Não me custou nada essa eleição... Custou sim a Villa-Bella na côrte

e na provincia a Adolpho de Barros, que passou pela politica como um

perfeito _gentleman_, seu presidente, incluirem-me na lista... Meu nome

afastava os de outros que eram antigos luctadores, como o dr. Aprigio

Guimarães, popular na Academia pelo seu liberalismo republicano e

sua eloquencia tribunicia. Eu não tinha que ter remorso disso, _fata

viam invenient_... Não era só meu nome que postergava o direito de

antiguidade; a chapa estava cheia de nomes novos; eu representava uma

tradição de serviços ao partido, os de meu pae, que valiam bem os de

qualquer outro, e tinha confiança de que justificaria na Camara a

minha promoção rapida. Si não me deu trabalho algum essa eleição, que

foi feita pelo partido, dispondo de todos os elementos officiaes, não

deixou de ter para mim o seu episodio... N’uma sessão academica de 11

de agosto, no theatro Santa Isabel, quando eu proferia, do camarote

do Presidente, as primeiras palavras, fui acolhido pelos protestos e

vozeria de um grupo numeroso, que se tornou dominante, e que depois

transferia para uma praça da cidade o seu _meeting_ de indignação

contra mim... O thema do meu improviso, em resposta aos epigrammas e

diatribes contra S. Christovão que tinham soado no palco, fôra este:

a grande questão para a democracia brasileira, não é a monarchia, é

a escravidão. Posso dizer que experimentei por vezes a doçura da

popularidade; nada, porém, eguala o prazer de uma dessas tempestades

levantadas contra si pelo orador que se sente de posse da verdade e ao

serviço da justiça, quando antevê que esses que o injuriam naquelle

momento, estarão com elle no dia seguinte... Eu deixava passar aquella

onda raivosa e espumante, que a intriga, explorando a susceptibilidade

propria da democracia pernambucana, as reminiscencias praeiras, e com

imperfeito conhecimento do individuo, do papel que elle ia representar,

impelliam contra a minha candidatura... Eu sabia que a palinodia havia

de ser completa, que se desfaria o _mal-entendu_ creado entre mim e o

povo do Recife, desde que elle visse o fim para o qual eu aspirava ao

seu mandato... Na verdade, a opinião do partido popular, ciumento dos

seus fóros e tradições, mudou a meu respeito logo na primeira sessão em

que tomei a palavra na Camara... Desde esse dia estabeleceu-se entre

mim e o Recife uma affinidade que nunca se interrompeu e que ainda

hoje, em que estou quanto á politica retirado de tudo, estou certo,

será a mesma, porque foi como que o encontro de duas opiniões que se

miraram uma na outra até ás fontes do sentimento e reconheceram na

transparencia do seu fundo a sinceridade de cada uma.

Foi um anno de actividade e de expansão unico em minha vida, esse de

1879, em que fiz a minha estréa parlamentar. Posso dizer que occupei

a tribuna todos os dias, tomando parte em todos os debates, em todas

as questões... O favor com que era acolhido, os applausos da Camara

e das galerias, a attenção que me prestavam, eram para embriagar

facilmente um estreante... Como hoje seria diverso, e quanto tudo

aquillo está desvalorisado para mim como prazer do espirito! Hoje é

a gotta crystallina que mana da rocha do ideal,--fonte occulta que

todos temos em nós,--e não os grandes chafarizes e aqueductos da praça

publica, que unica me desaltera. Então tudo me servia para assumpto

de discurso; eu fallava sobre marinha e immigração, como sobre a

illuminação ou o imposto de renda, sobre o arrendamento do valle do

Xingú ou a eleição directa... Tinha o calor, o movimento, o impulso do

orador; não conhecia o _valerá a pena_? do observador que se restringe

cada vez mais... O publico, os grandes auditorios eram para mim o que é

hoje a minha cesta de papel, ou a labareda que dá conta da exuberancia

superflua do pensamento. Só muito tarde comprehendi porque os que

vieram antes de mim se retrahiam, quando eu me expandia: em muitos

era a saciedade, o enojo que começava; em alguns a troca da aspiração

por outra ordem de interesses mais utilitaria; em outros, porém, era

a consciencia que chegava á madureza, o amor da perfeição... Desses

discursos sem excepção que figuram em meu nome nos Annaes de 1879 e

1880 eu não quizera salvar nada sinão a nota intima, pessoal, a parte

de mim mesmo que se encontre em algum. Não assim com os que proferi na

Camara na semana de maio de 1888, nem com os do Recife em 1884-1885,

pronunciados no theatro Santa Isabel. Esses são o melhor da minha vida.

Quando disse que o periodo que vae até 1879 é o de minha formação

politica, quiz sómente dizer que é o periodo em que adquiro a

ferramenta com que hei de trabalhar em politica; ainda assim a

limitação do tempo não é precisamente exacta, porque é na propria

politica, na Camara, sob o influxo e determinismo do papel que escolho,

que a verdadeira formação se opera, isto é, que as contradicções se

conciliam, a subordinação dos impulsos e das tendencias se dá, as

affinidades essenciaes se pronunciam, os attritos interiores, as

vacillações, as attracções ou repulsões prejudiciaes se eliminam, e

o destino uma vez conhecido crêa a vocação, a tarefa mesma perfaz o

instrumento.

Com effeito, quando entro para a Camara, estou tão inteiramente sob

a influencia do liberalismo inglez, como si militasse ás ordens de

Gladstone; esse é em substancia o resultado de minha educação politica:

sou um liberal inglez,--com affinidades radicaes, mas com adherencias

whigs,--no Parlamento brasileiro; esse modo de definir-me será exacto

até o fim, porque o liberalismo inglez, Gladstoniano, Macaulayiano,

perdurará sempre, será a vasallagem irresgatavel do meu temperamento

ou sensibilidade politica; no emtanto, depois do primeiro ensaio, a

feição politica tornar-se-á secundaria, subalterna, será substituida

pela identificação humana com os escravos e esta é que ficará sendo

a caracteristica pessoal, tudo se fundirá n’ella e por ella. N’esse

sentido é a emancipação a verdadeira acção formadora para mim, a

que toma os elementos isolados ou divergentes da imaginação, os

extremos da curiosidade ou da sympathia intellectual, os contrastes,

os antagonismos, as variações de faculdades sensiveis á verdade, á

belleza, que os systemas mais oppostos reflectem uns contra os outros,

e constróe o molde em que a aspiração politica é vasada, e não ella

sómente, a intelligencia, a imaginação, os proprios sonhos e chimeras

do homem.

Como eu disse, porém, ha pouco, eu trazia da infancia o interesse pelo

escravo... Esse episodio não será talvez descabido n’estas recordações.

XX

MASSANGANA[3]

[3] A razão que me fez não começar pelos annos da infancia foi que

estas paginas tiveram, ao serem primeiro publicadas, feição politica

que foram gradualmente perdendo, porque já ao escrevel-as diminuia

para mim o interesse, a seducção politica. A primeira idéa fôra

contar minha formação monarchica; depois, alargando o assumpto,

minha formação politico-litteraria ou litterario-politica; por

ultimo, desenvolvendo-o sempre, minha formação humana, de modo que o

livro confinasse com outro, que eu havia escripto antes sobre minha

reversão religiosa. É d’este livro, de caracter mais intimo, composto

em francez ha sete annos, que traduzo este capitulo para explicar

a referencia feita ás minhas primeiras relações com os escravos.

O traço todo da vida é para muitos um desenho da creança esquecido

pelo homem, e ao qual este terá sempre que se cingir sem o saber...

Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das

minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito

annos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação

instinctiva, ou moral, definitiva... Passei esse periodo inicial, tão

remoto e tão presente, em um engenho de Pernambuco, minha provincia

natal. A terra era uma das mais vastas e pittorescas da zona do

Cabo... Nunca se me retira da vista esse panno de fundo da minha

primeira existencia... A população do pequeno dominio, inteiramente

fechado a qualquer ingerencia de fóra, como todos os outros feudos da

escravidão, compunha-se de escravos, distribuidos pelos compartimentos

da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de

rendeiros, ligados ao proprietario pelo beneficio da casa de barro

que os agasalhada ou da pequena cultura que elle lhes consentia em

suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a

residencia do senhor, olhando para os edificios da moagem, e tendo

por traz, em uma ondulação do terreno, a capella sob a invocação de

S. Matheus. Pelo declive do pasto arvores isoladas abrigavam sob

sua umbella impenetravel grupos de gado somnolento. Na planicie

extendiam-se os cannaviaes cortados pela alameda tortuosa de antigos

ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o

pequeno rio Ipojuca. Era por essa agua quasi dormente sobre os seus

largos bancos de areia que se embarcava o assucar para o Recife; ella

alimentava perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés,

a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas pescarias. Mais

longe começavam os mangues que chegavam até á costa de Nazareth...

Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o

aroma, espalhado por toda a parte, das grandes taixas em que cozia o

mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planicie

transformavam-se em uma poeira d’ouro; a bocca da noite, hora das

boninas e dos bacuraus, era agradavel e balsamica, depois o silencio

dos céos estrellados majestoso e profundo. De todas essas impressões

nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo

dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruido da vaga. Eu por

vezes acredito pisar a espessa camada de cannas que cercava o engenho e

escuto o rangido longinquo dos grandes carros de bois...

Emerson quizera que a educação da creança começasse cem annos antes

d’ella nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente a essa

regra. Eu sinto a idéa de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o

signal amante e querido de diversas gerações. N’essa parte a serie não

foi interrompida. Ha espiritos que gostam de quebrar todas as suas

cadeias, e de preferencia as que outros tivessem creado para elles; eu,

porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que

alguma vez me prendeu, o que faz que supporto captiveiros contrarios, e

menos do que as outras uma que me tivesse sido deixado como herança.

Foi na pequena capella de Massangana que fiquei unido á minha.

As impressões que conservo d’essa edade mostram bem em que profundezas

os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin escreveu esta

variante do pensamento de Christo sobre a infancia: «A creança

sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a

edade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a

velhice tera novamente o privilegio de carregar.» Eu tive em minhas

mãos como brinquedos de menino toda a symbolica do sonho religioso. A

cada instante encontro entre minhas reminiscencias miniaturas que por

sua frescura de provas _avant la lettre_ devem datar d’essas primeiras

tiragens da alma. Pela perfeição d’essas imagens inapagaveis póde-se

estimar a impressão causada. Assim eu vi a Creação de Miguel-Angelo na

Sixtina e a de Raphael nas Loggie, e, apezar de toda a minha reflexão,

não posso dar a nenhuma o relevo interior do primeiro paraiso que

fizeram passar deante dos meus olhos em um vestigio de antigo Mysterio

popular. Ouvi notas perdidas do Angelus na Campanha Romana, mas o

muezzin intimo, o timbre que sôa aos meus ouvidos á hora da oração,

é o do pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa,

murmurando o _Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Christo_. Este é o Millet

inalteravel que se gravou em mim. Muitas vezes tenho atravessado o

oceano, mas si quero lembrar-me d’elle, tenho sempre deante dos

olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou deante

de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia em

que, atravessando por um extenso coqueiral atraz das palhoças dos

jangadeiros, me achei á beira da praia e tive a revelação subita,

fulminante, da terra liquida e movente... Foi essa onda, fixada na

placa mais sensivel do meu _kodak_ infantil, que ficou sendo para mim o

eterno _cliché_ do mar. Sómente por baixo d’ella poderia eu escrever:

_Thalassa! Thalassa!_

Meus moldes de idéas e de sentimentos datam quasi todos d’essa epocha.

As grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer reviver

que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as

primeiras hastes da alma apparecem tão frescas como si tivessem sido

calcadas n’esta mesma manhã... O encanto que se encontra n’esses

_eidoli_ grosseiros e ingenuos da infancia não é sinão o sentimento de

que só elles conservam a nossa primeira sensibilidade apagada... Elles

são, por assim dizer, as cordas soltas, mas ainda vibrantes, de um

instrumento que não existe mais em nós...

Do mesmo modo que com a religião e a natureza, assim com os grandes

factos moraes em redor de mim. Estive envolvido na campanha da abolição

e durante dez annos procurei extrahir de tudo, da historia, da

sciencia, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dynastia; vi

os escravos em todas as condições imaginaveis; mil vezes li a _Cabana

do Pae Thomaz_, no original da dôr vivida e sangrando; no emtanto a

escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infancia, em

uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior

de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada

exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro

desconhecido, de cerca de dezoito annos, o qual se abraça aos meus

pés supplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha

madrinha para me servir. Elle vinha das vizinhanças, procurando mudar

de senhor, porque o d’elle, dizia-me, o castigava, e elle tinha fugido

com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a

natureza da instituição com a qual eu vivêra até então familiarmente,

sem suspeitar a dôr que ella occultava.

Nada mostra melhor do que a propria escravidão o poder das primeiras

vibrações do sentimento... Elle é tal, que a vontade e a reflexão não

poderiam mais tarde subtrahir-se á sua acção e não encontram verdadeiro

prazer sinão em se conformar... Assim eu combati a escravidão com

todas as minhas forças, repelli-a com toda a minha consciencia, como

a deformação utilitaria da creatura, e na hora em que a vi acabar,

pensei poder pedir tambem minha alforria, dizer o meu _nunc dimittis_,

por ter ouvido a mais bella nova que em meus dias Deus pudesse mandar

ao mundo; e, no emtanto, hoje que ella está extincta, experimento uma

singular nostalgia, que muito espantaria um Garrison ou um John Brown:

a saudade do escravo.

É que tanto a parte do senhor era inscientemente egoista, tanto a do

escravo era inscientemente generosa. A escravidão permanecerá por

muito tempo como a caracteristica nacional do Brasil. Ella espalhou

por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contacto foi a

primeira fórma que recebeu a natureza virgem do paiz, e foi a que elle

guardou; ella povoou-o, como si fosse uma religião natural e viva, com

os seus mythos, suas legendas, seus encantamentos; insufflou-lhe sua

alma infantil, suas tristezas sem pezar, suas lagrimas sem amargor,

seu silencio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade

sem dia seguinte... É ella o suspiro indefinivel que exhalam ao luar

as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que

me amamentou; ella envolveu-me como uma caricia muda toda a minha

infancia; aspirei-a na dedicação de velhos servidares que me reputavam

o herdeiro presumptivo do pequeno dominio de que faziam parte...

Entre mim e elles deve ter-se dado uma troca continua de sympathia,

de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a

sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instincto

mercenario da nossa epocha, sobrenatural á força de naturalidade

humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distinctamente

que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se

tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram

possivel.

Nessa escravidão da infancia não posso pensar sem um pezar

involuntario... Tal qual o presenti em torno de mim, ella conserva-se

em minha recordação como um jugo suave, orgulho exterior do senhor, mas

tambem orgulho intimo do escravo, alguma coisa parecida com a dedicação

do animal que nunca se altera, porque o fermento da desegualdade não

póde penetrar n’ella. Tambem eu receio que essa especie particular

de escravidão tenha existido sómente em propriedades muito antigas,

administradas durante gerações seguidas com o mesmo espirito de

humanidade, e onde uma longa hereditariedade de relações fixas entre

o senhor e os escravos tivessem feito de um e outros uma especie de

tribu patriarchal isolada do mundo. Tal approximação entre situações

tão deseguaes perante a lei seria impossivel nas novas e ricas fazendas

do Sul, onde o escravo, desconhecido do proprietario, era sómente um

instrumento de colheita. Os engenhos do Norte eram pela maior parte

pobres explorações industriaes, existiam apenas para a conservação do

estado do senhor, cuja importancia e posição avaliava-se pelo numero

de seus escravos. Assim tambem encontrava-se alli com uma aristocracia

de maneiras que o tempo apagou, um pudor, um resguardo em questões de

lucro, proprio das classes que não traficam.

Fiz ha pouco menção de minha madrinha... Das recordações da infancia a

que eclipsa todas as outras e a mais cara de todas é o amor que tive

por aquella que me criou até aos meus oito annos como seu filho...

Sua imagem, ou sua sombra, desenhou-se por tal modo em minha memoria,

que eu a poderia fixar si tivesse o menor talento de pintor... Ella

era de grande corpulencia, invalida, caminhando com difficuldade,

constantemente assentada,--em um largo banco de coiro que transportavam

de peça em peça da casa,--ao lado da janella que deitava para a praça

do engenho, e onde ficava a estribaria, o curral, e a pequena casa

edificada para o meu mestre e que me servia de escola... Ella não

largava nunca suas roupas de viuva. Meu padrinho, Joaquim Aurélio de

Carvalho, fôra conhecido na provincia pelo seu luxo e liberalidade,

de que ainda hoje se contam diversos rasgos. Estou vendo, através de

tantos annos, a mobilia da entrada, onde ella costumava passar o dia.

Nas paredes algumas gravuras coloridas representando o episodio de

Ignez de Castro, entre as gaiolas dos curiós afamados, pelos quaes seu

marido costumava dar o preço que lhe pedissem... ao lado em um armario

envidraçado as pequenas edições portuguezas dos livros de devoção e

das novellas do tempo. Minha madrinha occupava sempre a cabeceira de

uma grande mesa de trabalho, onde jogava cartas, dava a tarefa para a

costura e para as rendas a um numeroso pessoal, provava o ponto dos

doces, examinava as tisanas para a enfermaria defronte, distribuia as

peças de prata a seus afilhados e protegidos, recebia os amigos que

vinham todas as semanas attrahidos pelos regalos de sua mesa e de sua

hospitalidade, sempre rodeiada, adorada por toda sua gente, fingindo

um ar severo que não enganava a ninguem quando era preciso reprehender

alguma mucama que deixava a miudo os bilros e a almofada para chalrear

no gyneceu, ou algum morador perdulario que recorria demasiado á sua

bolsa. Parece que seu maior prazer era trocar uma parte das suas sobras

em moedas de ouro que ella guardava sem que ninguem o soubesse sinão

o seu liberto confidente para me entregar quando eu tivesse edade.

Era a isso que ella chamava o seu _invisivel_. Por occasião da morte

do servo de sua maior confiança, ella escrevia á minha mãe pela mão

de outros: «Dou parte a V. Ex. e ao meu compadre que morreu o meu

Elias, fazendo-me uma falta excessiva aos meus negocios. De tudo tomou

conta, e sempre com aquella bondade e humildade sem parelha, e ficou

a minha casa com elle no mesmo pé em que era no tempo do meu marido.

Nem só fez falta a mim como a nosso filhinho que tinha um cuidado

n’elle nunca visto. Apezar d’eu ter parentes a elle era a quem eu o

entregava, porque si eu morresse para tomar conta do que eu lhe deixava

para entregar a VV. EEx... Mas que hei de fazer, si Deus quiz?» Em

outra carta, mais tarde, a ultima que possúo, ella volta á morte de

Elias:--«... o meu Elias, o qual fez-me uma falta sensivel, tanto a mim

como ao meu filhinho, porque tinha um cuidado n’elle maior possivel,

como pelas festas que elle gosta de passear ia sempre entregue a

elle... Deus me dê vida e saúde até o vêr mais crescido para lhe dar

alguma coisa invisivel, como dizia o defunto seu compadre, pois só

fiava isso do Elias, apezar de ter ficado o Victor, mano d’elle, que

faço tambem toda a fiança n’elle...» Ah! querida e abençoada memoria,

o thesouro accumulado parcella por parcella não veiu a minhas mãos,

nem teria podido vir por uma transmissão destituida das fórmas legaes,

como talvez tenhas pensado... mas imaginar-te, durante annos, n’essa

tarefa agradavel aos teus velhos dias de ajuntar para teu afilhado que

chamavas teu filho um peculio que lhe entregarias quando homem, ou

outrem por ti a meu pae, si morresses deixando-me menor; acompanhar-te

em tuas conversas com o teu servo fiel, n’essa preoccupação de amor de

teus derradeiros annos, será sempre uma sensação tão inexprimivelmente

doce que só ella bastaria para destruir para mim qualquer amargor da

vida...

A noite da morte de minha madrinha é a cortina preta que separa do

resto de minha vida a scena de minha infancia. Eu não imaginava

nada, dormia no meu quarto com a minha velha ama, quando ladainhas

entrecortadas de soluços me accordaram e me communicaram o terror de

toda a casa. No corredor, moradores, libertos, os escravos, ajoelhados,

rezavam, choravam, lastimavam-se em gritos; era a consternação mais

sincera que se pudesse vêr, uma scena de naufragio; todo esse pequeno

mundo, tal qual se havia formado durante duas ou tres gerações em torno

d’aquelle centro, não existia mais depois d’ella: seu ultimo suspiro

o tinha feito quebrar-se em pedaços. A mudança de senhor era o que

havia mais terrivel na escravidão, sobretudo si se devia passar do

poder nominal de uma velha santa, que não era mais sinão a enfermeira

dos seus escravos, para as mãos de uma familia até então estranha. E

como para os escravos, para os rendeiros, os empregados, os pobres,

toda a _gens_ que ella sustentava, a que fazia a distribuição diaria

de rações, de soccorros, de remedios... Eu tambem tinha que partir de

Massangana, deixado por minha madrinha a outro herdeiro, seu sobrinho

e vizinho; a mim ella deixava um outro dos seus engenhos, que estava

de fogo morto, isto é, sem escravos para o trabalhar... Ainda hoje

vejo chegar, quasi no dia seguinte á morte, os carros de bois do novo

proprietario... Era a minha deposição... Eu tinha oito annos. Meu pae

pouco tempo depois me mandava buscar por um velho amigo, vindo do

Rio de Janeiro. Distribui entre a gente da casatudo que possuia, meu

cavallo, os animaes que me tinham sido dados, os objectos do meu uso.

«O menino está mais satisfeito, escrevia a meu pae o amigo que devia

levar-me, depois que eu lhe disse que a sua ama o acompanharia.» O

que mais me pesava era ter que me separar dos que tinham protegido

minha infancia, dos que me serviram com a dedicação que tinham por

minha madrinha, e sobretudo entre elles os escravos que litteralmente

sonhavam pertencer-me depois d’ella. Eu bem senti o contragolpe da sua

esperança desenganada, no dia em que elles choravam, vendo-me partir

espoliado, talvez o pensassem, da sua propriedade... Pela primeira vez

sentiram elles, quem sabe, todo o amargo da sua condição e beberam-lhe

a lia.

Minha formação · 第 11 / 16 段