A varonilidade impõe ao reformador não fazer victimas emissarias,

responsabilisando individuos ou instituições pelos erros communs

da sociedade, não lavar as mãos como Pilatos das injustiças da

multidão, não preferir o fraco para sobre elle descarregar o golpe,

em uma palavra, o _fair-play_. O patriotismo manda não consentir que

o espirito de partido supplante o de responsabilidade para com o

paiz. O que, entretanto, na Inglaterra alimenta, renova e purifica

o patriotismo, é outra especie de responsabilidade: a do homem para

com Deus. Só quando o orgulho britannico e a consciencia christã

estremecem juntos e se unem em uma mesma causa, é que o sentimento

inglez desenvolve a sua energia maxima. A inspiração da vida publica

na Inglaterra vem em grande parte da Biblia. A politica e a religião

sentem que terão sempre muito que fazer em commum, que uma e outra

têm o mesmo objectivo pratico--elevar a condição moral do homem, e o

effeito desse ultimo e, talvez principal elemento do espirito inglez,

em relação ás reformas, é fazer o argumento moral prevalecer sobre o

argumento utilitario.

Tomando-se o espirito inglez, como acabo de delinear, que é que elle

inspirará na Inglaterra a republicanos de ideal, que se subordinem,

entretanto, como individuos, á consciencia collectiva, ao instincto

nacional? Ha uma pagina interessante em _On Compromise_, livro

typico de casuistica intellectual ingleza, escripto por John Morley.

Essa pagina é a melhor illustração do que eu disse antes sobre o

republicanismo que póde existir por baixo do sentimento monarchico,

até para dar-lhe vida e calor. Elle figura um Inglez convencido de que

a monarchia, mesmo meramente decorativa, tende a engendrar habitos

sociaes degradantes. O dever desse republicano será deixar a monarchia

de lado e abster-se de todos os actos, em publico e em particular,

que possam, mesmo remotamente, alimentar o espirito de servilismo.

«Tal politica não interfere, diz-nos Mr. Morley, com as vantagens que

se diz ter a monarchia, e tem o effeito de tornar as suas suppostas

desvantagens tão pouco prejudiciaes quanto possivel...»

Desse espirito inglez eu disse que tive apenas um toque. Na questão

da abolição, entretanto, não me desviei delle. A abolição era uma

reforma que o espirito inglez anteporia a todas as outras por toda

ordem de sentimento. Si a abolição se fez entre nós sem indemnisação,

a responsabilidade não cabe aos abolicionistas, mas ao partido da

resistencia. O meu projecto primitivo, em 1880, era a abolição para

1890 com indemnisação. Si em qualquer tempo um ministro da corôa

chegasse ás Camaras e dissesse: «A escravidão não póde mais ser

tolerada no Brasil, o nosso gráu de civilisação repelle-a, e eu venho

pedir que decreteis a liberdade immediata dos escravos existentes,

votando os precisos recursos para a respectiva desapropriação», poderia

haver abolicionista que quizesse prolongar a escravidão? Nenhum da

nós assumiria a odiosa responsabilidade. Esse homem, porém, não surgiu

d’entre os estadistas do Imperio; todos pensavam, ou que a abolição

arruinaria a lavoura e o credito do paiz, ou que o Brasil não era rico

bastante para pagar a libertação moral do seu territorio. Podia haver

abolicionistas contrarios á indemnisação; de facto, os houve; mas

podiam elles, acaso, votar nunca contra uma lei de abolição immediata?

A responsabilidade foi assim dos partidos, que se comprometteram

perante a lavoura a resistir ao movimento, e que teriam, do seu ponto

de vista, feito melhor sacando sobre o futuro e desapropriando os

escravos, quando o principio da não-indemnisação ainda não tinha

triumphado no projecto Dantas e na segunda lei de 28 de setembro. Essa

intuição só a teve o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto no

Conselho de Estado; não lhe deram, porém, valor. Com relação á lei de

13 de maio devo dizer que em 1888 era tarde para se pleitear a equidade

da desapropriação deante de um movimento triumphante, quando já a maior

parte dos escravos tinham sido liberalmente alforriados pelos senhores

e o resto da escravatura estava em fuga, depois, sobretudo, de estar

por lei consagrado o principio de que a escravidão era uma propriedade

anomala, a que o legislador marcava sem onus para o Estado o prazo de

duração que queria.

Em relação á monarchia do Brazil aquelle toque do espirito inglez

bastou para traçar-me uma linha de que eu não poderia afastar-me, mesmo

querendo. Era um ponto de honra intellectual, um caso de consciencia

patriotico definitivamente resolvido em meu espirito, aos vinte e

tres annos. Supprimir a monarchia que tinhamos, ficou claro para mim

desde então, era uma politica a que eu não poderia nunca associar-me;

eu poderia tanto banir, deportar o Imperador, como atirar ao mar

uma creança ou deitar fogo á Santa Casa. Quebrar o laço, talvez

providencial, que ligava a historia do Brasil á monarchia, era-me

moralmente tão impossivel, como me seria no caso de Calabar entregar

Pernambuco por minhas proprias mãos ao estrangeiro. Faltar-me-iam

forças para uma intervenção dessas no destino do meu paiz. Seria

attrahir sobre mim um golpe de paralysia, ferir-me eu mesmo de morte

moral. Minha coragem recuava deante da linha mysteriosa do Inconsciente

Nacional. O Brasil tinha tomado a fórma monarchica, eu não a alteraria.

O que vi dos Estados-Unidos não fez sinão calcar mais profundamente

a impressão monarchica que eu levava da Inglaterra. Foi uma segunda

chave, de segurança, que fechou em meu pensamento a porta que nunca

mais se devia abrir. O espirito politico americano, com certas

modalidades que não quero amesquinhar, mas que me parecem secundarias,

é uma variedade do espirito inglez, o qual merece antes ser chamado

espirito anglo-saxonio, porque é um espirito commum de raça, de grande

familia humana, superior a fórmas e accidentes de instituições.

XIV

NOVA-YORK (1876-77)

Talvez o melhor modo de mostrar o que devo aos Estados-Unidos seja

reproduzir paginas do meu diario de 1876-77. Cheguei pouco tempo

depois da visita do Imperador; pude assim recolher o echo da impressão

deixada por elle. O anno que passei na grande Republica foi um dos

seus momentos politicos mais interessantes, porque foi o da eleição de

Tilden. Como se sabe, os democratas ganharam as eleições de 1876, mas

as Juntas Apuradoras Republicanas de alguns Estados do Sul manipularam

as actas de fórma a dar maioria aos eleitores do seu partido. Ambos os

lados reclamavam a victoria, e, como a Camara dos Representantes era

Democrata e o Senado Republicano, a perspectiva era que o Congresso

não chegaria a accordo até março, e que os Estados-Unidos teriam dois

Presidentes com todas as probabilidades de uma guerra civil. O espirito

pratico, o espirito de transacção da raça anglo-saxonia interveiu, e

as duas Casas do Congresso concordaram em entregar o julgamento a uma

Commissão especial, tirada de cada uma dellas e do Supremo Tribunal.

A differença entre a Inglaterra e os Estados-Unidos não póde ser

melhor apresentada do que nesse caso: a resolução americana foi como

a ingleza, o accordo em vez da guerra civil dos paizes latinos, mas

nos Estados-Unidos, ao contrario do que aconteceria na Inglaterra,

a Commissão não se elevou acima do espirito de facção, as votações

foram todas estrictamente partidarias, o que quer dizer, figurando

nella cinco membros da Côrte Suprema, que o mais alto tribunal da

União era composto de _politicians_. Com juizes inglezes a decisão

teria, talvez, sido injusta, mas não seria nunca parcial, dada por

motivo politico; não se contariam de antemão os votos dos juizes como

os dos Congressistas. Em tão pouco tempo como tive, nenhum estudo

comparativo da educação, da seriedade e dos costumes politicos dos dois

paizes podia ser mais proveitoso para mim do que foi essa campanha

eleitoral de 1876-1877 e o desenlace que ella teve. As qualidades e as

deficiencias da politica americana estavam todas visiveis e patentes

nessa lição de coisas. Eu tinha acompanhado a lucta dos partidos para

a captura da cadeira presidencial com o maior interesse, cada _boss_

me era conhecido, como o era cada figura de senador, a opinião de cada

jornal influente, cada nuança das duas Convenções.

É realmente o momento para o estrangeiro abranger n’um relance a vida

politica dos Estados-Unidos, esse anno eleitoral. Eu tinha chegado a

Nova-York a tempo de familiarisar-me com as questões, as allusões,

a giria politica do formidavel _canvass_ que se ia travar e do qual

a politica da reconstrucção no Sul devia ser o eixo. Interessava-me

o Tammany Ring, o Whiskey Ring, o schisma dos Independentes, o

Civil-Service Reform, o Railroad Land-Grants, como me interessava o

encontro de Gladstone com Disraeli na questão do Oriente, ou a lucta

de Thiers com o duque de Broglie. Durante mais de um anno fui um

verdadeiro americano nos Estados-Unidos, como o proverbio manda ser

romano em Roma. Era o meio de penetrar, de comprehender, de sentir a

vida politica do paiz, si eu o queria, e este fôra o meu motivo ao

desejar ir para os Estados-Unidos.

O meu diario desse anno é antes um registro de pensamentos do que de

impressões americanas. Ha muito pouca politica nelle, o que mostra

que eu vivia em uma atmosphera diversa da que os homens de partido

respiram, mesmo no estrangeiro. Reproduzo algumas dessas notas para

mostrar isto mesmo, que o meio norte-americano teve sobre mim o effeito

que muita vez tem sobre os proprios americanos, de desinteressal-os da

politica, excepto como espectadores. Posso dizer que vivi esses dois

annos, de 1876 e 1867, na sociedade de Nova-York, onde se está tão

longe da politica americana como em Londres ou em Pariz; mas o mundo

exterior, que me cercava por toda parte, a rua, a praça publica com

os seus cartazes e procissões eleitoraes, os jornaes com as scenas do

Congresso e as torrentes de eloquencia dos _meetings_, não podia deixar

de attrahir-me como todo espectaculo nacional curioso e unico, além,

está visto, do interesse intellectual que eu tinha em saber como um tão

grande paiz era governado e dirigido, as forças sociaes e influencias

moraes que presidiam ao seu colossal desenvolvimento. Aqui estão ao

acaso algumas das notas.

«22 de outubro. O discurso de Carl Schurz, pronunciado hontem no

_Union League Club_, expõe o sentimento _republicano_ na melhor luz. O

principal elemento da presente campanha começa a ser a Questão do Sul.

Com a approximação do dia 7 de novembro esse ponto de vista tornar-se-á

mais importante do que todos os outros. A _camisa ensanguentada_

(bloody-shirt) cahiu em completo descredito, mas é preciso contar com

o receio de que o Sul, unido, composto dos antigos Estados rebeldes e

onde os candidatos são todos soldados da Confederação, possa dominar o

Norte tão cedo, depois da guerra, passando o governo americano a ser

representado por antigos Separatistas. Esta idéa assusta os que põem

acida de tudo a União, mesmo quando seja preciso reduzir os Estados

impenitentes a territorios sujeitos ao despotismo militar e entregues

politicamente ao dominio conjunto dos _carpet-baggers_ e dos negros.

Este elemento decidirá, provavelmente, em favor de Hayes a lucta que de

outra fórma seria facil de ganhar para Tilden, porque a situação do Sul

nos ultimos annos deshonra a politica americana.»

«1 de janeiro. Cheguei a Washington, em Riggs House. Pela primeira vez

ponho o uniforme. Á Casa Branca. Apresentação ao Presidente, depois á

casa do Secretario de Estado, Mr. Fish. A chamada dynastia Grant, a

filha de Mrs. Sartoris; a netinha recebendo os cumprimentos pelo avô.

Vou com o capitão-tenente Saldanha de Gama visitar os membros da Côrte

Suprema: através da _terrapine_ e das _baked oysters_ todo o dia, até

que em casa do secretario da Marinha um solemne _the reception is

over!_ põe termo á nossa peregrinação de _New-Year’s day_.»

Eu tinha conhecido Saldanha na Exposição de Philadelphia, depois

ligámo-nos muito em Nova-York, onde moravamos no mesmo hotel, o

Buckingham. Elle ria-se sempre muito daquelle: _the reception is over!_

Pobre Saldanha! nascido para o mundo, para o amor, para a gloria, quem

imaginaria, ao vêl-o naquelle tempo em Nova-York, que o seu destino

seria o que foi? A esphinge da vida que lhe déra, ainda adolescente,

um dos seus enigmas indecifraveis para resolver, destruindo nelle a

aspiração de ser feliz, reappareceu de novo a embargar-lhe o passo no

momento em que podia disputar a primeira posição do paiz.

«11 de janeiro. Á casa de Mr. John Hamilton, filho de Alexandre

Hamilton. Un homem do passado, voltado todo para elle. Diz-me que o

Brasil deve conservar o mais tempo possivel a sua fórma monarchica.

Este _Whig_ não acredita que paizes como os nossos possam durar unidos

sob outra fórma de governo. Emoção ao mostrar-me o retrato de Luiz XVI,

presente feito ao pae...

«22 de fevereiro. Almocei com Mr. Marshall no Knickerbocker Club, hoje

anniversario de Washington; almoçavam Mr. Manton Marble, ex-redactor

do _World_, Mr. Appleton, o grande editor, Mr. Stout, Mr. Robinson,

Mr. Pell, e outros. Ao _toast_ feito ao Imperador respondi, como todas

as saúdes eram humoristicas, com um ensaio de _humour_. Disse que nós

tinhamos tido receio de que os Americanos o guardassem, lembrando-se

de que uma grande auctoridade para elles, o general Lafayette, dissera

da monarchia constitucional: «Aqui está a melhor das republicas».

Mas, desde que elles tinham deixado o Imperador partir, eu fazia

votos para que os dois paizes conservassem suas instituições como uma

aposta de liberdade perpetua entre a monarchia e a republica. Quanto

a Washington, fiz uma reserva á sua grande obra: a de ter fundado a

capital em uma cidade, sem duvida, muito agradavel, mas para a qual

sempre se vae a custo, quando se tem que deixar Nova-York.»

«Março, 2. Hoje fui ao Congresso vêr os destroços da vespera. (Hayes

fôra proclamado Presidente por um voto.) Não ha alegria no lado

republicano; no democrata a decepção é grande; mas, em pouco tempo,

quando a ferida tiver cicatrizado e se pensar no futuro, esse partido

ficará contente de se terem passado as coisas como vimos hontem. O

general Banks, antigo _Speaker_ da Camara, cedeu-me a sua cadeira no

proprio recinto do Congresso (em sessão), depois veiu sentar-se nella

o meu ministro, e fomos apresentados a diversos deputados, notaveis,

entre elles Lamar e Garfield.»

«8 de março. O Presidente propõe uma emenda constitutional, tornando

o prazo da presidencia de seis annos, sem reeleição. Essa emenda

provem do medo que se tem de que as eleições presidenciaes sejam tão

disputadas pelos dois partidos, que dividem em duas metades o paiz,

como foram as do outono passado, e que os negocios de tres em tres

annos tenham um quarto anno de interrupção e de paralysia, como si

tudo perigasse e a anarchia ou a guerra civil, talvez a separação,

pudesse seguir-se a uma eleição duvidosa. Os interesses do commercio e

os da propriedade conseguirão um dia alongar o prazo até seis annos,

e como com a maior escassez de eleições ellas tendem a tornar-se mais

renhidas, não ha razão para o paiz correr todos os seis annos um risco

que não quer correr todos os quatro. Assim, a eleição critica do chefe

do Estado irá sendo o mais possivel espaçada, e não é impossivel que a

Republica americana se approxime tão de perto das monarchias electivas,

que, vendo o perigo desta fórma, ella prefira a tranquillidade das

longas dynastias...

«É curioso que o que ha de mais perfeito nesta democracia seja a

mulher, que é aqui o ente mais aristocratico do mundo.»

«2 de abril. A idéa de governo hoje é inteiramente diversa da idéa de

governo antigamente; tomemos, por exemplo, a liberdade de imprensa nos

Estados-Unidos, que representam a nova educação politica, e a censura

na Russia. Ha muito que dizer em favor de se deixar o pensamento

inteiramente livre e sobre os inconvenientes da repressão; mas o

certo é que se formam duas sociedades diversas pelo respeito forçado

á auctoridade e pelo desprestigio della. A difficuldade que ha no

caminho da tradição é que a dignidade, ou a altivez pessoal, não

quer sacrificar-se aos grandes resultados moraes e que os homens se

consideram todos eguaes por um sentimento que já é indestructivel. Eu

sou seguramente egual a um rei, como individuo, mas, como do principio

da monarchia vêm muitos bens para a sociedade, colloco-me em plano

inferior. Isso não é quebra da dignidade _humana_, ainda que a altivez

pessoal tenha que _se curvar_.»

«13 de maio. Diz-se que Tilden não reconhece Hayes como presidente. É

o caso de algum amigo lêr-lhe o _Kriton_. Quando Kriton quer convencer

a Socrates de que deve fugir para evitar uma morte injusta, Socrates

nega-se com o fundamento de que a sentença, injusta como é, é todavia

inteiramente legal. Si os juizes fizeram mal em pronuncial-a, elle

faria peior em não se sujeitar ás leis de Athenas, porque o cidadão que

goza da protecção e dos direitos que uma cidade lhe offerece, tem com

ella o pacto tacito de respeitar as suas leis. Socrates recusava a vida

por ser illegal, ainda que soubesse que adviria da sua fuga mais bem do

que mal á democracia atheniense. Não devia Tilden relêr esse dialogo?

Injusta como foi a decisão contra elle, foi estrictamente legal, não

no sentido de estar de accordo com o direito, mas por ser dada pelos

interpretes competentes da lei. Elle só póde chamar para si e o seu

partido as sympathias de todos, sujeitando-se á decisão proferida,

salvo o seu direito de brandir contra o novo Presidente as fraudes

pelas quaes chegou ao poder.»

«Junho, 13. Hontem realisou-se no Manhattan Club a recepção dos

_swallow-tails_ aos candidatos democraticos eleitos e _counted out_.

Tilden fallou pela primeira vez depois da inauguração de Hayes, á qual

chamou «_o mais portentoso acontecimento na historia da America_».

America quer dizer os Estados-Unidos, porque no Mexico e no Perú ha,

cada dia, acontecimentos d’esses muito mais _portentosos_. «_Os males

no governo crescem com o exito e com a impunidade. Não se restringem

a si mesmos voluntariamente. Não pódem ser nunca limitados sinão

por forças externas. Uma grande e nobre nação não separa a sua vida

politica da sua vida moral._» Tudo isto é muito exacto. O Brasil é a

prova. Deve o povo, ou não, fazer politica? O adeantamento de um paiz

prova-se pela extensão da idéa de que a politica é inseparavel dos

mais vitaes interesses da sociedade, e por ahi, dos de cada um. No

Brasil, essa idéa não se derramou, pelas condições especiaes em que

nos achamos, de territorio, população, trabalho escravo, etc. Aqui

ella está em cada cabeça. O que mais me surprehendeu nessa reunião de

Manhattan, foi o Governador de Nova-York, este _de jure_ e _de facto_,

Mr. Robinson, chamar em publico ao Presidente dos Estados-Unidos

_um Presidente fraudulento_. Depois de ter dito que não teriam que

esperar até 1880 para pôl-o fóra da Casa Branca, terminou assim,

referindo-se a Tilden e a Hendricks: «_Fellow citizens_, tivestes a

primeira opportunidade de saudar o Presidente e o Vice-Presidente

dos Estados-Unidos depois da sua eleição. Eu vos felicito e acredito

que este é apenas um presagio de factos que se hão de succeder.» A

allocução do Governador do principal Estado da União proclamando a

rebellião, _legal_ ou illegal, é caracteristico do regimen politico

americano, e do _laissez-faire, laissez-passer_ de que goza neste paiz

a palavra. As revoluções de lingua e penna não são nunca um delicto;

são um desabafo. A bocca do _politician_ é a valvula de segurança das

instituições. É o paiz das valvulas automaticas.»

«19 de junho. Os jornaes têm hoje um facto interessante: a visita feita

por Frederic Douglass ao seu velho senhor, que deixou na adolescencia,

para começar a vida de aventuras que o levou até ser _marshall_ em

Washington e o grande orador da abolição que foi. «_Vim antes de

tudo_, disse Douglass, _vêr meu velho senhor, de quem estive separado

41 annos, apertar-lhe a mão, contemplar-lhe o velho rosto bondoso,

brilhando com o reflexo da outra vida_.»

«Esta scena dá uma idéa mais tocante da escravidão no Sul do que a

_Cabana do Pae Thomaz_. O logar é St. Michael, Talbot County, Md.

O nome do senhor Capt. Thomas Aould. Marshall Douglass ouviu a sua

verdadeira edade da bocca do seu senhor, em cujos livros elle figura

assim: «Frederic Balley, fevereiro 1818.» Provavelmente, o senhor não

registrou mais a carreira agitada de Frederico desde a edade de 18

annos (1836). Esse facto é, do que tenho lido, uma das mais profundas

e penetrantes apresentações do facto moral complexo da escravidão, o

laço entre escravo e senhor.»

XV

O MEU DIARIO DE 1877

Darei ainda alguns trechos do meu diario dos Estados-Unidos; não são

tanto impressões americanas que pretendo reproduzir, já antes o disse,

como o meu modo de sentir naquella epocha:

«20 de junho. Hoje foram enforcados 11 criminosos de uma associação da

Pensylvania, os Molly Maguires. Onze pessôas enforcadas em um dia no

Brasil! Quantos discursos isso não daria na Camara dos Deputados? Aqui

só faz vender maior numero de _extras_ dos jornaes.»

«Junho, 8. Ha duas especies de movimento em politica: um, de que

fazemos parte suppondo estar parados, como é movimento da terra que não

sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na politica são

poucos os que têm consciencia do primeiro, no emtanto esse é, talvez, o

unico que não é uma pura agitação.»

«Julho, 8. A temperatura moral do futuro, a julgar pela americana,

deve ser muito baixa. O sentimentalismo resfria aqui diariamente. A

Inglaterra é um forno em comparação.»

«Junho, 26. A França parece-me a casa de Ulysses cheia de

_pretendentes_ a consumirem entre si a fortuna de Telemaco, á espera

que Penelope se decida por um delles. Cada um está certo de ser o

preferido e, emquanto ella pede a Minerva que acabe com os seus

insupportaveis perseguidores, elles continuam a devorar os bois e os

carneiros, repetindo: «_Não ha duvida que ella se está preparando para

o casamento._» Infelizmente não parece provavel que Ulysses volte para

exterminal-os e tomar conta da casa.»

Essa nota é, quasi, puramente litteraria. Ulysses ahi era o conde de

Chambord, e os pretendentes os partidos que arrastavam a França, depois

da derrota nacional, talvez para a guerra civil. Eu pensava escrever um

acto, intitulado _Os Pretendentes_, com a idéa do arco de Ulysses. Era,

como o drama de que fallei, um caso da falta de coincidencia que se

dava em mim, entre a imaginação litteraria e a sympathia politica.

Ha outras notas, com relação aos Pretendentes. Em 16 de julho:

«O conde de Chambord representa a theoria de que a politica é uma

arte religiosa, e um reinado uma especie de monumento das crenças

de uma epocha. A concepção de que governar é um acto religioso,

como o confessar, e tem um fim religioso, destróe toda liberdade de

pensamento. Um homem póde fazer da sua vida uma fórma de arte, mas

não da vida de todo o mundo, que quer viver a seu modo. A politica, si

é uma arte, não é arte ascetica, religiosa,--nem mesmo no seu periodo

hieratico. A politica, arte religiosa, converte em crime de sacrilegio

o menor acto de liberdade individual.»

Em 30 de julho: «Estive a pensar nos _Pretendentes_. O _appel au

peuple_ é feito pelo candidato respectivo ás rans, e a prova real

é tirada por outro, que appella tambem para ellas. A tudo ellas

respondem: _couac_.»

«Julho, 5. A posição do Presidente Hayes é a mais singular que já

se viu neste paiz. Elle chegou ao poder por fraudes eleitoraes sem

exemplo, empurrado até a Casa Branca pelos _carpet-baggers_ do sul e

_wire-pullers_ do Senado, depois de uma campanha de que os empregados

publicos fizeram os gastos: deve, assim, a sua eleição, ou, melhor,

o seu posto, a um sem numero de _politicians_ de todos os matizes,

desde os fabricadores de actas falsas até os juizes da Côrte Suprema,

que as apuraram. Chegando ao poder, porém, tem vergonha de tudo isso

e torna-se elle o representante da pureza administrativa e eleitoral.

Os ultimos _carpet-baggers_ do Sul, com a amputação da membrana que os

ligava ao Presidente eleito com elles e por elles, desapparecem para

sempre da scena politica. Os politiquistas são enxotados, os senadores

_snubbed_; os empregados publicos, senhores da machina eleitoral e que

se cotisavam para a eleição solidaria, intimados a mudar de vida e a

não subscrever mais um _cent_. De tudo isso se conclue que Hayes, assim

como não quer outra vez ser eleito, entende que ninguem mais deve ser

eleito Presidente como elle foi. Poucos homens teriam feito tão bom uso

de um poder tão mal adquirido. Isto resgata, quasi, a falta de coragem

civica que o levou a acceital-o.»

Minha formação · 第 7 / 16 段