Como quer que seja, tenho daquelle cargo de addido de legação, unico

que exerci, a mais reconhecida e affectuosa lembrança. Nunca mais

teria eu podido acceitar outro; com effeito, pouco depois entrava

para a Camara, e dava-se a minha incompatibilidade de abolicionista

militante com o systema politico da escravidão, e, acabada esta, logo

em seguida, surgia para mim outra abstenção forçada: a da defesa da

monarchia contra os partidos. O signatario daquelle decreto foi o barão

de Cotegipe. A nomeação não era de certo escandalosa; em qualquer

ministerio de Estrangeiros onde não existisse patronato, eu tiraria

o meu logar de addido em concurso: não tenho, porém, em mim essa

medida da gratidão com que outros apuram por millimetros o favor ou

o serviço que recebem; não conheço a arte de analysar, de decompôr,

pelas intenções secretas e circumstancias fortuitas, o obsequio, a

distincção, o beneficio que nos é feito, de modo a ser o acceitante

ás vezes quem generosamente captiva e obriga o doador. Si o barão de

Cotegipe me tivesse nomeado de vez ministro plenipotenciario, o seu

credito contra mim não teria sido maior do que foi com essa designação

para o primeiro degráu da carreira diplomatica.

X

LONDRES

Talvez eu pudesse resumir o processo da minha solidificação politica,

dizendo sómente que a monarchia faz parte da atmosphera moral da

Inglaterra e que a influencia ingleza foi a mais forte e mais duradoura

que recebi.

Quando pela primeira vez desembarquei em Folkestone, entrando na

Inglaterra, eu tinha passado mezes em Pariz, tinha atravessado a

Italia, de Genova a Napoles, tinha parado longamente á margem do lago

de Genebra, e não me podia esquecer da suave perspectiva, á beira do

Tejo, de Oeiras a Belém, cuja tonalidade doce e risonha nunca outro

horizonte me repetiu. Por toda a parte eu tinha passado como viajante,

demorando-me ás vezes o tempo preciso para receber a impressão dos

logares e dos monumentos, o molde intimo da paizagem e das obras de

arte, mas desprendido de tudo, na inconstancia continua da imaginação.

Quando avistei, porém, da janella do wagon, por uma tarde de verão, o

tapete de relva que cobre o chão limpo e as collinas macias de Kent,

e no dia seguinte, partindo do pequeno _appartment_ que me tinham

guardado perto de Grosvenor Gardens, fui descortinando uma a uma as

fileiras de palacios do West End, atravessando os grandes parques,

encontrando em St. James’s Street, Pall Mall, Piccadilly, a maré cheia

da _season_, essa multidão aristocratica que a pé, a cavallo, em

carruagem descoberta, se dirige duas vezes por dia para o _rendez-vous_

de Hyde Park, e, dias seguidos, penetrei em outras regiões da cidade

sem fim, conhecendo a população, a physionomia ingleza toda, raça,

caracter, costumes, maneiras,--posso dizer que senti minha imaginação

excedida e vencida. A curiosidade de peregrinar estava satisfeita,

trocada em desejo de parar alli para sempre.

Ás vezes me distraio a pensar que povo eu salvaria, podendo, si a

humanidade se devesse reduzir a um só. Minha hesitação seria entre a

França e a Inglaterra,--aliás, sei bem que no começo do seculo quem

eliminasse a Allemanha do movimento das idéas, da poesia, da arte,

eliminaria o que elle teve de melhor. Entre a França e a Inglaterra,

porém, fico sempre incerto. O meu dever seria, talvez, soccorrer a

França. «Si M^{me}. Récamier e eu estivessemos a nos afogar, qual de

nós duas o senhor salvaria?» perguntou uma vez Madame de Staël ao seu

amigo Talleyrand. «_Oh! madame, vous savez nager._» A Inglaterra,

tambem, sabe nadar.

O genio francez tem todos os raios do espirito humano, principalmente

os raios estheticos; o genio inglez não os tem todos, tem até uma

opacidade singular nos fócos do espirito, que merecem o nome de

francezes, em quasi todos os que merecem o nome de athenienses. A

Inglaterra--a associação de idéas tem sido muitas vezes feita,--é a

China da Europa; isto é, tem uma individualidade inamolgavel, incapaz

de tomar a physionomia commum. Latinos, Allemães, Slavos formarão uma

só familia, por muitissimos traços communs, antes que o Inglez deixe

de ser um typo _sui generis_, á parte do typo collectivo europeu.

Por esse motivo, a França, só, representaria melhor a humanidade do

que a Inglaterra; ha n’ella mais attributos universaes, maior numero

de faculdades creadoras, de qualidades de tronco, maior somma de

hereditariedade humana, de possibilidades evolutivas portanto, do que

no particularismo e no exclusivismo inglez. Em compensação, a raça

ingleza parece ser mais sã, mais elastica; ter maior vigor mesmo de

genio e de creação; maior provisão de vida e de força,--ainda que a

força sem a imaginação e a cultura, (que na Inglaterra tem sido, em

grande parte pelo menos, estrangeira), possa degenerar em brutalidade e

egoismo. Estão ahi as razões da minha hesitação, quando imagino um novo

diluvio universal e me pergunto que paiz, nos mais altos interesses da

intelligencia humana, mereceria o privilegio de construir a arca.

Qualquer que seja a explicação, o facto é que nunca experimentei esse

prazer de viver em Pariz, que foi e é a paixão cosmopolita dominante

em redor de nós. A grande impressão que recebi não foi Pariz, foi

Londres. Londres foi para mim o que teria sido Roma, si eu vivesse

entre o seculo II e o seculo IV, e um dia, transportado da minha aldeia

transalpina ou do fundo da Africa Romana para o alto do Palatino,

visse desenrolar-se aos meus pés o mar de ouro e bronze dos telhados

das basilicas, circos, theatros, thermas e palacios: isto é, para mim,

provinciano do seculo XIX, foi, como Roma para os provincianos do tempo

de Adriano ou de Severo: _a Cidade_. Essa impressão _universal_, da

cidade que campeia acima de todas, senhora do mundo pelo _milliarium

aureum_, o qual no seculo XIX tinha que ser maritimo; essa impressão

_soberana_, tive-a tão distincta como si a humanidade estivesse

ainda toda centralisada. O effeito dessa impressão de dominio foi

uma sensação de _finalidade_, que sómente Londres me deu:--não de

finalidade intellectual, como dá a Athenas de Pericles, a Florença dos

Medicis, a Roma de Leão X, ao homem de arte, a Versalhes do seculo

XVII ao homem de côrte, a Roma das Catacumbas ao homem de fé, a Roma

antiga ao homem do passado, Niebuhr, Chateaubriand, Ampère, a pequena

Weimar do fim do seculo XVIII ao homem de letras, ou Pariz, ainda neste

seculo, até Renan e Taine, ao homem de cultura; finalidade material, si

me posso expressar assim, de grandeza esmagadora e imperio illimitado.

Donde procede essa impressão universal de Londres, seguida dessa

sensação de finalidade, que talvez seja toda subjectiva? (Não me parece

entretanto.)

O que dá á «Metropole» esse ascendente _imperial_, quero crer, é a sua

massa gigantesca, as suas perspectivas infindas, a solidez eterna,

egypciaca, das construcções, as immensas praças, e os parques que se

abrem de repente na emboccadura das ruas, como planicies onde poderiam

errar grandes rebanhos, á sombra de velhas arvores, á beira de lagos

que merecem pertencer ao relevo natural da Terra. Este ultimo é, para

mim, o traço dominante de Londres: o estrangeiro supporia ter entrado

no campo, nos suburbios, quando está no coração da cidade; é a mesma

impressão, porém, incalculavelmente mais vasta, que dava a Casa de

Ouro: «O ouro e as pedras preciosas não causavam tanta maravilha, por

serem já muito vulgares, e uma ostentação ordinaria do luxo, como os

campos e os lagos, e por uma parte as artificiaes solidões e desertos,

formados por bosques espessos, e por outra, as largas planicies e

longas perspectivas, que dentro do seu immenso circulo se viam[2].»

[2] TACITO, Trad. Freire de Carvalho.

Nem pára ahi o assombro. E a larga faixa do Tamisa, com as pontes

colossaes que o atravessam e os monumentos assentados á sua margem

desde Chelsea até á Ponte de Londres, principalmente o massiço dos

edificios de Westminster, a extensa linha das Casas do Parlamento,

a mais grandiosa sombra que construcção civil projecta sobre a

terra. É, por outro lado, a City, em roda do Banco de Inglaterra,

com o Royal Exchange ao lado, e Lombard Street defronte, o mercado

monetario, o verdadeiro _comptoir_ do mundo. Aqui, nas ruas calçadas

a madeira, para ainda mais amortecer o ruido, causa uma impressão

singular a multidão que não perde um minuto, indifferente a si mesma,

á qual nada distrahiria o olhar nem arrancaria uma syllaba, e que

transporta debaixo do braço, em suas carteiras, massas de capital

que seriam precisos wagons para carregar em dinheiro, os cheques

que vão para a Clearing-House, os billiões esterlinos, que por ella

passam, transferidos de banco a banco, importados, reexportados, pelo

telegrapho para os confins do mundo donde vieram. O transeunte pára no

meio de todo esse fluxo e refluxo do ouro, sentindo não ouvir o tinido

das libras; as oscillações continuas, subterraneas, dessas correntes

contrarias de metal elle só as conhecerá pelo seu effeito sensivel: a

taxa do desconto.

O que dá tambem a Londres o seu tom de majestade e soberania é a

dignidade, o silencio que a envolve; a calma, a tranquilidade, o

repouso, a confiança que ella respira; é o ar concentrado, recolhido,

severo por vezes, da sua physionomia, e, ao mesmo tempo, a urbanidade

das suas maneiras; é o retiro em que se vive no seio della, no centro

das suas ruas mais populosas; o isolamento em que se está nas suas

cathedraes, como no British Museum, nos seus parques, como nos seus

theatros ou nos seus clubs. Esse traço de seriedade e de reserva

define, a meu vêr, uma raça imperial, energica e responsavel, conscia

da sua força, viril e magnanima. Além disso, ha uma feição notavel,

caracteristica, expressão suprema de força e de dominio; não é uma

cidade cosmopolita essa metropole do mundo: é uma cidade ingleza.

Pariz ao lado de Londres é uma obra d’arte, immortalmente bella, ao

lado de uma muralha pelasgica; é um Erechteion, em frente ao Memnonium

de Thebas. De certo não ha no mundo uma perspectiva architectural

egual á que se extende do Arco do Triumpho pelos Campos Elyseos até

o Louvre e do Louvre pelo cáes do Sena até apanhar Notre-Dame. Em

Londres não se tem essa impressão de arte que corre por cima da velha

Pariz toda como um friso grego. Para o artista que precisa inspirar-se

exteriormente nas fórmas da edificação, viver no meio do bello

realisado pelo genio humano, Londres está para Pariz como Khorsabad

para Athenas. O genio francez alegre e festivo é em tudo differente

da grande apathia ingleza, e em Pariz se está defronte da obra prima

da arte franceza. Por ahi não ha que comparar. Para o intellectual

que precise diariamente de um passeio artistico para vitalisar-se,

assim como para o homem de espirito e de salão, Pariz é a primeira

das residencias, porque é a que reune á arte o prazer de viver em

suas fórmas mais delicadas e elegantes. Não ha nada em Londres que

corresponda á aspiração franceza, hoje decadente e muito esvaecida, de

fazer da vida toda uma arte, aspiração cuja obra prima foi a polidez do

seculo XVII e o espirito do seculo XVIII. Deixando a grande arte que

tem commettido infidelidades ao genio francez, como a de produzir fóra

de França Goethe, Beethoven e Mozart, as pequenas artes,--e não chamo

pequena arte á obra dos grandes ebanistas, incrustadores, cinzeladores

do movel, de Riesener, Boulle, Beneman, Gouthière,--as pequenas artes

são ainda exclusivamente francezas, como na Roma de Cicero eram

gregas. O que ha em Londres como prazer da vida, não é a arte, é o

conforto; não é a regra, a medida, o tom das maneiras, é a liberdade,

a individualidade; não é a decoração, é o espaço, a solidez. Pariz é

um theatro em que todos, de todas as profissões, de todas as edades,

de todos os paizes, vivem representando para a multidão de curiosos

que os cercam; Londres é um convento, em fórma de Club, em que os que

se encontram no silencio da grande bibliotheca ou das salas de jantar

não dão fé uns dos outros, e cada um se sente indifferente a todos.

Em Pariz a vida é uma limitação; em Londres uma expansão; em Pariz um

captiveiro, captiveiro da arte, do espirito, da etiqueta, da sociedade,

captiveiro agradavel como seja, mas sempre um captiveiro, exigindo

uma vigilancia constante do actor sobre si mesmo deante do publico,

que repara em tudo, que nota tudo; em Londres é a independencia, a

naturalidade, a despreoccupação. _Ceci tuera cela._

Foi, talvez, este lado da vida ingleza o que me seduziu. A impressão

artistica é, por sua natureza, fatigante, exclusiva, e, além de certo

diapasão, inconfortavel, como toda vibração demasiado forte. Eu não

quizera ser condemnado a passar uma hora por dia deante da Joconde, nem

mesmo deante da Venus de Milo. Para renovar a minha curta faculdade de

admirar e de gozar da obra d’arte, preciso de longos intervallos de

repouso, para dizer a verdade, de obtusão. Londres era essa penumbra

que quadra admiravelmente á minha fraca pupilla esthetica; alli tinha

á minha disposição, _excusez du peu_, os marmores de Phidias; não

havia epocha artistica ou litteraria que, querendo viver nella meia

hora,--de mais não me sentiria capaz,--eu não achasse representada

no British Museum, na National Gallery, em South Kensington, e nas

outras grandes collecções nacionaes. Essa proximidade bastava-me;

quanto a tudo mais que faz o prazer da vida, eu preferia, como disse,

a naturalidade, a calma, o descanço, as grandes perspectivas, o

isolamento, o esquecimento de Londres á constante vibração de Pariz,

vibração cosmopolita de espirito, de prazer, de arte, através de uma

atmosphera de luxo, de combate e de theatro.

Eu sei bem que ha alli outra vida; que ha indifferentes, solitarios,

reclusos na grande capital, pequenos claustros de silencio e de

meditação, onde não chegam até ao pensador e ao artista os ruidos de

fóra. Sem isso, Pariz não produziria o grande pensamento; mas a viver

isolado do movimento de Pariz, antes estar separado delle pela Mancha

do que pelo Sena, como o meu amigo Rio Branco, que se fechava na Margem

Esquerda, com a sua bibliotheca brasileira, as suas provas a corrigir,

e os seus intimos do Instituto.

O facto é que amei Londres acima de todas as outras cidades e logares

que percorri. Tudo em Londres me feria uma nota intima de longa

resonancia: as suas extensas campinas e os seus bosques, como o tijolo

ennegrecido das suas construcções; o movimento atordoador de Regent

Circus ou Ludgate Hill, como os recessos de Kensington Park, á sombra

do arvoredo secular; os seus dias quentes de verão, quando o asphalto

amollece debaixo dos pés, a folhagem se cobre de poeira, e o ar tem o

calor secco das thermas, como os seus deliciosos dias de maio e junho,

quando as mais altas janellas se transformam em jardins suspensos, e as

grandes cestas dos parques se enchem de tulipas e jacinthos; as suas

noites de luar, que faziam Park Lane parecer-me ás vezes na nevoa,

com a sua rua de palacios, um trecho de Veneza, e que de Piccadilly,

olhando por cima da bruma de Green-Park para a illuminação em roda de

Buckingham Palace, me davam sempre a illusão do outro lado da bahia do

Rio, visto da esplanada da Gloria, como os seus dias escuros e tristes

de nevoeiro, que eu não teria então trocado pelo azul do Mediterraneo

nem pela pureza do céo da Attica; os seus traços de maior cidade do

mundo, a esplendida belleza da sua raça, e os menores detalhes de sua

physionomia propria; os mostradores das lojas de luxo de Piccadilly e

New-Bond-Street, como os _hansoms_ que paravam em frente; o _Times_,

a _Pall Mall Gazette_, o _Spectator_, como o papel avelludado, o

typo, grande e claro, o couro liso, macio, dourado dos livros; a

tranquillidade dos clubs, o recolhimento das egrejas, o silencio dos

domingos, como a confusão, o movimento, o atropelo em Charing-Cross

e Victoria Station, da onda immensa de todas as classes e de todas

as edades, que se espalha de Londres, á tarde dos sabbados, para as

praias de mar, para as casas de campo, para as margens do Tamisa.

Tudo isso, eu vejo bem, não era sinão a minha propria mocidade... com a

differença talvez de que os outros logares, era ella que os coloria, os

animava, os assimilava a si, ao passo que em Londres ella transbordava

naturalmente pelo jorrar de todas as suas fontes.

Esse sentimento paguei-o caro depois, porque foi em Londres que senti

definhar mortalmente a planta humana que ha em cada um de nós e sobre

a qual o nosso espirito apenas pousa, como o passaro no mais alto da

ramagem: as suas raizes physicas e moraes precisavam do solo em que

ella se tinha formado; as suas folhas, do nosso sol. Ainda assim,

foi a Londres que vim a dever, annos mais tarde, uma restituição que

bem compensou aquelle deperecimento. Foi em Londres, graças a uma

concentração forçada, a qual não teria sido possivel para mim sinão

em sua bruma, que a minha intelligencia primeiro se fixou sobre o

enigma do destino humano e das soluções até hoje achadas para elle, e,

insensivelmente, na escondida egreja dos Jesuitas, em Farm Street, onde

os vibrantes açoites do padre Gallway me fizeram sentir que a minha

anesthesia religiosa não era completa, depois no Oratorio de Brompton,

respirando aquella pura e ciaphana atmosphera espiritual impregnada do

halito de Faber e de Newman, pude reunir no meu coração os fragmentos

quebrados da cruz e com ella recompôr os sentimentos esquecidos da

infancia.

XI

32, GROSVENOR GARDENS

Fallei de Londres como si fosse para mim a cidade unica, porque

Londres reuniu em uma só impressão as sensações differentes que me

causaram, ou vieram a causar, Pariz, Roma, Pisa, Veneza, Nova-York,

Boston, Washington. É preciso, para cada um desses nomes, fazer _um

transporte_, de raça, clima, arte, passado, para se ter a impressão

ingleza equivalente; mas eu pretendo ter tido em Londres a sensação:

de vida suprema que se tem em Pariz, de encantamento que se tem em

Roma ou Florença, de morte radiante que se tem em Pisa, de poder

maritimo e solidez aristocratica que se tem em Veneza, de opulencia,

mocidade, e belleza humana que se tem em Nova-York, de silencio,

distincção intellectual que se tem em Boston, de instituições civis

indestructiveis e gigantescas que se tem em Washington deante do

Capitolio. Tudo isso transportado, eu já disse, fazendo-se, por

exemplo, a reducção da impressão do Forum para a da Torre de Londres,

ou do catholicismo para o protestantismo, como quem dissesse do Papa

para o arcebispo de Cantuaria, ou do Vaticano para Lambeth Palace.

Não pertenço ao numero dos solitarios, dos fortes, que bastam a si

mesmos e pódem viver comsigo só de arte, de historia, de paizagem, de

pensamento. Londres com a sua grandeza, o seu imperio, os seus vastos

horizontes interiores, as suas estatuas, o seu friso do Parthenon, os

seus touros alados da Assyria, os seus Cartões de Raphael, teria sido

para mim uma solidão asphyxiante, si eu não tivesse encontrado no meio

della um circulo intimo onde descançar a imaginação da acuidade, da

plenitude de todas aquellas impressões. Sem um mediador plastico, eu

não teria ficado alli, apezar de todas as minhas affinidades. Si eu

tivesse que definir a felicidade, diria que é a admiração, o sentimento

do que é bello em conta de participação com os que nos são harmonicos.

O élo de união foi para mim _32, Grosvenor Gardens_.

Não tenho espaço nestas paginas para collocar os retratos do dono

e da dona da casa. Só direi do primeiro, nas suas roupas de doutor

de Oxford, que o seu molde diplomatico está para o Brasil tão

irreparavelmente perdido como para Veneza o dos seus embaixadores dos

seculos XVI e XVII. Da baroneza de Penedo basta-me dar este traço:

vivendo por mais de trinta annos com a côrte e a sociedade ingleza,

ella não poz nunca no segundo plano as suas amizades ainda as mais

humildes e exerceu sempre a hospitalidade da sua _mansão_ de Londres á

boa moda do nosso paiz, com a mais egual affabilidade para todos, o que

bem mostra a altivez de raça de uma Andrada.

Entre os intimos de Grosvenor Gardens eu vinha encontrar Rancés,

marquez de Casa la Iglesia, o mais bello homem do seu tempo, que não

sei si não terá fundado, em expiação do seu perfil, alguma Trappa na

Andaluzia; o marquez Fortunato, que representava a realeza extincta de

Napoles tão fielmente como si Francisco II ainda habitasse Capodimonte;

o velho John Samuel, que nos contava historias do velho Brasil, tendo

vivido e dirigido a moda no Rio de Janeiro no tempo de Pedro I; outro

velho, Saraiva, o diccionario portuguez de Londres, verão e inverno em

um casacão que lhe descia até os pés, a longa barba inculta, a pelle

entalhada como um retabulo hespanhol, com um montão de livros debaixo

do braço e em cada bolso, primeiro e ultimo amigo de Dom Miguel na

Inglaterra, e que desde 1834 se consolava do desterro, da pobreza, do

frio de Londres com os seus alfarrabios e os seus ouvintes.

Encontrei alli ainda Mr. Clark, o famoso correspondente do

_Jornal do Commercio_, a quem depois succedi, a _bête noire_ de

Zacharias, um desses _old gentlemen_ que a Inglaterra póde mandar ao

estrangeiro, com certificado, como specimen nacional, porque nada do

que é essencialmente inglez, perfil, caracter, tradição, maneira,

preconceito, _humour_, orgulho insular, deixaria de estar representado

nelles; Pellegrini, o caricaturista de _Vanity Fair_, um dos artistas

napolitanos que invadiram com a sua loquacidade alegre, o seu riso

communicativo, a sua mimica irresistivel, a fria e reservada sociedade

ingleza e tomaram conta della.

Devo tambem citar Mr. Youle. Este ha cincoenta annos serve em Londres

de correspondente aos seus amigos do Brasil e de Portugal; a todos

hospeda, agasalha, enche de obsequios, dando-se o incommodo de ir até á

Allemanha por um rapaz que o pae quer collocar em uma casa de Hamburgo;

tomando o trem de Calais, mal acaba de chegar da Escossia ou de

Manchester, para deixar no Sacré Cœur de Pariz uma menina que não quer

continuar em Rohampton; indo a Lisboa, e, si preciso fôr, á Madeira

para acompanhar um doente que foge do inverno inglez; prompto sempre,

incançavel nas suas funcções de provedor de Brasileiros e Portuguezes

na Inglaterra, ha meio seculo, e além d’isso o oraculo na City, nos

grandes Bancos, quando se trata de interesses commerciaes dos dois

paizes.

Esses eram alguns dos intimos de 1874-76, periodo a que me refiro,

sem contar os Brasileiros que alli se achavam no Brasil. Em periodos

anteriores sei que o foram entre outros Musurus Pachá e o infante Don

Juan, pae de D. Carlos de Hespanha; o Dr. Gueneau de Mussy, medico fiel

da familia de Orléans desterrada, e o republicano Dupont, proscripto do

Imperio, companheiro de Ledru-Rollin e de Louis Blanc, o velho barão

Leonel de Rothschild, o marquez do Lavradio, modelo dessa distincção

e urbanidade portugueza que parece requintar sobre todas as outras

aristocracias.

Minha formação · 第 5 / 16 段