É o paiz pratico por excellencia, e que tem a admiravel qualidade, de
bem ou mal, governar-se a si mesmo. Não lhe falta _manhood_, mas tudo
nelle preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem
positivo, em cuja vida a metaphysica tem pequena parte; reconhece a
cada instante que a vida é um _business_, que é preciso um lastro para
não afundar nella; põe a arte, a sciencia, a cultura, a _polity_,
depois do que é essencial, isto é, do _dollar_, indo sempre _ahead_
como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida
pratica como uma _obstruction_, por isso entregando-a a ella mesma,
ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande _operator_ de
Wall Street, depois a influencia de um _boss_, insensivel á inveja, á
má vontade, ao commentario, a tudo o que em outros paizes emmaranha,
complica e, ás vezes, inutilisa grandes carreiras; nunca procurando
o prazer para si, dando-o aos hospedes em sua casa, como se dão
brinquedos ás creanças, superior ás contrariedades, sobrio de dôr,
calmo na morte dos seus, e tratando a propria apenas como uma questão
de seguro... «_A vida privada_» aqui é apenas uma expressão conservada
do inglez. Todo o homem é um homem publico, e elle todo.»
São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos
Estados-Unidos que é uma nação _sem ideal_; diria que é uma nação cujo
ideal se está formando. Assim como o Inglez trata de adquirir fortuna e
independencia antes de entrar para a Camara dos Communs, dir-se-ia que
a nação americana trata de crescer, de povoar o seu immenso territorio,
de chegar ao seu completo desenvolvimento, _her full size_, para depois
fazer fallar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os
Estados-Unidos têm feito vida á parte e se têm occupado de si só; mas
um paiz que caminha para ser, si já não é, o mais rico, o mais forte,
o mais bem apparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar
a sua historia com a das outras nações, que se associar e luctar com
ellas.
«Agosto, 18. Gladstone, por ter attendido ás reclamações da guerra
civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os
conservadores. O tempo em que se assignou o tratado de Washington,
era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana.
Ha entre o Norte e o Sul mais que uma desintelligencia politica, ha
reserva tacita de uma má vontade hereditaria, um estado de guerra
latente.
«O que torna os dois grandes partidos nacionaes colligações accidentaes
e impossibilita a unidade de vistas em cada um delles, é a divergencia
dos interesses dos Estados. O partido Democrata, por exemplo, tem que
conciliar em uma formula negativa a politica dos Estados de Leste, dos
pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a politica dos Estados do
Oéste, dos _green-backs_; e o partido Republicano tem que harmonisar a
politica de intervenção de Grant com a politica de Hayes de completo
_self-government_ para os Estados do Sul.»
«Julho, 25. As scenas destes ultimos dias (a parede das estradas de
ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem
os communistas pegado fogo a Pariz é quem não lhes ensinou a lêr. Cada
um dos incendiarios, porém, era provavelmente assignante do _Rappel_.
Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se falla, não
passa de uma conversa particular no _bar-room_ de um hotel. Nova-York
está, talvez, a ponto de se tornar o theatro de um _riot_ amanhã, e as
auctoridades concedem um parque aos communistas para o seu _meeting_.
Tudo fraternisa: a tropa com os _strikers_, grevistas, os _citizens_
com a _mob_, e ninguem perde a calma. O pessimista francez não existe
neste paiz de optimistas que dizem sempre: «_Não haverá nada_», e
si ha: «Isto passa logo», e si dura: «Podia ser peior.» A barba do
vizinho, de que falla o dictado, não se entende aqui de cidade a
cidade, nem de bairro a bairro, mas quasi de casa a casa. Os proprios
que perdem tudo não acham meio de queixar-se sinão de si mesmos.»
«1.º de setembro. Ha poucos homens em politica que prefiram cahir
por seus principios a sophismal-os para ficar de pé. O ministro que
sustenta a preeminencia da Camara dos Deputados, procurará, si a
Camara lhe fôr contraria, provar que ella não representa o paiz e
apoiar-se na Camara alta. Durante o Imperio, Gambetta não fallaria do
suffragio universal com o enthusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista
se submetteria agora, como sob os Napoleões, a um _appello ao povo_.
No fundo só ha duas politicas: a politica de governo e a politica de
opposição.»
«Setembro, 8. Bradley, o juiz da Côrte Suprema, que de facto fez
a Hayes Presidente, tendo sido atacado pelos jornaes democratas e
accusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os directores do
caminho de ferro do Pacifico, entendeu dever justificar-se pela
imprensa. Nessa justificação, admittindo a possibilidade de ter
expressado a seus collegas durante o processo uma opinião diversa da
que deu, elle conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em
outro, sobre o voto da Florida, tendo chegado ao voto que deu, depois
de muita duvida. Esta carta a um jornal de Nova-York é curiosa em
muitos pontos de vista. Um juiz que vacilla, que chega a conclusões
differentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a
opinião que occasionalmente predomina em seu espirito no momento de ser
tomado o voto? Não será provavel, pelo menos possivel, que elle mude
ainda de juizo, depois de emittido o seu voto, isto é, de irreparavel?
Por outro lado, essas duvidas não provarão a sinceridade do processo
logico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o
começo de uma causa, opinião formada? A vacillação quadra menos com a
distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção
inabalavel e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta
de percepção e exclusivismo de juizo. Quanto á força que a reflexão
posterior tem dado em seu espirito ao voto que emittiu, é esse um
phenomeno de assentimento da consciencia, muito commum na magistratura.
Commettido o erro, a intelligencia o toma como verdade, porque é o
interesse do bom nome do juiz.»
«Setembro 4. Thiers morreu hontem. Por toda a parte a noticia vae
produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda
é irreparavel. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda
tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O
ultimo em França dos grandes homens do passado não nomeou successor...»
«Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando
se procura saber porque esse pequeno marselhez, nascido pobre, sem
familia, exposto ao ridiculo e ao desdem dos seus competidores
aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder
a sua importancia politica, até vir a ser, na extrema velhice, o
«Libertador do Territorio», encontra-se a explicação dessas mudanças.
Quando tantos homens de talento, caracter, fortuna e prestigio social
representavam o seu papel em um regimem e desappareciam, Thiers era
sempre contado como um poder politico. Foi seu destino fundar e
destruir governos, mas não se póde accusal-o de se ter divorciado
da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o paiz. A sua
grande mudança final de monarchista para republicano concidiu com
o seu interesse pessoal como primeiro Presidente da Republica, mas
coincidiu tambem com a conversão das classes médias, não ao principio
republicano, mas á idéa de que só a Republica era possivel. Sempre
a França, nos seus movimentos liberaes, o encontrou ao seu lado.
Durante o Imperio, elle fez uma opposição patriotica, que teria,
talvez, evitado Sedan e conservado a dynastia, si o não considerassem
orleanista. Quando concorreu para collocar Luiz Felippe no throno, o
pensamento era que uma monarchia republicana dispensava a republica. A
fraqueza da monarchia de 1830 foi que o principio da hereditariedade a
minou desde o começo. Luiz Felippe destruiu o direito divino para subir
e, depois, quiz servir-se delle para durar, transformando-o em bom
senso, principio de auctoridade, etc. O que faz a unidade da carreira
de Thiers, é que elle foi sempre pelo governo parlementar, pelo direito
popular representado nas assembléas legislativas. Por esse principio
renunciou a presidencia da Republica em mãos suspeitas. O segredo da
sua fortuna politica consistiu em guardar fidelidade á França.
«Muitas vezes um paiz percorre um longo caminho para voltar, cançado e
ferido, ao ponto donde partiu. É possivel que a França volte ainda á
monarchia legitima, e si Thiers tivesse vivido mais tempo e a Republica
trouxesse novas desgraças para a França, como a Communa, talvez fosse
o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis.
Mesmo assim, quando a França comparar os dois typos de estadistas:
Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monarchica
sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caracter, e
ficou sempre no mesmo logar á espera de que a França voltasse ahi, e
Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ella
se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu
conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado della e poder
valer-lhe com a sua consummada experiencia nos dias em que viesse a
precisar de uma palavra amiga.»
Ao relêr hoje esta pagina do meu diario de 1871, vejo que a minha
explicação da unidade da carreira politica de Thiers se parece
muito com a que, ha alguns annos, foi publicada de Talleyrand,
justificando-se em suas _Memorias_ de só ter mudado com a França e por
causa da França.
Esses trechos mostram que em Nova-York eu não me achava sob a
influencia americana, mas que continuava em mim a influencia européa e
eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quasi desinteressado da
politica, desinteressado pelo menos de toda a politica que não pudesse
converter em assumpto litterario, ou em nota critica e observação.
Agora direi a minha impressão geral dos Estados-Unidos, o que é hoje a
minha idéa da _democracia na America_.
XVI
TRAÇOS AMERICANOS
Dos Estados-Unidos não vi sinão muito pouco, como da Inglaterra, por
isso as impressões que reproduzo devem ser entendidas como impressões
de Nova-York e Washington, quasi exclusivamente. Por uma circumstancia
fortuita pude ficar em Nova-York quasi todo o tempo que passei na
legação do Brasil. O meu ministro, o barão de Carvalho Borges, de quem
conservo a mais grata recordação, estava de luto, por isso ausentára-se
de Washington e vivia em Nova-York, incognito, ao contrario de outros
collegas seus, contra cujo realce aos bailes e recepções da Quinta
Avenida os jornaes de Washington em vão reclamavam. Além das duas
grandes capitaes da União, a politica e a cosmopolita, conheci sómente
Philadelphia, durante o centenario, Saratoga, durante uma Convenção
Nacional, e Niagara e Boston, que me fizeram perder Newport. A idéa,
porém, que tenho é que quem viu Nova-York e Washington viu tudo que ha
que vêr nos Estados-Unidos, exceptuando sómente as poucas cidades a que
se pódem chamar cidades historicas, que têm o cunho das suas tradições
proprias. Quem viu Buffalo, St. Louis, S. Francisco, Chicago, não viu
porém Nova York, como quem viu Saratoga não viu Newport, ao passo que
Boston, Nova-Orleans, não têm semelhantes.
Para o engenheiro, para o inventor, para o architecto, para todo
economisador de tempo e trabalho, para quem admira acima de todos
o genio industrial deste seculo, os melhoramentos que elle tem
introduzido na ferramenta humana, os Estados-Unidos são de uma
extremidade a outra um paiz para se visitar e conhecer. É elle, talvez,
o paiz onde melhor se póde estudar a civilisação material, onde o
poder dynamico ao serviço do homem parece maior e ao alcance de cada
um. Em certo sentido, póde-se dizer delle que é uma torre de Babel bem
succedida. Na ordem intellectual e moral, porém, comprehendendo a arte,
os Estados-Unidos não têm o que mostrar, e certa ordem de cultura, toda
cultura superior quasi, não precisa para ser perfeita e completa de
adquirir nenhum contingente americano.
Da politica, a impressão geral que tive e conservo é a de uma lucta sem
o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras
e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra, por exemplo,
a carreira politica acceitavel e mesmo sympathica aos espiritos mais
distinctos. O que caracterisa essa lucta é a crueza da publicidade a
que todos que entram nella estão expostos. Como antes eu disse, não
ha vida particular nos Estados-Unidos. Para a reportagem não existe
linha divisoria entre a vida publica e a privada. O adversario está
sujeito a uma investigação sem limites e sem escrupulos, e não elle,
sómente,--todos que lhe dizem respeito. Si um candidato á Presidencia
tiver tido na mocidade a menor aventura, terá o desgosto de vêl-a
photographada, apregoada nas ruas, colorida em cartazes, cantada nos
_music-halls_, por todos os modos e invenções que o ridiculo suggerir
e parecerem mais proprios para captar o eleitorado. A campanha contra
Tilden foi feita com uma revelação de que elle tinha uma vez illudido
o fisco, a respeito do seu rendimento profissional. O politico é
entregue sem piedade aos _reporters_; a obrigação destes é rasgar-lhes,
seja como fôr, a reputação, reduzil-a a um andrajo, rolar com elle na
lama. Para isso não ha artificio que não pareça legitimo á imprensa
partidaria; não ha espionagem, corrupção, furto de documentos,
intercepção de correspondencia ou de confidencia, que não fosse
justificada pelo successo.
O effeito de tal systema póde ser moralisar a vida privada, pelo menos
a dos que pretendem entrar para a politica, si ha moralidade no terror
causado por um desses formidaveis _exposures_ eleitoraes, os Francezes
diriam _chantage_. A vida politica, porém, elle não tem moralisado. A
consciencia publica americana é muito inferior á privada, a moral do
Estado á moral de familia.
De certo, nos Estados-Unidos, os chamados _rings_, nós diriamos
quadrilhas, os roubos publicos, os syndicatos administrativos, são
denunciados e investigados como não o seriam talvez em nenhum paiz, o
americano não tendo pena dos adversarios, julgando-se obrigado para com
o seu partido a reduzil-os á condição mais humilhante, a expellil-os
um por um, sendo possivel, da vida publica. Mas, desde que a corrupção
reina nos dois partidos, que ambos têm as suas chagas conhecidas, as
suas ligações compromettedoras, todas as campanhas a favor da pureza
administrativa têm muito de insincero, de simulado, de convencional,
o que não acontece com as investigações da vida privada. Estas, sim,
encontram em toda a parte a unidade do sentimento e da educação
religiosa do paiz para echoal-as. A consciencia em voga entre os
_politicians_ tem a sua casuistica especial.
Isto não quer dizer que na politica americana não haja um typo muito
differente do do _politician_, ou, como os antigos lhe chamariam,
do demagogo; que, ao lado da consciencia elastica, insensibilisada
para todas as especies de fraude, de corrupção, de chicana, como
males inevitaveis da democracia, não exista a honra, o decoro, a
immaculabilidade. Ha homens na politica respeitados em todo o paiz, e
que ambos os partidos reputam incapazes da menor indelicadeza no que
toca á honestidade pessoal. Não ha um só, na actividade e na lucta
partidaria porém, a quem se attribúa o caracter preciso para repudiar
e condemnar os seus correligionarios ainda nos peiores recursos que
tiverem empregado. O homem da mais pura reputação no Senado americano
votará _solido_, sempre que se tratar do interesse geral do partido.
Não havia nada que me désse na America do Norte idéa da superioridade
de suas instituições sobre as inglezas. A atmosphera moral em roda
da politica era seguramente muito mais viciada; a classe de homens a
quem a politica attrahia, inferior, isto é, não era a melhor classe
da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrario, o que a sociedade
tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da politica. A lucta
não se trava no terreno das idéas, mas no das reputações pessoaes;
discutem-se os individuos; combate-se, póde-se dizer, com raios
Rœntgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a
casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regimen, sujeitos
ás execuções summarias da calumnia e aos lynchamentos no alto das
columnas dos jornaes, é natural que evitem a politica todos os que se
sentem improprios para o pugilato na praça publica, ou para figurar em
um _big show_.
A grandeza do espectaculo que dão os Estados-Unidos é tanto maior,
eu sei bem, quanto mais baixo o nivel do politico de profissão. A
degradação dos costumes publicos do paiz, coincidindo com o seu
desenvolvimento e cultura, com a sua accumulação de riqueza e de
energia, com os seus recursos illimitados, não quer dizer outra coisa
sinão que a nação americana não se importa que administrem mal os seus
negocios, porque não tem tempo para tomar contas. É como uma fazenda
de immensa safra, em que o proprietario ausente fechasse os olhos ás
dilapidações do administrador, levando-as á conta de lucros e perdas,
inevitavel em todo genero de negocios. Os Americanos deixam-se tratar
pelos seus _politicians_ do mesmo modo que os reis de França pelos seus
_fermiers-géneraux_. Sejam causados pela ignorancia e incapacidade,
ou pela corrupção e venalidade, prejuizos ha de sempre haver em toda
administração; para impedil-os seria preciso montar um systema de
fiscalisação ruinoso para o paiz, não só pelo seu custo, como porque
seria preciso distrahir para elle dos negocios e de outras profissões o
que o paiz tivesse de melhor.
Que póde acontecer de peior entregando-se o paiz á direcção de
partidos organizados como associações de seguro mutuo e que para isso
recolhem uma porcentagem do rendimento nacional? Uma aggravação de
impostos? Que importa ao Americano pagar mais alguns _cents_ no dollar
e não se incommodar com a politica? Envolverem os _politicians_ a
nação em uma guerra estrangeira? O perigo é muito problematico e a
varonilidade do paiz não teme que o envolvam em uma guerra sem elle
a querer e a achar legitima ou vantajosa. O Americano sabe que ha
no seu paiz uma opinião publica, desde que cada Americano tem uma
opinião sua. É uma força latente, esquecida, em repouso, que não se
levanta sem causa sufficiente, e esta raro se produz; mas é uma força
de uma energia incalculavel, que atiraria pelos ares tudo o que lhe
resistisse, partidos, legislaturas, Congresso, Presidente.
É nesse sentido um grande espectaculo. O governo tem uma capacidade
limitada de fazer mal; a parte de influencia e de lucros que a nação
abandona á classe politica, está circumscripta a uma escala movel,
isto é, proporcional ao rendimento publico, o que permitte á profissão
vantagens crescentes e progressivas, mas, como quer que seja, está
circumscripta; a nação deixa-se dividir em partidos, fórma e manobra em
campos eleitoraes, e, apezar da massa das abstenções, acompanha os maus
administradores dos seus interesses; mas todos sentem que de repente a
opinião póde mudar, tornar-se unanime, adquirir a força de um impulso
irresistivel, destruir tudo. Nos Estados-Unidos o governo não tem
assim a importancia que tem nos paizes onde elle governa; o governo
na America é uma pura gestão de negocios, que se faz, mal ou bem,
honesta ou deshonestamente, com a tolerancia e o conhecimento do grande
capitalista que a delega. A corrupção politica é, por isso, na America
do Norte, já uma vez citei esta imagem de Boutmy, uma simples erupção
na pelle, emquanto em outros paizes ella é um mal profundo, visceral.
O facto é que nenhuma impressão guardei dos Estados-Unidos de ordem
equivalente á impressão ingleza, nem mesmo a de liberdade individual.
E certo que o Americano, comparado com o Inglez, tem o sentimento da
altivez individual mais forte, porque não ha classe, nem hierarchia a
que elle se curve. O Inglez tem reverencia pela posição, pela classe,
pelo nascimento; o Americano não tem, e isto faz naturalmente que este
se considere mais independente no seu modo de sentir do que o Inglez. É
incontestavel que a democracia, introduzindo na educação a idéa da mais
perfeita egualdade, levanta no homem o sentimento do orgulho proprio. A
questão é saber, tomando o conjuncto dos resultados, si as sociedades
antigas onde as influencias tradicionaes não se apagaram de todo, como
a ingleza, antes são por assim dizer artificialmente mantidas, não
produzem com as limitações de classe uma dignidade pessoal moralmente
superior a essa altivez da egualdade. E preciso não esquecer,
tratando-se do Norte-Americano, que a egualdade humana para elle fica
dentro dos limites da raça; já não fallando do Chim ou do negro,--que
seria classificado, si vencesse o instincto americano, em uma ordem
differente da do homem,--nunca ninguem convenceria o livre cidadão dos
Estados-Unidos, como elle se chama, de que o seu vizinho do Mexico ou
de Cuba, ou os emigrantes analphabetos e indigentes que elle repelle
dos seus portos, são seus eguaes. Para com estes o seu sentimento de
altivez converte-se no mais fundo desdem que ente humano possa sentir
por outro.
Não quizera eu negara inspiração superior que ha no sentimento da
egualdade na America, como no antigo Israel e na antiga Grecia,
onde elle foi um sopro de liberdade, de heroismo, de independencia,
de que procederam os mais perfeitos typos na arte e na religião. É
evidente que nesse caminho é a Inglaterra que avança na direcção dos
Estados-Unidos e não os Estados-Unidos que retrocedem a encontrar a
Inglaterra. Ninguem que conheça o typo americano, desde o _news-boy_,
que grita os jornaes na rua, até o _king_, o rei, de algum immenso
monopolio ou especulação, estradas de ferro, minas de carvão ou de
prata, mercado de algodão ou de farinha de trigo, desconhecerá que
a caracteristica, por excellencia, do Americano é a convicção de que
_melhor_ do que elle não existe ninguem no mundo. A materia prima dos
discursos feitos ás multidões, ou dos artigos de propaganda eleitoral,
posso dizer que se contem toda nesta phrase, que ouvi a um dos oradores
de um _monster-meeting_: «Nos Estados-Unidos (elle disse, como sempre,
_in America_) cada homem é um rei, e cada mulher uma rainha». Talvez
fosse paradoxo dizer eu que o effeito de tal sentimento não póde ser
sinão gerar um illimitado orgulho, e que do orgulho renascerá sinão a
desegualdade, porquanto a egualdade póde ficar entranhada no sangue da
raça, o servilismo. Não foi assim sempre com as mais livres de todas
as raças e as mais soberbas de todas as democracias? O sentimento,
entretanto, da egualdade perante a lei e perante a justiça, qualquer
que possa ser o sentimento da egualdade de condição, é maior, é mais
seguro na Inglaterra do que nos Estados-Unidos. É mais provavel que o
_groom_ do marquez de Salisbury obtenha justiça contra seu amo do que o
caixeiro de um grande estabelecimento de Nova-York contra o patrão, si
este tiver qualquer influencia na City-Hall.