dû à vous dire tout ce que je pense de vos excellents vers. Je voulais
les relire et, puis, j’espérais quelque vendredi vous voir à Paris.
Oui, vous êtes vraiment poète. Vous avez l’harmonie, le sentiment
profond, la facilité pleine de grâce. Si vous voulez venir après
demain, lundi, vers trois ou quatre heures, rue Vanneau, vous serez
sûr de me trouver; nous causerons. Je suis prêt à faire tout ce que
vous voudrez pour la _Revue_ et les _Débats_. Malheureusement ces
recueils sont depuis longtemps brouillés avec la poésie. Ce sont des
vers comme les vôtres qui pourraient les réconcilier. Croyez à mes
sentiments les plus affectueux et les plus dévoués.--_E. Renan._»
Não é verdade que, para um joven brasileiro que escrevia pela primeira
vez o francez, uma carta assim devia ser uma sensação de fazer epocha
na vida? Leiam agora esta traidora pagina dos _Souvenirs d’Enfance et
de Jeunesse_, que seguramente não fui o unico a inspirar. Vou commetter
o crime de traduzir Renan:
«Desde 1851 acredito não ter praticado uma só mentira, excepto,
naturalmente, as mentiras alegres de pura eutrapelia, as mentiras
officiosas e de polidez, que todos os casuistas permittem, e tambem
os pequenos subterfugios litterarios exigidos, em vista de uma
verdade superior, pelas necessidades de uma phrase bem equilibrada ou
para evitar um mal maior, como o de apunhalar um auctor. Um poeta,
por exemplo, nos apresenta os seus versos. É preciso dizer que são
admiraveis, porque sem isso seria dizer que elles não têm valor e fazer
uma injuria mortal a um homem que teve a intenção de nos fazer uma
civilidade.»
A meu respeito, si uma vaga lembrança dos meus versos lhe occorreu
tanto tempo depois ao escrever essa graciosa ironia, o grande
escriptor enganou-se em um ponto: elle não me teria apunhalado dizendo
que os meus versos não valiam nada, em vez de dizer-me que eram
admiraveis. George Sand escreveu-me tambem a respeito do meu livro: «Il
est d’une rare distinction et les nobles pensées y parlent une noble
langue», e, curiosamente, Madame Caro egualmente se referia a «l’œuvre
qui exprime dans un noble style la plus noble sympathie pour notre
malheureuse patrie.» Todos esses cumprimentos, toda essa _nobreza_, eu
a recolhia e guardava preciosamente como provas da generosa amabilidade
e cortezia do caracter francez. Quanto ao valor dos meus versos, porém,
a impressão que me ficou e apagou todas as outras, foi o silencio frio,
impenetravel, entretanto polido, attencioso, sympathico, de Edmond
Scherer. Contei esse episodio para acautelar o talento que se estréa
contra a perigosa seducção da _eutrapelia_ litteraria. Conheço entre
nós um mestre dessa arte do espirito, Machado de Assis, mas este,
espero, não fará confissões. «Quem se não póde conformar á perda da
propria honra, diz S. Felippe Neri, nunca avançará na vida espiritual.»
O escriptor juvenil que não se resignar ao sacrificio da sua «honra»
litteraria, não fará progressos em litteratura.
VIII
A CRISE POETICA
Agora, as razões pelas quaes eu naufragaria sempre no verso. Si o que
estava nas paginas de _Amour et Dieu_ fosse novo, eu poderia, de certo,
orgulhar-me do meu pensamento; ainda assim, entretanto, não seria
poeta. Não era novo, porém. Tomem-se essas quadras:
La terre est une triste et bien sombre demeure:
Pour que l’homme s’attache à ce terrible lieu,
Il faut que le poète avec lui souffre et pleure,
Et lui fasse espérer l’adoption de Dieu.
Car Dieu toujours est loin, et notre humble prière
Ne le fait point descendre à ce séjour du mal;
En vain nous l’appelons et crions: Notre Père!
Il n’est encore pour nous qu’un soupir, l’idéal.
Si ninguem tivesse dito o mesmo antes, essa _humanidade esperando
a adopção de Deus_, que é ainda, por emquanto, _um suspiro do seu
coração_, seria o germen de uma seductora philosophia; aquelle trecho,
porém, é a traducção, em verso fraco e mal trabalhado, do que Renan
mesmo tomára aos allemães e tinha expressado de modo perfeito na mais
elegante das prosas. O que me enganava nos meus versos, parecendo-me
sonoro e elevado, não pertencia á poesia, pertenceria á eloquencia.
Aqui está uma ode á França; é a Alsacia-Lorena que falla á Allemanha:
Tu penses arrêter le sang de notre vie,
En t’emparant des rails de nos chemins de fer;
Nous avons cinquante ans pour changer de patrie,
Pour nous enrôler, tous, contents, dans la landwehr?
Ah! la force t’inspire autant de confiance
Que nous en puiserons dans le droit éternel?
Nous sommes les deux bras mutilés de la France,
Qu’elle tend toujours vers le ciel!
Mme. Caro, no agradecimento que me manda, escreve: «Os dois braços
mutilados levantados para os Céos, acabarão, tenho confiança, por
vencer o destino.» Os _dois braços mutilados_ podiam ser os dois
joelhos dobrados em oração, os dois pés acorrentados, ou o figado do
Prometheu dos Vosges devorado pela aguia negra da Prussia e renascendo
sempre. Tudo isto é do dominio da rhetorica e do pamphleto politico: é
um libello em hemistichios como a _Nemésis_ de Barthélemy. Nada é mais
contrario á poesia do que a emphase, o logar-commum e o pathetico da
oratoria. Onde começa o advogado ou o tribuno, acaba o poeta.
O facto é que não possúo a fórma do verso, na qual a idéa se modela
por si mesma e donde sáe com o timbre proprio da verdadeira rima, que
nenhum artificio nem esforço póde imitar. Isto, por um lado, quanto
á pequena poesia, á poesia solta, ao que se póde chamar a musica da
poesia. Quanto á grande poesia, á poesia de imaginação e creação,
poema, romance, bailada que fosse, para essa eu seria incapaz, além
da insufficiencia do talento, pela falta de coragem para habitar a
região solitaria dos espiritos creadores, os quaes vivem naturalmente
entre figuras tiradas de si mesmos, sem vida propria, automatos da
sua intelligencia e da sua vontade, como em um sonho accordado. Nessa
altura, onde tudo é ficticio, tudo irreal, tudo phantastico, a poesia
tem para mim o terror do _adytum_ da Pythia. Mesmo quando as figuras
sejam meigas, suaves, humanas, a creação envolve sempre alguma coisa
de mysterioso e terrivel; a completa abstracção, que ella suppõe, da
realidade exterior, do mundo dos sentidos, me daria vertigem.
Ha, além da poesia de sentimento e da poesia de creação, outra poesia.
O verso é a mais nobre fórma do pensamento, a mais pura crystallisação
da idéa, e, como se tem dito, o que não se póde expressar em verso não
vale quasi a pena ser conservado. Essa poesia, porém, que engasta as
bellas idéas na mais duravel e perfeita da cravações, pertence quasi
á especie dos proverbios, em que se condensa e perpetúa a sabedoria
humana. Em Homero ella confunde-se com a historia; em Dante com o
catholicismo; em Gœthe com a arte e com a sciencia. Essa é do dominio
dos mais altos genios.
A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota individual; mas,
como eu disse, não encontrei em mim a tecla do verso, cuja resonancia
interior não se confunde com a de nenhum timbre artificial. Quando
mesmo, porém, eu tivesse recebido o dom do verso, teria naufragado,
porque não nasci artista. Acredito ter recebido como escriptor, tudo é
relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de
poesia, o que tudo junto póde dar, em quem não teve o verso, uma certa
medida de prosa rhythmica; mas da arte não recebi sinão a aspiração
por ella, a sensação do orgão incompleto e não formado, o pezar de que
a natureza me esquecesse no seu côro, o vacuo da inspiração que me
falta... _Ustedes me entienden._ «O artista, disse Novalis, deve querer
e poder representar tudo.» Dessa faculdade de _representar_, de crear a
menor _representação_ das coisas,--quanto mais uma realidade mais alta
do que a realidade, como queria Gœthe,--fui inteiramente privado. Nem
todos os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem todos
os artistas têm o dom do verso: a prosa os possúe como a poesia; a
mim, porém, não coube em partilha nem o verso nem a arte.
É singular como entre nós se distribue o titulo de artista. Muitas
vezes tenho lido e ouvido fallar de Ruy Barbosa como de um _artista_,
pelo modo por que escreve a prosa. No mesmo sentido poder-se-ia chamar
a Krupp artista: a fundição é de alguma fórma uma arte, uma arte
cyclopica, e de Ruy Barbosa não é exaggerado dizer, pelos blocos de
idéas que levanta uns sobre outros e pelos raios que funde, que é
verdadeiramente um cyclope intellectual. Mas o artista? Existirá nelle
a camada da arte? Si existe, e é bem natural, ainda jaz desconhecida
delle mesmo por baixo das superposições da erudição e das leituras.
Eu mesmo já insinuei uma vez: ninguem sabe o diamante que elle nos
revelaria, si tivesse a coragem de cortar sem piedade a _montanha de
luz_, cuja grandeza tem offuscado a Republica, e de reduzil-a a uma
pequena pedra. Aqui está outro, José do Patrocinio, que não é tambem
um _artista_, ainda que em sua prosa se encontre o veio de ouro da
poesia, filão, é certo, fugitivo, e que se perde a cada instante na
rocha politica. Della poder-se-ia extrahir verdadeira poesia; fazer
com as palhetas da sua phrase pelo menos uma imagem, a da _loura mãe
dos captivos_, assim como com o sopro da sua eloquencia de combate se
faria um baixo-relevo para um arco de triumpho: o _Chant du Depart_ da
abolição. Tambem elle não tem a faculdade do verso, no qual naufragaria
como naufragou no romance, porque o seu reflexo intellectual tem a
vibração e a rapidez do relampago, e o verso é por natureza diamantino.
Por isso mesmo tambem sua prosa, em que por vezes ha o toque da poesia,
e quasi o calor do sentimento creador, ainda não pertence á arte, como
pertence a de Chateaubriand, a de Renan, por exemplo, porque não é um
estylo. Não tem governo, tem apenas medida; reflecte a acção confusa,
a agitação perpetua de uma epocha desequilibrada, sem um instante de
calma, de eternidade, em sua obra, no todo, genial. Agora outro muito
diverso. Haverá quem não sinta a musica innata de Constancio Alves?
Este é bem da ordem dos passaros, tem o canto; a prosa delle gorgeia,
sobe, trina; no emtanto, si quizesse reduzir a uma obra d’arte a ironia
melodiosa que tem em si, que restaria della?
Eu disse que me faltava o dom do verso. O timbre do verso reconhece-se
em qualquer quadra. Tome-se Olavo Bilac, por exemplo. Não posso fallar
de Luiz Murat, que tem maior voadura de imaginação, porque tenho até
hoje respeitado instinctivamente o cháos da sua arte; sinto que ha
no seu talento os elementos da poesia, menos a ordem, o principal de
todos, mas que, felizmente para elle, se adquire, ao passo que os
outros são de herança. Suas fórmas confusas e intricadas parecem-me
de muda, e eu o aguardo na epocha em que a mocidade tiver gastado a
sua violencia e elle entrar no bosque das Musas levando o silencio e
a tranquillidade na alma. «Elle ensinou-me, disse Gœthe fallando de
Oeser, que a belleza é simplicidade e repouso, do que se segue que
nenhum joven póde tornar-se un mestre.» De Murat esperarei para fallar
que primeiro elle encontre o seu Oeser. Tome-se Bilac, porém. Basta lêr
a _Profissão de Fe_ em _Panoplias_, para vêr que o verso nasceu com
elle, que não é um esforço, um trabalho, mas a expressão livre, franca,
natural do pensamento:
Invejo o ourives quando escrevo;
Imito o amor
Com que elle em ouro o alto relevo
Faz de uma flôr.
Não me cabe inquirir si o artifice se cingiu sempre em sua obra ás
regras do officio, que tão perfeitamente esculpiu; o buril da rima,
porém, está em sua mão e ninguem se póde enganar sobre a especie de
metal que elle é digno de lavrar.
O facto que eu quería assignalar, é sómente que contrahi em França
neste anno de 1873-74 a aspiração de auctor, a qual se desenvolveu ao
contacto de grandes espiritos da epocha, que me acolheram como eu podia
desejar, especialmente Renan, Scherer, George Sand.
Renan me déra o conselho, que transmitto á nova geração de litteratos,
de entregar-me a estudos historicos. Não ha em regra nada mais ingrato,
mais futil, do que a producção que o individuo tira toda de si, e
é o que acontece quando o talento não tem uma profissão litteraria
séria. Ha estudos, como as humanidades, que são apenas a habilitação
do espirito para a carreira das lettras; quem os tem póde dizer que
possúe a ferramenta do seu officio; além da ferramenta, ha, porém,
que escolher o material. O material em que trabalham os nossos homens
de lettras, são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou
dramaturgos; as leituras, quando são criticos, a propria vida ou
impressões, quando são poetas.
O material preferido é, como se vê, todo elle pouco consistente,
ephemero, em parte grosseiro, em parte imprestavel ou insufficiente,
e assim a producção é quasi toda facil, improvisada, sem trabalho
anterior, sem investigações, sem esforço, sem tempo, sem nenhum
elemento que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina e a
emulação de uma especialidade, que acontece? A intelligencia contráe
o habito da dissipação, da indolencia, do parasitismo; o talento
relaxa-se, perde todo o peso especifico. Temos por isso uma litteratura
desoccupada; o nosso campo litterario é composto de _flâneurs_. A
verdade é que vae augmentando consideravelmente em nosso tempo o que
Matthew Arnold traduziu por _inaccessibilidade ás idéas_, e que esse
novo Philistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes litterarios a
um só genero de iguarias, o genero _nature_. O publico, o protector
moderno das lettras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não
passa de um Mecenas de meia-cultura, mesmo em França e na Inglaterra.
Aconselhar a jovens brasileiros que se dediquem a estudos historicos
desinteressados, é aconselhar-lhes a miseria; mas as leis da
intelligencia são inflexiveis e a producção do espirito que não se
alimenta sinão de sua propria imaginação, tem que ser cada dia mais
frivola e sem valor.
Não me aproveitei do conselho de Renan sinão tarde de mais na
vida, quando comecei a preparar a biographia de meu pae, que é uma
perspectiva da epocha toda de D. Pedro II. O aviso, porém, ahi fica
para os que quizerem desenvolver e aperfeiçoar o talento litterario
que possuem, em vez de dispersal-o e nada apurar delle. O conselho
não deixou, entretanto, de influir no meu espirito, si não para me
disciplinar a mim mesmo, ao menos para me fazer aquilatar o valor do
trabalho e da indagação e sentir a inutilidade, a vacuidade do que é
puramente pessoal e espontaneo, desde que não seja caracteristico.
Das minhas conversas com Scherer, o que me contagiou foi a sua
admiração pelo romance inglez, que parecia ser a litteratura da
casa.--_Adam Bede_, _Jane Eyre_, etc. Em mim a conquista anglo-saxonia
começou por Thackeray, que li então, como já disse, no retiro de
Fontainebleau. A respeito dos meus versos, o grande critico manteve
esse silencio desanimador dos medicos que não sabem enganar, quando
os doentes ingenuos que se fizeram auscultar, querem surprehender e
penetrar com perguntas insidiosas a realidade do seu estado.
A febre poetica que se tinha apossado de mim com esse primeiro ensaio
de _Amour et Dieu_, não devia ceder facilmente; eu queria resgatar
esse esboço, que me parecia inferior e imperfeito, substituil-o, e uma
idéa, que estava em germen em uma de suas poesias, desprendeu-se delle
e tomou em meu espirito as proporções extravagantes de um grande drama
em verso. Deste fallarei mais tarde. Como se vê, bem pouco do politico
militante restava depois dessa primeira viagem á Europa; eu trocára em
Pariz e na Italia a ambição politica pela litteraria: voltava cheio de
idéas de poesia, arte, historia, litteratura, critica, isto é, com uma
espessa camada _européa_ na imaginação, camada impermeavel á politica
local, a idéas, preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo
o que em politica não pertencesse á esthetica, portanto tambem do
republicanismo,--porque a minha esthetica politica tinha começado a
tornar-se exclusivamente monarchica.
IX
ADDIDO DE LEGAÇÃO
Durante os cinco annos que seguem (1873-78), a politica é para mim
secundaria, quasi indifferente, mas esse mesmo estado de espirito
é, com relação á monarchia, um processo de consolidação, porquanto,
graças a todas essas fascinações de arte e de poesia, a minha
esthetica politica, segundo a expressão de que me servi, encerrava-se,
isolava-se, ciystallisava-se na fórma monarchica. Quem me acompanha
póde estar certo de que não existe no que vou dizendo nenhuma sombra
dessa admiração pela propria imagem, a que Jules Lemaître deu o
nome de _narcisismo moral_. A verdade é que, entre as molas do meu
mechanismo, nenhuma teve a elasticidade e a força da que eu chamaria a
mola esthetica. O meu juizo esthetico foi, em todas as epochas, ainda
o é hoje, imperfeito, instinctivo, oscillante, como uma agulha que
girasse por todo o mostrador: para seguir algumas das suas indicações,
faltou-me a resolução, a força de caracter, a coragem e o espirito
de sacrificio precisos; mas, em compensação, posso dizer que, através
da vida, aspirei ao Absoluto, naufragando sempre, porque na vida da
intelligencia, ao contrario da vida espiritual, onde, no dizer de um
de seus grandes guias, não ha nada que se pareça com ancoradouro, ha
um ancoradouro, mas esse é a religião, e a religião me pareceu, até
bem pouco atraz, o remanso das mulheres e das creanças. Durante toda a
minha carreira movi-me sempre por algum magnete moral; meus erros foram
desvios de idealisação; eu nunca teria podido confessar uma idéa, uma
crença, um principio, que não fosse para mim um iman esthetico. Sendo
assim, si a minha esthetica fosse republicana, isto é, atheniense,
romana, florentina, nunca a monarchia me teria feito despregar a sua
bandeira no campo da imaginação, como um cavalleiro andante. Para
sentir, sempre que a hasteei, a minha dignidade, a minha altivez, o meu
espirito expandir-se, era preciso que o signo monarchico actuasse em
mim, como uma parcella da arte que está misturada com a historia e que
de algum modo a divinisa.
Esse processo de idealisação, pelo qual a fórma monarchica se
incorporou á minha consciencia esthetica, se associou á minha idéa
de arte, é o principal trabalho politico que se opera em mim desde
o anno de 1873 até o anno de 1879, em que tomei assento na Camara.
Nesse intervallo, eu tinha voltado á Europa e vivido um anno nos
Estados-Unidos. Entram neste periodo as influencias da Inglaterra e da
sociedade ingleza, da America do Norte e da carreira diplomatica, além
do desenvolvimento da influencia litteraria, sob a qual voltei de Pariz
em 1874.
Esta ultima foi tão forte que, nos dois annos que passei novamente no
Rio de Janeiro, não me occupei de politica; fiz, a pedido do Imperador,
algumas conferencias na Escola da Gloria sobre o que tinha visto de
Miguel-Angelo, de Raphael e dos grandes pintores venezianos; fui
collaborador litterario do _Globo_ e travei com José de Alencar uma
polemica, em que receio ter tratado com a presumpção e a injustiça
da mocidade o grande escriptor,--(digo _receio_, porque não tornei a
lêr aquelles folhetins e não me recordo até onde foi a minha critica,
si ella offendeu o que ha profundo, _nacional_, em Alencar: o seu
brasileirismo); escrevi numa revista que appareceu e logo morreu no
genero da _Vie Parisienne_, a _Epocha_, e, desde os fins de 1875,
entreguei-me á composição de um drama, em verso francez, cuja factura
me absorveu durante mais de dois annos.
A idéa do meu drama era o problema da Alsacia-Lorena. Isso revelava bem
o fundo politico da minha imaginação. A politica, felizmente para a
intelligencia que nasceu com essa diathese, tem lados ainda indefinidos
que confinam com a arte, a religião e a philosophia, isto é, para
fallar a linguagem hegeliana, com as tres espheras em que se manifesta
o espirito do mundo. O meu drama com ser francez, de procedencia, de
motivo sentimental, elevava-se, como composição litteraria, acima do
espirito de nacionalidade, visava á unidade da justiça, do direito,
do ideal entre as nações, e baseava-se no seu entrecho sobre as
affinidades e sympathias que ligaram a França intellectual moderna á
Allemanha de Klopstock, Wieland, Lessing, Schiller, Gœthe e Heine, de
Herder, Winckelmann, Jean Paul Richter, Johannes Muller, de Novalis e
dos Schlegel, de Kant, Fichte, Hegel, Schelling, de Bach, Gluck, Haydn,
Mozart, Schubert, Schumann e Beethoven, em uma palavra, á _alma parens_
do seculo XIX.
Por uma apparente anomalia, ao passo que eu era politicamente, como
disse, thierista ou republicano em França, o meu drama sahia todo
legitimista e catholico; os personagens eram tirados para mim, não por
mim (a producção intellectual é involuntaria), da _velha rocha_ em que
se estratificaram as grandes tradições francezas. Isso quer dizer que o
inconsciente, que é em qualquer de nós o nosso unico talento, o nosso
unico poder creador, era em mim, qualquer que fosse a causa, fosse ella
o instincto, fosse a cultura, distinctamente monarchico.
Uma composição litteraria assim caracterisada não podia deixar de
ser para o meu espirito uma forte modelação politica. Para não voltar
a fallar desse drama, cuja unica qualidade é, talvez, ser inedito,
contarei desde já que, depois de o fazer e refazer, copial-o e tornar
a copial-o, acabei-o em 1877, em Nova-York. Tenho no meu Diario desse
anno a data em que, depois de um jantar, com egoismo inflexivel de
auctor, infligi a leitura desses cinco actos a um pequeno _comité_ de
amigos de que fazia parte o barão Blanc, então ministro da Italia em
Washington, ultimamente ministro de Estrangeiros. Elle me terá perdoado
esse sacrificio, ao qual elle mesmo se offereceu. O enigma europeu da
Alsacia-Lorena, que é o fundo da triplice alliança, lhe terá imposto na
Consulta serões mais penosos e fatigantes do que aquella assentada do
Buckingham Hotel.
A indifferença politica em que me achava, a predisposição litteraria
que acabo de descrever, fez-me entrar para a diplomacia em 1876. Eu
tinha perdido cinco annos desde a formatura, mas nesses cinco annos
não me teria occorrido acceitar qualquer posto das mãos de um ministro
conservador, eu liberal. O preconceito, o extremo partidario, impediam
essa _apostasia_. Nesse intervallo, porém, a intransigencia se tinha
gastado toda e agora me parecia plausivel a idéa, que nunca antes me
viera, de que os cargos publicos não são monopolio do partido que está
no poder e devem ser confiados a quem melhor os póde desempenhar.
Nem era pretenção da minha parte pensar que um logar de addido de
legação estava ao nivel da minha capacidade e situação social. Era,
pelo contrario, uma sensivel reducção de pretenções anteriores, porque,
ao sahir da Academia, creio que só o logar de ministro me teria
contentado. A ambição em mim foi-se progressivamente restringindo á
medida que fui vivendo. Não quero dizer que se tenha deslocado do
pessoal para o real, do ephemero para o duradouro, isto é, que se tenha
gradualmente elevado; graças a Deus, porém, na esphera das competições
que formam a lucta pela vida ella nunca deu combate a ninguem.
Talvez eu tenha sentido um pouco a desdenhosa voluptuosidade do
proverbio: «as glorias que vêm tarde já vem frias». Como a ambição
foi em mim toda de imaginação e despontou pelos meus dezoito ou vinte
annos, nada podia ter vindo para mim que não chegasse tarde. Do ponto
de vista em que me colloco hoje, sinto bem que o pouco que me tocou,
veiu a tempo, no momento em que eu estava apto para o receber, e que o
que não veiu, deixou de vir porque não me convinha ainda, e eu teria
naufragado. A impaciencia da mocidade, porém, não me deixava apreciar
então a generosidade do veto da Fortuna, que me excluia do que eu
não estava interiormente preparado para aproveitar. Nesse tempo, eu
não tinha a menor idéa de que uma grande vida publica precisa ser
allumiada, como a architectura de Ruskin, entre outras pelas lampadas
do sacrificio, da verdade, da imaginação, da belleza, e da obediencia.
O talento, a fórma, a eloquencia, o que tinha brilho exterior, tinha
para mim maior valor do que o espirito interior de fé, continuidade e
submissão, que, unico, inspira e fórma os verdadeiros padrões humanos.