pertencia ao numero das casas que tinham o privilegio de receber a
realeza, isto é, o principe e a princeza de Galles. Muitos argumentos
me foram apresentados na mocidade em favor da monarchia; nenhum, porém,
teve para mim a força persuasiva, a evidencia, destes dois, um que me
foi formulado no Pincio, outro que me foi formulado em Hyde Park: a
princeza Margarida de Saboia e a princeza de Galles. A republicanos de
boa fé esthetica,--ponhamos tanto os barbaros como os anachoretas de
parte,--eu não quizera apresentar outros. A monarchia moderna faria bem
para sustentar-se em promulgar a lei salica em sentido contrario, isto
é, em neutralisar ainda mais o poder neutro, estabelecendo a realeza
exclusiva das mulheres. Seria isso fazer politica experimental, que
não se basearia sómente no esplendido e pacifico jubileu da rainha
Victoria e na calma relativa em tempos crueis para a Hespanha da
regencia de D. Maria Christina, mas no profundo interesse das massas
pelos dramas de que a primeira figura é uma mulher. A entrada triumphal
em Pariz dos restos de Napoleão nunca fará um quadro como o que Tacito
nos deixou do Campo de Marte, no «_dia maravilhoso_» em que foram
depositadas no tumulo de Augusto as cinzas de Germanico trazidas por
Agrippina. Si ao prestigio da posição se allia na mulher a irradiação
da mocidade e da belleza, póde-se dizer que ella tem no sceptro um
condão de fada. A formosura das rainhas tem, quando é perfeita, um
reflexo seu exclusivo, combinação de bondade e soberania, de encanto
pessoal e grandeza nacional, de dependencia, tremor mesmo, do Destino,
e protecção e amparo para os que se acolhem ao seu manto, que fórma
a dupla projecção, ascendente e descendente, do povo para o throno
e do throno para o povo, que na ordem espiritual fez a Rainha dos
Anjos comparar-se a si mesma com o arco-iris. Além da familia real de
Inglaterra e da alta sociedade de Belgravia e Mayfair que a cerca,
vinham á Legação principes estrangeiros reinantes ou desthronados, como
esse joven principe imperial, azagaiado na Cafraria, e cuja morte, tão
ingloria que parece predestinada, me faz sempre lembrar a de Saldanha
em Campo Osorio.
Era para tal sociedade que o famoso Cortais, inspirando-se nas
glorias dos grandes cozinheiros, formava o cortejo dos seus pratos
architectomicos, verdadeiras obras-primas com que depois pretendeu,
segundo me disseram, arruinar a corôa de Italia. Ouvi tambem que elle,
seguindo ainda nisso as tradições dos mestres da arte, mostrára uma
vez o seu reconhecimento servindo em um dos banquetes do Quirinal uma
composição sua inscripta no cartão real--_à la Penedo_. Naquelle dia o
diplomata brasileiro ha de ter dito, como Chateaubriand, quando deram o
seu nome a um beefsteak: «_Agora, sim, não posso mais morrer_.»
Uma dessas representações de Monsieur Cortais deante de testas coroadas
com toda a enscenação que reclamava, inclusive o grupo de _bellezas
profissionaes_ da alta sociedade ingleza, não podia deixar de apagar de
todo no espirito de um joven addido de Legação brasileiro o prestigio,
si o conservavam, das decapitações reaes da Convenção ou de Whitehall.
Não me tomem por um sybarita, porque me inclinei deante de um de um
grande _chefe_ como deante de um artista. «_Il en faudrait au moins
un à l’Institut_», dizia Talleyrand. Entre o festim de Trimalcião e
um _menu_ composto por um estylista francez, ha, como entre a dansa
das alméas e o minuete, a longa distancia de civilisação que separa a
sensualidade da elegancia.
De todos os sentidos é realmente o paladar o menos intellectualisavel,
o que admitte menor gráu de ascetismo. Mesmo a taça de bouillon servida
a Madame de Maintenon em Saint-Cyr ou a taça de chá preto que conforta
a rainha Victoria no terraço de Osborne é sempre um gozo material;
não póde soffrer a transformação por que passa até tornar-se uma
pura saudade o aroma das rosas e das violetas. O idealismo de que é
susceptivel a cozinha artistica revela-se em não ser principalmente
ao sabor que ella visa: a sua ambição seria deixar ao paladar uma
sensação vaga, leve, immaterial, quasi apenas de um perfume, como a do
bouquet no vinho, á vista, porém, a impressão duravel de um quadro,
de uma natureza morta pintada por um mestre. Que ingrato colorido,
porém, o dos seus molhos, dos seus cremes nevados, das suas gelatinas e
_primeurs_!
Ha, entretanto, poesia real, verdadeira, no alimento são, natural,
patrio; ha sentimento, tradição, culto de familia, religião, no
prato domestico, na fructa ou no vinho do paiz. A nós, do norte do
Brasil, creados em engenhos de canna, o aroma que rescende das grandes
caldeiras de mel nos embriaga toda a vida com a atmosphera da infancia.
E assim como ha poesia na cozinha de cada paiz, ha um _quid_ de arte
na cozinha ornamental, cozinha de refinamento, que se procura elevar
pelo desenho e pela fórma até o motivo do banquete,--e fazer historia,
fazer politica...
* * * * *
O leitor me perdoará a confissão, mas eu não devia calar em minha
formação politica a influencia mundana estrangeira, a influencia
aristocratica, artistica, sumptuaria que descrevi. Assim como a notei
em um banquete real em Grosvenor Gardens, poderia notal-a em um baile
dos Astors em Nova-York; é a mesma impressão de uma tarde de _corso_ na
Villa-Borghese, de uma manhã de _drawing room_ em Londres, do grande
dia de corridas em Ascot; a mesma do jubileu da rainha em Westminster
e do jubileu de Leão XIII no Vaticano. Não posso negar que soffri o
magnetismo da realeza, da aristocracia, da fortuna, da belleza, como
senti o da intelligencia e o da gloria; felizmente, porém, nunca os
senti sem a reacção correspondente; não os senti mesmo, perdendo de
todo a consciencia de alguma coisa superior, o soffrimento humano, e
foi graças a isso que não fiz mais do que passar pela sociedade que me
fascinava e troquei a vida diplomatica pela advocacia dos escravos.
O facto, entretanto, é este: si eu fosse sómente capaz da impressão
politica, social, a escravidão, a oligarchia dos partidos, e minha
falsa comprehensão do papel do Imperador e da funcção monarchica,
ter-me-iam talvez, depois da morte de meu pae, feito queimar o meu
Bagehot e alistar-me sob a bandeira norte-americana. Si, por outro
lado, no momento de que dependia a minha carreira, eu tivesse tido
exclusivamente a impressão de arte, teria, quem sabe, egualmente
inclinado em politica para a republica. É como explico em Portugal o
republicanismo de Ramalho Ortigão, Bordallo Pinheiro, Oliveira Martins,
em suas estréas: como uma revolta contra o caracter inesthetico da
instituição, do reinado em que desabrocharam; é assim que explico entre
nós o republicanismo de Castro Alves, de Ferreira de Menezes, do meu
Pedro de Meirelles, de Salvador de Mendonça, de Quintino Bocayuva, de
Lafayette Rodrigues Pereira, de Pedro Luiz, e outros. O que me impediu
de ser republicano na mocidade, foi muito provavelmente o ter sido
sensivel á impressão aristocratica da vida.
XII
A INFLUENCIA INGLEZA
A impressão mundana, aristocratica, era para mim uma influencia
politica puramente negativa, como o tinha sido a impressão artistica
da Italia ou a impressão litteraria de Pariz. O effeito da sociedade,
como o das artes e das lettras, não era outro sinão o de impedir o
desenvolvimento do germen revolucionario que as leituras francezas dos
vinte annos tinham deixado em meu espirito. Sem aquellas influencias,
entregue a meus proprios impulsos, do mesmo modo que o meu liberalismo
innato degenerou em radicalismo,--o qual foi em mim um puro phenomeno
de estagnação em um espaço politico fechado,--o radicalismo teria
degenerado em republicanismo.
Um distincto escriptor, que costumo encontrar na _Revista Brasileira_,
o dr. Pedro Tavares, dessa ordem de republicanos a que chamarei
_prematuros_, mais de uma vez me tem estranhado o que chama o desvio de
minha evolução politica.
Para elle o liberalismo desenvolve-se, completa-se, termina,
naturalmente, pelo republicanismo. Terá elle, porém, certeza de que
Mirabeau, si vivesse, havia de figurar na Convenção? A critica é egual
á que se fizesse, por exemplo, a Lafayette, por não ter abraçado a
Republica em França depois de ter ajudado a fundal-a na America. O
facto é que no republicanismo, fallo do sincero, do verdadeiro, ha
um ideal, mas ha também um resentimento das posições alheias, como
no socialismo, no communismo, no anarchismo ha ideal, mas ha tambem
inveja, e desta é que parte, quasi sempre, o impulso revolucionario.
Sem as influencias _negativas_ da imaginação, eu teria sido talvez
levado até á republica, como tantos que depois se arrependeram;
aquellas influencias me contiveram sómente porque me desviaram, ou me
distrahiram da politica. Eu era, porém, por natureza, um temperamento
politico. Cedo ou tarde, a politica tornaria a seduzir-me, e só
uma influencia positiva, que creasse em mim uma segunda natureza e
modificasse o meu temperamento em suas tendencias absolutas, radicaes,
podia tornar-me monarchico de razão e de sentimento, como fiquei. Essa
influencia foi o contagio do espirito inglez, o que pude apropriar-me
delle.
A minha passagem pela Inglaterra deixou-me a convicção, que depois se
confirmou nos Estados-Unidos, de que só ha, inabalavel e permanente,
um _grande_ paiz livre no mundo. A Suissa é um paiz livre, mas
é um pequeno paiz; os Estados-Unidos são um grande paiz, mas ha
nelle, sem fallar da sua justiça, da lei de Lynch, que lhe está no
sangue, das abstenções em massa da melhor gente, do desconceito em
que cahiu a politica, uma população de sete milhões, toda a raça de
côr, para a qual a egualdade civil, a protecção da lei, os direitos
constitucionaes, são continuas e perigosas ciladas. A França é um
grande paiz e um paiz livre, mas sem espirito de liberdade arraigado,
sujeito sempre ás crises das revoluções e da gloria.
O que deixa tão funda impressão na Inglaterra é, antes de tudo, o
governo da Camara dos Communs: a susceptibilidade daquelle apparelho,
ainda perante as mais ligeiras oscillações do sentimento publico, a
rapidez dos seus movimentos e a força, em repouso, de reserva, que
elle concentra. Mais ainda, porém, do que a Camara dos Communs, é
a auctoridade dos Juizes. Sómente na Inglaterra, póde-se dizer, ha
juizes. Nos Estados-Unidos a lei póde ser mais forte do que o poder;
é isto que dá á Côrte Suprema de Washington o prestigio de primeiro
tribunal do mundo, mas só ha um paiz no mundo em que o juiz é mais
forte do que os poderosos: é a Inglaterra. O juiz sobreleva á familia
real, á aristocracia, ao dinheiro, e, o que é mais do que tudo, aos
partidos, á imprensa, á opinião; não tem o primeiro logar no Estado,
mas tem-no na sociedade. O cocheiro e o _groom_ sabem que são criados
de servir, mas não receiam abusos nem violencia da parte de quem os
emprega. Apezar dos seus seculos de nobreza, das suas residencias
historicas, da sua riqueza e posição social, o marquez de Salisbury e
o duque de Westminster estão certos de que deante do juiz são eguaes
ao mais humilde de sua criadagem. Esta é, a meu vêr, a maior impressão
de liberdade que fica da Inglaterra. O sentimento de egualdade de
direitos, ou de pessôa, na mais extrema desegualdade de fortuna e
condição, é o fundo da dignidade anglo-saxonia.
Excepto essa idéa da justiça, que se foi formando e crescendo em mim,
á medida que lia no _Times_ a secção dos tribunaes, curso pratico de
liberdade que a nenhum outro se compara, posso dizer que não fiz na
Inglaterra sinão verificar por mim mesmo a precisão, a penetração,
a agudeza de espirito de Bagehot. O seu pequeno livro, cotejado
com o que eu via, ouvia e sabia, explicava-se, tornava-se claro,
sensivel, palpitante no que antes era obscuro, indifferente; fazia-me
comprehender o mechanismo de que elle formulára a theoria: passava a
ser para mim, em direito constitucional, um verdadeiro evangelho. Uma
coisa era ter assimilado aquellas idéas logo ao sahir da Academia e
outra vêr funccionar o proprio systema, receber a impressão viva do
que apenas eu apprendêra ou decorára.
Essa dupla influencia do governo inglez e da liberdade ingleza era, por
sua natureza, monarchica. Não podia deixar de inclinar-me interiormente
á monarchia a idéa de que o governo mais livre do mundo era um governo
monarchico. Ainda assim um estrangeiro intelligente não seria no seu
paiz inabalavelmente monarchista sómente porque o governo chegou na
Inglaterra a um gráu maior de perfeição do que nos Estados-Unidos,
que tomaram a fórma republicana. Desde que não tinhamos no Brasil os
elementos historicos que a liberdade ingleza suppõe, a não querer eu
commetter o maior erro que se póde commetter em politica,--o de copiar
de sociedades differentes instituições que _cresceram_,--eu não podia
repellir a republica no Brasil sómente por admirar a monarchia ingleza
de preferencia á Constituição Americana. Era preciso alguma coisa mais,
no que respeita á fórma de governo, para eu não me deixar arrastar.
A transformação, ou, melhor, a modificação de ideal politico que
soffri na Inglaterra era, todavia, a preliminar, o preparo para a
impenetrabilidade que offereci depois á aspiração republicana. Até
então, a fórma republicana me parecêra superior á monarchica pelo lado
da dignidade humana. Foi na Inglaterra que senti que nunca a nossa
raça attingiu ao mesmo ponto de altivez moral que em uma monarchia.
Com o privilegio dynastico, que tambem o meu radicalismo rejeitava,
eu agora o via bem, não se fazia no seculo XIX sinão aproveitar a
tradição nacional mais antiga e mais gloriosa para neutralisar a
primeira posição do Estado. A concepção monarchica ficava sendo
esta: a do governo em que o posto mais elevado da hierarchia fica
fóra de competição. Era uma concepção simples como a da balança,
como a do eixo. Nenhum direito se transformou tanto no decurso deste
seculo no Occidente como o direito real, que de divino passou a
ser puramente historico, de activo passou a ser passivo. O rei da
Inglaterra, si quizer influir na politica com as suas idéas proprias
e a sua iniciativa, tem primeiro que abdicar e,--si a hypothese é
admissivel,--fazer-se eleger á Camara dos Communs ou tomar a direcção
da casa dos Lords. Entre o Czar e a rainha Victoria a differença de
auctoridade é infinitamente maior do que entre a rainha Victoria e o
Presidente dos Estados-Unidos. O governo pessoal é possivel na Casa
Branca; é impossivel em Windsor Castle.
O chamado privilegio é assim um cargo honorifico, uma tradição
nacional, uma conveniencia publica, quasi uma fórmula algebrica de
equilibrio de forças, de conservação de energia, de moto continuo. É
tão absurdo resentir-se alguem em sua dignidade da existencia desse
ponto fixo no systema politico, como seria o resentir-se da existencia
do eixo da terra ou da estrella polar. A muitos é impossivel deixar de
vêr no occupante do throno o homem ou a mulher, o accidente, a pessôa,
para vêr a funcção, a existencia tradicional, a lei do movimento
politico. Desses póde-se dizer que são deficientes em imaginação
symbolica; mas, desapparecendo o symbolismo, podemos estar certos de
que desapparecerá tambem o ideal na religião, na poesia, na arte, na
sociedade, no Estado.
A monarchia constitucional ficava sendo para mim a mais elevada
das fórmas de governo: a ausencia de unidade, de permanencia, de
continuidade no governo, que é a superioridade para muitos da fórma
republicana, convertia-se em signal de inferioridade. Esse ideal
republicano, de um Estado em que todos pudessem competir desde o
collegio para a primeira dignidade, passava a ser a meus olhos uma
utopia sem attractivo, o paraiso dos ambiciosos, especie de hospicio em
que só se conhecesse a loucura das grandezas. Não era este, de certo,
o termo da evolução humana, pelo qual rezamos todos os dias, quando
repetimos o _adveniat regnum tuum_. Desistir da idéa monarchica não
é tão facil como parece. _Mesmo o systema planetario é monarchico_,
diz Schopenhauer. O Universo é a monarchia por excellencia. Em vez de
_Cosmos_, Humboldt podia ter dado ao seu livro o titulo _De monarchia_.
A idéa central do Infinito, isto é, Deus, não podia deixar de ser em
toda a esphera da intelligencia e da actividade humana o verdadeiro
ideal. Até hoje a força, transformada em direito e em tradição, terá
sido a genese do ideal monarchico; um dia elle sahirá da sciencia, da
intelligencia, da virtude, da santidade. O ideal humano, todo elle,
toda a esthetica religiosa, social, artistica, podemos ficar certos,
está inteiro na linha: «E creou Deus o homem á sua imagem.»
Eu encontrava republicanismo na Inglaterra em espiritos de primeira
ordem; havia republicanismo, mais ou menos consciente, em Spencer,
em Mill, em Bagehot, em Bright, em Morley, em George Eliot, em
G. Henry Lewes, mas era republicanismo _sine die_, conservado no
sentimento monarchico, para impedil-o de corromper-se. A Inglaterra
não seria a nação livre que é si não houvesse no seu caracter uma
fibra que impede a veneração dynastica de degenerar em superstição, a
«loyalty» de tornar-se servilismo... No coração inglez a fidelidade
á Camara dos Communs precede a fidelidade á Realeza, e dessa regra
não faz excepção a propria dynastia, que sente como a nação. Esse
fundo de republicanismo, latente, esquecido até, mas que a menor
provocação faria resuscitar o mesmo que sob os Stuarts, longe de ser
incompativel com o monarchismo, é que o tem conservado, restringindo,
reduzindo o poder real á funcção que é hoje, puramente moderadora e,
só raras vezes, provisoriamente arbitral. Esse republicanismo não
impedirá,--pelo contrario,--os que o têm em reserva, de inclinar-se
deante da rainha e defender a integridade da sua prerogativa esvaecente.
Como eu disse, porém, não me bastaria mesmo essa profunda modificação
de ideal politico para impedir-me de acompanhar o movimento republicano
entre nós, dadas certas contingencias. Eu podia ser monarchista de
ideal e julgar a republica, em um momento dado, o melhor governo
praticavel, como se póde ser republicano de ideal,--e muitos o são na
propria Inglaterra,--e fazer da monarchia o seu _noli me tangere_. Além
disso, eu podia deixar arrastar-me por uma corrente de enthusiasmo,
por uma solidariedade de partido, por amizades politicas, ou, mesmo,
por algum interesse que soubesse disfarçar-se e insinuar-se-me no
espirito,--sob a fórma de um sacrificio á causa publica. As idéas para
espiritos que vêm os lados oppostos das coisas, o que tudo tem de bom
e de mau, são pobres, frageis, antemuraes. É preciso, para sustentar
a fé politica, mais do que a lucidez da intelligencia; a não haver um
sentimento que interesse o coração, ou uma especie de ponto de honra
que se imponha ao caracter, é indispensavel um espirito uniforme de
conducta, uma regra certa de direcção. No meu caso particular, o que me
poupou da illusão republicana foi um toque apenas do espirito inglez.
XIII
O ESPIRITO INGLEZ
Sem elle a convicção da superioridade do typo politico da Inglaterra
não teria bastado. Quanto á sensação aristocratica da vida, de que
tambem fallei, essa, no combate dos partidos, não teria resistido ao
primeiro choque. O que entendo por espirito inglez neste caso é a norma
tacita de conducta a que a Inglaterra toda parece obedecer, o centro
de inspiração moral que governa todos os seus movimentos. Vi quasi
nada da Inglaterra, sinto dizel-o, mas vi pedaços que me impedem quasi
de querer vêr o resto, excepto Oxford, cujo logar tenho vago em minha
galeria interior, á espera do seu pequeno quadro. Vi, por exemplo,
Cantuaria, e tenho no pensamento a calma, o silencio, a grandeza
daquella imponente massa recolhida em si mesma. Vi, na semana de Cowes,
Southampton e a ilha de Wight, pequena sombra da Inglaterra no mar,
sombra colorida, movente e alegre. Fui em carruagem,--poderá haver
um dia mais completo de romance?--de Stratford-on-Avon, atravessando
Warwick, a Kenilworth. Passei dias á margem do Tamisa, entre Windsor
e Henley, e creio que tive reminiscencias do paraiso terrestre. É
realmente a vinheta mais perfeita que se podia imprimir á margem do
capitulo II, v. 10 do Genesis: «Deste logar de delicias sahia um rio
que regava o paraiso.» Em toda parte a impressão que tive da Inglaterra
foi a mesma: ruinas cobertas de hera, antigas gravuras expostas em Pall
Mall, montes de trigo nos campos ceifados, castellos recortados no meio
de parques florestaes, velhas estalagens á beira da estrada, botes
encostados ao arvoredo de Cliveden, grandes transatlanticos nas docas
de Southampton, sempre a mesma impressão, o cunho inglez estampado em
tudo. A sensação foi a mesma para mim da Inglaterra, vista de dentro,
na segurança de seus recursos, e vista de fóra, inatacavel nos seus
altos _cliffs_ brancos, a cujos pés o mar se abre como uma trincheira.
É, porém, na sua feição politica sómente que considero neste momento
o espirito inglez, e, ainda mais restrictamente, o modo por que elle
se manifesta nos movimentos reformistas, a influencia que tem sobre
os espiritos innovadores. Politicamente, o espirito inglez póde
decompôr-se em espirito de tradição, em espirito de realidade, em
espirito de ganho, em espirito de força e generosidade, em espirito
de progresso e melhoramento, em espirito de ideal: supremacia
anglo-saxonia e supremacia christã no mundo.
A veneração imprime na Inglaterra aos precedentes uma auctoridade
quasi sagrada, e tira a tudo que tem caracter historico ou funcção
nacional, a feição individual em que se fixa a vista de outros povos.
A rainha Victoria é mais do que a _augusta_, cuja imagem cada familia
venera no seu _lararium_ interior; é a realeza Normanda, Plantagenet,
Tudor. Como a Rainha, a Constituição. Esta não é mais do que uma
procuração em causa propria, dada pela nação ingleza á Camara dos
Communs, e mesmo, assim, um mandato de que nunca se viu o instrumento.
Nenhum grande legista a redigiu, nenhum homem de Estado a ideou:
formou-se espontaneamente, inconscientemente, como a lingua ingleza,
a architectura perpendicular, os contos da _nursery_. A tradição,
como base do temperamento nacional, produz no Inglez a faculdade de
admirar a massa historica de uma instituição, como o architecto admira
a grandeza e o detalhe de uma cathedral gothica. Para o Inglez, si
a liberdade é o grande attributo do homem, si elle a sente como o
desenvolvimento da personalidade, a ordem é a verdadeira architectura
social. Elle comprehende e penetra a grandeza do systema que se
perpetúa mais do que a das revoluções, ao contrario do latino, que
póde viver e ser feliz em um solo politico oscillante, sujeito a
terremotos continuos. D’ahi, para elle o amor da lei e a sympathia,
interesse, carinho mesmo, pela auctoridade encarregada de executal-a;
d’ahi, tambem, o prestigio do juiz, a popularidade das sentenças que
aterrorisam o criminoso, ao contrario das facilidades que este encontra
nos paizes onde decáe o instincto de conservação.
Si n’uma organização assim formada existe, ao lado dessa quasi
superstição do costume, o espirito de aperfeiçoamento e de progresso,
o que resulta é que as reformas, as modificações serão governadas por
algumas regras elementares. Uma destas será conservar do existente tudo
o que não seja obstaculo invencivel ao melhoramento indispensavel;
outra, que o melhoramento justifique,--e para justificar não basta
só compensar,--o sacrificio da tradição, ou mesmo do preconceito
que o embarga; outra regra é respeitar o inutil que tenha o cunho
de uma epocha, só demolir o prejudicial; outra, substituir tanto
quanto possivel provisoriamente, deixando ao tempo a incumbencia
de experimentar o novo material ou a nova fórma, para consagral-o
ou rejeital-o; uma ultima, esta rara e extrema, será reformar, no
sentido originario da instituição, o mais antigo, procurando o traçado
primitivo. Dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e
cuidado com que outras epochas edificaram. Nenhum explosivo é legitimo,
porque a acção não póde ser de antemão conhecida; é preciso demolir a
nivel e compasso, retirando pedra por pedra, como foram collocadas.
O que, porém, dirige o espirito de progresso é o espirito de realidade,
espirito pratico, positivo, que se manifesta pela rejeição de tudo
que é theorico, _a priori_, tentativo, logico, ou que pretenda á
perfeição, á finalidade, á uniformidade, á symetria. A esse espirito
corresponde, na ordem politica, a idéa de crescimento: as instituições
têm o seu _habitat_ como as plantas, as suas latitudes e terreno
proprios, condições especiaes de acclimação, obstaculos e perigos de
transplantação. Não basta que a reforma seja indicada pela experiencia,
baseada em uma forte verosimilhança; é preciso que tenha affinidade
com as outras instituições. Esse espirito pratico, positivo, é a
experiencia do utilitarismo, do espirito de crear e accumular riqueza,
caracteristico da raça. O utilitarismo manifesta-se em que as reformas
devem ter uma vantagem economica, pelo menos indirecta, e justificar-se
por algarismos. Ao lado, porém, da corrente utilitaria, ha a corrente
imaginatíva ou de ideal, moral, nacional, religiosa.