que o José Portugal tinha deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa
d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava os juros das
inscripções e recebia as rendas que vinham do Minho. O velho, na sua
escrupulosa honradez, pensava sempre em não prejudicar o filho em
proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por isso punha de parte
aquillo que em sua consciencia entendia sobrar dos rendimentos da
herança.
--Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação que quizer. Não lhe
hão-de faltar terras para comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por
morte d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.
Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem veiu mobilar-lhe a casa.
Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão e tudo sem gosto! Ainda
ha pouco vira na Avenida a casa do Antonio Ferreira, um negociante da
praça que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais de trinta contos
ao Gaspar e não tinha um cantinho que se diga: benza-te Deus. Muita
seda, muitos dourados, uma caixa de amendoas! Emquanto o José de
Menezes, que se casou ha pouco, com um conto e quinhentos poz a casa
como um brinco. A sala de jantar pouco mais tinha que a meza, uma
credencia, velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, suspensa do
tecto uma lampada de bronze e nas paredes quatro prateleiras com pratos
de Wedgwood, brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar n'um
fundo escuro e mate.
--Original! concluia Jorge.
Aquelles objectos pareciam que tinham acabado de servir e que a todos os
instantes estavam em movimento. Davam uma expressão de vida que os
armadores de profissão desconheciam. Que barbaridades iam por essas
casas de Lisboa! Havia-as armadas em capellas, com muitos pannos, papeis
dourados, jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes de prata;
havia as armadas em tumulo, todas em estuque brilhante e frio; e
havia-as tambem, de amadores improvisados, armadas em museu onde os
moveis, aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam sem
relação, sem parentesco que os ligasse. Se lhes pozessem rotulos e
preços, a loja era completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E
sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou talvez duzentos mil
réis.
Claudio comprehendia mal a lição do amigo e estranhava o calor com que
lhe era dada; no collegio nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em
Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva trabalhava-se de sol
a sol; a mais brilhante peça da casa era a enxada polida entre os seixos
da serra. Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação d'um
bello espirito e queria-a tambem como tudo o que aos olhos da propria
consciencia podesse engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações
interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, quando tivesse a
sua vida mais assente. Não tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e
de bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor sob impressões
deliciosas, os progressos seriam rapidos.
Não o pensava egualmente a mãe, abatida com tamanho encargo, a casa, as
salas e os creados. Suspirava pela paz laboriosa de Villalva, baixinho,
em silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com as suas
saudades.
Estabeleceram-se novos costumes em conformidade com a nova vida, almoço
ao meio dia, jantar ás seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes
para os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios de
carruagem, as noites... oh! as noites eram realmente um grave embaraço.
A botica enfadava, era mesquinha com a sua baixa e insalubre
curiosidade; o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; em casa, o
estomago pesado, frente a frente com a velhita, o tedio era extremo. De
resto, ella gostava de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a
sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva. Chegando áquella
hora, Claudio não sabia onde se refugiasse.
Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso
encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de
Spenser, as grandes preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo era
raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, levára uma vida
bisonha, retrahida e poucas relações deixára.
D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha
pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installação do palacio de
Albergaria, e José d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer
intimamente ligado á vida de Claudio.
Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fôra
curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se creára um profundo
affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.
Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém todas as tardes a uma
livraria da baixa, na Calçada, procurando com avidez as novidades
litterarias chegadas de França e prescrutando, entre os livros alinhados
nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que
invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos
como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico laço,
começou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e
de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porém o tempo escolar,
Jorge fôra viver para Lisboa e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em
casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o
apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua
educação.
Agora que mudára de ideias e de aspirações, aproveitava a hospitalidade
do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade
permutar ideias.
Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a
vida de estudo que architectara. Ás vezes possuia-se d'um invencivel
fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as
arvores e as flôres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua
educação.
O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria logo, que não se
enxovalhasse s. ex.ª, elle faria o que quizesse.
Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem á saude.
--Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.
Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar
a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no paço da
Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!
O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que Claudio chegou no fim
d'um anno de residencia em Albergaria.
Talvez questão de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de
camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento
directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, os grandes
espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda
sobrára alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a
Europa.
Começaria pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a
Italia, regressando iria á Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow,
voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a
Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria
alli quartel general, centro de todas as excursões.
Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da
morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava
em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.
Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisação, e
ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o
Japão e a America do Norte.
O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado
cedo, não podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era
contentar com a sua sorte. Passava o verão com a mãe em Loures, o
inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois
ou tres em casos muito excepcionaes.
Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo,
gastára um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas já não parava com
saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da
mulher que eram um sermão de lagrimas.
Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira
liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e
alcançar uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes
d'um lar amado e alegre. Não era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que
se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá chegaria.
Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de outubro com uma
impaciencia desusada. Não parava em parte alguma, com sêde de
impressões, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem
fôra creado em horisontes estreitos.
Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na
lembrança conhecimentos novos.
Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço, tinha saudades da sua
terra, parecia-lhe que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva e
até a imagem da sua Conceição d'outros tempos lhe passava meigamente
pelos olhos. Fadiga! Eram momentos passageiros; com esforço e tenacidade
juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no socego do seu canto,
havia de digerir toda aquella massa informe, havia de dispol-a em
theorias e systemas, e então o saber seria completo e o estudo deixaria
de o enfadar.
Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe ficou de lembrança. Saira
de Gand, de manhã, a vêr uma propriedade modelo que tinha tido o
primeiro premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do sol, esperava
o comboio n'uma estação de aldeia. A gare estava deserta e silenciosa;
em volta os campos verdes e planos, emoldurados em altas sebes de
choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros casaes dispersos; em
frente a casa d'um lavrador, uma velha á porta, fiando na roda, á
maneira do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas ao
poleiro. Que seria da familia? Andava nos campos, certamente.
Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo o pouco trabalho de que
eram capazes. Talvez alli estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle
a fatigar-se com vãos estudos? O mais sensato seria voltar a Villalva,
casar-se e trabalhar; fazer como aquelles que alli via. Uma pungente
saude acompanhando o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe
apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um movimento de desalento
profundo.
Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se rapidamente na
sua atmosphera de luxo, de prazer, de epicurismo.
As theorias materialistas aprendidas nos livros confirmavam as
instigações dos sentidos. Claudio convencia-se de que a verdade era a
riqueza e o progresso dos gozos e das commodidades. A lucta pela vida
reduzia-se á expansão naturalista, á conquista dos regalos do corpo. Que
mais poderia significar? Que valor poderia ter o sacrificio pelos
outros? Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... mas
isso era uma cousa vaga, indefinida. Guia seguro só a expansão do
individuo, a satisfação dos seus appetites; o resto, preoccupações
moraes, eram vicios hereditarios, remanescente d'um estado metaphysico
que a sciencia condemnava.
E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria, com um
scepticismo convencional, mal ajudado pela experiencia do luxo dos
hoteis caros das cidades, e sempre em contradição com constantes
inclinações interiores para outras e mais altas paragens.
Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram para ouvir a mãe e
visitar as terras. A mãe contava-lhe ingenuamente o que se passara na
sua ausencia; as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e
abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da adega, mas, como o filho
não estava, não quiz sem consentimento d'elle comprar novos toneis e,
para o que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo o que havia em
casa e mais duas vasilhas de noventa almudes que se pediram. Se o preço
fosse bom, era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona. Tambem não
era mau anno mas o feitor dizia que não passaria de metade da colheita
anterior. Os creados é que muito lhe custavam a supportar, sempre com
intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo muito.
--Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se com saudade dos tempos
de Villalva e do socego em que lá vivera durante quarenta annos.
Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe. Involviam-lhe o coração
n'um alento d'amor que ha muitos mezes desconhecia; todo se entregava a
esta caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca tinha esquecido
a casa e as lavouras; os habitos da infancia arreigaram-se-lhe no
espirito, o ruminar dos bois, o latido dos cães e o murmurio do
arvoredo, todos os doces ruidos que acompanham a vida dos campos
tornaram-se para os seus ouvidos o mais mavioso dos córos cuja harmonia
lhe fazia esquecer o mundo e os homens para o confundir pantheistamente
no movimento da natureza. No eterno canto que da terra se desprende, a
sua alma vibrava unisona.
Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando secretamente
esses queridos seres que ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos
platanos voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido sudoeste que
ia trazer as primeiras chuvas do inverno, os loureiros começavam a
destacar negros entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam livres,
á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos orvalhos do outomno;
abria-se a hora do recolhimento e da treva.
Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento
no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto
ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito
n'esta atmosphera amiga, havia então de estudar e, alliando com as
leituras a recordação do muito que vira, as infinitas impressões que
armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este
novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o
inverno, todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em
nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educação.
Os dias porém iam correndo, estavamos já em meiado de novembro, e os
livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do
gabinete, entre recordações de viagem, um punhal de circassiano comprado
em Tula, mosaicos de Florença e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de
começar como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a
necessidade de frequentar o lagar que precisava reparação, as visitas a
antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em
Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta
inquietação, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia
desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos,
cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos
tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.
Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres.
Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava
então ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna
regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? Não eram o seu
legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas
maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha,
era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa
o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma
haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a
clausura.
E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões das almas simples; a
verdade era muito outra. Não tinha sido vão o baptismo nas aguas de
cynismo epicurista em que se iniciára pelos templos afamados da
devassidão cosmopolita.
Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.
III
Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a
uma meza do _whist_, para ser agradavel ao juiz que sem isso se
aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz,
as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e
n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito,
dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o
sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem
interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o
doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria
renovou-se.
--Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é
ámanhã a _cabra_. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente
já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser
de mim!
Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia
amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:
--Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração
de Jesus. Não falte. Quero ver...
--Se eu poder... Queira Deus que não venha a cahir em férias de ponto!
Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio
então a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e
repousar a cabeça aturdida pela immobilidade e pela attenção forçada.
O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para o distrair.
--Tem-se aborrecido muito, não é verdade?
--Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos
communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente, é d'uma
vivacidade...
--Ah! muito galante!
--E fina...
--Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a
viver todos os dias com um homem d'aquelles!
--É grosseiro, o marido?
--Não imagina!
--Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.
--Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca
vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um
condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda
parente.
E contou:
--Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando
constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito
fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo,
no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,--coitados,
não havia melhor!--viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que
passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os
ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga,
morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está
tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a
Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era
escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita
instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.
Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a
muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais
ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se
oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um
casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a
dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que
fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava
doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora
o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um
grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se
convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a
escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se
então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em
casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade
deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem
manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras
terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e
vendo o que o marido é e como a trata...
--Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.
--Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem
tempo para essas cousas!
--Para mim?
--Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?
--Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se
para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.
--Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos
largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.
Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educação aristocratica.
Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!
Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido
desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de
habitos tão finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar a
aventura.
Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiança de Emilia, mais
dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o
resto estava certo.
Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a
côrte. Não tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situação em que
nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella
obesidade, calvo e de lunetas, não seria de temer.
Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; não se mostrando
muito avaro, havia de o manter em boa disposição. Um achado, um achado!
O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam de lhe produzir grande
impressão os amores com uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que
era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle
immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?
Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro;
estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.
A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres
attraiam-se por selecção natural, não havia fugir á lei.
Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito
contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha
prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas
e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom
para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha
escrupulos de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria
outro. Já era tempo de ser homem.
Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era
correcto. Continuariam a conversação da estrada de S. Braz, que ia em
bom caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado sob qualquer
pretexto novo encontro. Era preciso bater a caça sem cessar.
Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se até altas horas da
noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanças.
Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume!
Abriu um livro de botanica, mas não estava em boa disposição de leituras
scientificas.
Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? Tourgueneff? Não; eram
tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria
e a dôr. Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e inacção forçada
pelos rigores da natureza. Com um sol tão lindo e o jardim como um
açafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em
pensamentos sombrios.
Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma obsessão de gente fallida,
credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a
angustia da cubiça.
Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! Ah! Merimée... este sim,
este era um homem são. Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo
a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o que é vicio e o que é
virtude? Phantasias! O que existe é a natureza humana com todas as suas
forças e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre
o instincto.
Abriu as _Cartas a uma desconhecida_ e foi sentar-se proximo da janella,
comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava
uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos,
scintillações do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que
desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.