O seu amor pela nossa natureza foi muito grande. Quantas vezes

introduzi em nossas conversas a idéa de uma viagem á Europa para vêr

si despertava n’elle affinidades esquecidas, recordações latentes.

Toda essa parte européa, porém, estava morta, atrophiada; em vez della

o que havia, esta, vivaz e peregrina, era uma sensibilidade nova, a

americana, a brasileira... Era um eterno encantado da nossa terra.

Ella lhe dizia o que a nós não diz, e que talvez seja preciso ter

tido e renunciado por ella uma primeira encarnação, um outro mundo,

para se poder sentir. Si nós brasileiros pudessemos ter aquelle amor!

Esse perenne embevecimento de Tautphœus foi uma das influencias que

desenvolveram em mim o gosto, o encanto, ainda que de minha parte

puramente sentimental e ingenuo, que o contacto de nosso paiz tem

hoje para mim... Em Tautphœus aquelle amor era differente: era fino,

espiritual, intellectual, esthetico:... em mim será uma simples

affinidade do coração, uma ternura, uma saudade da vida, mas esta

affinidade deverá muito ao espectaculo do carinhoso devaneio d’aquelle

sabio, d’aquelle grego antigo, d’aquelle philosopho nascido e formado

em outros climas, perante a amenidade, a doçura dos tropicos, o

pittoresco da nossa moldura agreste, os toques de mutação de nossa

scenographia natural, a modulação, o colorido, a solidão intima de

nossa paizagem.

No tempo da minha vangloria litteraria duas cousas me feriam nelle:

que com toda sua sciencia elle não escrevesse nada e que pudesse ser

tão submissamente catholico. Agora em nossos passeios pela floresta,

em nossas «soirées» á beira da minha pequena enseada, dourada pelo

luar, era sobre a religião que versavam nossas conversas... Oh! que

admiraveis monologos os delle! A ultima vez que atravessou o nosso

_mare clausum_ voltou para casa para morrer. O vestigio do seu

pensamento ficou por muito tempo commigo, e ainda por vezes lhe sinto

a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com elle que comprehendi

por fim que um grande espirito podia ficar á vontade, livre, em um

religião revelada, do mesmo modo que foi graças a elle que comprehendi

que os escriptores não formam por si sós a _élite_ dos pensadores, que

ha ao lado delles, talvez acima, uma especie de Trappa intellectual

votada ao silencio, e onde se refugiam os que experimentam o desdem

da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal

disfarçado, de seu modo frivolo, de sua apropriação do bem alheio, de

sua falta de sinceridade interior. O horror da scena, hoje do mercado,

não póde ser um signal de inferioridade intellectual.

O resumo da impressão que eu guardo delle está feito por Goethe

conversando com Eckermann sobre Alexandre de Humboldt: «Que homem elle

é! Ha tanto tempo, tanto, que o conheço, e elle é sempre novo para mim.

Póde-se dizer que não tem egual, nem em sciencia, nem em experiência.

Além d’isso, ha uma variedade de aspectos nelle como não encontrei

em ninguem. Qualquer que seja o assumpto de conversa que se procure,

está sempre no seu proprio terreno e despeja sobre nós thesouros de

informações. É como uma fonte de varias bicas, sob as quaes basta

collocar um cantaro para logo o encher, e donde estão sempre a correr

jorros de agua fresca inexgottavel. Elle passará aqui alguns dias, e já

me parece que ha de ser para mim como si tivesse vivido muitos annos.»

Ouvil-o, vêl-o, viver com elle, era litteralmente esquecer o presente

e reunir-se á comitiva de Sócrates... Elle era uma d’essas copias, que

nem por serem copias, nem por se reproduzirem seguidamente de epocha em

epocha entre differentes nações, deixam de conservar a superioridade, a

primazia do original, o mais nobre dos modelos humanos.

XXVI

OS ULTIMOS DEZ ANNOS (1889-1899)

A queda do Imperio puzera fim á minha carreira... A causa monarchica

devia ser o meu ultimo contacto com a politica... De 1889 a 1890 estou

todo sob a impressão do 15 de Novembro seguindo-se ao 13 de Maio;

escrevo então os meus soliloquios em uma Thebaida onde podia andar

centenas de milhas sem deparar com o refugio de outro praticante...

Em 1891 minha maior impressão é a morte do Imperador. De 1892 a 1893

ha um intervallo: a religião afasta tudo mais, é o periodo da volta

mysteriosa, indefinivel da fé, para mim verdadeira pomba do diluvio

universal, trazendo o ramo da vida renascente... De 1893 a 1895 soffro

o abalo da Revolta, da morte de Saldanha, de que sáem meus dois livros

_Balmaceda_ e a _Intervenção_... Desde 1893, porém, o assumpto que

devia ser a grande devoção litteraria da minha vida, a _Vida_ de meu

pae, tinha-se já apossado de mim e devia seguidamente durante seis

annos occupar-me até absorver-me...

Como escrevi algumas paginas atraz, o meu espirito adquirira em tudo

a aspiração da fórma e do repouso definitivo. A nossa dynastia tivera

em 15 de Novembro o que chamei uma assumpção: vivêra e acabára como

uma encarnação nacional. O condão deixado pela fada no berço da nossa

nacionalidade foi quebrado e lançado fóra; quem nos diz que o desfecho

não estava previsto por ella? A Independencia, a Unidade nacional, a

Abolição: nenhuma dynastia jamais insculpiu na sua pyramide um tão

perfeito _cartouche_... Quando eu pensava no papel representado pela

casa reinante brasileira, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Dona Isabel, e

nas condições de unanimidade, espontaneidade, e finalidade nacional

necessarias para ella o poder de novo desempenhar de accordo com a sua

lenda, o problema excedia a minha imaginação, e parecia-me um attentado

contra a historia querer-se accrescentar, a não ser por mão de mestre,

de uma segurança, de uma delicadeza, de uma felicidade a toda prova, um

novo painel áquelle triptyco...

Por outro lado, durante os annos que trabalhei na _Vida_ de meu pae a

minha attitude foi insensivelmente sendo affectada pelo espirito das

antigas gerações que crearam e fundaram o regimen liberal que a nossa

deixou destruir... O que eu respirava n’aquella vasta documentação, não

era um espirito monarchico inconciliavel, bastando como uma religião,

como uma bemaventurança, aos que por ella se destacavam do mundo... A

monarchia para aquellas epochas de architectos, pedreiros e esculptores

politicos incomparaveis, era uma bella e pura fórma, mas que não podia

existir por si só; o interesse, o amor, o zelo, o fervor patriotico

delles dirigia-se á substancia nacional, o paiz; sua vassallagem ao

principio monarchico era apenas um preito rendido á primeira das

conveniencias sociaes... Para taes homens, verdadeiramente fundadores,

um terremoto poderia subverter as instituções, mas o Brasil existiria

sempre, e á sua voz seria forçoso acudir, qualquer que fosse o vendaval

em torno, e quanto mais ferido, mais mutilado, mais exhausto, maior o

dever de o não abandonar... Elles não estabeleceriam nunca o dilemma

entre a monarchia e a patria, porque a patria não podia ter rival.

A impressão d’esses sentimentos varonis, d’essa antiga lealdade, foi

grande em mim e á medida que eu a ia respirando, o desejo augmentava

de não deixar pelo menos o meu tumulo murado do lado do futuro...

Comprehendo a carta de Berryer moribundo a Henrique V, como comprehendo

a carta do conde de Chambord sobre a bandeira branca; a monarchia

franceza gerára uma cavallaria, um ponto de honra aristocratico,

um espirito de classe á parte, e mesmo assim era como o proprio

Berryer, como Chateaubriand, como o duque de Aumale,--«_La France

était toujours là!_»--que os nossos antigos homens de Estado desde os

tempos coloniaes, e o Imperador lhes reflectia o sentimento patriotico

absoluto, collocavam a patria fóra de competição com qualquer outra

idéa ou sentimento... Eu, porém, não tinha uma parcella de legitimismo,

de direito divino; minha caracterisação, o accento tonico, era outra:

_liberal_, não no sentido passageiro, politico, da expressão, mas no

seu sentido humano, eterno, e como liberal a aspiração synthetica de

minha vida tinha que ser a de não me dissociar, qualquer que fosse sua

fórma de governo, dos destinos do meu paiz.

Assim, mesmo como monarchista, me fui pouco a pouco distanciando da

politica. Meu espirito crystallisára sob faces que o fariam sempre

rejeitar como anti-politico... Que podia eu mais tentar sósinho, por

mim mesmo? Em 1879 eu me alistára para uma campanha que suppunha havia

de durar além de minha vida; fiz assim, posso dizer, voto perpetuo de

servir uma grande causa nacional: o que devia durar mais de trinta

annos, durou sómente nove, mas nem por isso economisei forças,

iniciativa, imaginação para outros emprehendimentos... A abolição, além

d’isso, pelo seu sopro universal, isolára-me dos partidos, afastára-me

da sua esphera contencisa; por habito eu agora aspirava a viver em

regiões de ar mais dilatado, onde se respirasse a unanimidade moral, a

fé, o optimismo humano, o oxygeneo das grandes correntes de ideal...

De mais, eu me convenci de que os partidos, os homens, as instituções

rivaes em uma mesma sociedade hão de ter o mesmo nivel, como liquidos

em vasos que se communicam; de que o pessoal politico é um só, os

idealistas, os _ultra_, de cada lado sendo imperceptiveis minorias;

por ultimo, de minha inaptidão para lidar com o elemento pessoal, de

que dependem em politica quasi todos os resultados... Era-me de todo

imposivel encontrar de novo em mim o impulso, o movimento, o impeto

das nossas antigas cargas da abolição... Luctas de partidos, meetings

populares, sessões agitadas da Camara, tiradas de oratoria, tudo isso

me parecia pertencer á edade da cavallaria... Agora o menor problema

politico causava-me uma timidez invencivel, tornava-se nacional,

internacional, e todos convertiam-se em casos de consciencia. Uma

serie de reflexões, que tomavam a fórma de maximas politicas, eram

outros tantos avisos de perigo sobre qualquer superficie desconhecida

que eu quizesse pisar... Eu desistia assim de lidar d’ora em deante

com partidos e com acontecimentos; minha esphera tornára-se toda

subjectiva... «Ha epochas em que o associar-se, ainda mesmo com outros

melhores do que nós, é trahir o ideal proprio que cada um tem em si

e que lhe cumpre a seu modo lapidar e polir ao infinito.» Esta minha

phrase sobre o isolamento de André Rebouças, quando não imaginava o

fim melancolico que elle havia de ter, exprime muito do meu proprio

sentimento... É preciso roubar ao mundo uma parte da vida, e é melhor

que seja a final, para dal-a aos pensamentos e ás aspirações que não

queremos que morram comnosco.

Os ultimos dez annos são assim o periodo em que o interesse politico

cederá gradualmente o logar ao interesse religioso e ao interesse

litterario até ficar reduzido quasi sómente ao que tem de commum

com elles... Quando digo interesse politico, quero dizer o espirito

politico, porquanto a emoção, a parte que tomo na sorte do paiz

augmenta com as peripecias, as contingencias, os vortices dos novos

dramas. O auctor e o actor desapparecem; o espectador, esse, porém,

sente a sua anciedade crescer e tornar-se angustiosa... Posso portanto

terminar aqui a historia de minha formação politica, e mesmo de toda

a minha formação, porque das novas influencias que me vão dominar

no resto da vida, a religiosa já se a encontrou na infancia e a das

lettras na mocidade. As lettras luctaram em mim annos seguidos, como se

viu, contra a politica, sempre com superioridade, até vir a abolição,

que durante os dez annos as relegou, como tudo mais, a immensa

distancia. Extincto este grande fóco de atracção, nenhum outro teria

o mesmo poder contra ellas... Ainda assim talvez tenha apenas havido

entre ellas e a politica uma verdadeira fusão... A historia é com

effeito o unico campo em que me seria dado ainda cultivar a politica,

porque nelle não terei perigo de faltar á indulgencia, que é a caridade

do espirito, nem á tolerancia, que é a forma de justiça a que eu posso

attingir... São essas duas das faces, a que ha pouco alludi, sob que

meu espirito crystallisou.

Dizendo as lettras, quero apenas dizer o que ellas pódem ser para mim:

o lado bello, sensivel, humano das coisas que está ao meu alcance,

a resonancia, a admiração, o estado d’alma que ellas me deixam...

Foi a necessidade de cultivar interiormente a benevolencia o que,

talvez, me dispoz a trocar definitivamente a politica pelas lettras,

a dar a minha vida activa por encerrada, reservando, como vocação

intellectual,--a politica não fôra outra coisa para mim,--o saldo de

dias que me restasse para polir imagens, sentimentos, lembranças que

eu quizera levar na alma... Olhei a vida nas diversas epochas através

de vidros differentes: primeiro, no ardor da mocidade, o prazer, a

embriaguez de viver, a curiosidade do mundo; depois, a ambição, a

popularidade, a emoção da scena, o esforço e a recompensa da lucta para

fazer homens livres, (todos esses eram vidros de augmento)...; mais

tarde, como contrastes, a nostalgia do nosso passado e a seducção

crescente de nossa natureza, o retrahimento do mundo e a doçura do lar,

os tumulos dos amigos e os berços dos filhos, (todos esses são ainda

prismas); mas em despedida ao Creador, espero ainda olhal-a através

dos vidros de Epicteto, do puro crystal sem refracção: a admiração e o

reconhecimento...

FIM

INDICE

Prefacio VII

I

Collegio e Academia 1

II

Bagehot 9

III

1871-1873. Na _Reforma_ 24

IV

Attracção do Mundo 33

V

Primeira viagem á Europa 45

VI

A França de 1873-74 54

VII

Ernest Renan 65

VIII

A crise poetica 75

IX

Addido de Legação 85

X

Londres 92

XI

_32, Grosvenor Gardens_ 106

XII

Influencia ingleza 110

XIII

O espirito inglez 125

XIV

Nova-York (1876-77) 135

XV

O meu diario de 1877 147

XVI

Traços Americanos 159

XVII

Influencia dos Estados-Unidos 170

XVIII

Meu Pae 184

XIX

Eleição de deputado 202

XX

Massangana 211

XXI

A abolição 226

XXII

Caracter do movimento.--A parte da dynastia 245

XXIII

Passagem pela politica 251

XXIV

No Vaticano 261

XXV

O barão de Tautphœus 284

XXVI

Os ultimos dez annos 300

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Minha formação · 第 16 / 16 段