de uma aristocracia». Essa aristocracia já existe, ou, pelo menos, se
está formando rapidamente, como tudo se fórma alli: aristocracia de
nascimento, aristocracia de fortuna, aristocracia de intelligencia,
aristocracia de belleza. O que distingue essa aristocracia sem titulos
nem pergaminhos de nobreza, toda de convenção, mas, apezar disso, uma
aristocracia, o que a distingue das outras aristocracias do mundo
é não ser politica, ser mesmo o resultado da abstenção politica. É
em segundo logar,--e este é o ponto mais delicado da «_sociedade_»
americana,--a idéa que se insinuou entre as mulheres desse circulo
estreitissimo, de que o _gentleman_ inglez é um typo superior ao
dos seus patricios de maior cultura e distincção. É certo que as
Americanas que preferem casar com estrangeiro para pertencerem ás
rodas mais exclusivas da aristocracia européa são poucas em relação ás
que casam com compatriotas seus, mas a aristocracia é, em si mesma,
uma minoria, e são as suas minorias que melhor lhes representam o
espirito. Essa preferencia pelo estrangeiro, por parte da mulher
americana, quer me parecer um desastre sensivel para o sentimento da
egualdade dos Americanos. Si o resultado desse sentimento, e é claro
que o effeito não é de outra causa, é crear uma aristocracia em que
o homem é considerado abaixo do nivel da mulher, e menos proprio
para inspirar-lhe amor e desposal-a do que o _lord_ ou o _honorable_
inglez, póde-se dizer que, na mais alta esphera da sociedade, aquelle
sentimento falliu desastrosamente.
Nesse ponto, nenhuma alta sociedade soffre de um mal tão deprimente,
como é a consciencia que o homem do mundo americano tem de que a
sua joven patricia, bella e muitas vezes millionaria, reputa o
duque inglez ou o conde francez um ente superior a elle. Não é o
titulo necessariamente o que constitue a vantagem do estrangeiro
que telegrapha para Londres ou Pariz o seu _veni, vidi, vici_, dias
depois de ter desembarcado; é em parte o prestigio, a seducção do
mundo europeu e a idéa de que só excepcionalmente o Americano chegaria
a afinar-se com a sociedade ingleza, franceza ou romana, como ella,
americana, se afina; mas é principalmente o typo aristocratico
de homem que exerce sobre ella essa fascinação desoladora para
os seus compatriotas. Ha familias, e as haverá cada dia mais nos
Estados-Unidos, que são familias patricias, seja pela immensa riqueza,
como os Astors e os Vanderbilts, pela magistratura consular que
exerceram, como os Adams, os Hamiltons, os Jays, pelas gerações que
representam de nomes conhecidos e de proeminencia social, e é evidente
que nessa aristocracia, que tende a ter o seu espirito de classe, a
idéa de casamento com estrangeiro, ou de superioridade do estrangeiro,
não póde ser sinão a excepção. Mas em uma sociedade é preciso levar em
conta o sentimento do grupo que attráe nella a maior somma de interesse
publico, (não ha duvida que, no ultimo degráu da sociedade americana,
o prestigio do nobre inglez, dos bons titulos francezes, dos principes
romanos, vence toda a competição nacional). Está ahi uma terrivel
concurrencia, contra a qual é impotente o genio proteccionista do paiz.
Apenas, como compensação, póder-se-ia imaginar um _drawback_ em favor
dos Americanos que casassem na alta sociedade ou finança européas. Uma
aristocracia, onde as mulheres mais ambicionadas, as que têm a primazia
da belleza, da fortuna, da seducção, julgam o estrangeiro, quando se
trata de amor ou de união, mais ao seu nivel do que o seu compatriota,
soffre de um desequilibrio de ideal entre os dois sexos. Não é sinão
justo apreciar as sociedades pela sua flôr, pela sua _élite_, isto é,
pelo que ellas mais profundamente admiram em si mesmas e o mundo mais
admira nellas.
XVII
INFLUENCIA DOS ESTADOS-UNIDOS
Eu não podia, entretanto, ter vivido quasi dois annos nos
Estados-Unidos sem em algum ponto ser modificado pela influencia
norte-americana. Uma coisa é a Europa, outra a America do Norte.
Entre os Americanos, o metal do caracter, o fundo de experiencia
humana, o tacto da vida é, fallando do paiz como uma só pessôa moral,
anglo-saxonio. Os Estados-Unidos, como a Australia e o Canadá, não
pódem esconder a sua procedencia. O fundo anglo-saxonio revela-se,
augmentado ou diminuido, na coragem e tenacidade, na dureza e
impenetrabilidade, no espirito de empreza e de independencia da raça,
tambem na brutalidade e crueldade do instincto popular, nas rixas de
sangue, na bebida, nos lynchamentos, na sêde insaciavel de dinheiro,
e tambem, outros traços, na necessidade de limpeza physica e moral,
no espirito de conservação, na emulação e amor-proprio nacionaes, na
religião, no respeito á mulher, na capacidade para o governo livre.
Que homem differente, porém, é o Americano do Inglez! Os moldes são
tão diversos que, para explicar a differença, é preciso admittir uma
influencia modificadora mais forte do que a de instituições sociaes,
uma influencia de região,--cada grande região do globo produzindo como
o tempo uma raça sua, differente das outras. As instituições modificam
o caracter de um povo, mas não se provou ainda que lhe modificassem o
typo e o temperamento physico. Qual seria a differença entre o Grego
do tempo de Milciades e do tempo de Alexandre ou de Trajano? Qual a
differença do Napolitano do tempo de Affonso o Grande para o do rei
Umberto, ou do Portuguez manoelino para o de hoje?
A comparação do machinismo politico-social entre a America do Norte
e a Inglaterra é, em quasi tudo, favoravel a esta. As instituições
inglezas, tanto as politicas como as judiciarias, tanto as publicas
como as privadas, têm mais dignidade, mais seriedade, mais
respeitabilidade. Na Camara dos Communs não se imagina o processo do
_lobbying_, não ha na administração ingleza o _spoils system_, ninguem
pensaria em _squaring_ um tribunal inglez, não ha na Inglaterra um
trecho de territorio em que os cidadãos só tenham confiança na justiça
que fazem por suas mãos, como nos _lynchings_ americanos. A todos os
que têm que tratar com a administração, que estão na dependencia da
justiça, a organização americana offerece muito menos garantias de
equidade e menor protecção do que a ingleza.
Isto, por um lado; por outro, quem entra na vida publica tem que
procurar nos Estados-Unidos as boas graças de individuos muito
differentes dos que na Inglaterra abrem aos principiantes as portas
da politica; além disso, tem que apprender por um catecismo muito
mais relaxado. A intervenção do grande pensador, do grande escriptor,
do homem competente, faz-se sentir na Inglaterra mais do que nos
Estados-Unidos, onde as massas obedecem a influencias que não
têm nada de intellectual e não têm apreço por nenhuma especie de
elaboração mental. Tudo o que é superior tem, com effeito, o cunho da
individualidade, envolve, portanto, desdem pela sabedoria das massas. O
genio politico, qualquer que seja, está para ellas eivado de rebeldia.
Singularmente, o cidadão vale menos nos Estados-Unidos do que na
Inglaterra. Para ser uma unidade na politica americana, é preciso que
o individuo se matricule em um partido, e, desde esse dia, renuncie
á sua personalidade. Na Inglaterra não ha semelhante escravidão do
partido. O paiz é governado, como os Estados-Unidos, por dois partidos
que se alternam e se equilibram, mas os partidos inglezes são partidos
de opinião, não são _machines_, como os americanos, das quaes certo
numero de _bosses_ governam e dirigem os movimentos.
Tomando-se, porém, o individuo sem relação ao machinismo politico, o
homem que não tem dependencias da administração nem da justiça e que
renuncia o direito de desgovernar elle tambem os seus concidadãos, os
Estados-Unidos são o paiz livre por excellencia. Os Americanos são uma
nação que quizera viver sem governo e agradece aos seus governantes
suspeitarem-lhe a intenção. D’ahi, a popularidade de seus Presidentes:
elles não fazem sombra ao paiz, não pesam sobre a nação. A pressão
de cima para baixo, do governo sobre a sociedade, a que a humanidade
se habituou de tempos immemoriaes, de fórma a não poder viver sem
ella, faz-se sentir nos Estados-Unidos menos do que em outra qualquer
parte, menos do que na Inglaterra, onde a protecção governamental está
sempre presente. A columna da autoridade é menor sobre os hombros do
Americano do que sobre os de qualquer outro povo; a sua respiração é
a mais franca, a mais larga, a mais profunda de todas. O governo póde
ser melhor, mais perfeito na Inglaterra: que lhe importa isso, si o que
elle quer é mesmo que a acção do governo se vá cada dia restringindo e
elle a sinta menos e tenha menos que vêr com ella? A questão é saber si
a columna de auctoridade, que é hoje tão leve nos Estados-Unidos, não
virá um dia a ser a mais pesada de todas. O systema americano póde bem
corresponder, dada a differença de epocha e adeantamento, á liberdade
pessoal de que gozaram sempre mais ou menos as raças que tinham espaço
illimitado para se estenderem e escassa vizinhança em paiz novo.
No fundo, essa extrema liberdade é uma fórma de individualismo, de
isolamento, de vida á parte, de reponsabilidade ainda não formada, do
homem na sociedade. Isoladamente, o Americano será, como eu disse,
o mais livre de todos os homens; como cidadão, porém, não se póde
dizer que o seu contracto de sociedade esteja revestido das mesmas
garantias que o do Inglez, por exemplo. A auctoridade é menor sobre os
seus hombros, mas a solidariedade humana é tambem mais frouxa em sua
consciencia.
Uma coisa o governo americano não é: não é o governo do melhor
homem, como pretendiam ser as democracias antigas. Governo pessoal,
as presidencias pódem ser, pelo menos foram algumas accusadas de o
ser; não se póde, porém, apontar neste seculo o homem de influencia
nos Estados-Unidos, o Gladstone ou o Gambeta americano. A nação
dispensa tutores, directores, conselheiros, rejeita tudo o que pareça
_patronizing_, ares de protecção e condescendencia para com ella. Aos
seus olhos, o que faz um estadista consideravel e importante é a somma
de confiança que elle lhe merece, é o reflexo da satisfação que causa a
Uncle Sam.
A idéa de que o seu governo é o mais forte do mundo e o que mais
economisa e occulta a sua força, é o orgulho por excellencia do
Americano. Entre o militarismo europeu e a democracia desarmada dos
Estados-Unidos póde um dia rebentar um conflicto que hoje parece quasi
um paradoxo figurar, mas, até se experimentar em uma grande guerra
estrangeira, como se provou em uma grande rebellião, a solidez e a
elasticidade da americana, não se a póde considerar superior á velha
textura européa.
O que se póde dizer é que os Estados-Unidos não tiveram ainda os
mesmos perigos de que se acautelar que a Europa. Esse governo que
muda todos os quatro annos, póde ser o mais forte do mundo, mas não
foi experimentado nas mesmas condições que os outros, e está para
estes, que são governos armados e em constante vigia pelo risco das
coalições estrangeiras, como os magnificos transatlanticos, de vastos
salões illuminados, cobertas altas, camarotes espaçosos e arejados,
verdadeiras cidades fluctuantes, estão como habitação para os navios de
combate.
A União, comparada á Inglaterra, é como a _prairie_ americana comparada
ao pateo interior de um castello normando. Em uma, ha de todos os lados
o espaço descortinado, a planicie sem fim; em outro, o espectador está
fechado por altas paredes, que lhe contam sempre a historia de outras
epochas. O passado pesa sobre o presente na Inglaterra e o limita;
na America, não ha vista retrospectiva. De tudo isto resulta para o
Americano um sentimento de independencia, que o faria, como fazia o
Grego, sentir-se metade escravo, si lhe dessem um rei, mesmo quando o
effeito da realeza fosse augmentar a sua parte effectiva de direitos e
de influencia na communhão. É nisto que consiste a maior «liberdade»
americana: no sentimento da egualdade hierarchica entre governantes e
governados.
Não havia perigo de que eu adquirisse essa idiosyncrasia americana:
era evidente para mim que ella era o resultado das condições em que
o paiz crescêra e que, si a independencia tivesse sido feita com um
principe inglez, como a nossa foi feita com o herdeiro do throno,
os Estados-Unidos, em um seculo de progresso e de adeantamento,
teriam desenvolvido para com a sua casa reinante o mesmo sentimento
de _loyalty_ dos Inglezes. Si a realeza, na Inglaterra, passou, no
nosso tempo, pela metamorphose que se observa do reinado de Jorge IV
para o reinado de Victoria, teria passado na America do Norte por uma
transformação ainda maior. Mr. King ou Mrs. Queen seria uma pessôa
muito mais popular do que Mr. President, e diariamente receberia mais
esmagadores _shake-hands_ ou mais familiares cartões-postaes. No Brasil
a monarchia foi o que vimos, uma pura magistratura popular; como não
seria nos Estados-Unidos, onde o principio activo, a força corrosiva
da democracia é ainda mais energica? A monarchia na Nova-Inglaterra,
teria, provavelmente, exercido maior influencia sobre as velhas
monarchias européas do que exerceu a grande Republica, e outra especie
de influencia sobre o resto da America.
Depois da recepção e do acolhimento que Dom Pedro II teve nos
Estados-Unidos em 1876, não era mais licito duvidar de que para a
intelligencia culta do paiz a monarchia constitucional, representada
por uma dynastia como a brasileira, era um governo muito superior ás
chamadas republicas da America Latina. Perante multidões americanas nem
sempre conviria, talvez, ao orador dizer isso; elle poderia ás vezes
declamar que a peior das republicas é um progresso sobre a melhor das
monarchias, mas eu sentia que fallar assim era o privilegio do demagogo
irresponsavel, e que esse não fôra o sentimento dos Washingtons,
dos Hamiltons, dos Jeffersons, nem é o dos que procuram seguir-lhes
as tradições. O effeito do republicanismo norte-americano só podia
ser para mim o de corrigir o que houvesse de supersticioso no meu
monarchismo, tirar-lhe tudo o que parecesse direito divino, consagração
super-humana. Entre os dois espiritos, o inglez e o norte-americano,
eu não via opposição, como não ha opposição entre as duas raças e as
duas sociedades; não havia nada mais facil de comprehender e conciliar
do que a admiração com que Gladstone falla dos Estados-Unidos
e a admiração dos escriptores mais respeitaveis da America pela
Constituição ingleza.
Nenhuma das minhas idéas politicas se alterou nos Estados-Unidos, mas
ninguem aspira o ar americano sem achal-o mais vivo, mais leve, mais
elastico do que os outros saturados de tradição e auctoridade, de
convencionanismo e cerimonial. Essa impressão não se apaga na vida.
Aquelle ar, quem o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá
com o de nenhuma outra parte; sua composição é differente da de todos.
Quanto a mim, fui tratado com tanta benevolencia, encontrei tão
generoso acolhimento nos Estados-Unidos, que ainda hoje me reconforto
nessas doces recordações. A impressão geral que me deixou o que vi
na America do Norte, é uma impressão de nitidez; tudo é nitido, de
contorno perfeito e incisivo, como uma medalha antiga. O Inglez fará
tudo solido; o Francez, elegante; o Americano procura fazer nitido,
_clear cut_. Isso reconhece-se logo em qualquer estampa americana.
Ha uma perfeição á parte, que é a perfeição americana, distincta do
ultimo toque que o Inglez ou o Francez dá ás coisas, perfeição real,
incontestavel, como é a japoneza. Póde-se preferir o modo de vêr, ou,
antes, o modo de olhar,--a arte não é no fundo sinão um modo de olhar,
uma questão de angulo visual,--do Europeu ao do Americano, é tambem
isso em grande parte uma questão de raça, mas não ha duvida que o traço
americano é um traço que alcançou, por sua vez, a perfeição. Tudo o que
vi me pareceu feito, desenhado com esse traço, que eu não confundiria
com outro. O que o distingue é que elle não exprime, como os outros,
um estado de espirito ou aspiração de ordem puramente esthetica; que
não exprime uma resolução, uma vontade, um caracter. Si não fosse a
imaginação historica, de que eu não poderia, nem quizera, desfazer-me,
nenhuma residencia, nenhuma vida, nenhum espectaculo me teria nunca
parecido tão encantador como o de Nova-York. Não sei si o céo de
Nova-York não me pareceu o mais bello do mundo; o que sei é que elle
derrama em ondas de luz a alegria, a vida, a coragem, sobre a mais
admiravel procissão de mocidade e de belleza humana que jámais passou
deante dos meus olhos, a que flue e reflue todas as tardes e manhãs da
Quinta Avenida para o Central Park.
Ao Americano, ao homem, não á mulher, e ao homem que não pertence á
_élite_ do paiz, faltará o que se tem convencionado chamar maneiras,
os toques ou signaes, desconhecidos dos profanos, pelos quaes os
iniciados nos segredos mundanos se reconhecem entre si; isto quer dizer
sómente que a americana é uma raça que ainda está crescendo na mais
perfeita egualdade e ganhando a vida em desenfreada competição. Não
ha, porém, no mundo uma escola egual a essa para se aprender o que,
d’ora em deante pelo menos, é o mais importante dos preparatorios da
vida,--a arte de contar comsigo só. O menino americano, e quando se
diz o menino nos Estados-Unidos entende-se a menina tambem, é mettido
desde quasi a primeira infancia em um banho chimico que lhe dá a cada
fibra da vontade a rijeza e a elasticidade do aço. Qualquer que seja
o valor da cultura, nenhum pae preferirá deixar ao filho mais um
sentido intellectual a deixar-lhe o poderoso _pick-me-up_ americano,
o cordial que impede a enervação nos grandes transes moraes. E que
o jogo da vida nos tempos modernos,--muito mais nos seculos que vão
vir, em que a concurrencia será ainda mais numerosa e implacavel,--não
se parece com figuras de minuete ou com divertimentos campestres do
seculo passado, como os vemos em um Boucher ou em um Goya; parece-se
com as chamadas _montanhas russas_: é um incessante despenhar a toda
a velocidade, montanha abaixo, de trens que com o impulso da descida
transpõem as escarpas fronteiras para se precipitarem de novo e de novo
reapparecerem mais longe, e para essa continua sensação de vertigem
é principalmente o coração que precisa ser robustecido. Segundo toda
probabilidade, os Estados-Unidos hão de um dia parar, e então terão
tempo para produzir a sua sociedade culta, como os velhos paizes da
Europa. Já ha nos Estados-Unidos porções da sociedade que pararam e
querem permanecer em repouso; essas formam o primeiro indicio de uma
aristocracia, que um dia será um grande poder na União, uma grande
influencia ou conservadora ou artistica.
Em uma entrevista que concedeu ha annos a um reporter americano,
Herbert Spencer concluiu com esta previsão sobre o futuro dos
Estados-Unidos: «De verdades biologicas deve-se inferir que a mistura
eventual das variedades alliadas da raça Aryana que formam a população
hão de produzir um mais poderoso typo de homem do que tem existido até
hoje, e um typo de homem mais plastico, mais adaptavel, mais capaz de
supportar as modificações necessarias para a completa vida social. Por
maiores que sejam as difficuldades que os Americanos tenham que vencer
e as tribulações por que tenham que passar, elles podem razoavelmente
contar com uma epocha em que hão de produzir uma civilisação mais
grandiosa do que qualquer que o mundo tenha visto.»
É possivel que seja aquella a lei biologica da mistura aryana, mas até
hoje ainda nenhum galho americano de tronco europeu mostrou poder dar
a mesma flôr de civilisação que a da velha estirpe. É possivel que a
civilisação americana venha um dia a ser mais grandiosa do que qualquer
que o mundo conheceu, mas eu consideraria perigoso, por emquanto,
renunciar a Europa nos Estados-Unidos a tarefa de levar a cabo a obra
da humanidade. Reduzida esta aos actuaes elementos americanos, muita
nobre inspiração talvez nunca mais se pudesse renovar e o genio da raça
humana não viesse nunca a reflorir. A educação americana parece a unica
que não é convencional, que não é uma pura galvanisação de estados de
espirito de outras epochas, de ideaes classicos e litterarios, que
homens que vivem entre livros insinuam aos que não tem tempo para
lêr. A idéa tem na America do Norte muito menor papel na vida do que
nos outros paizes, onde tudo está escripto e convertido em regra, e
dos quaes se póde dizer, invertendo a celebre phrase, que nada lhes
cáe sob os sentidos que não tenha estado primeiro na intelligencia.
Os Americanos, em grande escala, estão inventando a vida, como si
nada existisse feito até hoje. Tudo isto suggere grandes innovações
futuras, mas não existe ainda o menor signal de que a elaboração do
destino humano ou a revelação superior feita ao homem tenha um dia
que passar para os Estados-Unidos. A sua missão na historia é ainda
a mais absoluta incognita. Si elle desapparecesse de repente, não se
póde dizer o que é que a humanidade perderia de essencial, que raio se
apagaria do espirito humano; não é ainda como si tivesse desapparecido
a França, a Allemanha, a Inglaterra, a Italia, a Hespanha.
XVIII
MEU PAI
Por onde quer, entretanto, que eu andasse e quaesquer que fossem as
influencias de paiz, sociedade, arte, auctores, exercidas sobre mim,
eu fui sempre interiormente trabalhado por outra acção mais poderosa,
que apezar, em certo sentido, de estranha, parecia operar sobre mim
de dentro, do fundo hereditario, e por meio dos melhores impulsos do
coração. Essa influencia, sempre presente por mais longe que eu me
achasse d’ella, domina e modifica todas as outras, que invariavelmente
lhe ficam subordinadas. É aqui o momento de fallar d’ella, porque não
foi uma influencia propriamente da infancia nem do primeiro verdor da
mocidade, mas do crescimento e amadurecimento do espirito, e destinada
a augmentar cada vez mais com o tempo e a não attingir todo o seu
desenvolvimento sinão quando posthuma. Essa influencia foi a que
exerceu meu pae...
Quando eu o vi pela primeira vez, em 1857, elle tinha quarenta e
quatro annos e acabava de deixar o ministerio da Justiça. O gabinete
Paraná-Caxias (1853-57) fôra o mais longo que o Imperio até então tinha
tido e ficou sendo a mais brilhante escola de estadistas do reinado. O
grupo dos «moços» que o marquez de Paraná reuniu em torno de si, mostra
de que maneira elle lia os homens e o futuro. Paranhos, Wanderley,
Pedreira, Nabuco estavam todos destinados a representar primeiros
papeis em politica. Esse gabinete foi conhecido como o ministerio da
Conciliação. Elle correspondia ao pensamento, acceito pelo Imperador
depois do choque da ultima guerra civil do Imperio, de abrir a politica
aos elementos liberaes proscriptos, sem tirar a direcção d’ella ao
espirito conservador. Antes de entrar para o ministerio, fôra Nabuco
quem melhor definira o alcance e os limites d’essa nova politica, da
qual devia ficar depois da morte de Paraná, e por muito tempo, quasi
que o solitario continuador. Citarei um trecho d’esse seu discurso
de 1853 como simples deputado, discurso-programma, póde-se dizer,
pelo muito que será interpretado e invocado depois que por elle é
feito ministro, porque basta esse trecho para dar idéa do seu modo de
insinuar nos espiritos uma direcção nova, um rumo diverso do que se ia
levando.