foi Joaquim Serra. Desde 1880 até a abolição elle não deixou passar
um dia sem a sua linha... Minado por uma doença que não perdôa,
salvava cada manhã o que bastasse de alegria para sorrir á esperança
dos escravos, a qual viu crescer dia por dia durante esses dez annos
como uma planta delicada que elle mesmo tivesse feito nascer...
Feita a abolição, desabrochada a flôr, morria elle... E que morte!
que saudade da mulher e dos filhos, da filhinha adorada, que não se
queria afastar um instante d’elle! Serra cumpriu a sua tarefa com
uma constancia e assiduidade a toda prova, sem dar uma falta, e com
o mais perfeito espirito de abnegação e de lealdade... Renunciando
os primeiros logares, elle mostrava, entretanto, de mais em mais uma
agudeza de vista e uma clareza de expressão dignas de um verdadeiro
_leader_. Eu mesmo, que acreditava conhecel-o, fui surprehendido pela
ousadia da sua manobra, quando uma vez elle prometteu ao barão de
Cotegipe todo o nosso apoio,--nós respondiamos uns pelos outros,--si
fizesse concessões ao movimento. Ao contrario de Rebouças, Serra
era um espirito politico, mas acima do seu partido, do qual fôra
durante a opposição o mais serviçal dos auxiliares, collocava a nossa
causa commum com uma sinceridade intima que nunca foi suspeitada...
«Passamento do grande Joaquim Serra, escreve Rebouças no seu _Diario_
em 29 de outubro de 1888, companheiro de Academia em 1854 e de lucta
abolicionista de 1880-1888, o publicista que _mais_ escreveu contra os
escravocratas.» «Ninguem fez _mais_ do que elle, escrevia Gusmão Lobo
por sua morte... e quem fez _tanto_...?»
* * * * *
Gusmão Lobo... É outro nome do nosso circulo interior... Alguns dos que
combateram juntos sem descanço, durante os primeiros cinco annos da
propaganda, os quaes foram os annos do ostracismo politico e social da
idéa, acreditaram sua tarefa, si não acabada, pelo menos grandemente
alliviada no dia em que um grande partido no governo, com os seus
quadros, sua influencia, seu eleitorado, sua imprensa, adoptou a causa
de que elles eram até então os unicos arrimos... Entre esses está
Gusmão Lobo, que não teria deixado a penna de combate, si não tivesse
visto a bandeira que ella protegia, passar triumphante das mãos dos
agitadores para as mãos de Presidentes do Conselho. Na epocha decisiva
do movimento, aquella em que se teve de crear o impulso e de tornal-o
mais forte do que a resistencia, isto é, em que se venceu virtualmente
a campanha, os seus serviços foram inapreciaveis... Elle sósinho enchia
com a emancipação o _Jornal do Commercio_ desde a columna editorial,
onde por toda a especie de habilidades, artificios e subtilezas,
graças á boa vontade do dr. Luiz de Castro, conseguia ter a questão
sempre em evidencia... Seu talento, seu estylo de escriptor, airoso,
perfeito, prismatico, um dos mais bellos e mais espontaneos do nosso
tempo, era verdadeiramente inexhaurivel... Elle achava solução para
tudo, tinha os expedientes e as finuras, como tinha a plastica da
expressão... Todo o seu trabalho foi anonymo e poderia assim passar
despercebido de outra geração, si não restasse o testemunho unanime dos
que trabalharam com elle... Era um assombro a variedade dos papeis que
elle desempenhava na imprensa, incalculavel o valor da sua presença e
conselho em nossas reuniões, e depois no intimo do gabinete Dantas. Seu
nome está escripto, por toda a parte, nas paredes das Catacumbas em
que o abolicionismo nascente viveu os primeiros cinco annos como uma
pequena egreja perseguida, mas apparece cada vez mais raro á medida que
a nova fé se vae tornando religião official. É um dos enigmas do nosso
tempo,--enigma nacional, porque se prende á questão do emmurchecimento
rapido de toda a flôr do paiz,--como semelhante talento renunciou mais
tarde de repente a toda a ambição...
* * * * *
Não quero fazer a galeria da abolição, mas, como dei, vencido pela
saudade, dois ou tres perfis, tão imperfeitos, de amigos, pagarei
tambem o meu tributo a José do Patrocinio... Este é o representante
do espirito revolucionario que com o espirito liberal e o espirito
de governo fez a abolição, mas que foi mais forte do que elles, e
acabou por os absorver e dominar... Sem o espirito governamental de
homens como Dantas, Antonio Prado e João Alfredo, não se teria chegado
pacificamente ao fim, nem tão cedo; sem o espirito humanitario,
extreme de odios e tendencias politicas, a abolição teria degenerado
em uma guerra de raças ou em um encontro de facções; sem o trabalho
vario, inapreciavel, de cada um dos grandes factores provinciaes,
que conservarão sua autonomia na historia, como o do Ceará, com João
Cordeiro, o de S. Paulo com Antonio Bento, o de Pernambuco com João
Ramos, tomando esses nomes como collectivos, o resultado teria sido
differente e talvez funesto. O que Patrocinio, porém, representa é
o _fatum_, é o irresistivel do movimento... Elle é uma mistura de
Spartaco e de Camille Desmoulins... Os que luctavam sómente contra
a escravidão, eram como os liberaes de 1789, da raça dos cegos de
boa vontade, sinão voluntarios, que as revoluções empregam para
lhes abrirem a primeira brecha... Patrocinio é a propria revolução.
Si o abolicionismo no dia seguinte ao seu triumpho dispersou-se e
logo depois uma parte delle alliou-se á grande propriedade contra a
dynastia que elle tinha induzido ao sacrificio, é que o espirito que
mais profundamente o agitou e revolveu, foi o espirito revolucionario
que a sociedade abalada tinha deixado escapar pela primeira fenda dos
seus alicerces... Patrocinio foi a expressão da sua epocha; em certo
sentido, a figura representativa della...
XXII
CARACTER DO MOVIMENTO.--A PARTE DA DYNASTIA
A abolição teria sido uma obra de outro alcance moral, si tivesse sido
feita do altar, pregada do pulpito, proseguida de geração em geração
pelo clero e pelos educadores da consciencia. Infelizmente, o espirito
revolucionario teve que executar em poucos annos uma tarefa que havia
sido desprezada durante um seculo. Uma grande reforma social, para ser
agradavel a Deus, exige que a alma do proprio operario seja purificada
em primeiro logar. São essas as primicias que elle disputa e que lhe
pertencem. A differença é grande, mesmo para as emprezas mais justas
e mais bellas, si as levamos por deante com espirito de verdadeira
caridade christã, ou si não empregamos nellas sinão essa especie de
estimulo pessoal a que em moral leiga se chama amor da humanidade. O
reformador não vencerá completamente pela copia de justiça que a sua
idéa contenha; o resultado da victoria depende do gráu de caridade que
inspirar a germinação. A politica é a arte de escolher as sementes; a
religião, a de lhes preparar o terreno.
O movimento contra a escravidão no Brasil foi um movimento de
caracter humanitario e social antes que religioso; não teve por isso
a profundeza moral da corrente que se formou, por exemplo, entre os
abolicionistas da Nova-Inglaterra. Era um partido composto de elementos
heterogeneos, capazes de destruir um estado social levantado sobre o
privilegio e a injustiça, mas não de projectar sobre outras bases o
futuro edificio. A realisação da sua obra parava assim naturalmente
na suppressão do captiveiro; seu triumpho podia ser seguido, e o
foi, de accidentes politicos, até de revoluções, mas não de medidas
sociaes complementares em beneficio dos libertados, nem de um grande
impulso interior, de renovação da consciencia publica, da expansão
dos nobres instinctos sopitados. A liberdade por si só é fecunda, e
sobre os destroços da escravidão refar-se-ha com o tempo uma sociedade
mais unida, de idéas mais largas, e é possivel que esta proclame seus
creadores aquelles que não fizeram mais do que interromper a oppressão
que presidia aos antigos nascimentos, os gemidos que assignalavam no
Brasil o apparecer de mais uma camada social. A verdade porém, é que a
corrente abolicionista parou no dia mesmo da abolição e no dia seguinte
refluia.
Durante a campanha abolicionista, em uma das eleições em que fui
candidato, um escravo, que parecia feliz, suicidou-se em uma fazenda
de Cantagallo. Contou-me uma senhora da familia, annos depois, que
perguntado no momento da morte por que attentára contra si, si tinha
alguma queixa, elle respondera ao senhor que não, que pensou em
matar-se sómente porque eu não tinha sido eleito deputado... Tenho
convicção de que a raça negra por um plebiscito sincero e verdadeiro
teria desistido de sua liberdade para poupar o menor desgosto aos
que se interessavam por ella, e que no fundo, quando ella pensa na
madrugada de 15 de novembro, lamenta ainda um pouco o seu 13 de maio.
Não se poderia estar em contacto com tanta generosidade e dedicação
sem lhe ter um pouco adquirido a marca. Desde a dynastia, que tinha um
throno a offerecer, ninguem que tenha tomado parte em sua libertação,
o lastimará nunca. Não se lastima a emancipação de uma raça, a
transformação immediata do destino de um milhão e meio de vidas humanas
com todas as perspectivas que a liberdade abre deante das futuras
gerações. Não ha raças ingratas. «Senhor Rebouças, dizia a Princeza
Imperial a bordo do _Alagoas_, que os levava juntos para o exilio, si
houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltariamos para libertal-os.»
Ah! de certo o throno cahiu e muita coisa seguiu-se que me podia fazer
pensar hoje com algum travo nesses annos de perfeita illusão...
mas não, devia ser assim mesmo... As consequencias, os desvios,
as aberrações, estranhas e alheias, não pódem alterar a perfeita
belleza de uma obra completa, não destróem mais o rhythmo de um cyclo
encerrado... No dia em que a Princeza Imperial se decidiu ao seu grande
golpe de humanidade, sabia tudo o que arriscava. A raça que ia libertar
não tinha para lhe dar sinão o seu sangue, e ella não o quereria nunca
para cimentar o throno de seu filho... A classe proprietaria ameaçava
passar-se toda para a Republica, seu pae parecia estar moribundo em
Milão, era provavel a mudança de reinado durante a crise, e ella não
hesitou; uma voz interior disse-lhe que desempenhasse sua missão, a voz
divina que se faz ouvir sempre que um grande dever tem que ser cumprido
ou um grande sacrificio que ser acceito. Si a monarchia pudesse
sobreviver á abolição, esta seria o seu apanagio; si succumbisse, seria
o seu testamento. Quando se tem, sobretudo uma mulher, a faculdade de
fazer um grande bem universal, como era a emancipação, não se deve
parar deante de presagios; o dever é entregar-se inteiramente nas
mãos de Deus. E quem sabe... A impressão quando se olha da altura da
posteridade, da historia, é que o papel nacional da dynastia tinha
sido bello demais para durar ininterruptamente... Não ha tão extensos
espaços de felicidade nas coisas humanas; o surto prolongando-se
traria a queda desastrosa. Essa dynastia teve só tres nomes. O fundador
fez a independencia do joven paiz americano, desintegrando a velha
monarchia européa de que era herdeiro; seu filho encontra aos quinze
annos o Imperio enfraquecido pela anarchia, rasgando-se pela ponta
do Rio Grande, e funda a unidade nacional sobre tão fortes bases que
a guerra do Paraguay, experimentando-a, deixou-a á prova de qualquer
pressão interna ou externa, e faz tudo isso sem tocar nas liberdades
politicas do paiz que durante cincoenta annos são para elle um _noli me
tangere_... Por ultimo, sua filha renuncia virtualmente o throno para
apressar a libertação dos ultimos escravos... Cada reinado, contando
a ultima regencia da Princeza como um embryão de reinado, é uma nova
coroação nacional: o primeiro, a do Estado; o segundo, a da nação; o
terceiro, a do povo... A columna assim está perfeita e egual: a base,
o fuste, o capitel. A tendencia do meu espirito é collocar-se no ponto
de vista definitivo... Deste o 15 de novembro não é uma queda, é uma
assumpção... É a ordem do destino para que a dynastia brasileira fosse
arrebatada, antes de começar o seu declinio, antes de correr o risco de
esquecer a sua tradição.
De certo o exilio de Imperador foi triste, mas tambem foi o que deu
á sua figura a majestade que hoje a reveste... Não, não ha assim
nada que me faça olhar para a phase em que militei na politica com
outro sentimento que não seja o de uma perfeita gratidão... Não devo
á dynastia nenhuma reparação; não lhe armei uma cilada; na humilde
parte que me coube, o que fiz foi acenar-lhe com a gloria, com a
immortalidade, com a perfeição do seu traço na historia... Ninguem póde
affirmar que desprezando a abolição ella se teria mantido, ou que não
teria degenerado... A abolição em todo o caso era o seu dever, e ella
recolheu a gloria do acto; deu-nos quitação...
Que seria feito na historia da lenda monarchica brasileira si no mesmo
dia se tivesse proclamado a Republica e a Abolição? Gratidão infinita
pelo 13 de maio, isso, sim, lhe devo e deverei sempre; nunca, porém
reparação de um damno que não causei...
XXIII
PASSAGEM PELA POLITICA
Ah! o que não recebi nesses annos de lucta pelos escravos! Como os
sacrificios que por vezes inspirei, eram maiores que os meus! Eu tinha
a fama, a palavra, a carreira politica... É certo que não tive outras
recompensas, mas essas eram as mais bellas para um moço, nesse tempo
avido de nomeada e das sensações do triumpho. Era o meu nome que
sahia victorioso das urnas numa dessas eleições que electrisavam os
espiritos liberaes de todo o paiz, que me traziam de longe as bençãos
dos velhos _quakers_ da _Anti-Slavery Society_, e até uma vez os
votos de Gladstone... Aquelles, porém, que concorriam para a victoria
desappareciam na lista anonyma dos esquecidos... Seus nomes, mesmo os
principaes, não echoavam fóra da provincia... Só, dentre elles, José
Mariano era conhecido de todo o paiz e reputado o arbitro eleitoral
do Recife. Quem conhecia, porém, a Antonio Carlos Ferreira da Silva,
então simples guarda-livros em uma casa do Recife, que no emtanto
fez todas as minhas eleições abolicionistas? A verdade é que era elle
o espirito que movia tudo em meu favor; sem elle tudo teria corrido
em outra direcção... Essa é a melhor prova do caracter espontaneo,
natural, popular, das minhas eleições do Recife, o ter bastado
para fazel-as um homem como elle, sincero, dedicado, intelligente,
leal, habil, todo coração e enthusiasmo sob uma mascara de frieza e
misanthropia, mas sem posição, sem fortuna, sem _status_ politico,
sem ligação de partido, simples abolicionista, nunca apparecendo em
publico, e, além do mais, republicano confesso... Essa circumstancia
só por si mostra bem a sinceridade, a humildade, a ingenuidade de todo
esse movimento de 1884-1888. Esse foi o meu paranympho... Os muitos que
trouxeram o seu valioso concurso para o successo da causa commum, ou
para meu triumpho pessoal, como aconteceu com tantos, comprehenderão o
meu sentimento quando ainda uma vez revelo o segredo da minha relação
com o Recife, dizendo que Antonio Carlos, que nada era e nada quiz ser,
foi o verdadeiro auctor della... Não esqueço ninguem, a começar por
Dantas, que me fez quasi forçadamente seguir para o Norte a pleitear
um dos districtos da provincia; não esqueço de certo o dr. Ermirio
Coutinho e o dr. Joaquim Francisco Cavalcanti, de cuja dupla renuncia
resultou a minha inesperada eleição pelo Quinto districto, uma semana
depois de annullarem o meu diploma pelo Primeiro, passe eleitoral que
surprehendeu a todos na Camara e em que Antonio Carlos foi grandemente
ajudado pelo seu amigo dr. Coimbra. Tambem não esqueço José Mariano,
cuja lealdade para commigo foi perfeita em circumstancias que poriam
á prova a emulação e a susceptibilidade de outro espirito, capaz de
inveja ou de ciumes; nem a suave physionomia, um puro Carlo Dolce,
da sua meiga e amorosa D. Olegarinha, tão cedo esvaecida, a qual nas
vesperas da minha eleição, que José Mariano fizera delle, contra o
Ministro do Imperio, fez empenhar joias suas para o custeio da lucta,
o que só vim a saber no dia seguinte, quando o partido as resgatou e
lh’as foi levar... Não esqueço ninguem, nenhum dos chefes e centuriões
liberaes, Costa Ribeiro, João Teixeira, Barros Rego, o Silva da
Magdalena, Faustino de Brito, os Rochas do Peres: seria preciso citar
cem, duzentos... Nenhum tambem desse grupo de abolicionistas, que me
recebeu com Antonio Carlos: Barros Sobrinho, João Ramos, Gomes de
Mattos, João Barbalho, Numa Pompilio, João de Oliveira, Martins Junior,
todos elles; não esqueço os brilhantes artigos de tantos jornalistas
distinctos, sobre todos Maciel Pinheiro, o amigo de Castro Alves,
austero, rutilante, genial, figura que lembra o traço velazquiano,
ao mesmo tempo sombrio e luminoso. E são esses sómente os primeiros
nomes que me vieram á penna. Outros, muitos outros, estão egualmente
presentes ao meu espirito como Annibal Falcão e Souza Pinto, então os
chefes intellectuaes da mocidade.
Duvido ter eu tido maior revelação, ou impressão exterior que ficasse
actuando sobre mim de modo mais permanente, do que essas eleições
de 1884 a 1887,--a de 1889, posso dizer, feita a abolição, não me
interessava quasi. Ellas puzeram-me em contacto directo com a parte
mais necessitada da população e em mais de uma morada de pobre tive uma
_lição de coisas_ tão pungente e tão suggestiva sobre o desinteresse
dos que nada possuem, que a só lembrança do que vi terá sempre sobre
mim o poder o effeito de um exame de consciencia... Eu visitava
os eleitores, de casa em casa, batendo em algumas ruas a todas as
portas... A pobreza de alguns desses interiores e a intensidade da
religião politica alimentada nelles fez-me por vezes desistir de ir
mais longe... Doia vêr o quanto custava a essa gente credula a sua
devoção politica. Diversos desses episodios gravaram-se-me no coração.
Uma vez, por exemplo, entrei na casa de um operario, empregado em um
dos Arsenaes, para pedir-lhe o voto. Chamava-se Jararaca, mas só tinha
de terrivel o nome. Estava prompto a votar por mim, tinha sympathia
pela causa, disse-me elle; mas votando, era demittido, perdia o pão
da familia; tinha recebido a _chapa de caixão_ (uma cedula marcada
com um segundo nome, que servia de signal), e si ella não apparecesse
na urna, sua sorte estava liquidada no mesmo instante. «Olhe, sr.
doutor», disse-me elle, mostrando-me quatro pequenos, que me olhavam
com indifferença, na mais perfeita inconsciencia de que se tratava
delles mesmos, de quem no dia seguinte lhes daria de comer... E depois,
voltando-se para uma creancinha, deitada sobre os buracos de um antigo
canapé desmantelado: «Ainda em cima, minha mulher ha dois mezes achou
essa creança deante da nossa porta, quasi morrendo de fome, roida
pelas formigas, e hoje é mais um filho que temos!» «No emtanto, estou
prompto a votar pelo senhor, recomeçava elle, cedendo á sua tentação
liberal, si o senhor me trouxer um pedido do brigadeiro Floriano
Peixoto.» Esse foi talvez o primeiro _florianista_ do paiz... «Póde vir
por telegramma... Elle está no engenho, nas Alagôas... E o que elle
me pedir, custe o que custar, eu não deixo de fazer... Telegraphe a
elle...» «Não, não é preciso, respondi-lhe, vote como quer o Governo,
não deixe de levar a sua _chapa de caixão_... não arrisque á fome
toda essa gentinha que está me olhando... Ha de vir tempo em que o
senhor poderá votar por mim livremente; até lá, é como si o tivesse
feito... Não devo dar-lhe um pretexto para fazer o que quer, invocando
a intervenção do seu protector...» E sahi, instando com a mulher,
supplicando, com medo que elle se arrependesse e fosse votar em mim.
Em outras casas o chefe da familia estava sem emprego havia annos
por causa de um voto dado ao partido da opposição; a pobreza era
completa, quasi a miseria, mas todos alli tinham o orgulho de soffrer
por sua lealdade ao partido... E como entre os liberaes, entre os
conservadores. Eram coherentes na miseria, na privação de tudo... Esse
espectaculo seria de certo animador no mais alto gráu para o optimista
desinteressado; este julgaria ter descoberto o refugio da verdadeira
natureza humana escondida; para o candidato, porém, de cuja causa
se tratava, era terrivelmente pungente surprehender assim a agonia
da dignidade... Posso dizer, quanto a mim, eu não teria ousado ser
mais um dia pretendente a um posto que custava tanto soffrimento, si
não fosse para servir a causa de outros ainda mais infelizes do que
essas victimas da altivez do pobre, da paixão e illusão politica do
povo. Hoje, quem sabe, eu não teria talvez em nenhum caso a força, a
coragem de insinuar aos bons, aos credulos, aos ingenuos, sacrificios
pessoaes dessa ordem em favor de uma causa que não fosse directamente
delles. Faria com todos o que fiz com o bom Jararaca: aconselharia que
não sacrificassem os seus... Mas a lucta pela justiça é isso mesmo,
é o sacrificio de gerações inteiras pelo direito ás vezes de um só,
para resgatar a injustiça feita a um opprimido, talvez um estranho.
De certo, não tenho remorsos nem me arrependo... Pessoalmente nenhum
lucro tirei de todas as abnegações que vieram a mim; não capitalisei o
soffrimento de tantos desinteressados... Consola-me nada ter tirado da
abolição sinão o gozo de algumas impressões de tribuna e de nomeada,
que foram apenas uma expansão como qualquer outra da mocidade... Graças
a Deus, favor este inestimavel, nenhum lucro material, directo ou
indirecto, me resultou nunca das idéas que me seduziram e com as quaes
seduzi a outros...
Mas, ainda uma vez, o que recebi foi incalculavel. Só Deus mesmo, que
vê os soffrimentos que se escondem e cujo orgulho é passarem invisiveis
no meio da multidão, póde fazer tal conta. Sou um captivo do Recife.
Ninguem que não tenha acompanhado um dos candidatos, de casa em casa,
das areias do Brum aos canaes dos Afogados, durante a campanha da
abolição, póde avaliar o que custou áquelles bairros de população
densa, vivendo na mais completa destituição de tudo, o acolhimento
que me deram. Para chegar á Camara tive os hombros dos que não tinham
de seu sinão o trabalho de suas mãos e que se arriscavam, carregados
de familia, a vêr fechar-se-lhes no dia seguinte a officina, a ser
despedidos, despejados, depois de me terem dado o voto... O que me
fica de todo esse episodio, o unico de minha carreira politica, é um
sentimento acabrunhador de fallencia... Meu unico activo é a gratidão.
O passivo é illimitado... Foram milhares os que me offereceram tudo o
que tinham, isto é, como nada tinham, o que eram, o que podiam ser,
e posso dizer que o acceitei em nome dos escravos. Muitos ter-se-ão
levantado outra vez e seguido seu caminho pelas estradas abertas desde
então, mas que todas parecem conduzir á mesma miragem que abrasa o
horizonte. Terão ido, ou irão indo, coitados, de illusão em illusão,
de desprendimento em desprendimento, de lealdade em lealdade... Não
importa. O facto para mim dominante é que em um momento da minha vida
pedi e acceitei o sacrificio absoluto de muitos pela causa que eu
defendia... De certo, foi a mais nobre, a mais augusta das causas; mas
o facto é que eu era alli o representante della, que em grande parte a
dedicação, o sacrificio era por mim, como era meu o triumpho, minha a
carreira, meu o futuro politico...
* * * * *
A impressão que me ficou da politica, excepto esse quadro doloroso do
sacrificio ingenuo dos simples, dos bons, dos que soffrem, pelos que
se elevam, posso dizer que me lembra um jardim encantado do Oriente,
onde tudo eram fórmas enganadoras de existencias petrificadas,
immobilisadas, á espera da palavra que as libertasse; onde a rosa
que nunca desbotava exprimia a presença occulta de uma paixão que não
queria perjurar-se; onde o marmore alabastrino das fontes significava
o corpo immaculado de que vertia continuo o sangue puro dos martyrios
do amor e da verdade; onde os rouxinóes que cantavam, eram pares de
amantes a quem era defeso procurarem-se sob a fórma humana... Tudo alli
estava suspenso, transportado a outra escala do ser, a outra ordem de
sensibilidade e de affectos... Era o mesmo facto, mas com differente
aspiração, differente consciencia, differente vontade, e para o qual
por isso mesmo o tempo não corria, como no sonho... A scena politica
foi tambem para mim um puro encantamento... Sob a apparencia de
partidos, ministerios, Camaras, de todo o systema a que presidia com as
suas longas barbas niveas o velho de S. Christovão, o genio brasileiro
tinha encarnado e disfarçado o drama de lagrimas e esperanças que se
estava representando no inconsciente nacional, e á geração do meu tempo
coube penetrar no vasto simulacro no momento em que o signal, o toque
redemptor, ia ser dado, e todo elle desabar para apparecer em seu logar
a realidade humana, de repente chamada á vida, restituida á liberdade
e ao movimento... Por isso não trouxe da politica nenhuma decepção,
nenhum amargor, nenhum resentimento... Atravessei por ella durante a
metamorphose.
XXIV
NO VATICANO
Um episodio da abolição, a minha ida a Roma em começo de 1888, contarei
aqui, porque será um élo em minha vida, um toque insensivel de
despertar para partes longamente adormecidas de minha consciencia.