meu paraiso perdido, mas pertencendo-lhe para sempre... Foi alli
que eu cavei com as minhas pequenas mãos ignorantes esse poço da
infancia, insondavel na sua pequenez, que refresca o deserto da
vida e faz d’elle para sempre em certas horas um oasis seductor.
As partes adquiridas do meu ser, o que devi a este ou áquelle, hão
de dispersar-se em direcções differentes; o que, porém, recebi
directamente de Deus, o verdadeiro eu sahido das suas mãos, este ficará
preso ao canto de terra onde repousa aquella que me iniciou na vida.
Foi graças a ella que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura
que todas as lagrimas imaginaveis não m’o fariam esquecer. Massangana
ficou sendo a séde do meu oraculo intimo: para impellir-me, para
deter-me e, sendo preciso, para resgatar-me, a voz, o fremito sagrado,
viria sempre de lá. _Mors omnia solvit_... tudo, excepto o amor, que
ella liga definitivamente.
Tornei a visitar doze annos depois a capellinha de S. Matheus onde
minha madrinha, Dona Anna Rosa Falcão de Carvalho, jaz na parede
ao lado do altar, e pela pequena sacristia abandonada penetrei no
cercado onde eram enterrados os escravos... Cruzes, que talvez não
existam mais, sobre montes de pedras escondidas pelas ortigas, era
tudo quasi que restava da opulenta _fabrica_, como se chamava o quadro
da escravatura... Em baixo, na planicie, brilhavam como outr’ora as
manchas verdes dos grandes cannaviaes, mas a usina agora fumegava e
assobiava com um vapor agudo, annunciando uma vida nova. A almanjarra
desapparecera no passado. O trabalho livre tinha tomado o logar em
grande parte do trabalho escravo. O engenho apresentava do lado do
«porto» o aspecto de uma colonia; da casa velha não ficára vestigio...
O sacrificio dos pobres negros que haviam incorporado as suas vidas ao
futuro d’aquella propriedade, não existia mais talvez sinão na minha
lembrança... Debaixo dos meus pés estava tudo o que restava d’elles,
defronte dos _columbaria_ onde dormiam na estreita capella aquelles
que elles haviam amado e livremente servido. Sosinho alli, invoquei
todas as minhas reminiscencias, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei
no ar carregado de aromas agrestes, que entretem a vegetação sobre
suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a
sua alegria perpetua. Foi assim que o problema moral da escravidão se
desenhou pela primeira vez aos meus olhos em sua nitidez perfeita e com
sua solução obrigatoria. Não só esses escravos não se tinham queixado
de sua senhora, como a tinham até o fim abençoado... A gratidão estava
do lado de quem dava. Elles morreram acreditando-se os devedores... seu
carinho não teria deixado germinar a mais leve suspeita de que o senhor
pudesse ter uma obrigação para com elles, que lhe pertenciam... Deus
conservára alli o coração do escravo, como o do animal fiel, longe do
contacto com tudo que o pudesse revoltar contra a sua dedicação. Esse
perdão espontaneo da divida do senhor pelos escravos figurou-se-me
a amnistia para os paizes que cresceram pela escravidão, o meio de
escaparem a um dos peiores taliões da historia... Oh! os Santos pretos!
seriam elles os intercessores pela nossa infeliz terra, que regaram com
seu sangue, mas abençoaram com seu amor! Eram essas as idéas que me
vinham entre aquelles tumulos, para mim, todos elles, sagrados, e então
alli mesmo, aos vinte annos, formei a resolução de votar a minha vida,
si assim me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas que
a desegualdade da sua condição enternecia em vez de azedar e que por
sua doçura no soffrimento emprestava até mesmo á oppressão de que era
victima um reflexo de bondade...
XXI
A ABOLIÇÃO
Quando a campanha da abolição foi iniciada, restavam ainda quasi dois
milhões de escravos, emquanto que os seus filhos de menos de oito
annos e todos os que viessem a nascer, apezar de _ingenuos_, estavam
sujeitos até aos vinte e um annos a um regimen praticamente egual ao
captiveiro. Foi esse immenso bloco que atacámos em 1879, acreditando
gastar a nossa vida sem chegar a entalhal-o. No fim de dez annos não
restava delle sinão o pó. Tal resultado foi devido a muitas causas...
Em primeiro logar, á epocha em que foi lançada a idéa. A humanidade
estava por demais adeantada para que se pudesse ainda defender em
principio a escravidão, como o haviam feito nos Estados-Unidos. A raça
latina não tem dessas coragens. O sentimento de ser a ultima nação de
escravos humilhava a nossa altivez e emulação de paiz novo. Depois,
á fraqueza e á doçura do caracter nacional, ao qual o escravo tinha
communicado sua bondade e a escravidão o seu relaxamento. Compare-se
nesse ponto o que ella foi no Brasil com o que foi na America do Norte.
No Brasil, a escravidão é uma fusão de raças; nos Estados-Unidos, é
a guerra entre ellas. Nossos proprietarios emancipavam aos centos os
seus escravos, em vez de se unirem para lynchar os abolicionistas,
como fariam os criadores do Kentucky ou os plantadores da Luisiana. A
causa abolicionista exercia sua seducção sobre a mocidade, a imprensa,
a democracia; era um _imperativo categorico_ para os magistrados e
os padres; tinha affinidades profundas com o mundo operario e com o
exercito, recrutado de preferencia entre os homens de côr; operava
como um dissolvente sobre a massa dos partidos politicos, cujas
rivalidades incitava com a honra que podia conferir aos estadistas que
a emprehendessem, e á propria dynastia inspirava de modo espontaneo o
sacrificio indispensavel para o successo.
Cinco acções ou concursos differentes cooperaram para o resultado
final: 1.º a acção motora dos espiritos que creavam a opinião pela
idéa, pela palavra, pelo sentimento, e que a faziam valer por meio
do Parlamento, dos _meetings_, da imprensa, do ensino superior, do
pulpito, dos tribunaes; 2.º a acção coerciva dos que se propunham
a destruir materialmente o formidavel apparelho da escravidão,
arrebatando os escravos ao poder dos senhores; 3.º a acção
complementar dos proprios proprietarios, que, á medida que o movimento
se precipitava, diminuiam diante delle as resistencias, libertando
em massa as suas «fabricas»; 4.º a acção politica dos estadistas,
representando as concessões do governo; 5.º a acção dynastica.
As duas primeiras categorias formavam circulos concentricos, compostos
como eram em grande parte dos mesmos elementos. É a ellas que pertence
o grosso do partido abolicionista, os _leaders_ do movimento. Para
collocar cada figura no plano que lhe convem com seu tamanho relativo
seria preciso outro juiz. Tendo visto na lucta e no esforço cada um
dos veteranos dessa campanha, eu não me perdoaria a mim mesmo a menor
injustiça involuntaria que fizesse a qualquer delles. Dissentimentos
profundos me separaram de muitos depois da victoria, mas o espirito de
imparcialidade que me anima a respeito de cada um faz ainda parte da
lealdade que acredito ter mantido perfeita durante a abolição para com
todos os auxiliares d’ella, os da primeira como os da undecima hora.
Não farei tão pouco o livro d’ouro da grande propriedade brasileira
nessa quadra. Na categoria dos chefes politicos posso destacar, porém,
tres estadistas que prestaram ao movimento em epochas differentes um
concurso decisivo: Dantas, que primeiro collocou ao serviço della um
dos partidos constitucionaes do paiz, o liberal, serviço da ordem do
que Gladstone prestou á causa irlandeza; Antonio Prado, que retirou o
veto de S. Paulo á abolição, quebrando assim a resistencia até então
compacta do Sul, a porção mais rica do paiz, e João Alfredo, que levou
o partido conservador a apresentar a lei da extincção immediata, acto
que mesmo nessa epocha foi uma grande audacia, e que pelo estado e
disposição geral da politica só podia ter sido obra delle mesmo. José
Bonifacio, cuja adhesão á idéa foi um contingente egual á libertação do
Ceará, Christiano Ottoni, Silveira da Motta, e outros, eu os contaria
na primeira classe, a dos propagandistas.
É-me quasi impossivel fallar hoje da abolição sinão por incidentes e
figuras destacadas... Tudo o que digo é sob a resalva de que teria
muito mais que dizer; quando pronuncio um nome está subentendido que
é apenas um de um extenso calendario, e que os diptycos de um e outro
lado estão cheios... Quem fará d’entre os contemporaneos essa historia
com imparcialidade, justeza e penetração, sem deixar entrar nella a
paixão politica, o preconceito sectario, a fascinação ou sujeição
pessoal? Ninguem, de certo, o que quer dizer que haverá no futuro
diversas historias. A minha contribuição para o assumpto ha de um dia
ser o meu archivo, e alguns fragmentos a respeito de diversos factos
em que estive envolvido ou de que tive conhecimento directo... Esse
trabalho, essa desobriga, ao mesmo tempo que depoimento pessoal, espero
que Deus me dará tempo e modo de o fazer como planejo. Seria uma
especie de chave para o periodo que encerra a éra monarchica.
Dentre aquelles com quem mais intimamente lidei em 1879 e 1880 e
que formavam commigo um grupo homogeneo, a nossa pequena egreja,
as principaes figuras eram André Rebouças, Gusmão Lobo e Joaquim
Serra... A egreja fronteira era a de José do Patrocinio, Ferreira de
Menezes, Vicente de Souza, Nicolau Moreira, depois João Clapp com a
Confederação Abolicionista. Si eu estivesse escrevendo neste momento
um escorço do movimento abolicionista de 1879-1888, já teria citado
Jeronymo Sodré, que foi quem pronunciou o _fiat_, e passaria a citar
os meus companheiros de Camara Manoel Pedro, Corrêa Rabello, S. de
Barros Pimentel, e outros, porque o movimento começou na Camara em
1879, e não, como se tem dito, na _Gazeta da Tarde_ de Ferreira de
Menezes, que é de 1880, nem na _Gazeta de Noticias_, onde então José
do Patrocinio, escrevendo a «Semana Politica», não fazia sinão nos
apoiar e ainda não adivinhava a sua missão. De certo pelos escravos
já vinham trabalhando Luiz Gama e outros, mesmo antes da lei de 1871,
como trabalharam todos os collaboradores dessa lei; mas o movimento
abolicionista de 1879 a 1888 é um movimento que tem o seu eixo proprio,
sua formação distincta, e cujo principio, marcha, velocidade, são
faceis de verificar; é um systema fluvial do qual se conhecem as
nascentes, o volume d’agua e valor de cada tributario, as quedas, os
_rapidos_, o estuario, e esse movimento começa, fóra de toda duvida,
com o pronunciamento de Jeronymo Sodré em 1879 na Camara... Esse
pronunciamento vem resolvido da Bahia e rebenta na Camara como uma
manga d’agua, repentinamente. Nada absolutamente o fazia suspeitar...
Ao acto de Jeronymo Sodré filia-se chronologicamente a minha attitude
dias depois... Mais tarde é que entram Rebouças, Patrocinio, Gusmão
Lobo, Menezes, Joaquim Serra... Isto não é apurar a data dos primeiros
escriptos abolicionistas de cada um; os meus, por exemplo, datavam
da Academia... É reivindicar para a Camara, para o Parlamento, a
iniciativa que se lhe tem querido tirar nesta questão, dando-se-a ao
elemento popular, republicano... É uma pura questão de datas; desde
que se dér a data certa a cada facto allegado, verificar-se-á o _autem
genuit_ acima... Reconheço que a minha inscripção vem na ordem do
tempo depois da de Jeronymo Sodré... As outras, porém, vieram depois
da minha... Foi o movimento popular talvez que mais tarde incubou o
germen parlamentar, não o deixando morrer nas Sessões seguintes, mas
que o germen foi parlamentar, que o _liber generationis_ começou em
1879 com Jeronymo Sodré, é o que se póde demonstrar com os proprios
documentos, mesmo com aquelles em que se pretenda o contrario, uma
vez que sejam authenticos... A questão de iniciativa aliás tem um
interesse todo secundario, sobretudo quando a idéa está no ar e o
espirito do tempo a agita por toda a parte. Não ha nada mais difficil
do que avaliar a importancia relativa dos diversos factores de um
movimento que se torna nacional. O ultimo dos apostolos póde vir a ser
o primeiro de todos, como S. Paulo, em serviços e em proselytismo.
Tudo na abolição prende-se, não se póde escrever-lhe a historia
supprimindo qualquer dos seus élos... É um facto a reter: a compensação
vae sempre além, muito além, dos prejuizos que ella soffre, e, d’esse
modo, até elles a favorecem... Assim morre Ferreira de Menezes, mas
Patrocinio toma a _Gazeta da Tarde_; a minoria abolicionista de 1879
não é reeleita, surge a Confederação Abolicionista; quando o Ceará
conclue a sua obra, o Amazonas começa a d’elle; demittido um presidente
de provincia (Theodureto Souto), é nomeado um Presidente do Conselho
(Dantas); organizada a acção da policia, apparece a agitação no
exercito; ás sevicias da Parahyba do Sul e de Cantagallo succede o
combate do Cubatão; morto José Bonifacio, toma o seu logar em S. Paulo
Antonio Prado; repellido pela Camara José Marianno, o Recife derrota o
ministro do Imperio; vacillando o partido liberal, move-se o partido
conservador; parte o Imperador, fica a Princeza... Ninguem afinal
sabe quem fez mais pela abolição: si a propaganda, si a resistencia;
si os que queriam tudo, si os que não queriam nada... Nada ha mais
illusorio que as distribuições de gloria... As lendas hão de sempre
viver, como raios de luz na treva amontoada do passado, mas a belleza
d’ellas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no esforço
que a humanidade faz para assim reter alguns episodios de uma vida tão
extensa que para abrangel-a não ha memoria possivel...
Não posso sinão dar ao acaso algumas impressões por isso deixo,
não sem constrangimento, de referir-me a nomes que entrariam em
qualquer resumo, por mais curto que fosse, note-se bem, do começo
da propaganda... Os dois grupos de que fallei, encontravam-se,
trabalhavam juntos, misturavam-se, mas a linha divisoria era sensivel:
um representava a acção politica, o outro a revolucionaria, ainda que
cada um reflectisse por vezes a influencia do outro. Isso no tempo
em que a idéa está sendo lançada, pois dentro de pouco o movimento
torna-se geral, e então ha o influxo das provincias, ha o Ceará, o
Amazonas, o Rio Grande do Sul, Pernambuco, a Bahia, S. Paulo, que
surgem como grandes fócos de propaganda... O movimento abolicionista
teve com effeito duas phases bem accentuadamente divididas: a primeira,
de 1879 a 1884, em que os abolicionistas combateram sós, entregues
aos seus proprios recursos, e a segunda, de 1884 a 1888, em que elles
viram sua causa adoptada successivamente pelos dois grandes partidos
do paiz. Em 1884 deu-se a conversão do partido liberal e em 1888 a do
partido conservador. A phase puramente abolicionista da campanha,--por
opposição á phase politica, que poderia entrar na historia dos dois
partidos rivaes,--foi a primeira.
De todos, aquelle com quem mais intimamente vivi, com quem estabeleci
uma verdadeira communhão de sentimento, foi André Rebouças...
Nossa amizade foi por muito tempo a fusão de duas vidas em um só
pensamento: a emancipação. Rebouças encarnou, como nenhum outro de
nós, o espirito anti-esclavagista: o espirito inteiro, systematico,
absoluto, sacrificando tudo, sem excepção, que lhe fosse contrario
ou suspeito, não se contentando de tomar a questão por um só lado,
olhando-a por todos, triangulando-a, por assim dizer,--era uma de
suas expressões favoritas,--socialmente, moralmente, economicamente.
Elle não tinha, para o publico, nem a palavra, nem o estylo, nem a
acção; dir-se-ia assim que em um movimento dirigido por oradores,
jornalistas, agitadores populares, não lhe podia caber papel algum
saliente, no emtanto elle teve o mais bello de todos, e calculado por
medidas estrictamente interiores, psychologicas, o maior, o papel
primario, ainda que occulto, do motor, da inspiração que se repartia
por todos,... não se o via quasi, de fóra, mas cada um dos que eram
vistos estava olhando para elle, sentia-o comsigo, em si, regulava-se
pelo seu gesto invisivel á multidão,... sabia que a consciencia
capaz de resolver todos os problemas da causa só elle a tinha, que
só elle entrava na sarça ardente e via o Eterno face a face... É-me
tão impossivel resumil-o a elle em um traço como me seria impossivel
figurar uma trajectoria infinita... Depois da abolição elle sempre teve
o presentimento de que a escravidão causaria uma grande desgraça á
dynastia, como assassinára a Lincoln. Seu maior amor talvez tenha sido
pelos seus alumnos da Polytechnica, mas como todas as suas recordações
d’ «a Escola» transformaram-se em outros tantos tormentos, quando os
viu glorificando o 15 de Novembro, que para elle era a desforra de 13
de Maio!...
Do seu quarto no Hotel Bragança, em Petropolis, onde durante annos
notára no seu diario a nossa pulsação commum, até o despenhadeiro
do Funchal, que linha a que descreveu André Rebouças! Elle foi o
cortezão do _Alagôas_... Um republicano, a quem veiu a tocar na hora da
amargura o papel de discipulo amado do velho Imperador banido... Foi um
industrial, um engenheiro ousado e triumphante, que acabou praticando
o tolstoismo... Foi um genio mathematico, um sabio, que reduziu sua
sciencia a uma serpentina em que de tudo distillava a abolição... Seu
centro de gravidade foi verdadeiramente o sublime... Não posso ainda
fallar d’elle em relação a mim, porque não o quizera fazer de modo
incompleto... Prefiro mostral-o em relação ao Imperador. Aqui está uma
dessas provas rapidas, photogenicas, que elle sabia tirar de si, e nas
quaes os que viveram com elle reconhecem-lhe a physionomia, apanhada
com toda a mobilidade da sua expressão e com a inalterabilidade do seu
affecto humano. É por acaso que encontro esta carta d’elle:
«Cannes, 13 de maio de 1892.
«Meu Mestre e meu Imperador,--Não passará o 3º anniversario da
Libertação da Raça Africana no Brazil sem que André Rebouças dê novo
testemunho de filial gratidão ao Martyr sublime da Abolição.
«Sinto-me feliz por ter sido escolhido pelo Bom Deus para representar
a devotação da Raça Africana a V. M. Imperial e á Princeza Redemptora,
e alegro-me repetindo-o incessantemente.
«É hoje grato relembrar a _synthese_ da nossa vida, como meu Bom
Mestre disse no _Alagôas_ quando commemorámos seu 64º anniversario.
«Principiou em Petropolis, em 1850, ha quarenta e um annos,
examinando-me em arithmetica, ainda menino de collegio, e continuou,
quasi quotidianamente, nas lições e nos exames das Escolas Militar,
Central e de Applicação na fortaleza da Praia Vermelha até dezembro de
1860.
«Os annos de 1861 e 1862 foram de estudos praticos de caminho de
ferro e de portos de mar na Europa. A primeira Memoria, escripta com
o Antonio, datada de Marselha, em 9 de junho de 1861, foi dedicada,
como de justiça, ao nosso Bom Mestre e Imperador... Quando Vossa
Magestade encontrava meu Pai, suas palavras primeiras eram:--_Como vão
os meninos?--Onde estão agora?--Recommende-lhes sempre que estudem e
que trabalhem._
«Voltámos ao Brazil em fins de 1862, e encetámos a vida pratica nos
trabalhos militares de Santa Catharina, motivados pelo conflicto
Christie.
«A 28 de dezembro de 1863 separei-me, pela primeira vez, do meu irmão
Antonio... Começa d’ahi em diante o periodo industrial da minha vida...
«Vossa Magestade e meu Pai não queriam que eu tivesse uma orientação
além da vida tranquilla da Sciencia e do Professorado; mas o
Visconde de Itaborahy, que tambem me devotava affeição paternal,
dizia:--_André!... Quero que você succeda ao Mauá!..._
«Sabe Vossa Magestade quanto soffri da oligarchia politicante e da
plutocracia escravocrata nesses afanosos tempos... Só tenho hoje
delles uma consolação:--Projectei e construi as Docas de Pedro II;
concebi e dirigi o caminho de ferro Conde d’Eu e sua bella estação
maritima do Cabedello.
«Vossa Magestade gosta de recordar que, em Uruguayana, salvámos
juntos, pelo nosso horror ao sangue, 7000 Paraguayos e centenas de
Brazileiros... Na actual antipathia ao Militarismo, apenas lembro-me
dos trabalhos de Itapirú e Tuyuty.
«Em 1880 começa a Propaganda Abolicionista. Nós, tribunos ardentes,
só tinhamos uma certeza e uma esperança:--o Imperador. Em 1871 havia
Vossa Magestade concedido á Filha Predilecta libertar o berço dos
captivos com Paranhos, Visconde do Rio Branco.
«Em 1888 a iniciativa partiu d’Aquella que não póde ver lagrimas nem
ouvir soluços de pobres, de infelizes e de escravos, no amor santo de
Martyr do Christianismo Inicial, aspirando menos á gloria na Terra do
que anhelando a benemerencia no Ceu, junto a Jesus, o Redemptor dos
Redemptores.
«Emfim... Creio que podemos esperar tranquillos o juizo de Deus;
porque havemos cumprido sua grande Lei trabalhando pelo Progresso da
Humanidade.
«Agora, só tenho a dizer-lhe que desde 15 de novembro de 1889 perdi
a linha divisoria entre meu Pai e meu Mestre e Imperador, e que é na
maior effusão de amor que me assigno,--Com todo o Coração--_André
Rebouças_.
Ou este itinerario, que elle traçára para a fuga de escravos de
S. Paulo para o Norte, pura phantasia, mas tão cheio para todos
nós de vestigios de sua originalidade, de toques da sua generosa
sensibilidade, quasi impessoal:
CAMINHO DE FERRO SUBTERRANEO
do
ALTO S. FRANCISCO AO CEARÁ LIVRE
ESTAÇÃO INICIAL... S. Paulo; junto ao tumulo de Luiz Gama.
SEGUNDA ESTAÇÃO... Pirassinunga.
TERCEIRA ESTAÇÃO... Cachoeira de Mogy-Guassú.
QUARTA ESTAÇÃO... Era pleno sertão, com rumo de Nordéste; o Sol deve
amanhecer á direita e cair, á tarde, á esquerda.
QUINTA ESTAÇÃO... Piumhy, nascente do Rio S. Francisco, acompanhando
sempre o bello rio, abundante de peixes e de fructos deliciosos.
SEXTA ESTAÇÃO... De um lado Goyaz livre; do outro o sertão da Bahia,
onde não ha _capitães do mato_.
SETIMA ESTAÇÃO... Na Villa da Barra, onde começam as grandes
cachoeiras do S. Francisco.
OITAVA ESTAÇÃO... No varadouro das aguas do S. Francisco para as do
Parnahyba.
NONA ESTAÇÃO... No Paraiso,--no Ceará Livre.»
Mathematico e astronomo, botanico e geologo, industrial e moralista,
hygienista e philanthropo, poeta e philosopho, Rebouças foi talvez
dos homens nascidos no Brasil o unico _universal_ pelo espirito e
pelo coração... Pelo espirito teremos tido alguns, pelo coração
outros; mas sómente elle foi capaz de reflectir em si ao mesmo tempo
a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem
sabe si não foi a imagem que partiu o espelho! «Delirante ovação dos
meus alumnos, escrevia elle em 15 de maio de 1888 no seu diario.
Annuncio-lhes o projecto de Triangulação Moral e Cadastral do Brasil.
Voto de louvor pela Congregação. Nova ovação. Carregado pelos alumnos
por todo o peristylo.» Da abolição elle foi o maior, não pela acção
exterior, ou influencia directa sobre o movimento, mas pela força e
altura da projecção cerebral, pela rotação vertiginosa de idéas e
sensações em torno do eixo consumidor e candente, que era para elle o
soffrimento do escravo. Era uma fornalha cosmica a que ardia nelle.
Si Rebouças inda é visto no seu tempo como uma estrella de segunda
grandeza, é porque estava mais longe do que todas... Dos Evangelistas
da nossa boa nova elle é que teria por attributo a aguia... Ha no seu
estylo e nos seus moldes muita coisa que lembra S. João... Idealista
todo elle, é quasi só por symbolos que escreve... A ilha da Madeira foi
a Pathmos de um apocalypse infelizmente perdido, porque suas ultimas
paginas, voltado para o Sul, elle as escrevia, tomando por lettras as
estrellas e as constellações. Sua lenda, porém, está feita, não ha
perigo para elle de esquecimento: a lenda do seu desterro e de sua
amizade a D. Pedro II.
* * * * *