de Nabuco tinham entre os contemporaneos cada um o seu nome, ou,
como esse, tirado pelos adversarios do alcance, da intenção que
lhe attribuiam, ou dado pela imagem ou phrase mais expressiva, ou
comprehensiva, de que elle se servira para caracterisar a situação.
«Eu entendo, dizia elle fallando da idéa de conciliação, a qual estava
no ar, que é preciso fazer alguma concessão no sentido que o progresso
e a experiencia reclamam, para que mesmo o orgulho e o amor proprio
não se embaracem ante a idéa da apostasia; para que a transformação
seja explicada pelo novo principio, pela modificação das idéas. A
conciliação como coalisão e fusão dos partidos, para que se confundam
os principios, para que se obliterem as tradições, é impraticavel,
e mesmo perigosa, e por todos os principios inadmissivel; porque,
destruidas as barreiras do antagonismo politico que as opiniões se
oppõem reciprocamente, postas em commum as idéas conservadoras e as
exaggeradas, estas hão de absorver aquellas; as idéas exaggeradas
hão de triumphar sobre as idéas conservadoras; as idéas exaggeradas
têm por si o enthusiasmo, as idéas conservadoras somente a reflexão;
o enthusiasmo é do maior numero, a reflexão é de poucos; aquellas
seduzem e coagem, estas sómente convencem... A historia nos diz que
n’estas coalisões a opinião exaggerada ganha mais que a opinião
conservadora...» E em seguimento: «Ouvi com repugnancia uma idéa
proferida n’esta casa, que os partidos por si é que se deviam
conciliar. Entendo ao contrario que a conciliação deve ser a obra do
governo e não dos partidos, porque no estado actual, si os partidos
por si mesmos se conciliarem, será em odio e despeito ao governo, e a
transacção, versando sobre o principio da auctoridade, não póde deixar
de ser funestissima á ordem publica e ao futuro do paiz...»
Esses quatro annos de ministerio foram para elle extremamente
trabalhosos, mas por egual fecundos. Meu pae vinha da magistratura e
da Camara com uma reputação feita de jurisconsulto. No ministerio da
Justiça elle a consolidou. Não tento agora um resumo de sua obra, que
extensamente recompuz em _Um Estadista do Imperio_. Escolho alguns
traços sómente para definir a sua individualidade e a sua influencia.
Coube-lhe em primeiro logar acabar inteiramente com o trafico de
Africanos que Eusebio de Queiroz, seu antecessor, ferira de morte, mas
que não queria desapparecer sinão mui lentamente; a menor fraqueza da
parte de uma futura administração fal-o-hia renascer com dobrada ancia
de aproveitar a monção, porque seus quadros e material conservavam-se
intactos no Brasil e em Africa. Nabuco propõe como recurso extremo
tirar-se o julgamento do crime aos jurados. Esse golpe na «instituição
popular» parecia uma enormidade aos idolatras do preconceito liberal:
elle, porém, sustentou-o com razões de uma coerção moral e social
absoluta. «Em 1850, vós o sabeis, disse elle á Camara, o grande mercado
dos escravos era nas costas; é ahi que havia grandes armazens de
deposito onde todos iam comprar; mediante essa lei de 4 de Setembro
de 1850»,--a lei de Eusebio de Queiroz,--«essas circumstancias se
tornaram outras, os traficantes mudaram de plano. Apenas desembarcados
os Africanos são para logo, por caminhos impervios e por atalhos
desconhecidos, levados ao interior do paiz. Á face d’estas novas
circumstancias que póde o governo fazer com a lei de 4 de Setembro
de 1850, cuja acção é sómente restricta ao littoral? Si desejamos
sinceramente a repressão, si não queremos sophismal-a, devemos seguir
os africanistas em seus novos planos... Não é para abusar que o governo
quer estas disposições, porque para abusar eram bastantes e poderosos
os meios que estão hoje á sua disposição... Um governo, a menos que
desconheça a sua missão, não póde por amor de um interesse comprometter
os outros interesses da sociedade: é na combinação de todos elles que
consiste o grande problema da administração publica... Eu vos disse que
o governo tinha o desejo sincero de reprimir o trafico e não queria
sophismar a repressão: não será sophismar a repressão o encarregar ao
jury o julgamento d’este crime?... Os africanistas não hão de deixar
de procurar para o desembarque aquelles sitios em que a opinião fôr
favoravel ao trafico; não hão de internar os africanos sinão para os
logares em que acham protecção, e o jury d’esses logares, os cumplices,
os interessados, os conniventes no crime, pódem julgal-o?...» O governo
triumphou, a lei proposta foi votada pelas Camaras... Ter ousado propôr
a derogação da competencia do jury quando o trafico estava expirante,
era a coragem do verdadeiro homem de Estado, cuja divisa deve ser o
_nil actum reputans_ de Cesar. A gloria não seria mais da repressão
depois do golpe de Eusebio; este a tinha tirado toda a antecessores e
successores egualmente; o que restava a quem viesse depois d’elle era
sómente o dever. Mais de uma vez meu pae teve que fazer frente aos
defensores theoricos da intangibilidade do jury para fazer triumphar
o principio superior da defesa social. Assustava-o a estatistica da
impunidade, e entre as causas d’esse estado de coisas elle contava o
poderio das influencias do interior que dominavam o jury e por esse
meio augmentavam e mantinham em obediencia a sua vassallagem. Como
remedio propunha a concentração do jury nos logares povoados bastante
para terem uma opinião independente.
Essa era a sua qualidade principal de politico: adaptar os meios aos
fins e não deixar periclitar o interesse social maior por causa
de uma doutrina ou de uma aspiração. Como se mostrou com o jury,
mostrou-se, elle, magistrado, com a magistratura. A distribuição da
justiça foi um de seus maiores empenhos na ordem administrativa; uma
boa magistratura, efficiente, instruida, prestigiada, era para elle
a solução de metade dos nossos problemas; levantar a vocação de juiz
por todos os meios ao alcance do Estado seria o complemento do seu
outro desideratum: levantar a vocação religiosa, formar um clero a
cuja mãos se pudesse entregar a guarda dos dez mandamentos, o deposito
da moral e dos costumes. No emtanto será elle o principal sustentador
das aposentadorias forçadas de magistrados vitalicios; elle quem
transformará em maxima do governo, em inspiração para os homens de
Estado, as palavras de um antigo chanceller francez, quando disse:
«Prefiro mil vezes ser julgado por um magistrado venal, porém, capaz, a
sel-o por um magistrado honesto, porém, ignorante, porque o magistrado
venal não faltará á justiça sinão nas causas em que tiver interesse
em fazel-o, emquanto que o magistrado ignorante só por um mero acaso
pronunciará uma boa sentença.»
Da mesma fórma com o clero. Como ministro da Justiça, elle dá um
forte impulso á educação do clero, propõe a creação de faculdades
theologicas; é d’elle o decreto que confere aos bispos o poder
_ex-informata conscientia_ sobre os seus sacerdotes, sem o qual não
seria praticavel a arregimentação passiva da milicia ecclesiastica;
e no emtanto é elle quem interrompe no Brasil o noviciado monastico.
Seu pensamento, longe de ser supprimir as ordens religiosas, era
regeneral-as, restituil-as á desejada pureza, ou, como elle disse em
uma phrase que se gravou na memoria de Pio IX, «levantar um muro de
bronze entre o novo e o velho clero.» Assim tambem serviu a monarchia
com lealdade e desinteresse; joven ainda, academico de Olinda, partiu
d’elle o primeiro grito ouvido e repercutido no Norte contra as
tendencias republicanas de 7 de Abril, mas a prerogativa monarchica
não encontrou entre nós mais forte barreira do que fosse o seu
espirito liberal fortemente imbuido do preconceito constitucional. É
caracteristico do seu modo de comprehender a posição de Conselheiro de
Estado a franqueza com que perante o proprio Imperador elle sustenta a
maxima,--_o rei reina e não governa_.
De 1868 a 1871, em que a idéa foi abraçada pelo Visconde do Rio-Branco
que a converteu em lei, meu pae foi o principal agitador da libertação
das gerações futuras. Em 1866 elle votára por essa reforma em despacho
de ministros e em 1867 fôra o seu mais estrenuo defensor no Conselho de
Estado, como relator do projecto que depois se converteu na lei de 28
de Setembro. Distribuindo no dia da victoria os louros do triumpho,
Francisco Octaviano render-lhe-á este tributo: «Ao seu nobre collega
o sr. Nabuco de Araujo tambem é indisputavel a gloria pelo zelo com
que no Conselho de Estado, na correspondencia com os fazendeiros e na
tribuna por meio de eloquentes discursos, fez amadurecer a idéa e tomar
proporções de vontade nacional.»
Essa foi a reforma a que elle se dedicou com maior interesse e amor...
Tambem desde 1866 o meu sonho, minha ambição para elle era que o seu
nome ficasse associado ao primeiro Acto de emancipação do reinado...
Quantas cartas minhas escriptas da Academia, e conservadas, como elle
fazia com todos os papeis que recebia, encontrei depois exprimindo
aquella esperança intima de que elle viesse a ser o Lincoln brasileiro!
E de certo de sua carreira nenhum traço me é mais precioso do que
esse que reconstrui com fidelidade em sua _Vida_ e que faz d’elle,
assim como Rio-Branco foi o Robert Peel, o Cobden d’aquelle primeiro
movimento abolicionista. Assim, si ao entrar eu para a Camara em 1879
elle vivesse ainda, ao passo que sua presença no Senado, modificaria
em muita coisa a minha liberdade de acção, em um ponto, tenho a
mais completa certeza, o meu papel teria sido o mesmo, ainda mais
accentuado: na questão dos escravos. N’essa elle não me corrigiria nem
me conteria. A sua attitude seria, como havia de ser a de Rio-Branco
si assistisse a mais uma Sessão Legislativa, francamente favoravel
á abolição. Si um e outro vivessem, o caracter revolucionario do
movimento teria talvez sido evitado, porque em ambos os partidos
haveria no momento decisivo,--depois foi tarde,--quem se identificasse
com a propaganda, impedindo assim no futuro a aspiração liberal
humana de tornar-se em fermento politico... Eu não tenho, graças a
Deus, duvida que esta seria a sua attitude, e posso assim dizer que
em 1879 não fiz como deputado sinão continuar do ponto em que elle
ficára, substituir-me a elle, com a differença natural entre minha
mocidade e sua velhice, desenvolvendo em favor dos escravos existentes
o pensamento que elle assignalára como um dever nacional, tanto no
preparo como na discussão da lei que libertou as gerações futuras.
Para o fim da vida seu liberalismo tinha tomado um tom muito
accentuado, mas era sempre sob fórmas concretas que elle encarava
a liberdade. Assim occupava-se sobretudo das garantias judiciaes
da liberdade individual. Elle tinha um certo numero de formulas
constitucionaes, de maximas politicas, que faziam parte de sua lealdade
tanto á causa monarchica como á causa liberal. Conservador na mocidade
e em toda a parte da carreira em que a vida se expandia e a emulação o
inspirava, foi na edade do retrahimento que elle rompeu com o partido
da tradição, que a seu vêr se tornára uma oligarchia, tomando a fórma
de um triumvirato; chefe liberal, porém, mostrou sempre preferir
a maneira, o compasso, a compostura da velha escola á lufa-lufa,
promiscuidade e indisciplina do seu novo campo.
Estes traços bastariam para desenhar o homem de Estado: era uma
natureza liberal, com um impulso imaginativo muito pronunciado,
vendo distinctamente o ideal politico, mas querendo realidades e não
phantasmas, preferindo um pouco de liberdade que se pudesse deixar
como a herança aos filhos, um bem-estar relativo, a grandes direitos
illusorios, em cuja posse não se pudesse entrar, ou a grandes reformas
do mechanismo politico que em nada melhorassem a condição do paiz.
Tinha um fundo de idealismo, formado de principios inflexiveis, mas
corrigido sempre pela intuição nitida dos effeitos praticos da lei. Era
um chefe de partido alheio á pequena politica, o que quer dizer que
exercia uma especie de auctoridade moral que os amigos e adversarios
compararam por vezes ao poder espiritual dos antigos mikados.
Vivendo no meio de uma elite verdadeiramente notavel de homens
de Estado, oradores, legisladores, a mais rica dos dois reinados
em talento parlamentar, tradições politicas e conhecimentos
administrativos, elle teve longo tempo entre elles por admissão geral
o papel de oraculo. Para o fim fallava raramente e uma tristeza
invencivel misturava-se ás suas adivinhações patrioticas. Hoje
dir-se-ia, lendo-o, que a uma distancia de doze ou quinze annos o fim
das instituições liberaes projectava na frente a sua sombra e que elle
a via avançar sobre a tribuna do Senado.
Foi muitos annos depois da sua morte, estudando-lhe a vida, meditando
sobre o que elle deixou do seu pensamento, compulsando o vasto archivo
por elle accumulado, a sua correspondencia politica, os testemunhos,
as controversias, suscitadas pela sua acção individual e as
consequencias a ella attribuidas por amigos e adversarios, que abrangi
a personalidade politica de meu pae. Na mocidade ser-me-ia impossivel
ter d’elle a comprehensão que depois formei; eu não teria as faculdades
para isso, a calma necessaria para admirar o que só falla á razão, o
espirito de systema, o genio constructor. Mas si o estadista só podia
ser medido e avaliado por mim em outra phase do meu desenvolvimento,
não soffri, toda a vida, influencia directa e positiva como a admiração
que tive pelo homem. Sua grande sciencia eu sabia bem, eu via, estar
n’elle e não nos livros, que litteralmente não eram sinão auctoridades
de que elle se servia para o publico, juizes, collegas... Mais, porém,
do que sua sciencia, o que me dominava n’elle era a harmonia visivel da
sua estructura mental e moral, manifestada por uma serenidade e uma
doçura sem egual.
Em 1860 meu pae mudou-se do Cattete para a praia do Flamengo, onde
residiu até á morte. A casa era uma d’essas construcções massiças
ainda do bom tempo da edificação portugueza no Rio de Janeiro, com
proporções no interior de um trecho de palacio ou de convento. Alli,
n’aquelles salões, e quartos que eram salas, elle estava á vontade,
tinha o espaço, e, com o mar em frente de suas janellas, a variedade
e o movimento exterior, precisos a um recluso dos livros. A sociedade
do Rio de Janeiro vinha ás suas partidas e recepções; vizinhos, nos
domingos, á missa rezada em seu oratorio; durante a sessão das Camaras,
deputados Pernambucanos, e sempre os intimos, como o Marquez de
Abrantes, Quarahim, os antigos collegas. Isto, além das vezes que ia
de carruagem ao Senado ou ao escriptorio, constituia toda a distracção
que elle tinha fóra do seu gabinete. Sua vida, póde-se dizer, era
exclusivamente cerebral, e nunca teve tempo, (nem um dia, talvez, em
toda ella), de interromper, de suspender, esse labor continuo, que era
todo elle um serviço forçado, nenhuma parte, nem a mais insignificante
siquer, sendo de sua propria escolha ou inclinação... D’esse modo de
viver, encerrado entre altas muralhas de livros, sahindo da sua cella
sómente para se encontrar em presença da familia com os que a sympathia
ou a fidelidade reunia em torno d’elle, resultou aquella bondade
captivante, que foi o seu principal traço.
É para mim hoje uma causa de arrependimento e compuncção o não ter
tido como principal aspiração saciar-me, saturar-me d’elle, fazer
do meu espirito uma copia, um borrão mesmo, do que havia impresso e
cravado no d’elle, quando mais não fosse, das notações que um instante
retive, mas deixei apagar... Ha lacunas que não me seria possivel
reparar... Estou-me lembrando agora dos grandes volumes encadernados
que faziam companhia no degredo do escriptorio á duplicata dos velhos
praxistas... Era a collecção dos periodicos em que collaborára ou que
redigira no Recife... Estavam alli vinte annos de sua vida... Toda essa
serie dispersou-se, desappareceu... Porque não coincidiu o interesse
profundo, incomparavel, que tudo isso depois me inspirou com o tempo em
que vivi ao lado d’elle? Este desejo de recolher os menores vestigios
do seu pensamento, os traços mais fugitivos da sua reflexão, que sempre
era, na esphera em que elle produzia, pessoal, creadora, transformadora
do assumpto que tratava, só me veiu quando já não podia recorrer a
elle, pedir-lhe esclarecimentos, fazel-o animar para mim aquella poeira
com a vida que estava só n’elle, dar-me a chave, o espirito da epocha,
o caracter, o alcance, a verdade real do que alli se representava, e
de que só elle possuia as limitações, a escala, o padrão definitivo
em que tudo devia ser tomado... E em relação aos personagens que
conhecêra, com quem vivera. Porque não fiz passar deante d’elle, sem
cançal-o nem forçal-o, a galeria dos seus contemporaneos para apanhar o
vestigio que lhe ficára de cada um?... No emtanto, quanto não conversei
com elle! Annos inteiros meu maior prazer eram as horas que elle nos
dava cada dia e em que me embebia em ouvil-o e, ainda mais, em vêl-o...
Hoje sinto não ter tido a ambição de não ser sinão o apparelho que
recebesse para conservar o mais que fosse possivel d’elle, e cuja
presença continua ao seu lado lhe fosse recolhendo as reminiscencias,
os pontos de vista, as imagens representativas, que cincoenta annos de
actividade cerebral traçaram em seu pensamento.
Feito este acto de contricção pelo que deixei de aproveitar d’elle
para minha propria formação e pelo que deixei perder ao seu espolio
intellectual, a verdade é que nenhuma sancção moral foi por muito
tempo tão forte para mim como a consciencia da relação que me prendia
a elle e que em todo o tempo estive sempre prompto a renunciar a uma
palavra d’elle,--que a não disse,--a minha inspiração pela sua, o papel
que eu ambicionasse pelo que elle me désse. Como eu disse, só muito
mais tarde, vinte annos depois de o ter visto pela ultima vez, pude
avaliar o que chamo hoje o seu genio politico e sentir por elle toda
a admiração consciente, objectiva, de que sou capaz. Mas ainda assim o
sentimento da sua superioridade no seu tempo foi para mim instinctivo.
Longe d’elle, na minha esphera intellectual independente, eu exprimiria
muitas opiniões, diversas das suas, teria muito exaggero da linha que
elle levava; não haveria hypothese, porém, de não ceder eu á menor
pressão que elle julgasse preciso exercer sobre a mim, a uma persuasão
que me quizesse incutir. A pretenção da mocidade, que se inspira em si
mesma e decreta a sua infallibilidade, porque só vê o lado das coisas
ao seu alcance, desapparecia sem hesitação a um appello da sua ternura,
a um toque da sua razão superior. Prouvéra a Deus tivesse sido assim
nos primeiros annos da curiosidade intellectual insaciavel, quando
primeiro travei conhecimento com a _terra incognita_ assignalada no
mappa da fé como o limite da propria imaginação.
O espectaculo da sua devoção concorreu mais do que nenhuma outra
influencia para conservar durante annos intacta a minha crença; depois
esta passou por grandes abalos, mas aquella impressão predominante
fez-me sempre tratar o que me parecia essencial na religião como a
esphera superior ou a fonte mais elevada da inspiração humana... Alguma
vez, entretanto, pensando n’elle e na sua grande auctoridade sobre
mim, não deixei de sentir a vantagem que os espiritos emancipados se
attribuem em relação aos que nunca sahiram da fé. Era no tempo em que
eu perguntava a mim mesmo si um homem, mesmo tendo o genio de um Santo
Thomaz de Aquino, podia ser chamado superior, si não tinha, em nosso
seculo, outro horizonte intellectual sinão o da revelação... Talvez
pensasse eu então como consolo que meu pae tambem tivera duvidas que
não deixava perceber, ou que tinha voltado á fé como a uma synthese
já prompta da vida humana em todas as suas relações depois de ter
debalde procurado construir outra por si mesmo. Só mais tarde alcancei
comprehender que a intelligencia póde trabalhar até ao fim inteiramente
alheia aos graves problemas religiosos que confundem o pensador que os
quer resolver segundo a razão, si nenhum choque exterior veiu perturbar
para ella a solução recebida na infancia. A duvida não é signal de
que o espirito adquiriu maior perspicuidade, é ás vezes um simples
mal-estar da vida. Uma existencia occupada por grandes trabalhos póde
não ter um momento para dar á duvida religiosa. Si não é exacto dizer
que a duvida nunca ajudou nenhum dos grandes genios da humanidade no
traço ou no aperfeiçoamento de sua obra, o numero dos que ella assistiu
é seguramente pequeno comparado ao dos que não precisaram de um sopro
de negação para os inspirar e souberam crear, crendo. Uma coisa pelo
menos é certa, a saber, que as faculdades creadoras devem estar
solidamente construidas para que a duvida não as faça produzir uma obra
menos consideravel ou menos bella do que o faria a fé. A duvida póde
ser o indicio de um novo destino humano, o esboço de uma intelligencia
ainda por vir, mas ella levará muito tempo para chegar a formar um
sentido superior á religião. As minhas idéas sobre o que constitue a
superioridade intellectual mudaram felizmente muito desde esse tempo em
que eu procurava pretextos para attribuil-a a espiritos destituidos da
faculdade da duvida, mas que em tudo mais me impunham admiração, como
meu pae. Eu tomaria por vezes então um litterato, um escriptor, como
superior a um d’esses pensadores asperos, cuja idéa só se póde colher
depois de quebrar o involucro resistente que a protege. É como si a
flôr que dura uma manhã devesse ser a ultima expressão do mundo vegetal
de preferencia ao cedro millenario, pae da floresta.
XIX
ELEIÇÃO DE DEPUTADO
Até 1878 foi propriamente o periodo da minha formação politica; o que
se segue, de 1879 a 1889, é o do papel que me tocou representar; o
final,--já agora devo esperar todo elle assim,--será o do amortecimento
do interesse politico e de sua substituição por outros, talvez ainda
mais irreaes e chimericos, porém, que de algum modo quadram melhor
com o crepusculo da vida, quando o espirito começa a ouvir ao longe o
toque de recolher. Durante aquelles dez annos a que me tenho referido,
não fui sinão um curioso, attrahido pelas viagens, pelo caracter dos
differentes paizes, pelos livros novos, pelo theatro, pela sociedade.
Uma vida invejavel para mim teria sido então o assistir dos bastidores
aos grandes factos contemporaneos, conviver com os personagens, e,
como distracção do presente, ter direito de entrada nas excavações de
Athenas ou de Roma. No fim desta phase de lazzaronismo intellectual,
quando sou pela primeira vez eleito para o Parlamento, eu tinha
necessidade de outra provisão de sol interior; era-me preciso, não mais
o dilettantismo, mas a paixão humana, o interesse vivo, palpitante,
absorvente, no destino e na condição alheia, na sorte dos infelizes;
aproveitar a minha vida em qualquer obra de misericordia nacional;
ajudar o meu paiz, prestar os hombros á minha epocha, para algum
nobre emprehendimento. Nenhuma causa politica, dados os elementos
que descrevi, poderia causar-me esse enthusiasmo, inspirar-me esses
arroubos; a politica seria sempre a emoção partidaria, incerta,
negativa, o temor de edificar desconfiado da solidez dos materiaes e
do terreno. Era preciso que o interesse fosse humano, universal; que
a obra tivesse o caracter de finalidade, a certeza, a inerrancia do
absoluto, do divino, como têm as grandes redempções, as revoluções da
caridade ou da justiça, as auroras da verdade e da consciencia sobre o
mundo. No Brasil havia ainda no anno em que comecei minha vida publica
um interesse d’aquella ordem, com todo esse poder de fascinação sobre
o sentimento e o dever, egualmente impulsivo e illimitado, capaz do
_fiat_, quer se tratasse da sorte de creaturas isoladas, quer do
caracter da nação... Tal interesse só podia ser o da emancipação, e
por felicidade da minha hora, eu trazia da infancia e da adolescencia
o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo,--bolbo que devia
dar a unica flôr da minha carreira...
O facto que me lançou na politica foi a morte de meu pae, em março
de 1878, anno em que serei eleito pela primeira vez deputado... Elle
morreu a tempo ainda de assegurar a minha eleição que tinha ficado
resolvida entre elle e o barão de Villa-Bella, chefe politico de
Pernambuco. Souza Carvalho, que muito impugnou, depois de morto meu
pae, a minha candidatura, foi a Villa-Bella e referindo-se áquella
morte, disse-lhe:--«_sublata causa, tollitur effectus_». Domingos de
Souza Leão, porém, tinha a religião da amizade e da lealdade, e a morte
de Nabuco, em vez de delir o seu compromisso, tornára-o de honra... Meu
desejo intimo era então continuar na diplomacia... Minha mãe, porém,
conservava a ambição de meu pae, de me vêr entrar na politica, para
um dia substituil-o, sentar-me na sua cadeira de senador, como elle
se sentára na de meu avô, que já não fôra o primeiro senador Nabuco,
porque encontrára no Senado seu tio José Joaquim Nabuco de Araujo,
o primeiro barão de Itapoan. Eu representaria assim no Parlamento a
quarta geração da mesma familia, o que não aconteceu, supponho, a
nenhum outro. Com Martim Francisco Junior, filho, neto, e bisneto de
parlamentares, as gerações politicas foram tres, por serem irmãos o avô
e o bisavô, Martim Francisco e José Bonifacio.