«Julho, 19 e Agosto 9. Não se póde dizer deste paiz que tenha ideal.

É o paiz pratico por excellencia, e que tem a admiravel qualidade, de

bem ou mal, governar-se a si mesmo. Não lhe falta _manhood_, mas tudo

nelle preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem

positivo, em cuja vida a metaphysica tem pequena parte; reconhece a

cada instante que a vida é um _business_, que é preciso um lastro para

não afundar nella; põe a arte, a sciencia, a cultura, a _polity_,

depois do que é essencial, isto é, do _dollar_, indo sempre _ahead_

como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida

pratica como uma _obstruction_, por isso entregando-a a ella mesma,

ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande _operator_ de

Wall Street, depois a influencia de um _boss_, insensivel á inveja, á

má vontade, ao commentario, a tudo o que em outros paizes emmaranha,

complica e, ás vezes, inutilisa grandes carreiras; nunca procurando

o prazer para si, dando-o aos hospedes em sua casa, como se dão

brinquedos ás creanças, superior ás contrariedades, sobrio de dôr,

calmo na morte dos seus, e tratando a propria apenas como uma questão

de seguro... «_A vida privada_» aqui é apenas uma expressão conservada

do inglez. Todo o homem é um homem publico, e elle todo.»

São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos

Estados-Unidos que é uma nação _sem ideal_; diria que é uma nação cujo

ideal se está formando. Assim como o Inglez trata de adquirir fortuna e

independencia antes de entrar para a Camara dos Communs, dir-se-ia que

a nação americana trata de crescer, de povoar o seu immenso territorio,

de chegar ao seu completo desenvolvimento, _her full size_, para depois

fazer fallar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os

Estados-Unidos têm feito vida á parte e se têm occupado de si só; mas

um paiz que caminha para ser, si já não é, o mais rico, o mais forte,

o mais bem apparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar

a sua historia com a das outras nações, que se associar e luctar com

ellas.

«Agosto, 18. Gladstone, por ter attendido ás reclamações da guerra

civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os

conservadores. O tempo em que se assignou o tratado de Washington,

era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana.

Ha entre o Norte e o Sul mais que uma desintelligencia politica, ha

reserva tacita de uma má vontade hereditaria, um estado de guerra

latente.

«O que torna os dois grandes partidos nacionaes colligações accidentaes

e impossibilita a unidade de vistas em cada um delles, é a divergencia

dos interesses dos Estados. O partido Democrata, por exemplo, tem que

conciliar em uma formula negativa a politica dos Estados de Leste, dos

pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a politica dos Estados do

Oéste, dos _green-backs_; e o partido Republicano tem que harmonisar a

politica de intervenção de Grant com a politica de Hayes de completo

_self-government_ para os Estados do Sul.»

«Julho, 25. As scenas destes ultimos dias (a parede das estradas de

ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem

os communistas pegado fogo a Pariz é quem não lhes ensinou a lêr. Cada

um dos incendiarios, porém, era provavelmente assignante do _Rappel_.

Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se falla, não

passa de uma conversa particular no _bar-room_ de um hotel. Nova-York

está, talvez, a ponto de se tornar o theatro de um _riot_ amanhã, e as

auctoridades concedem um parque aos communistas para o seu _meeting_.

Tudo fraternisa: a tropa com os _strikers_, grevistas, os _citizens_

com a _mob_, e ninguem perde a calma. O pessimista francez não existe

neste paiz de optimistas que dizem sempre: «_Não haverá nada_», e

si ha: «Isto passa logo», e si dura: «Podia ser peior.» A barba do

vizinho, de que falla o dictado, não se entende aqui de cidade a

cidade, nem de bairro a bairro, mas quasi de casa a casa. Os proprios

que perdem tudo não acham meio de queixar-se sinão de si mesmos.»

«1.º de setembro. Ha poucos homens em politica que prefiram cahir

por seus principios a sophismal-os para ficar de pé. O ministro que

sustenta a preeminencia da Camara dos Deputados, procurará, si a

Camara lhe fôr contraria, provar que ella não representa o paiz e

apoiar-se na Camara alta. Durante o Imperio, Gambetta não fallaria do

suffragio universal com o enthusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista

se submetteria agora, como sob os Napoleões, a um _appello ao povo_.

No fundo só ha duas politicas: a politica de governo e a politica de

opposição.»

«Setembro, 8. Bradley, o juiz da Côrte Suprema, que de facto fez

a Hayes Presidente, tendo sido atacado pelos jornaes democratas e

accusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os directores do

caminho de ferro do Pacifico, entendeu dever justificar-se pela

imprensa. Nessa justificação, admittindo a possibilidade de ter

expressado a seus collegas durante o processo uma opinião diversa da

que deu, elle conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em

outro, sobre o voto da Florida, tendo chegado ao voto que deu, depois

de muita duvida. Esta carta a um jornal de Nova-York é curiosa em

muitos pontos de vista. Um juiz que vacilla, que chega a conclusões

differentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a

opinião que occasionalmente predomina em seu espirito no momento de ser

tomado o voto? Não será provavel, pelo menos possivel, que elle mude

ainda de juizo, depois de emittido o seu voto, isto é, de irreparavel?

Por outro lado, essas duvidas não provarão a sinceridade do processo

logico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o

começo de uma causa, opinião formada? A vacillação quadra menos com a

distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção

inabalavel e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta

de percepção e exclusivismo de juizo. Quanto á força que a reflexão

posterior tem dado em seu espirito ao voto que emittiu, é esse um

phenomeno de assentimento da consciencia, muito commum na magistratura.

Commettido o erro, a intelligencia o toma como verdade, porque é o

interesse do bom nome do juiz.»

«Setembro 4. Thiers morreu hontem. Por toda a parte a noticia vae

produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda

é irreparavel. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda

tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O

ultimo em França dos grandes homens do passado não nomeou successor...»

«Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando

se procura saber porque esse pequeno marselhez, nascido pobre, sem

familia, exposto ao ridiculo e ao desdem dos seus competidores

aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder

a sua importancia politica, até vir a ser, na extrema velhice, o

«Libertador do Territorio», encontra-se a explicação dessas mudanças.

Quando tantos homens de talento, caracter, fortuna e prestigio social

representavam o seu papel em um regimem e desappareciam, Thiers era

sempre contado como um poder politico. Foi seu destino fundar e

destruir governos, mas não se póde accusal-o de se ter divorciado

da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o paiz. A sua

grande mudança final de monarchista para republicano concidiu com

o seu interesse pessoal como primeiro Presidente da Republica, mas

coincidiu tambem com a conversão das classes médias, não ao principio

republicano, mas á idéa de que só a Republica era possivel. Sempre

a França, nos seus movimentos liberaes, o encontrou ao seu lado.

Durante o Imperio, elle fez uma opposição patriotica, que teria,

talvez, evitado Sedan e conservado a dynastia, si o não considerassem

orleanista. Quando concorreu para collocar Luiz Felippe no throno, o

pensamento era que uma monarchia republicana dispensava a republica. A

fraqueza da monarchia de 1830 foi que o principio da hereditariedade a

minou desde o começo. Luiz Felippe destruiu o direito divino para subir

e, depois, quiz servir-se delle para durar, transformando-o em bom

senso, principio de auctoridade, etc. O que faz a unidade da carreira

de Thiers, é que elle foi sempre pelo governo parlementar, pelo direito

popular representado nas assembléas legislativas. Por esse principio

renunciou a presidencia da Republica em mãos suspeitas. O segredo da

sua fortuna politica consistiu em guardar fidelidade á França.

«Muitas vezes um paiz percorre um longo caminho para voltar, cançado e

ferido, ao ponto donde partiu. É possivel que a França volte ainda á

monarchia legitima, e si Thiers tivesse vivido mais tempo e a Republica

trouxesse novas desgraças para a França, como a Communa, talvez fosse

o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis.

Mesmo assim, quando a França comparar os dois typos de estadistas:

Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monarchica

sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caracter, e

ficou sempre no mesmo logar á espera de que a França voltasse ahi, e

Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ella

se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu

conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado della e poder

valer-lhe com a sua consummada experiencia nos dias em que viesse a

precisar de uma palavra amiga.»

Ao relêr hoje esta pagina do meu diario de 1871, vejo que a minha

explicação da unidade da carreira politica de Thiers se parece

muito com a que, ha alguns annos, foi publicada de Talleyrand,

justificando-se em suas _Memorias_ de só ter mudado com a França e por

causa da França.

Esses trechos mostram que em Nova-York eu não me achava sob a

influencia americana, mas que continuava em mim a influencia européa e

eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quasi desinteressado da

politica, desinteressado pelo menos de toda a politica que não pudesse

converter em assumpto litterario, ou em nota critica e observação.

Agora direi a minha impressão geral dos Estados-Unidos, o que é hoje a

minha idéa da _democracia na America_.

XVI

TRAÇOS AMERICANOS

Dos Estados-Unidos não vi sinão muito pouco, como da Inglaterra, por

isso as impressões que reproduzo devem ser entendidas como impressões

de Nova-York e Washington, quasi exclusivamente. Por uma circumstancia

fortuita pude ficar em Nova-York quasi todo o tempo que passei na

legação do Brasil. O meu ministro, o barão de Carvalho Borges, de quem

conservo a mais grata recordação, estava de luto, por isso ausentára-se

de Washington e vivia em Nova-York, incognito, ao contrario de outros

collegas seus, contra cujo realce aos bailes e recepções da Quinta

Avenida os jornaes de Washington em vão reclamavam. Além das duas

grandes capitaes da União, a politica e a cosmopolita, conheci sómente

Philadelphia, durante o centenario, Saratoga, durante uma Convenção

Nacional, e Niagara e Boston, que me fizeram perder Newport. A idéa,

porém, que tenho é que quem viu Nova-York e Washington viu tudo que ha

que vêr nos Estados-Unidos, exceptuando sómente as poucas cidades a que

se pódem chamar cidades historicas, que têm o cunho das suas tradições

proprias. Quem viu Buffalo, St. Louis, S. Francisco, Chicago, não viu

porém Nova York, como quem viu Saratoga não viu Newport, ao passo que

Boston, Nova-Orleans, não têm semelhantes.

Para o engenheiro, para o inventor, para o architecto, para todo

economisador de tempo e trabalho, para quem admira acima de todos

o genio industrial deste seculo, os melhoramentos que elle tem

introduzido na ferramenta humana, os Estados-Unidos são de uma

extremidade a outra um paiz para se visitar e conhecer. É elle, talvez,

o paiz onde melhor se póde estudar a civilisação material, onde o

poder dynamico ao serviço do homem parece maior e ao alcance de cada

um. Em certo sentido, póde-se dizer delle que é uma torre de Babel bem

succedida. Na ordem intellectual e moral, porém, comprehendendo a arte,

os Estados-Unidos não têm o que mostrar, e certa ordem de cultura, toda

cultura superior quasi, não precisa para ser perfeita e completa de

adquirir nenhum contingente americano.

Da politica, a impressão geral que tive e conservo é a de uma lucta sem

o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras

e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra, por exemplo,

a carreira politica acceitavel e mesmo sympathica aos espiritos mais

distinctos. O que caracterisa essa lucta é a crueza da publicidade a

que todos que entram nella estão expostos. Como antes eu disse, não

ha vida particular nos Estados-Unidos. Para a reportagem não existe

linha divisoria entre a vida publica e a privada. O adversario está

sujeito a uma investigação sem limites e sem escrupulos, e não elle,

sómente,--todos que lhe dizem respeito. Si um candidato á Presidencia

tiver tido na mocidade a menor aventura, terá o desgosto de vêl-a

photographada, apregoada nas ruas, colorida em cartazes, cantada nos

_music-halls_, por todos os modos e invenções que o ridiculo suggerir

e parecerem mais proprios para captar o eleitorado. A campanha contra

Tilden foi feita com uma revelação de que elle tinha uma vez illudido

o fisco, a respeito do seu rendimento profissional. O politico é

entregue sem piedade aos _reporters_; a obrigação destes é rasgar-lhes,

seja como fôr, a reputação, reduzil-a a um andrajo, rolar com elle na

lama. Para isso não ha artificio que não pareça legitimo á imprensa

partidaria; não ha espionagem, corrupção, furto de documentos,

intercepção de correspondencia ou de confidencia, que não fosse

justificada pelo successo.

O effeito de tal systema póde ser moralisar a vida privada, pelo menos

a dos que pretendem entrar para a politica, si ha moralidade no terror

causado por um desses formidaveis _exposures_ eleitoraes, os Francezes

diriam _chantage_. A vida politica, porém, elle não tem moralisado. A

consciencia publica americana é muito inferior á privada, a moral do

Estado á moral de familia.

De certo, nos Estados-Unidos, os chamados _rings_, nós diriamos

quadrilhas, os roubos publicos, os syndicatos administrativos, são

denunciados e investigados como não o seriam talvez em nenhum paiz, o

americano não tendo pena dos adversarios, julgando-se obrigado para com

o seu partido a reduzil-os á condição mais humilhante, a expellil-os

um por um, sendo possivel, da vida publica. Mas, desde que a corrupção

reina nos dois partidos, que ambos têm as suas chagas conhecidas, as

suas ligações compromettedoras, todas as campanhas a favor da pureza

administrativa têm muito de insincero, de simulado, de convencional,

o que não acontece com as investigações da vida privada. Estas, sim,

encontram em toda a parte a unidade do sentimento e da educação

religiosa do paiz para echoal-as. A consciencia em voga entre os

_politicians_ tem a sua casuistica especial.

Isto não quer dizer que na politica americana não haja um typo muito

differente do do _politician_, ou, como os antigos lhe chamariam,

do demagogo; que, ao lado da consciencia elastica, insensibilisada

para todas as especies de fraude, de corrupção, de chicana, como

males inevitaveis da democracia, não exista a honra, o decoro, a

immaculabilidade. Ha homens na politica respeitados em todo o paiz, e

que ambos os partidos reputam incapazes da menor indelicadeza no que

toca á honestidade pessoal. Não ha um só, na actividade e na lucta

partidaria porém, a quem se attribúa o caracter preciso para repudiar

e condemnar os seus correligionarios ainda nos peiores recursos que

tiverem empregado. O homem da mais pura reputação no Senado americano

votará _solido_, sempre que se tratar do interesse geral do partido.

Não havia nada que me désse na America do Norte idéa da superioridade

de suas instituições sobre as inglezas. A atmosphera moral em roda

da politica era seguramente muito mais viciada; a classe de homens a

quem a politica attrahia, inferior, isto é, não era a melhor classe

da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrario, o que a sociedade

tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da politica. A lucta

não se trava no terreno das idéas, mas no das reputações pessoaes;

discutem-se os individuos; combate-se, póde-se dizer, com raios

Rœntgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a

casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regimen, sujeitos

ás execuções summarias da calumnia e aos lynchamentos no alto das

columnas dos jornaes, é natural que evitem a politica todos os que se

sentem improprios para o pugilato na praça publica, ou para figurar em

um _big show_.

A grandeza do espectaculo que dão os Estados-Unidos é tanto maior,

eu sei bem, quanto mais baixo o nivel do politico de profissão. A

degradação dos costumes publicos do paiz, coincidindo com o seu

desenvolvimento e cultura, com a sua accumulação de riqueza e de

energia, com os seus recursos illimitados, não quer dizer outra coisa

sinão que a nação americana não se importa que administrem mal os seus

negocios, porque não tem tempo para tomar contas. É como uma fazenda

de immensa safra, em que o proprietario ausente fechasse os olhos ás

dilapidações do administrador, levando-as á conta de lucros e perdas,

inevitavel em todo genero de negocios. Os Americanos deixam-se tratar

pelos seus _politicians_ do mesmo modo que os reis de França pelos seus

_fermiers-géneraux_. Sejam causados pela ignorancia e incapacidade,

ou pela corrupção e venalidade, prejuizos ha de sempre haver em toda

administração; para impedil-os seria preciso montar um systema de

fiscalisação ruinoso para o paiz, não só pelo seu custo, como porque

seria preciso distrahir para elle dos negocios e de outras profissões o

que o paiz tivesse de melhor.

Que póde acontecer de peior entregando-se o paiz á direcção de

partidos organizados como associações de seguro mutuo e que para isso

recolhem uma porcentagem do rendimento nacional? Uma aggravação de

impostos? Que importa ao Americano pagar mais alguns _cents_ no dollar

e não se incommodar com a politica? Envolverem os _politicians_ a

nação em uma guerra estrangeira? O perigo é muito problematico e a

varonilidade do paiz não teme que o envolvam em uma guerra sem elle

a querer e a achar legitima ou vantajosa. O Americano sabe que ha

no seu paiz uma opinião publica, desde que cada Americano tem uma

opinião sua. É uma força latente, esquecida, em repouso, que não se

levanta sem causa sufficiente, e esta raro se produz; mas é uma força

de uma energia incalculavel, que atiraria pelos ares tudo o que lhe

resistisse, partidos, legislaturas, Congresso, Presidente.

É nesse sentido um grande espectaculo. O governo tem uma capacidade

limitada de fazer mal; a parte de influencia e de lucros que a nação

abandona á classe politica, está circumscripta a uma escala movel,

isto é, proporcional ao rendimento publico, o que permitte á profissão

vantagens crescentes e progressivas, mas, como quer que seja, está

circumscripta; a nação deixa-se dividir em partidos, fórma e manobra em

campos eleitoraes, e, apezar da massa das abstenções, acompanha os maus

administradores dos seus interesses; mas todos sentem que de repente a

opinião póde mudar, tornar-se unanime, adquirir a força de um impulso

irresistivel, destruir tudo. Nos Estados-Unidos o governo não tem

assim a importancia que tem nos paizes onde elle governa; o governo

na America é uma pura gestão de negocios, que se faz, mal ou bem,

honesta ou deshonestamente, com a tolerancia e o conhecimento do grande

capitalista que a delega. A corrupção politica é, por isso, na America

do Norte, já uma vez citei esta imagem de Boutmy, uma simples erupção

na pelle, emquanto em outros paizes ella é um mal profundo, visceral.

O facto é que nenhuma impressão guardei dos Estados-Unidos de ordem

equivalente á impressão ingleza, nem mesmo a de liberdade individual.

E certo que o Americano, comparado com o Inglez, tem o sentimento da

altivez individual mais forte, porque não ha classe, nem hierarchia a

que elle se curve. O Inglez tem reverencia pela posição, pela classe,

pelo nascimento; o Americano não tem, e isto faz naturalmente que este

se considere mais independente no seu modo de sentir do que o Inglez. É

incontestavel que a democracia, introduzindo na educação a idéa da mais

perfeita egualdade, levanta no homem o sentimento do orgulho proprio. A

questão é saber, tomando o conjuncto dos resultados, si as sociedades

antigas onde as influencias tradicionaes não se apagaram de todo, como

a ingleza, antes são por assim dizer artificialmente mantidas, não

produzem com as limitações de classe uma dignidade pessoal moralmente

superior a essa altivez da egualdade. E preciso não esquecer,

tratando-se do Norte-Americano, que a egualdade humana para elle fica

dentro dos limites da raça; já não fallando do Chim ou do negro,--que

seria classificado, si vencesse o instincto americano, em uma ordem

differente da do homem,--nunca ninguem convenceria o livre cidadão dos

Estados-Unidos, como elle se chama, de que o seu vizinho do Mexico ou

de Cuba, ou os emigrantes analphabetos e indigentes que elle repelle

dos seus portos, são seus eguaes. Para com estes o seu sentimento de

altivez converte-se no mais fundo desdem que ente humano possa sentir

por outro.

Não quizera eu negara inspiração superior que ha no sentimento da

egualdade na America, como no antigo Israel e na antiga Grecia,

onde elle foi um sopro de liberdade, de heroismo, de independencia,

de que procederam os mais perfeitos typos na arte e na religião. É

evidente que nesse caminho é a Inglaterra que avança na direcção dos

Estados-Unidos e não os Estados-Unidos que retrocedem a encontrar a

Inglaterra. Ninguem que conheça o typo americano, desde o _news-boy_,

que grita os jornaes na rua, até o _king_, o rei, de algum immenso

monopolio ou especulação, estradas de ferro, minas de carvão ou de

prata, mercado de algodão ou de farinha de trigo, desconhecerá que

a caracteristica, por excellencia, do Americano é a convicção de que

_melhor_ do que elle não existe ninguem no mundo. A materia prima dos

discursos feitos ás multidões, ou dos artigos de propaganda eleitoral,

posso dizer que se contem toda nesta phrase, que ouvi a um dos oradores

de um _monster-meeting_: «Nos Estados-Unidos (elle disse, como sempre,

_in America_) cada homem é um rei, e cada mulher uma rainha». Talvez

fosse paradoxo dizer eu que o effeito de tal sentimento não póde ser

sinão gerar um illimitado orgulho, e que do orgulho renascerá sinão a

desegualdade, porquanto a egualdade póde ficar entranhada no sangue da

raça, o servilismo. Não foi assim sempre com as mais livres de todas

as raças e as mais soberbas de todas as democracias? O sentimento,

entretanto, da egualdade perante a lei e perante a justiça, qualquer

que possa ser o sentimento da egualdade de condição, é maior, é mais

seguro na Inglaterra do que nos Estados-Unidos. É mais provavel que o

_groom_ do marquez de Salisbury obtenha justiça contra seu amo do que o

caixeiro de um grande estabelecimento de Nova-York contra o patrão, si

este tiver qualquer influencia na City-Hall.

Minha formação · 第 8 / 16 段