Mez e meio depois da morte de minha madrinha, eu deixava assim o

meu paraiso perdido, mas pertencendo-lhe para sempre... Foi alli

que eu cavei com as minhas pequenas mãos ignorantes esse poço da

infancia, insondavel na sua pequenez, que refresca o deserto da

vida e faz d’elle para sempre em certas horas um oasis seductor.

As partes adquiridas do meu ser, o que devi a este ou áquelle, hão

de dispersar-se em direcções differentes; o que, porém, recebi

directamente de Deus, o verdadeiro eu sahido das suas mãos, este ficará

preso ao canto de terra onde repousa aquella que me iniciou na vida.

Foi graças a ella que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura

que todas as lagrimas imaginaveis não m’o fariam esquecer. Massangana

ficou sendo a séde do meu oraculo intimo: para impellir-me, para

deter-me e, sendo preciso, para resgatar-me, a voz, o fremito sagrado,

viria sempre de lá. _Mors omnia solvit_... tudo, excepto o amor, que

ella liga definitivamente.

Tornei a visitar doze annos depois a capellinha de S. Matheus onde

minha madrinha, Dona Anna Rosa Falcão de Carvalho, jaz na parede

ao lado do altar, e pela pequena sacristia abandonada penetrei no

cercado onde eram enterrados os escravos... Cruzes, que talvez não

existam mais, sobre montes de pedras escondidas pelas ortigas, era

tudo quasi que restava da opulenta _fabrica_, como se chamava o quadro

da escravatura... Em baixo, na planicie, brilhavam como outr’ora as

manchas verdes dos grandes cannaviaes, mas a usina agora fumegava e

assobiava com um vapor agudo, annunciando uma vida nova. A almanjarra

desapparecera no passado. O trabalho livre tinha tomado o logar em

grande parte do trabalho escravo. O engenho apresentava do lado do

«porto» o aspecto de uma colonia; da casa velha não ficára vestigio...

O sacrificio dos pobres negros que haviam incorporado as suas vidas ao

futuro d’aquella propriedade, não existia mais talvez sinão na minha

lembrança... Debaixo dos meus pés estava tudo o que restava d’elles,

defronte dos _columbaria_ onde dormiam na estreita capella aquelles

que elles haviam amado e livremente servido. Sosinho alli, invoquei

todas as minhas reminiscencias, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei

no ar carregado de aromas agrestes, que entretem a vegetação sobre

suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a

sua alegria perpetua. Foi assim que o problema moral da escravidão se

desenhou pela primeira vez aos meus olhos em sua nitidez perfeita e com

sua solução obrigatoria. Não só esses escravos não se tinham queixado

de sua senhora, como a tinham até o fim abençoado... A gratidão estava

do lado de quem dava. Elles morreram acreditando-se os devedores... seu

carinho não teria deixado germinar a mais leve suspeita de que o senhor

pudesse ter uma obrigação para com elles, que lhe pertenciam... Deus

conservára alli o coração do escravo, como o do animal fiel, longe do

contacto com tudo que o pudesse revoltar contra a sua dedicação. Esse

perdão espontaneo da divida do senhor pelos escravos figurou-se-me

a amnistia para os paizes que cresceram pela escravidão, o meio de

escaparem a um dos peiores taliões da historia... Oh! os Santos pretos!

seriam elles os intercessores pela nossa infeliz terra, que regaram com

seu sangue, mas abençoaram com seu amor! Eram essas as idéas que me

vinham entre aquelles tumulos, para mim, todos elles, sagrados, e então

alli mesmo, aos vinte annos, formei a resolução de votar a minha vida,

si assim me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas que

a desegualdade da sua condição enternecia em vez de azedar e que por

sua doçura no soffrimento emprestava até mesmo á oppressão de que era

victima um reflexo de bondade...

XXI

A ABOLIÇÃO

Quando a campanha da abolição foi iniciada, restavam ainda quasi dois

milhões de escravos, emquanto que os seus filhos de menos de oito

annos e todos os que viessem a nascer, apezar de _ingenuos_, estavam

sujeitos até aos vinte e um annos a um regimen praticamente egual ao

captiveiro. Foi esse immenso bloco que atacámos em 1879, acreditando

gastar a nossa vida sem chegar a entalhal-o. No fim de dez annos não

restava delle sinão o pó. Tal resultado foi devido a muitas causas...

Em primeiro logar, á epocha em que foi lançada a idéa. A humanidade

estava por demais adeantada para que se pudesse ainda defender em

principio a escravidão, como o haviam feito nos Estados-Unidos. A raça

latina não tem dessas coragens. O sentimento de ser a ultima nação de

escravos humilhava a nossa altivez e emulação de paiz novo. Depois,

á fraqueza e á doçura do caracter nacional, ao qual o escravo tinha

communicado sua bondade e a escravidão o seu relaxamento. Compare-se

nesse ponto o que ella foi no Brasil com o que foi na America do Norte.

No Brasil, a escravidão é uma fusão de raças; nos Estados-Unidos, é

a guerra entre ellas. Nossos proprietarios emancipavam aos centos os

seus escravos, em vez de se unirem para lynchar os abolicionistas,

como fariam os criadores do Kentucky ou os plantadores da Luisiana. A

causa abolicionista exercia sua seducção sobre a mocidade, a imprensa,

a democracia; era um _imperativo categorico_ para os magistrados e

os padres; tinha affinidades profundas com o mundo operario e com o

exercito, recrutado de preferencia entre os homens de côr; operava

como um dissolvente sobre a massa dos partidos politicos, cujas

rivalidades incitava com a honra que podia conferir aos estadistas que

a emprehendessem, e á propria dynastia inspirava de modo espontaneo o

sacrificio indispensavel para o successo.

Cinco acções ou concursos differentes cooperaram para o resultado

final: 1.º a acção motora dos espiritos que creavam a opinião pela

idéa, pela palavra, pelo sentimento, e que a faziam valer por meio

do Parlamento, dos _meetings_, da imprensa, do ensino superior, do

pulpito, dos tribunaes; 2.º a acção coerciva dos que se propunham

a destruir materialmente o formidavel apparelho da escravidão,

arrebatando os escravos ao poder dos senhores; 3.º a acção

complementar dos proprios proprietarios, que, á medida que o movimento

se precipitava, diminuiam diante delle as resistencias, libertando

em massa as suas «fabricas»; 4.º a acção politica dos estadistas,

representando as concessões do governo; 5.º a acção dynastica.

As duas primeiras categorias formavam circulos concentricos, compostos

como eram em grande parte dos mesmos elementos. É a ellas que pertence

o grosso do partido abolicionista, os _leaders_ do movimento. Para

collocar cada figura no plano que lhe convem com seu tamanho relativo

seria preciso outro juiz. Tendo visto na lucta e no esforço cada um

dos veteranos dessa campanha, eu não me perdoaria a mim mesmo a menor

injustiça involuntaria que fizesse a qualquer delles. Dissentimentos

profundos me separaram de muitos depois da victoria, mas o espirito de

imparcialidade que me anima a respeito de cada um faz ainda parte da

lealdade que acredito ter mantido perfeita durante a abolição para com

todos os auxiliares d’ella, os da primeira como os da undecima hora.

Não farei tão pouco o livro d’ouro da grande propriedade brasileira

nessa quadra. Na categoria dos chefes politicos posso destacar, porém,

tres estadistas que prestaram ao movimento em epochas differentes um

concurso decisivo: Dantas, que primeiro collocou ao serviço della um

dos partidos constitucionaes do paiz, o liberal, serviço da ordem do

que Gladstone prestou á causa irlandeza; Antonio Prado, que retirou o

veto de S. Paulo á abolição, quebrando assim a resistencia até então

compacta do Sul, a porção mais rica do paiz, e João Alfredo, que levou

o partido conservador a apresentar a lei da extincção immediata, acto

que mesmo nessa epocha foi uma grande audacia, e que pelo estado e

disposição geral da politica só podia ter sido obra delle mesmo. José

Bonifacio, cuja adhesão á idéa foi um contingente egual á libertação do

Ceará, Christiano Ottoni, Silveira da Motta, e outros, eu os contaria

na primeira classe, a dos propagandistas.

É-me quasi impossivel fallar hoje da abolição sinão por incidentes e

figuras destacadas... Tudo o que digo é sob a resalva de que teria

muito mais que dizer; quando pronuncio um nome está subentendido que

é apenas um de um extenso calendario, e que os diptycos de um e outro

lado estão cheios... Quem fará d’entre os contemporaneos essa historia

com imparcialidade, justeza e penetração, sem deixar entrar nella a

paixão politica, o preconceito sectario, a fascinação ou sujeição

pessoal? Ninguem, de certo, o que quer dizer que haverá no futuro

diversas historias. A minha contribuição para o assumpto ha de um dia

ser o meu archivo, e alguns fragmentos a respeito de diversos factos

em que estive envolvido ou de que tive conhecimento directo... Esse

trabalho, essa desobriga, ao mesmo tempo que depoimento pessoal, espero

que Deus me dará tempo e modo de o fazer como planejo. Seria uma

especie de chave para o periodo que encerra a éra monarchica.

Dentre aquelles com quem mais intimamente lidei em 1879 e 1880 e

que formavam commigo um grupo homogeneo, a nossa pequena egreja,

as principaes figuras eram André Rebouças, Gusmão Lobo e Joaquim

Serra... A egreja fronteira era a de José do Patrocinio, Ferreira de

Menezes, Vicente de Souza, Nicolau Moreira, depois João Clapp com a

Confederação Abolicionista. Si eu estivesse escrevendo neste momento

um escorço do movimento abolicionista de 1879-1888, já teria citado

Jeronymo Sodré, que foi quem pronunciou o _fiat_, e passaria a citar

os meus companheiros de Camara Manoel Pedro, Corrêa Rabello, S. de

Barros Pimentel, e outros, porque o movimento começou na Camara em

1879, e não, como se tem dito, na _Gazeta da Tarde_ de Ferreira de

Menezes, que é de 1880, nem na _Gazeta de Noticias_, onde então José

do Patrocinio, escrevendo a «Semana Politica», não fazia sinão nos

apoiar e ainda não adivinhava a sua missão. De certo pelos escravos

já vinham trabalhando Luiz Gama e outros, mesmo antes da lei de 1871,

como trabalharam todos os collaboradores dessa lei; mas o movimento

abolicionista de 1879 a 1888 é um movimento que tem o seu eixo proprio,

sua formação distincta, e cujo principio, marcha, velocidade, são

faceis de verificar; é um systema fluvial do qual se conhecem as

nascentes, o volume d’agua e valor de cada tributario, as quedas, os

_rapidos_, o estuario, e esse movimento começa, fóra de toda duvida,

com o pronunciamento de Jeronymo Sodré em 1879 na Camara... Esse

pronunciamento vem resolvido da Bahia e rebenta na Camara como uma

manga d’agua, repentinamente. Nada absolutamente o fazia suspeitar...

Ao acto de Jeronymo Sodré filia-se chronologicamente a minha attitude

dias depois... Mais tarde é que entram Rebouças, Patrocinio, Gusmão

Lobo, Menezes, Joaquim Serra... Isto não é apurar a data dos primeiros

escriptos abolicionistas de cada um; os meus, por exemplo, datavam

da Academia... É reivindicar para a Camara, para o Parlamento, a

iniciativa que se lhe tem querido tirar nesta questão, dando-se-a ao

elemento popular, republicano... É uma pura questão de datas; desde

que se dér a data certa a cada facto allegado, verificar-se-á o _autem

genuit_ acima... Reconheço que a minha inscripção vem na ordem do

tempo depois da de Jeronymo Sodré... As outras, porém, vieram depois

da minha... Foi o movimento popular talvez que mais tarde incubou o

germen parlamentar, não o deixando morrer nas Sessões seguintes, mas

que o germen foi parlamentar, que o _liber generationis_ começou em

1879 com Jeronymo Sodré, é o que se póde demonstrar com os proprios

documentos, mesmo com aquelles em que se pretenda o contrario, uma

vez que sejam authenticos... A questão de iniciativa aliás tem um

interesse todo secundario, sobretudo quando a idéa está no ar e o

espirito do tempo a agita por toda a parte. Não ha nada mais difficil

do que avaliar a importancia relativa dos diversos factores de um

movimento que se torna nacional. O ultimo dos apostolos póde vir a ser

o primeiro de todos, como S. Paulo, em serviços e em proselytismo.

Tudo na abolição prende-se, não se póde escrever-lhe a historia

supprimindo qualquer dos seus élos... É um facto a reter: a compensação

vae sempre além, muito além, dos prejuizos que ella soffre, e, d’esse

modo, até elles a favorecem... Assim morre Ferreira de Menezes, mas

Patrocinio toma a _Gazeta da Tarde_; a minoria abolicionista de 1879

não é reeleita, surge a Confederação Abolicionista; quando o Ceará

conclue a sua obra, o Amazonas começa a d’elle; demittido um presidente

de provincia (Theodureto Souto), é nomeado um Presidente do Conselho

(Dantas); organizada a acção da policia, apparece a agitação no

exercito; ás sevicias da Parahyba do Sul e de Cantagallo succede o

combate do Cubatão; morto José Bonifacio, toma o seu logar em S. Paulo

Antonio Prado; repellido pela Camara José Marianno, o Recife derrota o

ministro do Imperio; vacillando o partido liberal, move-se o partido

conservador; parte o Imperador, fica a Princeza... Ninguem afinal

sabe quem fez mais pela abolição: si a propaganda, si a resistencia;

si os que queriam tudo, si os que não queriam nada... Nada ha mais

illusorio que as distribuições de gloria... As lendas hão de sempre

viver, como raios de luz na treva amontoada do passado, mas a belleza

d’ellas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no esforço

que a humanidade faz para assim reter alguns episodios de uma vida tão

extensa que para abrangel-a não ha memoria possivel...

Não posso sinão dar ao acaso algumas impressões por isso deixo,

não sem constrangimento, de referir-me a nomes que entrariam em

qualquer resumo, por mais curto que fosse, note-se bem, do começo

da propaganda... Os dois grupos de que fallei, encontravam-se,

trabalhavam juntos, misturavam-se, mas a linha divisoria era sensivel:

um representava a acção politica, o outro a revolucionaria, ainda que

cada um reflectisse por vezes a influencia do outro. Isso no tempo

em que a idéa está sendo lançada, pois dentro de pouco o movimento

torna-se geral, e então ha o influxo das provincias, ha o Ceará, o

Amazonas, o Rio Grande do Sul, Pernambuco, a Bahia, S. Paulo, que

surgem como grandes fócos de propaganda... O movimento abolicionista

teve com effeito duas phases bem accentuadamente divididas: a primeira,

de 1879 a 1884, em que os abolicionistas combateram sós, entregues

aos seus proprios recursos, e a segunda, de 1884 a 1888, em que elles

viram sua causa adoptada successivamente pelos dois grandes partidos

do paiz. Em 1884 deu-se a conversão do partido liberal e em 1888 a do

partido conservador. A phase puramente abolicionista da campanha,--por

opposição á phase politica, que poderia entrar na historia dos dois

partidos rivaes,--foi a primeira.

De todos, aquelle com quem mais intimamente vivi, com quem estabeleci

uma verdadeira communhão de sentimento, foi André Rebouças...

Nossa amizade foi por muito tempo a fusão de duas vidas em um só

pensamento: a emancipação. Rebouças encarnou, como nenhum outro de

nós, o espirito anti-esclavagista: o espirito inteiro, systematico,

absoluto, sacrificando tudo, sem excepção, que lhe fosse contrario

ou suspeito, não se contentando de tomar a questão por um só lado,

olhando-a por todos, triangulando-a, por assim dizer,--era uma de

suas expressões favoritas,--socialmente, moralmente, economicamente.

Elle não tinha, para o publico, nem a palavra, nem o estylo, nem a

acção; dir-se-ia assim que em um movimento dirigido por oradores,

jornalistas, agitadores populares, não lhe podia caber papel algum

saliente, no emtanto elle teve o mais bello de todos, e calculado por

medidas estrictamente interiores, psychologicas, o maior, o papel

primario, ainda que occulto, do motor, da inspiração que se repartia

por todos,... não se o via quasi, de fóra, mas cada um dos que eram

vistos estava olhando para elle, sentia-o comsigo, em si, regulava-se

pelo seu gesto invisivel á multidão,... sabia que a consciencia

capaz de resolver todos os problemas da causa só elle a tinha, que

só elle entrava na sarça ardente e via o Eterno face a face... É-me

tão impossivel resumil-o a elle em um traço como me seria impossivel

figurar uma trajectoria infinita... Depois da abolição elle sempre teve

o presentimento de que a escravidão causaria uma grande desgraça á

dynastia, como assassinára a Lincoln. Seu maior amor talvez tenha sido

pelos seus alumnos da Polytechnica, mas como todas as suas recordações

d’ «a Escola» transformaram-se em outros tantos tormentos, quando os

viu glorificando o 15 de Novembro, que para elle era a desforra de 13

de Maio!...

Do seu quarto no Hotel Bragança, em Petropolis, onde durante annos

notára no seu diario a nossa pulsação commum, até o despenhadeiro

do Funchal, que linha a que descreveu André Rebouças! Elle foi o

cortezão do _Alagôas_... Um republicano, a quem veiu a tocar na hora da

amargura o papel de discipulo amado do velho Imperador banido... Foi um

industrial, um engenheiro ousado e triumphante, que acabou praticando

o tolstoismo... Foi um genio mathematico, um sabio, que reduziu sua

sciencia a uma serpentina em que de tudo distillava a abolição... Seu

centro de gravidade foi verdadeiramente o sublime... Não posso ainda

fallar d’elle em relação a mim, porque não o quizera fazer de modo

incompleto... Prefiro mostral-o em relação ao Imperador. Aqui está uma

dessas provas rapidas, photogenicas, que elle sabia tirar de si, e nas

quaes os que viveram com elle reconhecem-lhe a physionomia, apanhada

com toda a mobilidade da sua expressão e com a inalterabilidade do seu

affecto humano. É por acaso que encontro esta carta d’elle:

«Cannes, 13 de maio de 1892.

«Meu Mestre e meu Imperador,--Não passará o 3º anniversario da

Libertação da Raça Africana no Brazil sem que André Rebouças dê novo

testemunho de filial gratidão ao Martyr sublime da Abolição.

«Sinto-me feliz por ter sido escolhido pelo Bom Deus para representar

a devotação da Raça Africana a V. M. Imperial e á Princeza Redemptora,

e alegro-me repetindo-o incessantemente.

«É hoje grato relembrar a _synthese_ da nossa vida, como meu Bom

Mestre disse no _Alagôas_ quando commemorámos seu 64º anniversario.

«Principiou em Petropolis, em 1850, ha quarenta e um annos,

examinando-me em arithmetica, ainda menino de collegio, e continuou,

quasi quotidianamente, nas lições e nos exames das Escolas Militar,

Central e de Applicação na fortaleza da Praia Vermelha até dezembro de

1860.

«Os annos de 1861 e 1862 foram de estudos praticos de caminho de

ferro e de portos de mar na Europa. A primeira Memoria, escripta com

o Antonio, datada de Marselha, em 9 de junho de 1861, foi dedicada,

como de justiça, ao nosso Bom Mestre e Imperador... Quando Vossa

Magestade encontrava meu Pai, suas palavras primeiras eram:--_Como vão

os meninos?--Onde estão agora?--Recommende-lhes sempre que estudem e

que trabalhem._

«Voltámos ao Brazil em fins de 1862, e encetámos a vida pratica nos

trabalhos militares de Santa Catharina, motivados pelo conflicto

Christie.

«A 28 de dezembro de 1863 separei-me, pela primeira vez, do meu irmão

Antonio... Começa d’ahi em diante o periodo industrial da minha vida...

«Vossa Magestade e meu Pai não queriam que eu tivesse uma orientação

além da vida tranquilla da Sciencia e do Professorado; mas o

Visconde de Itaborahy, que tambem me devotava affeição paternal,

dizia:--_André!... Quero que você succeda ao Mauá!..._

«Sabe Vossa Magestade quanto soffri da oligarchia politicante e da

plutocracia escravocrata nesses afanosos tempos... Só tenho hoje

delles uma consolação:--Projectei e construi as Docas de Pedro II;

concebi e dirigi o caminho de ferro Conde d’Eu e sua bella estação

maritima do Cabedello.

«Vossa Magestade gosta de recordar que, em Uruguayana, salvámos

juntos, pelo nosso horror ao sangue, 7000 Paraguayos e centenas de

Brazileiros... Na actual antipathia ao Militarismo, apenas lembro-me

dos trabalhos de Itapirú e Tuyuty.

«Em 1880 começa a Propaganda Abolicionista. Nós, tribunos ardentes,

só tinhamos uma certeza e uma esperança:--o Imperador. Em 1871 havia

Vossa Magestade concedido á Filha Predilecta libertar o berço dos

captivos com Paranhos, Visconde do Rio Branco.

«Em 1888 a iniciativa partiu d’Aquella que não póde ver lagrimas nem

ouvir soluços de pobres, de infelizes e de escravos, no amor santo de

Martyr do Christianismo Inicial, aspirando menos á gloria na Terra do

que anhelando a benemerencia no Ceu, junto a Jesus, o Redemptor dos

Redemptores.

«Emfim... Creio que podemos esperar tranquillos o juizo de Deus;

porque havemos cumprido sua grande Lei trabalhando pelo Progresso da

Humanidade.

«Agora, só tenho a dizer-lhe que desde 15 de novembro de 1889 perdi

a linha divisoria entre meu Pai e meu Mestre e Imperador, e que é na

maior effusão de amor que me assigno,--Com todo o Coração--_André

Rebouças_.

Ou este itinerario, que elle traçára para a fuga de escravos de

S. Paulo para o Norte, pura phantasia, mas tão cheio para todos

nós de vestigios de sua originalidade, de toques da sua generosa

sensibilidade, quasi impessoal:

CAMINHO DE FERRO SUBTERRANEO

do

ALTO S. FRANCISCO AO CEARÁ LIVRE

ESTAÇÃO INICIAL... S. Paulo; junto ao tumulo de Luiz Gama.

SEGUNDA ESTAÇÃO... Pirassinunga.

TERCEIRA ESTAÇÃO... Cachoeira de Mogy-Guassú.

QUARTA ESTAÇÃO... Era pleno sertão, com rumo de Nordéste; o Sol deve

amanhecer á direita e cair, á tarde, á esquerda.

QUINTA ESTAÇÃO... Piumhy, nascente do Rio S. Francisco, acompanhando

sempre o bello rio, abundante de peixes e de fructos deliciosos.

SEXTA ESTAÇÃO... De um lado Goyaz livre; do outro o sertão da Bahia,

onde não ha _capitães do mato_.

SETIMA ESTAÇÃO... Na Villa da Barra, onde começam as grandes

cachoeiras do S. Francisco.

OITAVA ESTAÇÃO... No varadouro das aguas do S. Francisco para as do

Parnahyba.

NONA ESTAÇÃO... No Paraiso,--no Ceará Livre.»

Mathematico e astronomo, botanico e geologo, industrial e moralista,

hygienista e philanthropo, poeta e philosopho, Rebouças foi talvez

dos homens nascidos no Brasil o unico _universal_ pelo espirito e

pelo coração... Pelo espirito teremos tido alguns, pelo coração

outros; mas sómente elle foi capaz de reflectir em si ao mesmo tempo

a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem

sabe si não foi a imagem que partiu o espelho! «Delirante ovação dos

meus alumnos, escrevia elle em 15 de maio de 1888 no seu diario.

Annuncio-lhes o projecto de Triangulação Moral e Cadastral do Brasil.

Voto de louvor pela Congregação. Nova ovação. Carregado pelos alumnos

por todo o peristylo.» Da abolição elle foi o maior, não pela acção

exterior, ou influencia directa sobre o movimento, mas pela força e

altura da projecção cerebral, pela rotação vertiginosa de idéas e

sensações em torno do eixo consumidor e candente, que era para elle o

soffrimento do escravo. Era uma fornalha cosmica a que ardia nelle.

Si Rebouças inda é visto no seu tempo como uma estrella de segunda

grandeza, é porque estava mais longe do que todas... Dos Evangelistas

da nossa boa nova elle é que teria por attributo a aguia... Ha no seu

estylo e nos seus moldes muita coisa que lembra S. João... Idealista

todo elle, é quasi só por symbolos que escreve... A ilha da Madeira foi

a Pathmos de um apocalypse infelizmente perdido, porque suas ultimas

paginas, voltado para o Sul, elle as escrevia, tomando por lettras as

estrellas e as constellações. Sua lenda, porém, está feita, não ha

perigo para elle de esquecimento: a lenda do seu desterro e de sua

amizade a D. Pedro II.

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Minha formação · 第 12 / 16 段