«Sèvres, 15 août 1874. Cher Monsieur, J’ai tardé plus que je n’aurais

dû à vous dire tout ce que je pense de vos excellents vers. Je voulais

les relire et, puis, j’espérais quelque vendredi vous voir à Paris.

Oui, vous êtes vraiment poète. Vous avez l’harmonie, le sentiment

profond, la facilité pleine de grâce. Si vous voulez venir après

demain, lundi, vers trois ou quatre heures, rue Vanneau, vous serez

sûr de me trouver; nous causerons. Je suis prêt à faire tout ce que

vous voudrez pour la _Revue_ et les _Débats_. Malheureusement ces

recueils sont depuis longtemps brouillés avec la poésie. Ce sont des

vers comme les vôtres qui pourraient les réconcilier. Croyez à mes

sentiments les plus affectueux et les plus dévoués.--_E. Renan._»

Não é verdade que, para um joven brasileiro que escrevia pela primeira

vez o francez, uma carta assim devia ser uma sensação de fazer epocha

na vida? Leiam agora esta traidora pagina dos _Souvenirs d’Enfance et

de Jeunesse_, que seguramente não fui o unico a inspirar. Vou commetter

o crime de traduzir Renan:

«Desde 1851 acredito não ter praticado uma só mentira, excepto,

naturalmente, as mentiras alegres de pura eutrapelia, as mentiras

officiosas e de polidez, que todos os casuistas permittem, e tambem

os pequenos subterfugios litterarios exigidos, em vista de uma

verdade superior, pelas necessidades de uma phrase bem equilibrada ou

para evitar um mal maior, como o de apunhalar um auctor. Um poeta,

por exemplo, nos apresenta os seus versos. É preciso dizer que são

admiraveis, porque sem isso seria dizer que elles não têm valor e fazer

uma injuria mortal a um homem que teve a intenção de nos fazer uma

civilidade.»

A meu respeito, si uma vaga lembrança dos meus versos lhe occorreu

tanto tempo depois ao escrever essa graciosa ironia, o grande

escriptor enganou-se em um ponto: elle não me teria apunhalado dizendo

que os meus versos não valiam nada, em vez de dizer-me que eram

admiraveis. George Sand escreveu-me tambem a respeito do meu livro: «Il

est d’une rare distinction et les nobles pensées y parlent une noble

langue», e, curiosamente, Madame Caro egualmente se referia a «l’œuvre

qui exprime dans un noble style la plus noble sympathie pour notre

malheureuse patrie.» Todos esses cumprimentos, toda essa _nobreza_, eu

a recolhia e guardava preciosamente como provas da generosa amabilidade

e cortezia do caracter francez. Quanto ao valor dos meus versos, porém,

a impressão que me ficou e apagou todas as outras, foi o silencio frio,

impenetravel, entretanto polido, attencioso, sympathico, de Edmond

Scherer. Contei esse episodio para acautelar o talento que se estréa

contra a perigosa seducção da _eutrapelia_ litteraria. Conheço entre

nós um mestre dessa arte do espirito, Machado de Assis, mas este,

espero, não fará confissões. «Quem se não póde conformar á perda da

propria honra, diz S. Felippe Neri, nunca avançará na vida espiritual.»

O escriptor juvenil que não se resignar ao sacrificio da sua «honra»

litteraria, não fará progressos em litteratura.

VIII

A CRISE POETICA

Agora, as razões pelas quaes eu naufragaria sempre no verso. Si o que

estava nas paginas de _Amour et Dieu_ fosse novo, eu poderia, de certo,

orgulhar-me do meu pensamento; ainda assim, entretanto, não seria

poeta. Não era novo, porém. Tomem-se essas quadras:

La terre est une triste et bien sombre demeure:

Pour que l’homme s’attache à ce terrible lieu,

Il faut que le poète avec lui souffre et pleure,

Et lui fasse espérer l’adoption de Dieu.

Car Dieu toujours est loin, et notre humble prière

Ne le fait point descendre à ce séjour du mal;

En vain nous l’appelons et crions: Notre Père!

Il n’est encore pour nous qu’un soupir, l’idéal.

Si ninguem tivesse dito o mesmo antes, essa _humanidade esperando

a adopção de Deus_, que é ainda, por emquanto, _um suspiro do seu

coração_, seria o germen de uma seductora philosophia; aquelle trecho,

porém, é a traducção, em verso fraco e mal trabalhado, do que Renan

mesmo tomára aos allemães e tinha expressado de modo perfeito na mais

elegante das prosas. O que me enganava nos meus versos, parecendo-me

sonoro e elevado, não pertencia á poesia, pertenceria á eloquencia.

Aqui está uma ode á França; é a Alsacia-Lorena que falla á Allemanha:

Tu penses arrêter le sang de notre vie,

En t’emparant des rails de nos chemins de fer;

Nous avons cinquante ans pour changer de patrie,

Pour nous enrôler, tous, contents, dans la landwehr?

Ah! la force t’inspire autant de confiance

Que nous en puiserons dans le droit éternel?

Nous sommes les deux bras mutilés de la France,

Qu’elle tend toujours vers le ciel!

Mme. Caro, no agradecimento que me manda, escreve: «Os dois braços

mutilados levantados para os Céos, acabarão, tenho confiança, por

vencer o destino.» Os _dois braços mutilados_ podiam ser os dois

joelhos dobrados em oração, os dois pés acorrentados, ou o figado do

Prometheu dos Vosges devorado pela aguia negra da Prussia e renascendo

sempre. Tudo isto é do dominio da rhetorica e do pamphleto politico: é

um libello em hemistichios como a _Nemésis_ de Barthélemy. Nada é mais

contrario á poesia do que a emphase, o logar-commum e o pathetico da

oratoria. Onde começa o advogado ou o tribuno, acaba o poeta.

O facto é que não possúo a fórma do verso, na qual a idéa se modela

por si mesma e donde sáe com o timbre proprio da verdadeira rima, que

nenhum artificio nem esforço póde imitar. Isto, por um lado, quanto

á pequena poesia, á poesia solta, ao que se póde chamar a musica da

poesia. Quanto á grande poesia, á poesia de imaginação e creação,

poema, romance, bailada que fosse, para essa eu seria incapaz, além

da insufficiencia do talento, pela falta de coragem para habitar a

região solitaria dos espiritos creadores, os quaes vivem naturalmente

entre figuras tiradas de si mesmos, sem vida propria, automatos da

sua intelligencia e da sua vontade, como em um sonho accordado. Nessa

altura, onde tudo é ficticio, tudo irreal, tudo phantastico, a poesia

tem para mim o terror do _adytum_ da Pythia. Mesmo quando as figuras

sejam meigas, suaves, humanas, a creação envolve sempre alguma coisa

de mysterioso e terrivel; a completa abstracção, que ella suppõe, da

realidade exterior, do mundo dos sentidos, me daria vertigem.

Ha, além da poesia de sentimento e da poesia de creação, outra poesia.

O verso é a mais nobre fórma do pensamento, a mais pura crystallisação

da idéa, e, como se tem dito, o que não se póde expressar em verso não

vale quasi a pena ser conservado. Essa poesia, porém, que engasta as

bellas idéas na mais duravel e perfeita da cravações, pertence quasi

á especie dos proverbios, em que se condensa e perpetúa a sabedoria

humana. Em Homero ella confunde-se com a historia; em Dante com o

catholicismo; em Gœthe com a arte e com a sciencia. Essa é do dominio

dos mais altos genios.

A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota individual; mas,

como eu disse, não encontrei em mim a tecla do verso, cuja resonancia

interior não se confunde com a de nenhum timbre artificial. Quando

mesmo, porém, eu tivesse recebido o dom do verso, teria naufragado,

porque não nasci artista. Acredito ter recebido como escriptor, tudo é

relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de

poesia, o que tudo junto póde dar, em quem não teve o verso, uma certa

medida de prosa rhythmica; mas da arte não recebi sinão a aspiração

por ella, a sensação do orgão incompleto e não formado, o pezar de que

a natureza me esquecesse no seu côro, o vacuo da inspiração que me

falta... _Ustedes me entienden._ «O artista, disse Novalis, deve querer

e poder representar tudo.» Dessa faculdade de _representar_, de crear a

menor _representação_ das coisas,--quanto mais uma realidade mais alta

do que a realidade, como queria Gœthe,--fui inteiramente privado. Nem

todos os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem todos

os artistas têm o dom do verso: a prosa os possúe como a poesia; a

mim, porém, não coube em partilha nem o verso nem a arte.

É singular como entre nós se distribue o titulo de artista. Muitas

vezes tenho lido e ouvido fallar de Ruy Barbosa como de um _artista_,

pelo modo por que escreve a prosa. No mesmo sentido poder-se-ia chamar

a Krupp artista: a fundição é de alguma fórma uma arte, uma arte

cyclopica, e de Ruy Barbosa não é exaggerado dizer, pelos blocos de

idéas que levanta uns sobre outros e pelos raios que funde, que é

verdadeiramente um cyclope intellectual. Mas o artista? Existirá nelle

a camada da arte? Si existe, e é bem natural, ainda jaz desconhecida

delle mesmo por baixo das superposições da erudição e das leituras.

Eu mesmo já insinuei uma vez: ninguem sabe o diamante que elle nos

revelaria, si tivesse a coragem de cortar sem piedade a _montanha de

luz_, cuja grandeza tem offuscado a Republica, e de reduzil-a a uma

pequena pedra. Aqui está outro, José do Patrocinio, que não é tambem

um _artista_, ainda que em sua prosa se encontre o veio de ouro da

poesia, filão, é certo, fugitivo, e que se perde a cada instante na

rocha politica. Della poder-se-ia extrahir verdadeira poesia; fazer

com as palhetas da sua phrase pelo menos uma imagem, a da _loura mãe

dos captivos_, assim como com o sopro da sua eloquencia de combate se

faria um baixo-relevo para um arco de triumpho: o _Chant du Depart_ da

abolição. Tambem elle não tem a faculdade do verso, no qual naufragaria

como naufragou no romance, porque o seu reflexo intellectual tem a

vibração e a rapidez do relampago, e o verso é por natureza diamantino.

Por isso mesmo tambem sua prosa, em que por vezes ha o toque da poesia,

e quasi o calor do sentimento creador, ainda não pertence á arte, como

pertence a de Chateaubriand, a de Renan, por exemplo, porque não é um

estylo. Não tem governo, tem apenas medida; reflecte a acção confusa,

a agitação perpetua de uma epocha desequilibrada, sem um instante de

calma, de eternidade, em sua obra, no todo, genial. Agora outro muito

diverso. Haverá quem não sinta a musica innata de Constancio Alves?

Este é bem da ordem dos passaros, tem o canto; a prosa delle gorgeia,

sobe, trina; no emtanto, si quizesse reduzir a uma obra d’arte a ironia

melodiosa que tem em si, que restaria della?

Eu disse que me faltava o dom do verso. O timbre do verso reconhece-se

em qualquer quadra. Tome-se Olavo Bilac, por exemplo. Não posso fallar

de Luiz Murat, que tem maior voadura de imaginação, porque tenho até

hoje respeitado instinctivamente o cháos da sua arte; sinto que ha

no seu talento os elementos da poesia, menos a ordem, o principal de

todos, mas que, felizmente para elle, se adquire, ao passo que os

outros são de herança. Suas fórmas confusas e intricadas parecem-me

de muda, e eu o aguardo na epocha em que a mocidade tiver gastado a

sua violencia e elle entrar no bosque das Musas levando o silencio e

a tranquillidade na alma. «Elle ensinou-me, disse Gœthe fallando de

Oeser, que a belleza é simplicidade e repouso, do que se segue que

nenhum joven póde tornar-se un mestre.» De Murat esperarei para fallar

que primeiro elle encontre o seu Oeser. Tome-se Bilac, porém. Basta lêr

a _Profissão de Fe_ em _Panoplias_, para vêr que o verso nasceu com

elle, que não é um esforço, um trabalho, mas a expressão livre, franca,

natural do pensamento:

Invejo o ourives quando escrevo;

Imito o amor

Com que elle em ouro o alto relevo

Faz de uma flôr.

Não me cabe inquirir si o artifice se cingiu sempre em sua obra ás

regras do officio, que tão perfeitamente esculpiu; o buril da rima,

porém, está em sua mão e ninguem se póde enganar sobre a especie de

metal que elle é digno de lavrar.

O facto que eu quería assignalar, é sómente que contrahi em França

neste anno de 1873-74 a aspiração de auctor, a qual se desenvolveu ao

contacto de grandes espiritos da epocha, que me acolheram como eu podia

desejar, especialmente Renan, Scherer, George Sand.

Renan me déra o conselho, que transmitto á nova geração de litteratos,

de entregar-me a estudos historicos. Não ha em regra nada mais ingrato,

mais futil, do que a producção que o individuo tira toda de si, e

é o que acontece quando o talento não tem uma profissão litteraria

séria. Ha estudos, como as humanidades, que são apenas a habilitação

do espirito para a carreira das lettras; quem os tem póde dizer que

possúe a ferramenta do seu officio; além da ferramenta, ha, porém,

que escolher o material. O material em que trabalham os nossos homens

de lettras, são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou

dramaturgos; as leituras, quando são criticos, a propria vida ou

impressões, quando são poetas.

O material preferido é, como se vê, todo elle pouco consistente,

ephemero, em parte grosseiro, em parte imprestavel ou insufficiente,

e assim a producção é quasi toda facil, improvisada, sem trabalho

anterior, sem investigações, sem esforço, sem tempo, sem nenhum

elemento que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina e a

emulação de uma especialidade, que acontece? A intelligencia contráe

o habito da dissipação, da indolencia, do parasitismo; o talento

relaxa-se, perde todo o peso especifico. Temos por isso uma litteratura

desoccupada; o nosso campo litterario é composto de _flâneurs_. A

verdade é que vae augmentando consideravelmente em nosso tempo o que

Matthew Arnold traduziu por _inaccessibilidade ás idéas_, e que esse

novo Philistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes litterarios a

um só genero de iguarias, o genero _nature_. O publico, o protector

moderno das lettras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não

passa de um Mecenas de meia-cultura, mesmo em França e na Inglaterra.

Aconselhar a jovens brasileiros que se dediquem a estudos historicos

desinteressados, é aconselhar-lhes a miseria; mas as leis da

intelligencia são inflexiveis e a producção do espirito que não se

alimenta sinão de sua propria imaginação, tem que ser cada dia mais

frivola e sem valor.

Não me aproveitei do conselho de Renan sinão tarde de mais na

vida, quando comecei a preparar a biographia de meu pae, que é uma

perspectiva da epocha toda de D. Pedro II. O aviso, porém, ahi fica

para os que quizerem desenvolver e aperfeiçoar o talento litterario

que possuem, em vez de dispersal-o e nada apurar delle. O conselho

não deixou, entretanto, de influir no meu espirito, si não para me

disciplinar a mim mesmo, ao menos para me fazer aquilatar o valor do

trabalho e da indagação e sentir a inutilidade, a vacuidade do que é

puramente pessoal e espontaneo, desde que não seja caracteristico.

Das minhas conversas com Scherer, o que me contagiou foi a sua

admiração pelo romance inglez, que parecia ser a litteratura da

casa.--_Adam Bede_, _Jane Eyre_, etc. Em mim a conquista anglo-saxonia

começou por Thackeray, que li então, como já disse, no retiro de

Fontainebleau. A respeito dos meus versos, o grande critico manteve

esse silencio desanimador dos medicos que não sabem enganar, quando

os doentes ingenuos que se fizeram auscultar, querem surprehender e

penetrar com perguntas insidiosas a realidade do seu estado.

A febre poetica que se tinha apossado de mim com esse primeiro ensaio

de _Amour et Dieu_, não devia ceder facilmente; eu queria resgatar

esse esboço, que me parecia inferior e imperfeito, substituil-o, e uma

idéa, que estava em germen em uma de suas poesias, desprendeu-se delle

e tomou em meu espirito as proporções extravagantes de um grande drama

em verso. Deste fallarei mais tarde. Como se vê, bem pouco do politico

militante restava depois dessa primeira viagem á Europa; eu trocára em

Pariz e na Italia a ambição politica pela litteraria: voltava cheio de

idéas de poesia, arte, historia, litteratura, critica, isto é, com uma

espessa camada _européa_ na imaginação, camada impermeavel á politica

local, a idéas, preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo

o que em politica não pertencesse á esthetica, portanto tambem do

republicanismo,--porque a minha esthetica politica tinha começado a

tornar-se exclusivamente monarchica.

IX

ADDIDO DE LEGAÇÃO

Durante os cinco annos que seguem (1873-78), a politica é para mim

secundaria, quasi indifferente, mas esse mesmo estado de espirito

é, com relação á monarchia, um processo de consolidação, porquanto,

graças a todas essas fascinações de arte e de poesia, a minha

esthetica politica, segundo a expressão de que me servi, encerrava-se,

isolava-se, ciystallisava-se na fórma monarchica. Quem me acompanha

póde estar certo de que não existe no que vou dizendo nenhuma sombra

dessa admiração pela propria imagem, a que Jules Lemaître deu o

nome de _narcisismo moral_. A verdade é que, entre as molas do meu

mechanismo, nenhuma teve a elasticidade e a força da que eu chamaria a

mola esthetica. O meu juizo esthetico foi, em todas as epochas, ainda

o é hoje, imperfeito, instinctivo, oscillante, como uma agulha que

girasse por todo o mostrador: para seguir algumas das suas indicações,

faltou-me a resolução, a força de caracter, a coragem e o espirito

de sacrificio precisos; mas, em compensação, posso dizer que, através

da vida, aspirei ao Absoluto, naufragando sempre, porque na vida da

intelligencia, ao contrario da vida espiritual, onde, no dizer de um

de seus grandes guias, não ha nada que se pareça com ancoradouro, ha

um ancoradouro, mas esse é a religião, e a religião me pareceu, até

bem pouco atraz, o remanso das mulheres e das creanças. Durante toda a

minha carreira movi-me sempre por algum magnete moral; meus erros foram

desvios de idealisação; eu nunca teria podido confessar uma idéa, uma

crença, um principio, que não fosse para mim um iman esthetico. Sendo

assim, si a minha esthetica fosse republicana, isto é, atheniense,

romana, florentina, nunca a monarchia me teria feito despregar a sua

bandeira no campo da imaginação, como um cavalleiro andante. Para

sentir, sempre que a hasteei, a minha dignidade, a minha altivez, o meu

espirito expandir-se, era preciso que o signo monarchico actuasse em

mim, como uma parcella da arte que está misturada com a historia e que

de algum modo a divinisa.

Esse processo de idealisação, pelo qual a fórma monarchica se

incorporou á minha consciencia esthetica, se associou á minha idéa

de arte, é o principal trabalho politico que se opera em mim desde

o anno de 1873 até o anno de 1879, em que tomei assento na Camara.

Nesse intervallo, eu tinha voltado á Europa e vivido um anno nos

Estados-Unidos. Entram neste periodo as influencias da Inglaterra e da

sociedade ingleza, da America do Norte e da carreira diplomatica, além

do desenvolvimento da influencia litteraria, sob a qual voltei de Pariz

em 1874.

Esta ultima foi tão forte que, nos dois annos que passei novamente no

Rio de Janeiro, não me occupei de politica; fiz, a pedido do Imperador,

algumas conferencias na Escola da Gloria sobre o que tinha visto de

Miguel-Angelo, de Raphael e dos grandes pintores venezianos; fui

collaborador litterario do _Globo_ e travei com José de Alencar uma

polemica, em que receio ter tratado com a presumpção e a injustiça

da mocidade o grande escriptor,--(digo _receio_, porque não tornei a

lêr aquelles folhetins e não me recordo até onde foi a minha critica,

si ella offendeu o que ha profundo, _nacional_, em Alencar: o seu

brasileirismo); escrevi numa revista que appareceu e logo morreu no

genero da _Vie Parisienne_, a _Epocha_, e, desde os fins de 1875,

entreguei-me á composição de um drama, em verso francez, cuja factura

me absorveu durante mais de dois annos.

A idéa do meu drama era o problema da Alsacia-Lorena. Isso revelava bem

o fundo politico da minha imaginação. A politica, felizmente para a

intelligencia que nasceu com essa diathese, tem lados ainda indefinidos

que confinam com a arte, a religião e a philosophia, isto é, para

fallar a linguagem hegeliana, com as tres espheras em que se manifesta

o espirito do mundo. O meu drama com ser francez, de procedencia, de

motivo sentimental, elevava-se, como composição litteraria, acima do

espirito de nacionalidade, visava á unidade da justiça, do direito,

do ideal entre as nações, e baseava-se no seu entrecho sobre as

affinidades e sympathias que ligaram a França intellectual moderna á

Allemanha de Klopstock, Wieland, Lessing, Schiller, Gœthe e Heine, de

Herder, Winckelmann, Jean Paul Richter, Johannes Muller, de Novalis e

dos Schlegel, de Kant, Fichte, Hegel, Schelling, de Bach, Gluck, Haydn,

Mozart, Schubert, Schumann e Beethoven, em uma palavra, á _alma parens_

do seculo XIX.

Por uma apparente anomalia, ao passo que eu era politicamente, como

disse, thierista ou republicano em França, o meu drama sahia todo

legitimista e catholico; os personagens eram tirados para mim, não por

mim (a producção intellectual é involuntaria), da _velha rocha_ em que

se estratificaram as grandes tradições francezas. Isso quer dizer que o

inconsciente, que é em qualquer de nós o nosso unico talento, o nosso

unico poder creador, era em mim, qualquer que fosse a causa, fosse ella

o instincto, fosse a cultura, distinctamente monarchico.

Uma composição litteraria assim caracterisada não podia deixar de

ser para o meu espirito uma forte modelação politica. Para não voltar

a fallar desse drama, cuja unica qualidade é, talvez, ser inedito,

contarei desde já que, depois de o fazer e refazer, copial-o e tornar

a copial-o, acabei-o em 1877, em Nova-York. Tenho no meu Diario desse

anno a data em que, depois de um jantar, com egoismo inflexivel de

auctor, infligi a leitura desses cinco actos a um pequeno _comité_ de

amigos de que fazia parte o barão Blanc, então ministro da Italia em

Washington, ultimamente ministro de Estrangeiros. Elle me terá perdoado

esse sacrificio, ao qual elle mesmo se offereceu. O enigma europeu da

Alsacia-Lorena, que é o fundo da triplice alliança, lhe terá imposto na

Consulta serões mais penosos e fatigantes do que aquella assentada do

Buckingham Hotel.

A indifferença politica em que me achava, a predisposição litteraria

que acabo de descrever, fez-me entrar para a diplomacia em 1876. Eu

tinha perdido cinco annos desde a formatura, mas nesses cinco annos

não me teria occorrido acceitar qualquer posto das mãos de um ministro

conservador, eu liberal. O preconceito, o extremo partidario, impediam

essa _apostasia_. Nesse intervallo, porém, a intransigencia se tinha

gastado toda e agora me parecia plausivel a idéa, que nunca antes me

viera, de que os cargos publicos não são monopolio do partido que está

no poder e devem ser confiados a quem melhor os póde desempenhar.

Nem era pretenção da minha parte pensar que um logar de addido de

legação estava ao nivel da minha capacidade e situação social. Era,

pelo contrario, uma sensivel reducção de pretenções anteriores, porque,

ao sahir da Academia, creio que só o logar de ministro me teria

contentado. A ambição em mim foi-se progressivamente restringindo á

medida que fui vivendo. Não quero dizer que se tenha deslocado do

pessoal para o real, do ephemero para o duradouro, isto é, que se tenha

gradualmente elevado; graças a Deus, porém, na esphera das competições

que formam a lucta pela vida ella nunca deu combate a ninguem.

Talvez eu tenha sentido um pouco a desdenhosa voluptuosidade do

proverbio: «as glorias que vêm tarde já vem frias». Como a ambição

foi em mim toda de imaginação e despontou pelos meus dezoito ou vinte

annos, nada podia ter vindo para mim que não chegasse tarde. Do ponto

de vista em que me colloco hoje, sinto bem que o pouco que me tocou,

veiu a tempo, no momento em que eu estava apto para o receber, e que o

que não veiu, deixou de vir porque não me convinha ainda, e eu teria

naufragado. A impaciencia da mocidade, porém, não me deixava apreciar

então a generosidade do veto da Fortuna, que me excluia do que eu

não estava interiormente preparado para aproveitar. Nesse tempo, eu

não tinha a menor idéa de que uma grande vida publica precisa ser

allumiada, como a architectura de Ruskin, entre outras pelas lampadas

do sacrificio, da verdade, da imaginação, da belleza, e da obediencia.

O talento, a fórma, a eloquencia, o que tinha brilho exterior, tinha

para mim maior valor do que o espirito interior de fé, continuidade e

submissão, que, unico, inspira e fórma os verdadeiros padrões humanos.

Minha formação · 第 4 / 16 段