Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua doçura, pousou o livro

sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitação, lançou-o sobre a

mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira dos lagos que

os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia não lhe

deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe

diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.

Ao meio dia foi almoçar.

De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado

da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco

horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era

um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como visão

insistente. Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao torpor da

digestão, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando

accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco

estaria ao pé da sua amada.

Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera

de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas

estas frivolidades e é necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas,

sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio

considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.

Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praça, lembrou-se de que

tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o

traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que

elle o não visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a

sésta. Por esta vez, estava salvo da interrogações compromettedoras.

Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho

duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada

despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu

abrir a porta uma rapariga descalça, os cabellos curtos, escondendo as

mãos sob um avental de riscado.

A rapariga olhou Claudio com surpreza.

--O sr. Almeida está?

--O sr. Almeida está a descansar.

--E a sr.ª D. Emilia?

--A sr.ª D. Emilia acabou ha pouco de jantar.

--Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?

E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um cartão

em que se lia: _C. de Sousa Portugal_. Mandara-os fazer em Paris, eram

os que usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito passar por

conde.

A creada voltou:

--Que faça favôr de subir...

Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma só

janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha,

algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella

um candieiro, dois castiçaes, um par de jarras vasias e um album de

photographias, e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. A pobreza

transparecia n'aquella nudez.

Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito

singelo, apertado no pescoço por uma larga fita de velludo preto e um

alfinete de prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o pequenino

pé bem calçado de preto. Apertou a mão a Claudio e, começando a

conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.

--Não o incommode v. ex.ª por minha causa, vinha só apresentar a v.

ex.ªs os meus respeitos.

--Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.

--Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.

Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e apreciaram a belleza das

raparigas que lá foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar

um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o

juiz, coitado! é que já não prescindia do _whist_ e não quiz

contrarial-o. A ella por certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára

toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era verdade?

A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. Pela janella aberta

via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava,

balouçando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se

estendia n'um vasto lençol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos

prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os

caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com

os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos

que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na terra e polvilhadas de

pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.

Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustiça

com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda

payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos

da villa.

--Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar

habituada ao local ou porque realmente não está no meu feitio apreciar

estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para vêr se

temos sol ou se temos chuva. Só este silencio é de morrer! Parece-me que

estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. Não!

Por emquanto não me dou por convencida!

--Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.ª Não me será difficil.

--Talvez...

--Com certeza. E mais tarde v. ex.ª ha-de agradecer m'o. Será o meio de

se aborrecer menos em Albergaria.

N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, em chinellos, sem

luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.

--Oh! disse confuso, queira v. ex.ª perdoar, sr. doutor. Estava a

descançar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu

escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borrão das novas

matrizes da Afurada. De fórma que...

--Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu sinto é ter vindo

perturbar-lhe a sésta, mas não queria deixar passar mais tempo sem vir

apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.

--Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario incommodar-se.

--Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...

--Ah! sim, não são más, mas a casa não presta para nada. Ora eu lh'a

mostro que ella depressa se vê.

Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.

--Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde

ter a casa em ordem. V. ex.ª vae pasmar da nossa sumptuosidade.

--Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de

Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá

contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.

O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de

jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as

creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este

pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para

os pequenos brincarem.

--Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.

--Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros

tinha! Esta ao menos é mais limpinha.

De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio

pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto

teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de

Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque

elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.

--É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de

fórma que podesse descobrir toda a varzea.

--Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!

--Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não

incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo

a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo

perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da

amabilidade de vv. ex.as.

--Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, replicava ella.

Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo,

só saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.

--Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo já a caminho da escada.

--Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...

--Hei-de converter, por Deus!

Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos

largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia

relações continuadas. O escrivão tambem devia estar contente; um

desgraçado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a

amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar nem

perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? Aproveitaria. Excellente! E

depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educação!

Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes

caiadas e núas! Que differença entre aquelles habitos e o desleixo

provinciano. Já mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na

sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via á tarde, na botica,

passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de

nascimento, ligada a um homem estupido e boçal que necessariamente a

trataria como a qualquer escripturario de fazenda.

Uma breve impressão de piedade lhe passou no coração, mas immediatamente

procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e

fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já com pretensões a

gôsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices,

tinhamos outra Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella

desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, não ia

chorar.

Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum passo em falso e

prejudicasse a sua grande ambição! N'isso é que devia pensar. O resto...

nada de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; era

impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle bebado que demais

tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já

teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caça d'arribação!

E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.

Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia de o fazer, era até a

hora que mais lhe convinha.

Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!

O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite

que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.

Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra

seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta

ausencia de prazeres.

Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria

perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que

aspirava.

Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma

lacuna da sua existencia.

Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em

esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre;

e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que

havia de voltar a casa de Emilia.

Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez.

Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e

vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista

conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á

porta.

Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou

alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim

consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a

Emilia.

Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a

alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a

tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.

Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças.

Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse

facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus

olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para

se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um

espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então

e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.

Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim,

mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se.

Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque

não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei!

N'essa é que precisava inspirar-se.

O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe chamava ceia e pouco comia

porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou,

ainda a noite não se tinha cerrado.

Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e

esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu,

achou-se prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado

talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.

Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno

passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.

Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um

banco de pedra que alli havia. Não iria mais longe. A poeira enxovalhava

o e não queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos

cuidados.

A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça uma abobada de arvores

colossaes, cortada a espaços breves e raros pelas manchas do céu que

empallidecia á luz do luar nascente.

Além, para lá do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a

casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes;

por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos

loureiros, á beira dos regatos, debruçados sobre alfobres mimosos,

cantavam os rouxinoes.

Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia

passou-lhe nos olhos como uma apparição de pureza; não era n'aquelle

momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.

Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria

livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a

sua hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes sentimentos,

que tinha por fraqueza, e começou a pensar no que iria dizer á Emilia.

Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de

elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no _Continental_, e

como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua admiração;

d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o

caminho era curto. Não poderia escapar-lhe.

Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de

mostrar ignorancia dos costumes elegantes.

Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua

anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis

não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua

desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não

recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus

galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha.

Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era

a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade

para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.

Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo

pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o

lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.

--A sr.ª D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia

o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.

--Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr

de subir.

Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava,

um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um

jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que

estendia os braços e o papel.

--Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.

--Eu tinha promettido... começou Claudio.

--Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de

ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão

deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o

tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o _Seculo_. É muito bom

jornal. V. ex.ª não costuma lêl-o?

--Não, nunca o vejo.

--Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda

assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer...

faz-nos muito favôr.

--Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os

celibatarios hão-de ser muito importunos para a gente casada.

--Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não pude habituar-me a

deitar-me cedo; antes da meia noite não durmo. Por aqui me entretenho

conforme posso. E ainda v. ex.ª quer que me conforme com a vida de

provincia!... Só estas noites são um castigo!

--N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.

Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos os desejos de

Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela

vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica,

experimentára-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo.

Para Emilia devia ser uma fascinação.

Mas em breve a conversação caiu no extremo opposto. Não era de Paris que

se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia

ouvia-o com tanto interesse, tão meigamente o instigava á intimidade que

Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no

mais completo abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea,

d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um coração

gemeo em que o vertesse.

Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fôra

encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma

serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada

consciencia.

Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto do cadaver do esposo e

quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura

que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a

indifferença mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle,

Claudio, não chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro

em que se resumiam tantos annos de communhão no amor e no trabalho.

Intimamente perguntava em que dissipára os trinta e tres annos da sua

existencia.

Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; só mais tarde é

que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar,

a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio

penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No

primeiro instante, fôra apenas uma grande lição. Que era a sua vida de

estudo ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, aquelle tinha

chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.

A confissão corria torrencial, como as aguas do açude que se despenham.

Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia,

na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente

arrebatamento de admiração. Já não provocava a conversação,

interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel.

E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel

pezar:

--Já?!

--São dez horas e não quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou

aqui ha duas horas! Para sécca não foi pouco.

--Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois não lhe faço a vontade!

Não digo nada.

--Faz v. ex.ª muito mal. Quem cála consente e eu sou capaz de voltar.

--Queira Deus que seja breve!

Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando á sala:

--Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.

--É muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer

que foi creado na aldeia.

--Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa gente de Lisboa é que

sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...

Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e não

queria provocal-as.

Ambos se alegravam com as novas relações: ella, porque via em Claudio

uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas

e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que

poderiam ter influencia, esperando alcançar melhor collocação. A sua

aspiração, presentemente, era passar para recebedor; teria menos

trabalho e mais alguns proventos.

Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua

inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era

aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha

feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe

intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter

na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!

O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E,

depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe

avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a

Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua

amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que

tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e

sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com

os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta

suspeita torturava-o.

A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e

a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas

sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do

mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio

d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a

tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.

Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae,

mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a

apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que

olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os

amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na

sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se

arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha

pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se

reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para

inquietações.

Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de

Emilia, duas ou tres vezes por semana.

Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas

bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em

que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia.

Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de

gostar d'ella.

--Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com

essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes

novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e

já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.

--É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar

d'ella, verá.

Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não se dava por vencida,

meneando negativamente a cabeça.

Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca

faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre

n'essas noites.

Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse e elle queria mostrar-lhe

que nunca esquecia os seus desejos.

Demais, se o juiz não vinha, não havia _whist_ e todos se juntavam em

volta da meza do loto, palestrando e interrompendo o jogo a cada

instante.

Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue desprendidamente á

admiração de Emilia cujo espirito d'uma infantil alegria contrastava tão

singularmente com as suas pesadas e sombrias duvidas habituaes. Para

ella, a vida era apparentemente um trinado de aves.

Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.

--Ha um muito bonito, mas é um pouco longe, disse Claudio, Lourosa.

Ninguem sabia onde ficava.

Claudio explicou:

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