Quando eu passo, olha muito para mim.
--É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.
Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa, um pouco arrependida da
indiscrição. Gostava d'elle, e, se ia só, ao passar em frente da botica,
punha os olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.
Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço. Que fazer? Seguil-a? Mas
ella não olhava para elle; a imaginação representava-lhe a resposta
avessa com que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria.
Depois, seria uma troça do boticario, do administrador, do escrivão... e
elle gostava d'ella, não podia consentir gracejos sobre uma cousa em que
o seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia ella? Estavamos no
mesmo caso. Ia rir-se com as companheiras e d'ahi a dois dias andaria a
carta em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.
Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou no jardim para lh'a
offerecer. Em logar de ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo,
fóra da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e fosse o que
fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.
Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou á fonte, ainda não era
sol posto. Começou a subir a encosta que liga a fonte com a villa; onde
o caminho é menos devassado, n'uma curva, sentou-se sobre um muro,
esperando a Conceição. O coração batia-lhe ancioso; pela imaginação
passavam-lhe mil devaneios. Com que palavras começaria? Estava quasi
arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas cousas? Fugiria? Tambem
não, era fraqueza. N'isto, n'esta oscillação entre o amor e a timidez, a
Conceição appareceu com as companheiras habituaes Não lhe podia fallar.
Para Claudio era um allivio, libertava o d'uma situação afflictiva.
Levantou-se e dirigiu-se á botica.
--Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.
--Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.
Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca encobria o rubor que lhe
viera á face quando o boticario lhe fallou.
Não tardou porém que os seus desejos fossem satisfeitos. Uma tarde
demorou-se na botica e, ao voltar a casa, fez caminho por Villar.
Em boa hora!
A Conceição passava, atravessando a rua para casa d'uma visinha.
--Muito boa noite, meu amor.
--Muito boa noite, sr. Claudio.
--Por aqui, sem medo, a estas horas?
--Ninguem me rouba.
E a conversa continuou ligeira e alegre.
D'ali por deante já Claudio não receiava dirigir-se-lhe, estava certo do
amor da Conceição. Dentro em pouco havia hora aprazada para se
encontrarem.
Esses amores duraram dois annos e foram castos e puros. A Conceição era
para Claudio um culto; tocar-lhe era maculal-a, era destruir o que
n'ella havia de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas respiram
a mais estremada candura. De Coimbra escrevia-lhe:
Querida Conceição
Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em que tenho andado.
Desde que vim, nunca mais tive alegria, nem a terei emquanto não voltar
para ao pé de ti.
Por muito que procure distrahir-me, trago sempre comigo a mágoa de não
te vêr. Só para o natal ahi voltarei. Terei paciencia que outro remedio
não tenho.
Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante mas isso não póde
acontecer. Tu nunca aqui vens e eu não posso sair d'aqui.
Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza não me deixa, porque te
adoro de todo o meu coração e serei até á morte
o teu
_Claudio_
Não podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte annos, que do
materialismo positivista tinha passado ao naturalismo na litteratura e
lia agora Zola, deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem
attentar no que ellas encerram de grandioso e dramatico, ainda mesmo nos
seus aspectos infimos.
O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas
superficialmente, junto ao vigor, nunca isento de brutalidade, de gente
moça, haviam necessariamente de dar em resultado o desprezo da castidade
e da pureza que d'ora em diante passariam a cognominar-se ridiculo
sentimentalismo.
Por outro lado, a forma impressa na infancia á sua alma permanecia e
permaneceria como o verdadeiro fundamento da sua natureza; a piedade
christã, embora sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte
abundante e inexgotavel de idealismo.
Claudio não attingia a contradição intima entre a sua alma e as
doutrinas aprendidas nos livros e nas palestras com os camaradas da
universidade. Não eram as mulheres simples objectos de amor sensual
atravez do qual a natureza assegurava a conservação e a propagação da
especie? Fóra d'isso, tudo era doença, romantismo archaico ou timidez
pueril.
E todavia não supportava sem um fremito de repulsão a lembrança de que a
sua amada, um anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia de desfazer
em brutal sensualidade a frescura do seu rosto semi-divino e o meigo
riso, irisiado de cores mimosas, que desabrochava nos seus labios como a
rosa entre o orvalho da manhã.
Ignorava a contradição, parecia-lhe apenas inconstancia, que não
desejava e queria todos os dias a mesma cousa; tomava estas fluctuações
á conta de fraqueza do proprio animo.
Por fim, resolveu acabar com uma situação aos seus olhos ridiculamente
inconfessavel. O que?! Amar uma mulher só para lhe dizer palavras doces,
olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva, ouvir a que
horas ella ia á fonte e a que horas lavava a roupa?! Não era um homem!
Não se atrevia a ir mais adeante, não queria tomar as responsabilidades
do descredito d'uma rapariga? Por si não se importava com essas
pieguices da aldeia, mas a mãe com certeza não gostava, iria magoar-se
com o seu proceder. Elle tambem... não gostava; repugnava-lhe, embora as
doutrinas que aprendera em Coimbra lh'o admittissem. Precisava fallar
com franqueza á Conceição.
Uma manhã, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi encontral-a na estrada
e conversaram de pé, á sombra d'uma oliveira.
Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se um sol penetrante,
na atmosphera quieta das varzeas o arvoredo esperava sequioso que a
briza do norte viesse beijal o, um calmo torpôr invadia toda a natureza.
Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez d'aquelle calor, pensava,
mas na realidade a agonia vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de
que ia quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos pedaços jámais
poderia soldar e cujo licor sagrado para sempre se perderia no pó em que
tão impensadamente o derramava.
Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos depois, com um
arrependimento lancinante quasi com remorso.
A Conceição veio alegre e risonha, como de costume, entregue sem reserva
á alegria de vêr o seu Claudio; elle opprimido.
Com um miraculoso poder de sympathia que tudo adivinha, a Conceição
perguntou-lhe immediatamente:
--O que tem? Vem hoje tão triste!
--Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer chorar, mas é preciso que
t'a diga. Isto não póde continuar, disse Claudio brutalmente. Olha,
Conceição, meu pae nunca consentiria que nos casassemos e então para que
hei-de enganar-te? Hei-de ser sempre teu amigo, mas por isso mesmo não
quero prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos, pódes
ser ainda muito feliz. O mal é para mim que vou perder-te.
A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada sabia dizer.
Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, que não podia
ser senão intriga; que só pelo amor que lhe tinha lhe custava
deixal-o...
Claudio porém insistiu no proposito de terminarem as suas relações e
apartaram-se, ella banhada em lagrimas, elle cruelmente alliviado por se
libertar d'uma situação que começava a pesar-lhe.
No fim d'um anno a Conceição casava com um carpinteiro. Passa ás vezes
na villa, o cesto á cabeça, quando leva o jantar ao marido, o farto
collo a entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço para respirar na
pesada atmosphera do estio. Claudio via-a, contente por se convencer de
que os amores idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade. Um dia
a veria com saudades da ventura que perdera!
N'estes errores do espirito se consumiram os cinco annos que Claudio
passou em Coimbra; ao fim d'elles era necessario voltar a Villalva.
O problema da sua existencia apresentava-se-lhe cada vez mais urgente,
cada vez mais confuso, a alma dilacerada entre os impulsos mysticos que
vinham da sua primeira infancia, as instigações do espirito inquieto por
uma sciencia estreita e incompleta e vagos ardores de mocidade que o
aconselhavam a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se sem reserva ás
expansões do instincto. Que fazer?
Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram o administrador do
concelho, o reitor do Ervedal, o prior de Villar, o regedor do Sabugal e
o Rodrigues, grande influente nas freguezias da serra, convidal-o para a
presidencia da camara.
Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado nada tinha a receiar,
ninguem lh'a disputava, mas, quando a disputassem, estava alli força
sufficiente para a vencer, pois que os homens que alli via representavam
mais de dois terços da votação de todo o concelho.
Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria os collegas que
quizesse; o que desejavam era um homem sério e capaz, porque não
imaginava o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a sorte de
vadios a receber por conta do cofre municipal e até se dizia que o
presidente estava alcançado.
--Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. Ainda ha pouco,
quando foi obrigado a entrar com a receita da viação, teve de pedir
oitocentos mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe a terra
da Preza.
Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria estudar e não se
mettia em politica. Tudo intrigas, tudo dissabores!
--Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço que prestava ao
concelho. Visse o que o pae tinha feito na junta de parochia. Nas obras
do cemiterio deixava tudo para estar ao romper do dia ao pé dos
trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia com o seu zelo e a sua
economia, e prejudicando-se porque para isso tinha de deixar a sua vida.
Agora elle que era um rapaz formado e rico!... Até o entretinha! Que
fazia alli, sempre agarrado aos livros?...
Depois... precisava pensar, em tres dias responderia
definitivamente,--foi a evasiva com que Claudio se libertou dos seus
interlocutores que começavam a fatigal-o com rogos e instancias.
Ao fechar a porta, recolheu murmurando:
--Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais nada do que metter-me
n'essa vinagreira.
O seu proposito de recusa era formal, mas temia o desgosto do pae que
adivinhava de opinião differente. Só perante este queria desculpar-se,
porque para os outros a resposta estava feita.
Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que não o animava. Que não se
illudisse, dizia-lhe, já sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os
que alli vieram tinham as suas pretensões; não o queriam na camara senão
para as satisfazer. Bem se importavam elles com as cousas do concelho!
Cada um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. Quando esteve na
junta, o Mattos, da Azenha, ficou de mal com elle porque não lhe mandou
compôr o caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas para as
suas quintas e não se importavam de mais nada! Tambem lhe não
aconselhava que recusasse; um homem precisa servir para alguma cousa.
Mas se imaginava que nos cargos publicos havia só honra e gloria, estava
muito enganado; trabalhos e desgostos é que lá encontraria.
No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava como um triumpho
para a sua vida a situação de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo
e amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades e o egoismo do
repouso, não se atrevia a aconselhar uma vida de inquietações.
Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou, e este, quando mais
tarde foi prevenido pela mulher da resolução do filho, respondeu:
--Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem que comer e quer viver
descansado.
Não passavam porém sem deixar vestigios estes incidentes. Que fazer? que
fazer? Não era a vida qualquer cousa que elle tinha obrigação de
aproveitar em beneficio dos outros?
Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera, fazia reviver o
problema. Bastava uma proposta dos politicos da villa para que comsigo
trouxesse longas meditações sobre a escolha entre uma vida d'acção e uma
vida de estudo e meditação.
Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, por uns vagos desejos
da acção, e o desgosto da acção, por uma interior necessidade de
recolhimento. Amores não os havia profundos, que este estado tudo
turvava e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo e quebrando toda
a energia e todo o movimento salutar e espontaneo.
Necessariamente haveria remedio para esta situação.
Era preciso procural-o no estudo, deveria estar n'esses montões de
livros que se lhe accumulavam sobre a mesa.
O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo e conforme os bons
principios, que nem os padres nem os lentes da Universidade lhe tinham
dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica e seguia-se
pela physica, pela chimica, pelas sciencias naturaes, a terminar na
historia, nas sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.
Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então poderia fazer alguma
cousa com plena consciencia.
E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes de livros, de
retortas e de apparelhos estranhos que a rude gente da aldeia olhava com
curiosidade e desconfiança.
Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos habitos, mórmente no
proprio local em que se tinham creado; não podia supportar o estudo
aturado aquelle que fôra educado na liberdade dos campos e nos prazeres
da vida rustica.
Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a sua empreza com a
tenacidade que ella, no seu entender, reclamava; aborrecia-se do estudo,
a cada passo trocava a leitura dos livros de chimica por um romance ou
por um trecho poetico, vinha á botica saber dos namoros das raparigas e
dispendia longas horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á
entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e tinha a eira e os
abrunheiros. Era quasi um escandalo. Que rapaz aquelle! Não fazia nada,
ninguem sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.
O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio com uma thesoura
limpava as roseiras dos pedunculos das flores desfolhadas.
--Tenha v. ex.ª muito boa tarde, disse-lhe.
--Ora viva o sr. regedor! Então como vae?
--Obrigado, como velho.
--Por aqui está a passar um bocado de tempo?
--É verdade.
--Tambem não sei que gosto é este. Ainda se fossem cousas que déssem
fructo... mas a modo que não vejo por aqui senão estas ameixieiras.
--Eu gosto d'isto, respondeu Claudio já com certo fastio da conversa.
O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento, exclamou:
--E a respeito de advogar, nada?!...
Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava; não comprehendia aquelle
viver mysterioso, aquella inercia, aquella ausencia de vulgares ambições
mundanas.
O pae de Claudio tambem não estava contente, sonhára o filho dominador e
poderoso, e via-o recolhido, calado, indifferente.
--Elle lá sabe! pensava comsigo.
Os camaradas de Claudio que tinha conhecido quando ia a Coimbra
levar-lhe a mezada, diziam que elle era muito intelligente. E depois era
rico, podia fazer o que quizesse...
Não queria metter-se em politica? Talvez fizesse bem. Para que? Para lhe
gastarem dinheiro e no fim dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que
passára na junta de parochia, das ingratidões e desgostos que soffrêra.
--Elle lá sabe, elle lá sabe...
Era assim que concluia sempre as suas reflexões, continuando no trabalho
como se não fosse rico, tal qual nos tempos em que todas as suas
ambições se limitavam a ter mais uma junta de gado.
Demais, sentia-se muito cansado para vêr sem indifferença as cousas
d'este mundo. A cada instante, nas palestras em que ficava ao domingo
depois da missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia que o
ouviam como a homem de muito juizo, dizia:
--Estou com os pés para a cóva.
--Ora deixe lá, está novo ainda para gosar esta vida. Os filhos ricos,
agora é que é viver!
--Eu cá me sinto, respondia.
E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga que o opprimia e que
tinha como prenuncio de curta duração.
Não se enganava. No mesmo anno em que Claudio viera de Coimbra, o pae
soffreu um ataque de _grippe_. Tinha ficado muito fraco; durante muitos
dias arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre sentado,
somnolento, caindo bastas vezes em prostração. O medico vinha vel-o,
desconfiando d'aquella moleza, e um dia em que elle se queixou de que os
pés lhe inchavam, auscultou-o.
--Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que o acompanhou até á porta
do pateo.
--Parece haver ali qualquer embaraço de circulação, respondeu o medico
com um gesto de descontentamento.
O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido, sómente um pouco mais
lento no trabalho. Esta fraqueza, esta fraqueza... Isto vae mal, dizia
ás vezes. Mas a continuação dos seus lamentos sem symptoma de molestia
notavel acabou por convencer a familia de que não havia perigo
imminente. Assim se passaram cerca de dois annos depois do ataque de
_grippe_ em que o medico confessára as primeiras suspeitas.
Uma tarde, ao recolher a casa, disse á mulher:
--Andei a podar as pereiras e vi geitos de lá ficar. Deu-me uma tontura
que, se não me encosto a uma arvore, caia. Isto vae mal!...
Mas a mulher não deu grande importancia ao succedido. Seria fraqueza.
Elle tambem não comia nada... disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era
preciso chamar o medico a ver se lhe receitava alguma coisa que lhe
désse apetite.
Alguns dias depois, já quasi esquecido aquelle breve incidente, o pae de
Claudio deitou-se á hora habitual e adormeceu. O filho estava ainda para
a villa, a mulher ficára a costurar e o creado preparava as estacas para
a vinha. Estavam em fevereiro, as noites eram longas, ainda se fazia
serão. De repente, da alcova em que o velho dormia, veio esta voz
angustiada:
--Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.
Ella correu ao quarto.
--Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me, falta-me o ar.
Lançou-lhe o braço pelas costas, a mão apoiada no hombro, e, quando
procurava erguer-se, tombou sobre élla, com todo o seu peso, morto, a
cabeça pendida sobre o peito.
Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora, perante os restos
inanimados que tinham sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a
luz o que significava uma vida de honestidade e de trabalhos, a riqueza
e a ordem que em volta de si derramara durante tão longos annos. Para
aquelle não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo;
augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, toda a existencia foi
um combate com a natureza, com os homens, com os acasos do destino. Os
braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu até ao derradeiro
alento. Quem lhe déra ser assim!...
Para isto, para estas reflexões, não precisava dos livros, nem leituras
nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do coração, espontaneo,
brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vão
todo o caminho andado, tempo perdido o que gastára á procura da verdade,
folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que
diziam serem os mestres da humanidade!
O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais
instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte
do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a
toda a hora lhe eccoava no peito.
Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se a um modo de cousas
transitorio. Considerara a herança do tio como fortuna do pae e não
consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente
com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e
silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora
em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e
estudando, quando não se quedava a fallar com a gente do campo,
interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava
agora, depois decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os
livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo
e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambições, outras
esperanças, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae
vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.
Hoje as circumstancias são differentes. Passados os primeiros dias de
mais pungente saudade, começa a pensar, com um firme proposito de
resolução, no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com vinte e
quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?
Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha
aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma
doença, e a expansão de todas as forças, de todos os apetites e de todas
as paixões uma lei natural, porventura a condição do vigor e da saude. O
luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso
offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos,
seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na
miseria. Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente sentia-se
inclinado á piedade, á modestia, á doçura e á tranquillidade? Vicios
hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de
superioridade vencer.
Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem
conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relações que
deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria,
d'onde mais facilmente poderia sair.
Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se
instruir; custava-lhe deixar a mãe em Villalva, entre uma gente
estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse
n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte
do pae; por pouco deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.
A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha
imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de
boas teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do mundo, não o
considerava ella como supremo favôr de Deus e premio do ardor com que
lhe orava? Isolamento não o sentia, que as horas eram poucas para o
trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem não
comprehendia a falta de recursos; a doença e a morte vêm quando Deus
quer, não temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio
convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre
para os outros e agora que já não tinha marido nada lhe custava obedecer
ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam limites n'aquella
alma.
Claudio começou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installação.
Arrendou um palacio, á entrada da villa, do lado do poente, com pateo
nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas
saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido,
segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento
rico de Coimbra que o arrendava barato porque não o queria improductivo,
não queria, na sua expressão, cavallos d'estado.
Vieram moveis caros, louças da India, quadros, bronzes e damascos,
comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um
antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em
_bric-à-brac_. Veiu tambem um _landau_ e dois grandes cavallos francezes
que tinham pertencido a um negociante que se arruinára em fundos
hespanhoes.
--Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês por um conto e
duzentos, custou mais do dobro. A carruagem é de Binder, os cavallos
estão novos e os arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a medo,
envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, era impossivel que
não encontrasse quem lhe desse mais.