Meu papel foi, como se viu, muito humilde. Simples portador para o

cardeal Rampolla e monsenhor Mocenni das cartas de apresentação do

cardeal Manning, eu não fiz, apresentando a Leão XIII as pastoraes dos

nossos bispos sobre o seu jubileu, sinão offerecer-lhe um assumpto a

todos os respeitos digno d’elle... A imaginação do Papa abrangeu logo

toda a grandeza do serviço que elle podia prestar á humanidade, o

thema incomparavel proporcionado ás suas lettras... Si de alguma coisa

me posso lisonjear é de ter ligado como uma aspiração commum á causa

dos escravos no Brasil a causa da Africa... Poucos mezes depois do

pronunciamento que suppliquei ao Santo Padre, chegará a Roma o cardeal

Lavigerie e o Papa o investirá na cruzada africana que foi a nobre

coroação da sua vida... Em uma carta da _Anti-Slavery Society_ Mr.

Charles Allen fez-me a honra de dizer que fui eu que preparei junto ao

Papa o caminho para Mgr. Lavigerie... Nos discursos do grande apostolo

d’Africa, no que elle disse tantas vezes ex _abundantia cordis_, o que

se vê é que, quando elle chegou a Roma, Leão XIII estava possuido,

dominado, inflammado do fervor anti-esclavagista... A parte que me

coube em tudo isso foi apenas a de ser quem,--na occasião do seu

jubileu sacerdotal e da canonisação de São Pedro Claver, occasião tão

favoravel para o desabrochar d’essa e de outras generosas iniciativas e

aspirações de reinado,--teve a fortuna de attrahir o grande espirito de

Leão XIII, disputado por tantas solicitações, para o problema que mais

o podia fascinar.

* * * * *

Foi bem forte a impressão que eu trouxe de Roma... Nos fins de Abril,

não se sabendo ainda até onde iria a reforma annunciada pelo novo

gabinete João Alfredo, assisto á festa da libertação em massa de uma

fazenda do Parahyba e a lembrança que me occorre é a das maravilhas

do Vaticano... Que emoções essas da abolição! Como tudo se fundia em

uma mesma nota, mysteriosa e intima, como si tivessemos em nós nesses

momentos o coração dos escravos em vez do nosso proprio! É este o

trecho em que descrevi aquella emoção da Bella Alliança...

«Ha tres mezes tive a fortuna de assistir á missa do Papa na Capella

Sixtina. Nesse tempo eu não esperava que a hora da abolição estivesse

tão prestes a soar, e tinha ido pedir a Leão XIII, na desconfiança de

que a Regencia era um vice-reinado e o vice-reinado da escravidão,

uma palavra que movesse o sentimento religioso da Princeza... Como eu

estava enganado e quem não estava a começar pelo proprio Presidente

do Conselho! Durante aquella missa, em que tudo para mim era novo, e

quando o vulto do Papa entre os cardeaes prendia todas as attenções,

por entre a musica da Sixtina, ouvindo a qual sente-se que a voz humana

é o unico de todos os instrumentos que sóbe além da terra, eu pelo

menos não podia tirar os olhos d’esse tecto, que é a maior pagina do

bello escripta pelo homem... Que opportunidade unica a de tal cerimonia

e de tal acompanhamento para relêr a biblia de Miguel-Angelo e decorar

o seu poema da creação!... Pois bem, a missa da Bella Alliança

renovou-me a emoção infinita da Sixtina... Havia n’ella outros tantos

elementos de grandeza combinados... Não havia o Summo Pontifice, nem o

côro angelico, nem os frescos de Miguel-Angelo... Estava alli, porém,

o representante do Papa abençoando em nome d’elle a reconciliação das

duas raças; havia lagrimas em todos os olhos, a anciedade, egualmente

apprehensiva para todos, os que iam dar e os que iam receber a

liberdade, e para nós a mais suave de todas as sensações possiveis: a

de vêr recuar as trevas da escravidão do rosto de uma raça, esse grande

_fiat lux_, vêr o barro hontem informe, o escravo, accordar homem,

como o Adão de Miguel-Angelo, na claridade matinal da creação... O

pensamento voltava quasi quatro seculos atraz, á primeira missa dita

no Brazil, quando elle tomou o nome de Terra de Santa-Cruz... Quatro

seculos para a cruz recuperar o seu verdadeiro sentido de symbolo da

redempção e para a missa significar o sacrificio de Deus pelo homem!...

Vendo deante d’elles aquella a quem iam dever a liberdade, e olhando

para a Senhora da Piedade no nicho do altar, os escravos na confusão

dos seus dois grandes reconhecimentos deviam ter sentido os rubis, como

lagrimas de sangue, do resplendor da mãe de Deus, baixar um momento

sobre a cabeça da sua redemptora ajoelhada[4]...»

[4] A senhora a quem me referia era uma compatriota nossa, que casára

em Pariz com um joven e elegante russo. Ha della um admiravel retrato

em tamanho natural, obra de Richter. A suavidade e doçura de Madame

Haritoff, a tão popular Dona Nicota, emprestavam-lhe uma belleza toda

de expressão, que com seus longos cabellos pretos, seus grandes olhos

luminosos, sua tez de um moreno mate, e a graça de seu corpo, tinha

para os estrangeiros um caracter especial, distinctamente brasileiro.

Ah! os tempos em que se escrevia assim! em que o coração, e só o

coração, era que fazia o dictado, e tão rapido que a penna não o podia

acompanhar. Para mim teria sido uma diminuição sensivel da emoção

humana que a campanha abolicionista me causou, si eu não tivesse essa

pagina da minha ida a Roma para relêr, esse encontro comnosco da

sympathia e do fervor de Leão XIII. Porque tão tarde tive eu a idéa

d’esse appello, que devêra talvez ter sido o primeiro? Quero crer que

na abolição, tão subita foi ella, tudo veiu a tempo... A lembrança

d’essa visita a Roma seguida tão de perto do fim da escravidão e da

queda da monarchia, que era o termo forçado da minha carreira politica,

não podia deixar de crescer no vazio da minha tarefa acabada e da

impossibilidade de assumir outra equivalente... Uma nova vida vae

datar d’aquellas impressões religiosas assim assimiladas no ardor de

um combate que devia encerrar e resumir a minha vida militante... Uma

nova camada de minha formação desenha-se insensivelmente desde esse meu

momentaneo contacto com Leão XIII,--ou por outra a camada primitiva

começa a descobrir-se depois de perdido por tão longos annos o veio de

ouro da infancia... Qualquer que seja a verdade theologica, acredito

que Deus nos levará de algum modo em conta a utilidade pratica de nossa

existencia, e emquanto o captiveiro existisse, estou convencido de que

não eu poderia dar melhor emprego á minha do que combatendo-o. Essa

vida exterior, eu sei bem, não póde substituir a vida interior, mesmo

quando o espirito de caridade, o amor humano, nos animasse sempre em

nosso trabalho. A satisfação de realisar, por mais humilde que seja

a esphera de cada um, uma parcella de bem para outrem, de ajudar a

illuminar com um raio, quando não fosse sinão de esperança, vidas

escuras e subterraneas como eram as dos escravos, é uma alegria intensa

que apaga por si só a lembrança das privações pessoaes e preserva da

inveja e da decepção. Essa alegria todos que tomaram parte no movimento

abolicionista devem tel-a sentido por egual. Emquanto a lucta contra a

escravidão durasse, penso que a religião não sahiria para mim do estado

latente de acção humanitaria... Muitas vezes mesmo, a religião não

consegue desprender-se da tarefa ordinaria da vida, e é sómente quando

essa tarefa acaba ou se interrompe que as perquisições interiores

começam, que se quer penetrar o mysterio, que se sente a necessidade

de uma crença que explique a vida. Até lá basta o proprio papel que

desempenhamos; o critico não apparece sob o actor; a duvida não distráe

da acção exterior continua. Emquanto se é um simples instrumento, por

pequeno que seja o circulo traçado em torno de nós, a imaginação se

encerra nelle, e a vida interior não se insinua siquer á consciencia...

A acção é uma distracção. E só acabada ella que em certa ordem de

espiritos as affinidades superiores se pronunciam... Quero crer, para

os que succumbem nessa phase, que o beneficio que elles possam fazer

elimine parte da impureza que carregam em sua inconsciencia moral, ou

religiosa,--o que é o mesmo, e aida peior... Não posso hoje pensar na

minha ida a Roma em 1888 sem sentir que então germens esquecidos nos

primeiros sulcos da meninice reviveram, para germinar mais tarde ao

calor de outras influencias... Não fui em vão a Roma, do ponto de vista

do meu sentimento religioso...

XXV

O BARÃO DE TAUTPHŒUS

Nenhuma influencia singular actuou sobre mim mais do que a de meu

mestre, o velho barão de Tautphœus. Com sua imaginação toda tomada

pela historia, elle costumava nos annos de meu ardente liberalismo

chamar-me Alcibiades. Certamente elle realisava para mim o typo de

Socrates. Si não trazia a mascara de Sileno emprestada ao grande

atheniense, mesmo physicamente, sobretudo para a velhice, elle tinha

muitos dos traços socraticos: a coragem fria, a calma imperturbavel, a

resistencia á fadiga, o gosto da palestra, da conversação intellectual,

da companhia dos moços, a completa abstracção de si, a modestia, a

alegria de viver como espectador do Universo, cedendo sempre todavia

aos outros o melhor logar, o forte espiritualismo, a indifferença pelo

ridiculo, o respeito da ordem social, quem quer que a encarnasse. Sua

mocidade é um tanto legendaria ainda, e nada seria mais interessante

do que apurar os factos a respeito d’ella. O que ouvi por vezes a meu

irmão Sizenando,--esse tinha por Tautphœus uma admiração enthusiastica

e conviveu com elle muito mais intimamente do que eu, a quem em

compensação elle deu o melhor de seus ultimos dias, suas derradeiras

tardes,--foi que, joven, Tautphœus, antes forçado a expatriar-se da

Baviera por motivo revolucionario, acompanhára o rei Othon á Grecia,

depois viera viver em Pariz, nas vizinhanças do anno 30, e frequentava

a pleiade liberal do _Journal des Débats_ até que emigrou para o Brazil.

Muito myope, usava de um vidro quadrado, que pelo habito continuo da

leitura como que se collocava automaticamente; e ainda menos do que o

monoculo, deixava elle o charuto... Sempre com um grosso volume allemão

debaixo do braço, caminhava horas inteiras no mesmo andar, alheio

ao mundo exterior... Era um homem que sabia tudo. Sua conversação

era inexgottavel, e raro elle mesmo a dirigia. O assumpto lhe era

indifferente, e até o fim, annos seguidos, dia após dia, nunca elle se

encontrou sinão com interlocutores curiosos de ouvil-o sobre os pontos

que mais lhes interessavam. Era litteralmente como um diccionario que

a cada instante alguem manuseasse, ou uma encyclopedia que um abrisse

no artigo Babylonia, logo outros nos artigos Invasão dos Barbaros, Adam

Smith, Luthero, Hieroglyphos, Logarithmos, Amazonas, Architectura

Gothica, Liberdade de Testar, Raizes Gregas, Papel-Moeda, Culturas

Tropicaes, Alberto Dürer, _Divina Comedia_, ao acaso. Era sómente

ferir a tecla, pôr a pergunta no apparelho, e esperar o desenrolar da

resposta, como a que daria o Lexicon de Meyer, ou a Historia Universal

de Cesar Cantu. Elle fallava de um modo uniforme, sem emphase, sem

colorido, sem expressão mesmo, mas era um jorrar sem fim de sciencia,

de erudição, como si n’aquelle mesmo dia tivesse estado a estudar o

assumpto. Nada mais differente da ostentação frivola de sciencia com

que tanta gente se apraz em deslumbrar o ouvinte que lhe offerece

inadvertidamente um assumpto ao seu alcance, do que essas dissertações

scientificas, _up to date_, a que Tautphœus se entregava perante os

seus discipulos, que todos o ficavam sendo, para sempre, jornalistas,

professores, ministros de Estado que fossem...

* * * * *

A abundancia de idéas geraes, de pontos de vista suggestivos, de

materia para reflexão em sua conversa, era notavel. Póde-se dizer que

esse homem que não escreveu nunca, pelo menos no Brasil, publicou

maior numero de ensaios, de theses historicas e outras, do que todos

os nossos escriptores juntos: unicamente suas continuas edições

tiradas a pequeno numero de exemplares dissipavam-se como a palavra,

quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava

isto? Elle era destituido de ambição. Esse respeitador por systema da

ordem hierarchica e da pragmatica social, que nunca levou a mal que os

poderes de um dia se considerassem seus superiores, que os afidalgados

da vespera olhassem com desdem para o seu titulo hereditario,

vendo-o mestre de meninos, era um sabio da Grecia, praticando com o

espirito e a inteireza pagã a philosophia do Ecclesiaste: _Vanitas

vanitatum_... Desde muito cedo elle adquiriu a esse respeito a perfeita

immunidade. Tendo que ganhar a vida em paiz estrangeiro por meio de

lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe dos velhos preconceitos

aristocraticos de seu paiz, das aspirações á elegancia, á vida de

prazer, ostentação, e successos mundanos da sua mocidade em Pariz,

entrou no papel que lhe fôra distribuido com a mesma simplicidade como

si o recebesse por herança... em uma palavra, sem resentimento, sem

queixa, sem murmurio. Bebeu a agua da Carioca com o mesmo espirito de

conformação com que teria bebido a agua do Lethes... Esqueceu-se de si

mesmo para entrar em seu novo destino... Mas tambem desde logo como

elle penetrou os mais intimos refolhos e singularidades do paiz que

devia ser sua segunda patria, e que elle amou como tal! Sua posição

era involuntariamente considerada subalterna ainda pelos mais capazes

de comprehender,--o que não é o mesmo que sentir,--a profissão do

creador intellectual como essencialmente nobre. Elle, porém, movia-se

indifferente no meio da arlequinada social, sabendo bem que no mundo,

ninguem o disse melhor do que Calderon, _todos sonham o que são_.

Mas que profundeza no sentir! Si todo o mundo estava fóra do seu

logar,--elle não pretendia isso, pelo contrario, pensava que a

distribuição era justa, que as posições e responsabilidades eram dadas

aos melhores, sómente estes não faziam o melhor, não procuravam dar o

mais que podiam,--quando todo o mundo estivesse, elle ao menos queria

estar no seu... Conservador e catholico, conheci-o muito abalado

com o _Kulturkampf_, por sua idéa allemã de que o maior politico do

mundo,--para elle Bismark certamente o era,--não podia ser atraiçoado

n’aquella questão ao mesmo tempo pelo seu faro nacional e pelo seu

instincto conservador. O seu conservatismo entranhado era tambem parte

da sua philosophia, por isso elle tinha pelas nossas instituições

um sentimento de que nós mesmos eramos incapazes: o de veneração

idealista. D’esse simples funccionario do Estado, que não tinha de seu

sinão seu modesto ordenado de cada dia, e além d’isso, estrangeiro

de origem, partiu talvez o unico grito de: _Viva a Constituição do

Imperio!_ que se ouviu, si alguem o ouviu,--tão fraca era já a voz,--em

15 de Novembro ao desfilar das tropas do general Deodoro pela rua do

Ouvidor. Talvez alguem olhando para o velho que fazia sem medo tal

protesto, pensasse que era um protegido do Imperador allucinado pela

catastrophe que o tragaria tambem. Não o era porém; favores, elle

os não devia, nem gratidão; tudo o que tivera, fôra em concurso, do

qual os competidores desistiam, louvando-se em sua fama... Não era

um despeitado, era um philosopho, era o homem que melhor estudára a

psychologia do nosso paiz e que mais se conformára a ella até áquelle

acto, que lhe pareceu nacionalmente fatidico, como para os Judeus o

partir-se ao meio do véo do templo...

Um traço d’essa sua penetração já assignalei uma vez, lembrando que

foi elle quem me fez notar que o nosso interesse pelas coisas publicas

é tanto menor quanto o assumpto mais de perto nos concerne. É assim,

dizia-me elle, que os negocios do municipio nos interessarão sempre _a

todos_ menos que os da provincia, os da provincia menos que a politica

geral. Para mostrar quanto era precario o nosso _self-governement_,

não bastava essa indifferença que cresce na razão directa do interesse

que deviamos sentir? Outra observação d’elle que revela a promptidão

do seu espirito, foi a nossa conversa sobre a impermeabilidade ingleza

a idéas e concepções alheias. Eu dava a lentidão dos inglezes em

apanhar e comprehender o ponto de vista, a novidade estrangeira, como

um signal talvez de menor vivacidade intellectual do que a dos povos

continentaes: «Pelo contrario, observou-me elle, as palavras serão

minhas, a idéa é d’elle, essa repugnancia ao que vem de fóra do paiz,

essa suspeita contra o que não é conforme ao instincto da raça, prova

antes a originalidade della, a força de sua propria productividade,

o orgulho das suas creações nacionaes... Essa resistencia foi que

permittiu á Inglaterra dar ao mundo um Shakespeare.» Foi essa

reflexão talvez que me levou a pensar que o cosmopolitismo, na

esphera da concepção intellectual, não é um elemento creador, nem uma

superioridade invejavel: pelo contrario, a difficuldade de assimilar,

de sentir o que não tem affinidades com a nossa propria producção,

é antes uma virtude do que um defeito; a permeabilidade prejudica a

solidez e conservação das qualidades proprias, isto é, da propria

natureza.

Si eu tivesse que precisar o que devo a Tautphœus, assignalaria, entre

tantos outros trabalhos de lapidação que acredito serem d’elle, duas

acquisições, a que em certo sentido, se poderiam chamar transformações

intimas. A primeira, sem que aliás a suggestão partisse d’elle, nem

mesmo que elle tivesse consciencia d’este ponto de vista meu,--quem

sabe si elle o não combateria?--é que deante delle, pensando nelle, me

habituei a considerar o juizo do historiador como o juizo definitivo,

o que importa, final, e por isso aquelle a que se deve _desde logo_

visar. Não póde haver maior revolução para o espirito do que essa, de

collocar-nos espontaneamente em frente do solitario juiz de bibliotheca

do futuro e não dos juizes sem numero de praça publica do momento

actual. Perante aquelle juiz o nosso nome póde não ser citado, os

testemunhos incompletos pódem ser-nos injustamente favoraveis ou

desfavoraveis, mas a sua opinião é a que conta, é a que vale... O

juizo da multidão que hoje nos eleva ou nos deprime, esse representa

apenas a poeira da estrada. Não é preciso que sejamos actores para

que essa concepção da verdadeira instancia que decide das reputações

nos affecte, por assim dizer, em cada um dos nossos moveis de acção,

estimulos e affinidades moraes: o effeito é o mesmo sobre o espectador,

o curioso, o transeunte, o indifferente. É, em menor escala, está

visto,--porque esta é a maior de todas as possiveis differenças nos

motivos de inspiração e de conducta,--como a mudança da concepção

pagã, que o importante é a vida, para a concepção christã, que é a

eternidade. Feita a reducção das aspirações da propria alma para as da

intelligencia ou do espirito, a metamorphose é tambem profunda entre

viver, ou vêr viver, tendo-se em vista os contemporaneos e tendo-se

em vista a posteridade. Tratando-se da posteridade, está claro que

é sempre preciso imaginar o espaço de algumas gerações, dar toda a

margem ao esquecimento... No momento actual são milhares, milhões

que julgam; pouco a pouco o tribunal se vae reduzindo, até que os

grandes personagens vêm a depender da sentença de um juiz singular, um

Mommsen, um Ranke, um Curtius, um Macaulay, encerrado em sua livraria,

procurando animar-se para com elles de uma paixão retrospectiva, toda

ella puro enthusiasmo, illusão de auctor, na qual não figura nenhum dos

sentimentos, um unico siquer, nem das paixões verdadeiras que elles

inspiraram...

Outra transição que lhe devi... Como hei de explical-o que se entenda

sómente a nuança, e não mais? porque quero crer que os germens se

desenvolveriam por si mesmos, mas sinto que o seu influxo benefico

penetrou até o terreno onde elles se estavam talvez formando sem eu o

sentir...

Nós tinhamos nos ultimos tempos da vida de Tautphœus uma pequena

solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castello, em um

remanso daquellas encantadoras paragens. Era uma antiga casa terrea

a que um dos proprietarios, um inglez, juntára uma varanda em roda

e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde

subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e

pittoresco de residencia estrangeira. A frente deitava para o mar, e a

parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro.

A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era

tomado por um grande taboleiro de gramma, cuidadosamente tratado, como

em um parque. A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os

naturaes do paiz, mas de uma variedade quasi infinita para o pintor, o

photographo, o naturalista estrangeiro. Para mim ella tinha a seducção

especial de ser uma paizagem do Norte do Brazil desenhada na bahia

do Rio. Emquanto por toda parte á entrada do Rio de Janeiro o que se

vê são granitos escuros cobertos de florestas continuas guardando a

costa, em Paquetá o quadro é outro: são praias de coqueiros, campos

de cajueiros, e á beira-mar as hastes flexiveis das cannas selvagens

alternando com as velhas mangueiras e os tamarindos solitarios. Ao

lado, entretanto, d’essas miniaturas do Norte encontram-se na ilha

a cada canto do mar rochas revestidas com a mesma caracteristica

vegetação fluminense.

Tautphœus fôra sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que

chegára ao Brasil tinha sido um explorador de suas bellezas. A

madrugada, a alta noite, a distancia não eram impedimento para elle,

tratando-se de um nascer de sol, um effeito de luar, um fio de agua

descendo pela pedra, um jequitibá escondido na matta virgem. Toda a

vida elle vivera n’esse colloquio intimo de namorado com a luz e a

terra do Brasil; um raio de sol illuminando o Corcovado ou o Pão de

Assucar, era uma saudação mysteriosa do poder creador a que elle sempre

respondia... Ao vêl-o sentado, a escutar os passaros na matta ao lado,

eu associava insensivelmente o mestre com as minhas primeiras lições

de inglez e lembrava-me do vizir do sultão Mahmud. Os arredores do Rio

de Janeiro especialmente o seduziam. Elle era de todos os passeios a

que o convidassem para qualquer dos pontos pittorescos, que ahi são sem

numero. Passar a tarde sob o arvoredo secular que se encontra em tantas

das ilhas, observando o glorioso colorido das montanhas ao pôr do

sol, era uma verdadeira volupia para elle. A nossa vivenda de Paquetá

agradava-lhe por lhe dar, com o silencio e isolamento que cercava a

bibliotheca, a escolha, á vontade, do mar, do campo e da montanha: as

praias extensas, a floresta accessivel, a planicie atapetada, si lhe

agradava passear; a agua serena, o mar fechado á vista, como um lago

suisso, si queria tomar o nosso barco e mandar o Mudo, o nosso saudoso

remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em

um extremo os Orgãos de Theresopolis, e no outro a serrania da cidade

... Elle vinha sempre aos sabbados e ficava o domingo, e ás vezes, nas

curtas férias que tinha, dias seguidos... Era visivelmente a despedida.

Suas faculdades estavam intactas, elle era desses em quem se sente que

o espirito não soffrerá deperecimento, que se apagará de repente no

meio de uma contemplação ou meditação mais intensa e prolongada; mas as

forças physicas estavam em declinio, via-se o cançaço de ter pensado

tanto e o involuntario tributo á duvida: si teria bem aproveitado

o tempo, ou si teria vivido em vão. Elle tomára muito ao serio o

gosto da obscuridade, a modestia, o retrahimento; cortejára de mais

o esquecimento, e via talvez que este estava a ponto de envolvel-o,

excepto em alguns raros espiritos, onde sua lembrança duraria mais

algum tempo, até elles mesmos serem por sua vez envolvidos...

Como foram suaves esses dias finaes que elle nos deu, tão penetrantes,

tão profundamente melancolicos, da melancolia, porém, dos momentos que

quizeramos tornar eternos, ou que outros viessem gozar delles ao nosso

lado para não se esvaecerem de todo, como um meteóro deslumbrante!...

O seu prazer, muitas vezes, era sentar-se em um banco á beira do mar,

do lago, eu devia dizer pela impressão que dava, e d’alli assistir á

tarde, cujas cambiantes no ar, no céo, na agua, nas côres do horizonte,

no murmurio e no silencio da solidão, eram uma gamma de que elle não

perdia a mais insignificante transição... Quantas outras vezes, de dia,

ao passearmos na matta ao lado da casa, quando se ia abrindo caminho

para passarmos, não me pedia elle que não tocasse na natureza, que

respeitasse o intricado, o selvatico, o inesperado, de tudo aquillo,

porque aquella desordem era infinitamente superior ao que a arte

pudesse tentar... Elle achava a mais pobre e arida natureza mais bella

do que os jardins de Sallustio ou de Luiz XIV. Ah! si tem sido elle

o descobridor e possuidor da America, o machado nunca teria entrado

nella... E o tição? Uma queimada era para elle egual a um auto de fé. O

incendio ao lamber essas resinas preciosas, essa seiva, esses suecos de

vida, esse sem numero de desenhos caprichosos de artistas inexcediveis

cada um no seu genero, modelos de côr e de sensibilidade, todos elles

unicos, parecia consumir com uma dôr cruel, vibrante, todas as suas

ligações sensiveis com a natureza e a vida universal, os nervos todos

de sua peripheria intellectual.

Minha formação · 第 15 / 16 段