento de descanso...
O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.
--Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.as foram educadas á antiga. Bons
tempos! As meninas d'agora vão para os collegios e vêm de lá anemicas,
sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem para tocar
piano.
Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua
ambição era um dote de dez a doze contos de réis. Não o tinha ainda
encontrado, mas não desanimava nas suas deligencias.
O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, ora com gracejos,
ora lisongeando as Silvas.
--Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vêm a cair.
Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher do dr. Carvalho e a
Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava
tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos
nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea
de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam
em torno.
--N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava a mulher do doutor em
admiração convencional.
Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser agradavel a Claudio,
repetia:
--É bonito, é realmente muito bonito.
Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem, mas pelo doce prazer de
ouvir Claudio.
Tinham passado a primeira cadeia de montanhas começavam agora a descer
rapidamente para Lourosa.
Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as corôas de neve da serra da
Estrella, em frente, em toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as
serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de pinhaes e de
campanarios, os píncaros despidos e negros, respirando, no ceu sereno e
mudo, solidão e grandeza.
--Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me que você se
enganou; isto aqui ainda é mais feio que do outro lado.
--Oh! não. Eu acho este panorama magestoso. Magestoso, meu amigo!
--Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão muita pedra. O que
vale é que você hade tratar-nos bem. Que horas serão?
--Oito.
--Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar é enorme e nós viemos
devagar. Os seus pobres cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma carga
d'estas!
--Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em
Lourosa.
A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a
vegetação tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram
construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco
atravessavam Lourosa.
--Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor diz que estamos em
Lourosa. Para onde nos leva você, ó doutor?
--Não seja impaciente; vá andando, vá andando que não se hade
arrepender, respondia Claudio.
--Eu sei lá! Desconfio...
Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes
bastos e sem interrupção que cobrem aquella região de monticulos e
desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno são
continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro,
solta-se um alento de viço e de frescura. As urzes floriam em
quebradiços calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas
frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e
aladas flores.
--Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mão
á palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir cá.
--Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.
Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma
só porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a
luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os
creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para
fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro
conseguiram montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, longe da
estrada, para fugir aos curiosos, de modo que não fossem vistos de quem
passasse. Eram essas as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto,
dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.
Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito cedo, passeiariam agora
pela fresca viriam depois a almoçar quando o sol apertasse, que o dia
promettia ser quente.
Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se apressaram a pedir que
os deixassem ficar. Já sabiam o que era gente nova e o que eram as
serras; não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.
--Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa a seu modo; e as Silvas,
aproveitando o ensejo para fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia
que não sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para ellas não
havia como andar a pé. Tinham ido uma vez á Senhora da Penha, umas boas
tres léguas por maus caminhos. Pois ainda não era noite quando voltaram
a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas da manhã, estavam a pé como
se nada tivesse acontecido.
Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido grande andarilho,
quando era mais rapaz, em Coimbra; fôra a Lorvão com os companheiros de
casa. Mas agora não tinha tempo, por causa do escriptorio; uma vida
sedentaria, que o matava. O que lhe valia eram os banhos do mar.
Costumava ir para Espinho.
--Nós vamos sempre para a Figueira, disse uma das Silvas.
--Este anno provavelmente tambem para lá irei. Fica-me aqui mais perto e
posso vir ao tribunal quando fôr preciso.
Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que lhe indicava o passeio.
Desciam abaixo, á azenha, subiam pelo carreiro que se via do outro lado,
atravez do monte, depois chegando acima encontravam um caminho; não
tinham mais do que seguil-o e lá iriam ter.
Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado ali tinha estado o
director das obras publicas com uma familia de Coimbra.
Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana do cantoneiro, sobre uma
esteira estendida n'uma velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, á
porta da casa, a lêr os jornaes que cautelosamente tinha trazido, e em
frente, na montanha, iam subindo os restantes companheiros.
As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da sua robustez e rindo-se do
Carvalho e do Maia que queriam acompanhal-as e se confessavam já
cansados; atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com Emilia e a
mulher do Carvalho.
--Sangue quente! dizia Claudio apontando os que iam á frente. O sr. dr.
Carvalho é que parece um rapaz, alegre e ligeiro...
--Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. Muito rijo!
Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza infinda das cousas
por que passavam: a suavidade de colorido das _primulas_ que bordavam a
ribeira, os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os choupos tremulos
na aragem da manhã, os pinheiros que se desenhavam nitidos na limpidez
do céu, as vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. Queria que
ella commungasse nas suas impressões e ella já não resistia.
--É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.
O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do monte, o caminho era
ladeado de muros baixos, para defender os mattos dos rebanhos que
passassem; continuava assim em longa distancia até que o pinhal começava
a rarear e abria-se uma clareira. Tinham em frente, na margem opposta do
ribeiro, uma ravina apertada por onde a agua corria, em pequenas
cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este logar que o
cantoneiro se referira.
--Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.
Só uma das Silvas fez reservas.
--Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria não é peior. Só aquella
abundancia d'agua!...
Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram pelo carreiro que dava
accesso ás azenhas. Pouco caminharam; estavam cansados, o calor já
apertava, e, aos primeiros muros que encontraram entre a sombra do
pinhal e á beira da agua, sentaram-se.
Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo flores agrestes e
fazia-lhe vêr as formas delicadas e os mimos de colorido que se perdiam
ignorados por aquellas serras. Para que os jardins? A belleza
espalhava-se por toda a parte, nas cousas mais triviaes, tudo estava em
a perceber com olhos carinhosos.
Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza era inexgotavel, as suas
riquezas não tinham limite e a vida inteira era sempre breve, não diria
já para as admirar que seria querer muito, mas para comprehender a sua
existencia.
Quando se chega a isto, quando se adivinha o thesouro que a todos foi
prodigamente aberto e que raros aproveitam, uma absorvente avidez de
sensações nos invade e somos arrebatados por este espectaculo prodigioso
e infindo que nos vem d'aquillo que antes chamavamos mudez e solidão.
Animam-se os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes desconhecidas;
o coração captiva-se d'um amor puro e largo, immaculado e sereno. E como
as cidades nos parecem então abominaveis, com as suas miserias e a sua
vida de artificio e mentira! Nem satisfazem o espirito nem os sentidos.
Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento. Ella já não
luctava; ouvia e nas palavras de Claudio sentia com deleite uma
embalsamada frescura.
O dr. Carvalho e o Maia não deixavam as Silvas. Fallavam agora dos
galanteios da Figueira no ultimo outomno e discutiam o procedimento
d'uma menina de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella
baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro d'Abreu, que se dizia de
boa familia, mas que pelos modos não o parecia.
Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa com o dr.
Carvalho.
--Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova, sem experiencia do
mundo, não podia calcular o que se pensaria no meio d'aquella gente que
morre por dizer mal e, quando não tem que dizer, inventa. Mas elle!...
Um infame! É preciso ser muito canalha para jogar assim a reputação
d'uma rapariga. Que eu não acredito... Os homens são todos assim,
terminava suspirando, com os olhos baixos e fitos na ponta do guarda sol
que cravava entre os seixos.
--Mas que mau humor, que maldade! Parece que já algum homem lhe fez mal.
--A mim?! Estão bem livres d'isso, eu lhe asseguro. Tenho os olhos bem
abertos.
--Ora tem os olhos abertos... Eu queria vêr!... Se gostasse a valer d'um
rapaz...
--Ai, nada, nada! Não sou de pieguices. Que tambem lhe digo: Se gostasse
d'alguem, não havia de ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar
onde melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de bem com a minha
consciencia...
--Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando aventuras. Gosto de gente
assim.
Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a companhia. Eram horas do
almoço. Voltaram á casa do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que
tinham vindo.
A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o reitor já tinha lido os
seus jornaes e contava pormenores d'um crime praticado no Poço do Bispo
ao Ricardo que passeiava impaciente em frente da mesa, olhando sempre o
carreiro por onde os companheiros tinham desapparecido.
Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma creada adormecera.
--Olá, seus mandriões, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se ao reitor lá
do outro lado do monte.
--Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. Já cá tardavam.
A mulher accordou.
--Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.
--Sai de Albergaria ainda era noite. Já vinha ao pé do Hospital quando
bateram tres horas, respondeu a pobre mulher.
O almoço começou quasi em silencio. Todos tinham estranhado a madrugada
e o passeio; o calor e a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a
moleza e o cansaço. Só o dr. Carvalho resistia, sempre alegre e
palrador. Estava habituado a não ter horas para dormir nem para comer;
os doentes é que mandavam. Estranhava a Claudio o luxo com que tratava
os seus convivas, que não era preciso; até as taças para o champagne
tinha mandado vir. Um copo para cada um era quanto bastava.
--Principalmente para o Ricardo!... Um só e grande, segredava
maliciosamente.
Pouco a pouco a animação ia surgindo, na excitação dos vinhos e das
viandas; a conversação tornava-se continua, entre o bulicio da baixella
e o riso dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor lhe
convinha ao paladar e todos louvando Claudio.
--É um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo, o prato coberto com uma
enorme fatia de fiambre e lançando a mão a uma farta garrafa de
Collares. Eu cá vou andando com este, não sei que graça acham a essas
limonadas!
E apontava os vinhos do Rheno.
Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam entre os gritos das
Silvas que com grandes gestos defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha
muito se calara ruminando o discurso, levantou-se para beber á saude de
Claudio.
Não eram palavras banaes as que queria dizer; pretendia fazer um
discurso que impressionasse os ouvintes e particularmente a mais nova
das Silvas para quem começava a olhar como uma noiva possivel.
«--Minhas senhoras e meus senhores...»
--É muito amavel, não se esquece das senhoras, disse sorrindo com ironia
o dr. Carvalho para a Silva que estava ao lado d'elle; e atrevidamente
chamava a sua attenção, batendo-lhe com a mão no joelho, por baixo da
mesa.
«Não era á minha humilde e obscura personalidade, não era a mim que sou
um forasteiro n'estas terras e tão pobre de dotes de eloquencia, que
competiria talvez saudar o nosso generoso amphytrião; mas a profunda
estima e consideração que tenho pelo illustre doutor Claudio obrigam-me
a levantar a minha fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza, de
illustrações e de formosuras que tocam o nosso coração...»
--Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva, aquillo é com a mana. A
menina é que não apanha nada. Só se fosse um beijo que eu lhe désse!
--Não seja atrevido!
--Não seja má. E bateu-lhe novamente com a mão no joelho, procurando
ajuizar da perna.
«O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade devemos as boas horas
que temos passado aqui e que jámais esquecerei, não é um homem vulgar.
Tem seguido a evolução da sciencia e está ao par das modernas
descobertas da sociologia. Eu que deixei ha pouco os bancos da
universidade, não posso acompanhal-o nos arrojados vôos do seu estudo
mas comprehendo a sua bella orientação positivista...»
E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, até se lhe esgotar a
provisão de banalidades que tinha adquirido em Coimbra. Ao fim,
sentou-se vaidoso, procurando adivinhar a impressão que tinha deixado
nos ouvintes.
--Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram de differentes lados da
mesa.
A Silva disse-lhe tambem em voz branda:
--Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito bem.
--Não, minha senhora, isso é muita bondade de v. ex.ª Não tenho tido
uso. Aqui, na comarca de Albergaria, o movimento é pequeno e com estes
jurados analphabetos não vale a pena estudar.
--Oh! não esteja com modestia... eu reparei que todos o estavam ouvindo
com muito agrado. Na provincia é tão raro encontrar alguem que saiba
fallar...
O reitor contava ao Ricardo dos prégadores que tinha ouvido. O melhor
era o Alves Mendes. O que eu admiro, dizia, é a memoria que elle tem
para metter aquillo tudo na cabeça!
Claudio estava embaraçado. Não contava com o discurso e percebia que os
convivas esperavam a resposta.
Interiormente sentiu um momento de enfado que attribuia á impertinencia
do dr. Maia, mas que de facto vinha do risco, que corria, de desmerecer
no conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do bom gosto.
Durante alguns minutos pensou no que iria dizer; depois, como impellido
por uma subita resolução, levantou-se e disse:
--Agradeço as immerecidas palavras do sr. dr. Maia, que por certo foram
dictadas pela consideração que me dispensa e não pelo que realmente
valho. Entre aquelles que me honraram acompanhando-me n'este passeio,
não quero fazer senão uma unica distincção, aquella que de justiça é
devida. Saúdo de todo o meu coração as senhoras que com a sua formosura,
o seu espirito e a sua gentileza generosamente nos déram estas tão
breves horas de alegria!
--Vivam, vivam! Á saude de vv. ex.as! D. Emilia... D. Maria.
E todos beberam.
Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella que se dirigia e era a
admiração pela sua graça que o inspirára.
--Foi pena ser tão pouco, disse o reitor para Claudio, sollicitando um
discurso.
--Não perderam nada. Não sou orador. Isso é aqui para o nosso dr. Maia.
Os brindes não tinham fim. Cada qual bebia pelas pessoas das suas
relações e o dr. Carvalho, que o calor do banquete tinha excitado,
voltando-se para a Silva, disse-lhe quasi em segredo:
--A ultima, a virar e a serio, por uma intenção particular, por uma
menina que sinceramente admiro e estimo!
--Agradeço em nome d'ella e posso assegurar-lhe que é pago com muita
amizade.
--Não acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a com olhos languidos.
E, voltando se para Claudio, accrescentou:
--E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que estamos á meza ha duas
horas e não queremos morrer aqui de indigestão!
--Está dito. V. ex.as mandam.
Novamente os convivas se espalharam nos montes, reconstituindo-se os
primeiros grupos; o Carvalho e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia
e a mulher do Carvalho, o reitor ao pé de Ricardo.
Pouco se affastaram do logar do almoço; o calor, a madrugada, o cansaço
do passeio e o pezo da digestão tornaram-os abatidos, molles e
somnolentos. Só Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos por
identicos motivos.
Ás quatro horas partiram de regresso a Albergaria. Houve um momento de
animação aos primeiros movimentos da carruagem, mas em breve voltou o
silencio proprio da fadiga.
O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados por baixo da luneta, o
collete desabotoado mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher do
dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios do marido com a Silva,
desesperada com ciumes queixava-se de dores de cabeça. Claudio vinha
scismando.
Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao seu lar a graça e a
elegancia d'uma mulher? Mas não era facil encontrar quem com instinctos
d'artista se sugeitasse á vida monotona de provincia.
Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua admiração. Que rara fortuna
possuil-a! E como devia ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e
bestial! Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e mais um laço
ligava aquellas duas almas que, n'uma turva inconsciencia, se iam
prendendo e confundindo.
Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio conduziu cada um á
sua casa e todos se apartaram com palavras de reconhecimento e
cordealidade.