Eu tinha sempre lastimado a neutralidade do clero perante a escravidão,

o indifferentismo do seu contacto com ella... Para o fim, porém, a

voz dos bispos se fez ouvir em um momento de inspiração. Por occasião

do jubileu sacerdotal de Leão XIII, elles publicaram, quasi todos,

pastoraes convidando os seus diocesanos a offerecer como dadiva ao

Santo Padre cartas de liberdade. Esse appello dos prelados offerecia

uma opportunidade ao partido abolicionista de pedir ao Soberano

Pontifice a sua intervenção em favor dos escravos, e eu resolvi

aproveital-a.

* * * * *

Eu acabára de ser eleito deputado pelo Recife, batendo o ministro do

Imperio, e essa eleição soou como o dobre da resistencia escravista.

Nos poucos dias que restavam da sessão parlamentar de 1887, vim ao

Rio de Janeiro tomar assento na Camara, mas o objecto principal da

minha vinda ao Rio era conseguir, e consegui, o pronunciamento moral

do exercito contra a escravidão, a dissociação absoluta entre a força

publica e as funcções dos antigos capitães de matto. Para occupar as

férias parlamentares hesitei entre essa ida a Roma e uma viagem aos

Estados-Unidos, onde o acolhimento que eu teria por intermedio dos

antigos abolicionistas podia dar grande repercussão á nossa causa em

todo o continente americano. Preferindo ir a Roma, fui levado sobretudo

pela idéa de que uma manifestação do Santo Padre tocaria o sentimento

religioso da Regente.

Era-me, de certo, permittido recorrer ao Papa, como a qualquer outro

oraculo moral que pudesse inspirar a Princeza, fallar-lhe ao ideal e

ao dever. Durante dez annos não visei a outra coisa sinão a captar o

interesse da dynastia, e a accordar o sentimento do paiz. A opinião

publica do mundo parecia-me uma arma legitima de usar em uma questão

que era da humanidade toda e não sómente nossa. Para adquirir aquella

arma fui a Lisbôa, a Madrid, a Pariz, a Londres, a Milão, ia agora a

Roma, e si a escravidão tivesse tardado ainda a desapparecer, teria

ido a Washington, a Nova-York, a Buenos-Aires, a Santiago, a toda

parte onde uma sympathia nova por nossa causa pudesse apparecer,

trazendo-lhe o prestigio da civilisação. Si havia falta de patriotismo

em procurar crear no exterior,--tomado não como poder material, mas

como o reflector moral universal, que é para nós,--uma opinião que nos

chegasse depois espontaneamente com a grande voz da humanidade, não

posso negar que fui um grande culpado... Teria sido o mesmo crime que

o de W.L. Garrison desembarcando na Inglaterra para commovel-a contra

a escravidão nos Estados-Unidos; o mesmo erro que o dos delegados dos

diversos congressos internacionaes anti-esclavagistas. A consciencia,

a sympathia humana é, porém, uma força que nunca é prohibido procurar

chamar a si e pôr ao serviço do seu paiz ou da causa que se defende.

Chegando a Londres em Dezembro, em Janeiro parti para Roma com cartas

do cardeal Manning, que a _Anti-Slavery Society_ e Mr. Lilly, da

União Catholica ingleza, me tinham obtido. Em Roma encontrei um apoio

egualmente util, o do nosso ministro, o sr. Souza Corrêa, antigo

collega e amigo meu. Elle poz-me logo em contacto com o Cardeal

Secretario do Estado, que me acolheu de modo supremamente benevolo.

Roma estava repleta de peregrinos por causa do jubileu, no Vaticano

o trabalho era enorme; apezar d’isso, consegui abrir caminho até o

Santo Padre. Em 16 de Janeiro eu apresentava o meu memorial ao Cardeal

Rampolla. Hoje eu o teria redigido de outro modo, mas hoje não tenho

mais o ardor do propagandista... Aqui estão alguns trechos d’essa

supplica; por elles se verá que o meu appello não era sómente pelos

escravos do Brasil, mas por toda a raça negra, pela Africa, d’onde

pouco tempo depois devia surgir arrebatadamente a grande figura do

cardeal Lavigerie:

«Sem excepção quasi, os bispos brasileiros declararam em pastoraes,

que o modo mais digno e mais nobre de celebrar o anniversario

sacerdotal de Leão XIII era para os possuidores darem liberdade aos

seus escravos e para os outros membros da communhão empregarem em

cartas de alforria os donativos que quizessem offerecer ao Santo Padre.

«O appello moralmente unanime dos nossos prelados não podia deixar

de exercer a maior influencia sobre o movimento abolicionista, que

já arrastava comsigo a opinião, e d’ahi seguiu-se uma manifestação

religiosa e nacional, que pela sua propria grandeza mostra que

a abolição no Brasil não é mais uma divergencia entre partidos

politicos... Pela manumissão de multidões de escravos em nome do Santo

Padre, o seu jubileu ficará sendo a elevação á liberdade de centenas

de novas familias brasileiras.

«De todos os dons postos aos pés de Leão XIII o tributo do Brasil

sob a fórma d’esses libertos christãos, que tomam de longe parte em

sua glorificação universal, é talvez a unica offerta que terá feito

derramar ao Santo Padre lagrimas de reconhecimento.

«Eis ahi, Eminencia Reverendissima, a esplendida occasião que se

offerece ao Soberano Pontifice de interceder, de intervir, de ordenar

em favor dos escravos brasileiros. D’essas cartas de alforria

depositadas deante de seu augusto throno, Leão XIII póde fazer a

semente da emancipação universal. Uma palavra de Sua Santidade aos

senhores catholicos no interesse dos seus escravos, christãos como

elles, não ficaria encerrada nos vastos limites do Brasil, teria a

circumferencia mesma da religião, penetraria como uma mensagem divina

por toda a parte onde a escravidão ainda existe no mundo.

«O Papa acaba de canonisar a Pedro Claver, o Apostolo dos Negros. Na

epocha adeantada da civilisação em que vivemos, ha infelizmente ainda

escravidão bastante no mundo para que Leão XIII possa accrescentar aos

seus outros titulos o de Libertador dos Escravos.

«Alguns dos seus illustres predecessores procederam por vezes contra

a escravidão; tendo esta por unica origem o trafico, está de facto

comprehendida nas bullas que o condemnaram, mas os tempos em que esses

immortaes Pontifices fallaram não são os nossos, a humanidade então

não havia feito esforços para apagar o seu crime de tantos seculos

contra a Africa, cuja raça infeliz parece destinada a soffrer, sob

fórmas diversas do mesmo preconceito, a fatalidade da sua côr. Um

acto de Leão XIII, generoso, ardente, inspirado na espontaneidade de

sua alma, contra a maldição que pesa sobre aquella raça, seria um

beneficio incalculavel.

* * * * *

«Nenhum pensamento politico intervem na supplica que dirijo ao Chefe

do mundo catholico em favor dos mais infelizes dos seus filhos. Não

quero sinão pôr o seu coração de pae em communicação directa com o

d’elles. D’esse contacto da caridade com o martyrio não póde jorrar

sinão a onda de misericordia que eu espero. Por ella o jubileu de Leão

XIII será assignalado como uma data da redempção humana em toda a

parte onde a raça negra se possa julgar a orphã de Deus».

Em 10 de Fevereiro seguinte, Sua Santidade concedia-me uma audiencia

particular. Dei conta d’ella no mesmo dia, escrevendo para o _Paiz_...

D’entre os papeis velhos que formam _as parcellas de minha vida_,

a expressão é de uma carta do Imperador,--outro papel velho que é

para mim uma reliquia,--este ha de ser sempre um dos mais preciosos:

a emoção que elle guarda não poderia ser repetida, e é d’essas que

augmentam á medida que os annos se afastam... Por isso o reproduzo

agora:

«_O Papa e a Escravidão._

«Tive hoje a honra de ser recebido em audiencia particular pelo Papa, e

como essa audiencia me foi concedida com relação ao assumpto politico

que me fez vir a Roma, não devo demorar a reconstrução da conversa

que tive com Sua Santidade e que eu trouxe do Vaticano tachygraphada,

photographada na memoria. Foi uma insigne benevolencia de Sua Santidade

conceder-me tal audiencia em um tempo em que cada um dos seus momentos

está de antemão empenhado aos bispos, arcebispos, e catholicos

proeminentes, que lhe vêm trazer algum dom por occasião de seu jubileu.

«O Papa está constantemente a receber numerosas deputações influentes

de todas as partes do mundo e dirige-se sempre a ellas com uma

allocução animada. Esse accrescimo de trabalho ás suas constantes

occupações de cada dia não deixa muito tempo de descanço ao Santo

Padre, sobre quem os seus 78 annos, juntos á majestade da tiara,

começam a pesar; no emtanto é nessas horas de repouso que Sua Santidade

recebe individualmente os homens notaveis do mundo catholico e conversa

com elles largamente sobre o assumpto pelo qual cada um se interessa.

«Eu, porém, era um desconhecido e não vinha trazer nada ao Papa, vinha

só pedir-lhe; nenhum serviço tinha prestado nunca á Egreja, e a questão

que me occupava, exigia que Sua Santidade lesse antes uma série de

documentos e fizesse alguma meditação sobre a grave resposta que me ia

dar. Isto era um esforço, e, nas circumstancias especiaes do jubileu,

a attenção a mim prestada pela mais alta de todas as individualidades

humanas é um acto a que ligo ainda maior apreço e reconhecimento por

saber que na minha humilde pessôa foi aos escravos do Brasil que Leão

XIII quiz acolher paternalmente e fazel-os chegar até ao seu augusto

throno, como, symbolicamente, o mais elevado de todos os logares de

refugio.

«O Papa recebe em audiencia particular, sem testemunha alguma. Ninguém

está na sala sinão elle e a pessôa a quem a audiencia é concedida. Em

uma sala contigua está um secretario e um official da guarda, mas uma

vez introduzido no pequeno salão, o visitante acha-se a portas fechadas

em presença sómente de Leão XIII. O Papa, que lia um livro de versos

latinos quando fui annunciado, mandou que me assentasse numa cadeira ao

lado da sua e perguntou-me em que lingua devia fallar-me. Eu preferi o

francez.

«A impressão que senti todo o tempo da audiencia, que não durou menos

de tres quartos de hora, não se parece com a sensação causada pela

presença de um dos grandes soberanos do mundo. O throno brasileiro

é uma excepção. Nunca no Brasil houve homem tão accessivel como o

Imperador, nem casa tão aberta como S. Christovão. Mas os monarchas

em geral são educados e crescem, porque a sua condição é superior

á do resto dos homens, na crença de que são _melhores_ do que a

humanidade. A todas as vantagens do Papado como instituição monarchica,

notavelmente a electividade, é preciso accrescentar essa superioridade

do Papa sobre os outros soberanos, que estes nascem, vivem e morrem

no throno, e que os Papas só chegam á realeza nos ultimos annos da

vida, isto é, que vivem toda a vida como homens e no throno não fazem

quasi sinão coroar a sua carreira. Esse caracter _humano_ da realeza

pontificia é a condição principal de seu prestigio, assim como a

electividade é a condição da sua duração illimitada e o espirito

religioso a da sua selecção moral. Eu diria mesmo que a sós com o Papa

a impressão é antes a do confessionario que a dos degráus do throno, si

ao mesmo tempo não houvesse na franqueza e na reserva de Sua Santidade

alguma coisa que exclue desde o principio a idéa de que alli esteja o

confessor interessado em descobrir o fundo da alma do seu interlocutor.

A impressão dominante é, entretanto, de confiança absoluta, como si,

entre aquellas quatro paredes, tudo o que se pudesse dizer ao Summo

Pontifice tomasse caracter de uma conversa intima com Deus, de quem

estivesse alli o interprete e o medianeiro.

«As palavras que cahiram dos labios do Santo Padre, gravaram-se-me

na memoria, e não creio que se apaguem mais, nem creio que eu deixe

de ouvir a voz e o tom firme com que foram ditas. O Papa começou

notando que elle me havia demorado muito tempo em Roma, mas que eram

numerosos os seus deveres nesse momento, ao que respondi que o meu

tempo não podia ser melhor empregado do que em esperar a palavra de Sua

Santidade.--«Eu ia aos Estados-Unidos, disse eu a Leão XIII, onde está

a maior parte da raça negra da America; mas quando os nossos bispos

começaram a fallar com deliberação e de commum accordo a proposito do

jubileu de Vossa Santidade e a pedir a emancipação dos escravos como o

melhor e mais alto modo de o solemnisar no Brasil, pensei que devia

antes de tudo vir a Roma pedir a Vossa Santidade que completasse a

obra daquelles prelados, condemnando, em nome da Egreja, a escravidão.

Conseguindo isto de Vossa Santidade, nós, abolicionistas, teriamos

conseguido um ponto de apoio na consciencia catholica do paiz, que

seria da maior vantagem para a realisação completa da nossa esperança.»

«Sua Santidade respondeu-me:--_Ce que vous avez à cœur, l’Eglise aussi

l’a à cœur._ A escravidão está condemnada pela Egreja e já devia

ha muito tempo ter acabado. O homem não póde ser escravo do homem.

Todos são egualmente filhos de Deus, _des enfants de Dieu_. Senti-me

vivamente tocado pela acção dos bispos, que approvo completamente, por

terem de accordo com os catholicos do Brasil escolhido o meu jubileu

sacerdotal para essa grande iniciativa... É preciso agora aproveitar

a iniciativa dos bispos para apressar a emancipação. Vou fallar nesse

sentido. Si a encyclica apparecerá no mez que vem ou depois de Paschoa,

não posso ainda dizer...

«--O que nós quizeramos, observei, era que Vossa Santidade fallasse de

modo que a sua voz chegasse ao Brasil antes da abertura do Parlamento,

que tem logar em Maio. A palavra de Vossa Santidade exerceria a maior

influencia no animo do governo e da pequena parte do paiz que não

quer ainda acompanhar o movimento nacional. Nós esperamos que Vossa

Santidade diga uma palavra que prenda a consciencia de todos os

verdadeiros catholicos.

«--_Ce mot je le dirai, vous pouvez en être sûr_, respondeu-me o

Papa, _e quando o Papa tiver fallado, todos os catholicos terão que

obedecer_.»

«Estas ultimas palavras o Papa m’as repetiu duas ou tres vezes,

sempre na forma impessoal; não:--_quando eu tiver fallado_, mas

sempre:--_quando o Papa tiver fallado_.

«Acredito ter sido absolutamente leal para com os meus adversarios

na exposição que fiz em seguida á Sua Santidade da marcha da questão

abolicionista no Brasil. O Papa fez-me diversas perguntas, a cada uma

das quaes respondi com a completa lealdade que devia primeiro ao Papa,

e depois aos meus compatriotas. Descrevi o movimento abolicionista no

Brasil, como tendo-se tornado proeminentemente um movimento da propria

classe dos proprietarios, e dei, como devia, e é justo, aos operarios

desinteressados da ultima hora a maior parte na solução definitiva do

problema, que sem a sua generosidade seria insoluvel.

«Referi-me á brilhante acção do Sr. Prado e ao effeito moral do nobre

pronunciamento do Sr. Moreira de Barros como factos do maior alcance.

Expuz como não havia na historia do mundo exemplo de humanidade de

uma grande classe egual á desistencia feita pelos senhores brasileiros

dos seus titulos de propriedade escrava. Disse que essa era a prova

real de que a escravidão no Brasil tinha sido sempre uma instituição

_estrangeira_, alheia ao espirito nacional, o que é ainda confirmado,

(isto não disse ao Papa), pelo facto de que os estrangeiros no Brasil

foram, e são ainda hoje, de toda a communhão, os que menos sympathia

mostraram ao movimento libertador. Quanto á Familia Imperial, repeti ao

Summo Pontifice que o que ha feito em nossa lei a favor dos escravos,

é devido á iniciativa e imposição do Imperador, ainda que seja pouco.

«--Uma dynastia, accrescentei, tem interesses materiaes que dependem

do apoio de todas as classes e não póde affrontar a má vontade de

nenhuma, muito menos da mais poderosa de todas. O Papado, porém, não

depende de nenhuma classe, por isso colloca-se no ponto de vista da

moral absoluta, que nenhuma dynastia póde tomar sem destruir-se».

Fallando do actual Presidente do Conselho, disse a Sua Santidade

que elle era um homem a quem a Egreja no Brasil devia muito por ter

sido elle o principal auctor da amnistia, que poz termo ao conflicto

de 1873, mas que, nessa questão, não tinhamos motivo para suppôr

que elle quizesse ir além da lei actual, o que era positivamente

contrario ao desejo unanime da nação.--«Eu, porém, accrescentei, não

peço a Vossa Santidade um acto politico, ainda que as consequencias

politicas que a nação ha de sem duvida tirar do acto que imploro,

sejam incontestaveis. Felizmente, Vossa Santidade está em uma posição

donde não vê os partidos, mas só os principios. O que nós queremos é

um mandamento moral, é a lição da Egreja sobre a liberdade do homem.

Não ha governo no mundo que possa ter a pretenção de que o Papa, ao

estabelecer um principio de moral universal, pare para considerar

si esse principio está de accordo ou em conflicto com os interesses

politicos d’esse governo. Agora mesmo um sacerdote brasileiro foi preso

por acoitar escravos. Nós, abolicionistas, por toda parte acoitamos

escravos. Fazemos o que faziam os bispos da média edade com os servos.

O sentimento da nação, isto posso affirmar a Vossa Santidade, é

_unanime_, e a palavra do chefe da Egreja não encontraria ninguem para

disputal-a.»

«O Papa então repetiu-me que a sua encyclica abundaria nos sentimentos

do Evangelho, que a causa era tão sua como nossa, e que o governo

mesmo veria que era de boa politica reconhecer a liberdade a que todo

o filho de Deus tem direito pelo seu proprio nascimento, e que o Papa

fallaria ao mesmo tempo que da liberdade, da necessidade de educar

religiosamente essa massa de infelizes, privados até hoje de instrucção

moral.

«O cardeal Czacki me tinha fallado egualmente no dever de dar

educação moral aos libertos, e n’esse sentido parece que na America

do Norte e nas Antilhas o catholicismo vae tentar um grande esforço.

Sympathisando com o principio da nossa propaganda abolicionista e

pondo em relevo a responsabilidade que nós, abolicionistas, haviamos

contrahido, o cardeal Czacki poz o dedo no que é a ferida da raça

negra, ainda mais degradada talvez do que opprimida, e, do ponto de

vista catholico, me disse que não havia outro meio para fazer d’esses

escravos de hontem homens moralisados, sinão espalhar largamente

entre elles a educação religiosa que não tiveram nunca. Como respondi

ao cardeal, assim respondi ao Papa. «--Antes de começar o movimento

abolicionista em 1879, disse eu ao Summo Pontifice, o partido liberal

a que pertenço, em consequencia da lucta com os bispos em 1873,

lucta sobre a qual os conservadores haviam pronunciado a amnistia,

achava-se principalmente voltado para medidas de secularisação dos

actos da vida civil, quasi todos ainda confiados entre nós á Egreja.

Com essas medidas desenvolveu-se mesmo um estado de guerra entre o

liberalismo e a Egreja. Desde que começou o movimento abolicionista,

entretanto, morreram todas as outras questões, e litteralmente ha

nove annos não se tem tratado de outra coisa no paiz. Estabeleceu-se

então uma verdadeira _tregua de Deus_ entre homens de todos os modos

de sentir e pensar a respeito das outras questões. O primeiro que

na Camara elevou a voz para pedir a abolição immediata, o deputado

Jeronymo Sodré, é um catholico proeminente. O co-proprietario do

jornal abolicionista de Pernambuco, que sustenta a minha politica, é o

presidente de uma sociedade catholica, o Sr. Gomes de Mattos. Os bispos

e os abolicionistas trabalham agora de commum accordo. Essa tregua tem

durado até hoje sem perturbação, e espero que dure por muito tempo

ainda. Abolida a escravidão, resta proteger o escravo livre. Nesse

campo nada em nossas leis impede que a Egreja entre em concurrencia

para obter a clientela da raça que tiver ajudado a resgastar. Não

seremos nós, abolicionistas, que havemos de impedir a approximação

entre os novos cidadãos e a unica religião capaz de os conquistar para

a civilisação. As vistas do paiz voltar-se-ão para as outras questões

do melhoramento da condição do povo, da creação da vida local, em que

póde e deve continuar a tregua, ou melhor, a alliança. Si a Egreja

conseguir recommendar-se ao reconhecimento da raça escrava, concorrendo

para o seu resgate, os abolicionistas por certo não lhes hão de

aconselhar a ingratidão.»

«O Papa ouviu-me todo o tempo com a maior sympathia e justificou-me

de ter pedido mais do que o cardeal Manning julgára razoavel que eu

pedisse. Sua Eminencia, cora effeito, aconselhou-me a pedir ao Papa

a repromulgação das Bullas de alguns dos seus antecessores e eu pedi

um acto _pessoal_ de Leão XIII.--«As circumstancias mudam, disse-me

o Papa, os tempos não são os mesmos; quando essas Bullas foram

publicadas, a escravidão era forte no mundo, hoje ella está felizmente

acabada.»

«--O acto de Vossa Santidade, disse-lhe eu, terminando, será uma pagina

da historia da civilisação christã que illustrará o seu pontificado...

Sua encyclica levantar-se-á tão alto aos olhos do mundo, dominando

o movimento da abolição como a cupula de S. Pedro sobre a Campanha

Romana.»

«Ahi está mais ou menos reproduzida a longa audiencia particular que

Leão XIII me fez a excelsa honra de conceder-me, e que Sua Santidade

terminou com uma benção especial para a causa dos escravos. Eu antes

havia enviado ao sub-secretario de Estado, monsenhor Mocenni, a recente

pastoral do bispo do Rio, sentindo não ter podido encontrar os numeros

do _Paiz_ em que appareceram as dos outros prelados. Assim mesmo tive

a fortuna de achar em retalho as pastoraes dos bispos de Marianna, do

Rio Grande do Sul e do arcebispo da Bahia, que todas foram enviadas

ao cardeal Rampolla. A admiravel carta do bispo de Diamantina, á qual

especialmente me referi, quando fallei ao Papa, não a pude encontrar.

Com a encyclica promettida e já annunciada por toda a Europa, essas

pastoraes formariam um bello livro de fraternidade humana.

«A demora que tive em Roma impede-me de voltar pelos Estados-Unidos,

porque não teria mais tempo de preencher qualquer dos fins com que

ia á grande Republica. Mas estou satisfeito, contente. A palavra do

Papa terá para todos os catholicos maior influencia do que poderia ter

qualquer outra manifestação em favor dos escravos. Nenhuma consciencia

recusará ao chefe da religião o direito de pronunciar-se sobre um

facto como a escravidão, que estabelece um vinculo entre o senhor e

o escravo, equivalente a entrelaçar-lhes para sempre as almas e as

responsabilidades. Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a

minima vacillação, a mais leve preoccupação de torcer o ensinamento

moral para adaptal-o ás circumstancias politicas. Vi tão sómente a

consciencia moral brilhando, como um pharol, com uma luz indifferente

aos naufragios dos que não se guiarem por ella.

«_Roma, 10 de Fevereiro de 1888._»

* * * * *

Como o cardeal Czaki tinha tido razão de dizer que eu ia levar ao Papa

um verdadeiro _bon-bon!_... Infelizmente, a diplomacia envolveu-se na

questão, o ministerio conservador alarmou-se com a intenção manifestada

pelo Papa, e conseguiu demorar a _Encyclica_... A curta demora foi

bastante para ella só apparecer depois de abolida a escravidão no

Brasil... Entre a queda de Cotegipe e a abolição o espaço foi tão

pequeno que a bella obra de Leão XIII só veiu a ser publicada quando

não havia mais escravos no Brasil. A benção, porém, do Santo Padre á

nossa causa, a palavra que elle ia proferir, essas desde os fins de

Fevereiro, ainda sob o gabinete Cotegipe, o paiz as conheceu pelas

minhas revelações... A surpreza da emancipação total foi tão agradavel

a Leão XIII que, como _post-scriptum_ á sua carta lapidaria sobre a

escravidão, elle mandou á Princeza Imperial a Rosa de Ouro.

Minha formação · 第 14 / 16 段