De todos esses logares da Suissa ou da Italia, de Fontainebleau, de

Pariz, de Londres, não trago sinão impressões de arte, impressões

literarias, impressões de vida: o grande effeito em mim dessa viagem

é assim apagar a politica; suspender durante um anno, inteiramente, a

faculdade politica, que, uma vez suspensa, parada, está quebrada e não

volta mais a ser a mola principal do espirito. Eu não podia entretanto

estar em França, em uma epocha de transformação, como foi essa de

1873-74, e ás vezes, em contacto com homens politicos, nem penetrar

na sociedade ingleza, sem que a grande politica européa exercesse uma

influencia _positiva_ sobre o meu espirito, além da modificação operada

negativamente, como eu disse, pelo meu afastamento do nosso scenario

local e pela sensação d’arte. Apezar de tudo, eu tinha affinidades

politicas inapagaveis, que poderiam, quando muito, ficar secundarias,

subordinadas á attracção puramente intellectual. Dessa modificação

_positiva_ fallarei agora.

VI

A FRANÇA DE 1873-74

A epocha em que eu pela primeira vez tinha Pariz por menagem, era

historicamente tão interessante que um espirito sujeito como o meu

a fortes tentações politicas não poderia deixar de voltar-se para

o espectaculo dos acontecimentos, apezar dos meus deslumbramentos

artisticos e litterarios. Comprehende-se, porém, que a attracção

contraria á politica era ainda mais poderosa, pela novidade, pelo

esplendor das suas revelações continuas, do que o proprio drama

contemporaneo. No Rio de Janeiro ou em S. Paulo, quem se alimente

de politica, quando a sensação de um grande acontecimento se apossa

delle, não encontra nada em redor de si que a corrija ou lhe sirva de

contrapeso; felizmente, os acontecimentos raro são _grandes_. Para um

joven brasileiro, porém, que pela primeira vez chega a Pariz, é quasi

impossivel imaginar acontecimento que possa tornal-o indifferente ao

maravilhoso que o surprehende a cada passo, ou sensação politica que

não fosse amortecida, dominada logo, pela sensação de arte.

Realmente, a lucta entre o duque de Broglie e _monsieur_ Thiers, o

theatro do palacio de Versalhes convertido em Assembléa Nacional, o

Trianon dando as suas salas para o conselho de guerra de Bazaine,

attrahiam-me, e fui um dos mais anciosos espectadores que assistiram

nessa epocha aos debates daquella assembléa, ou que participaram da

emoção daquelle grande processo militar, apezar de tudo pouco generoso.

Nunca hei de esquecer as frias manhãs de novembro em que o meu querido

amigo José Caetano de Andrade Pinto, depois conselheiro de Estado,

e eu atravessavamos de carro aberto as alamedas de Versalhes para

tomar os nossos logares na propria tribuna do marechal Bazaine, por

detraz delle, quasi os unicos que, talvez por lhe sermos estranhos

e sermos estrangeiros, tinhamos a coragem de acompanhar daquelle

logar os interrogatorios, a accusação e a defesa. No ultimo momento,

quando se mandou fechar a tribuna particular do marechal, passámos

para o _prétoire_. Que emoção a nossa quando o duque d’Aumale, de

pé, como todo o Conselho, que formava semi-circulo em torno delle, a

fita vermelha da Legião de Honra passada sobre o grande uniforme, o

chapéo de plumas na cabeça como em um campo de batalha, na mão uma

grande folha de papel sobre a qual se projectava o reflector de uma

lampada sustentada por traz delle por um imponente vulto de _huissier_,

com a solemnidade de quem depois de um exilio de vinte e cinco

annos representava outra vez perante a França, leu os tres _Oui, à

l’unanimité_, que sibilaram pela sala toda como as balas de um pelotão!

Tambem me hei de lembrar sempre da sessão da Assembléa Nacional em que

se votou o septennato de Mac-Mahon como medida provisoria, dilatoria,

entre a restauração, temporariamente impossibilitada por causa da

bandeira branca, e a republica, que não queriam proclamar. Si nesses

sete annos morresse o conde de Chambord, _regnante_ ainda o duque

de Magenta, quem sabe si o conde de Pariz não reuniria os votos dos

_Chevaulégers_ e da alta finança do Centro Esquerdo! Afianço a quem

me lê que, depois de um discurso pronunciado pelo duque de Broglie,

com o seu accento nasal, a sua perfeição academica, sua maneira e

suas maneiras _ancien régime_, vêr subir á tribuna o velho Dufaure

e de improviso, sem phrases cadenciadas, sem periodos embutidos uns

nos outros como um mosaico litterario, tomar entre as mãos o discurso

do neto de Mme. de Staël, amassal-o, dar-lhe as fórmas que queria,

até ninguem mais o poder reconhecer; assistir a um duello desses, da

elegancia com a eloquencia, é um prazer que não se esquece mais. E

não ouvi Berryer! Alli, em Versalhes, eu encontrava ainda os restos

da grande geração parlamentar que começou na Restauração e que trouxe

as suas tradições, a sua escola de oratoria, para as Camaras de Luiz

Felippe. Tudo isto, não é preciso dizel-o, me interessava no mais

intimo de mim mesmo, intellectualmente fallando, mas um simples relance

sobre quaesquer paginas do meu diario n’essa epocha basta para mostrar

quanto o meu interesse se dividia e o meu espirito era solicitado em

direcções contrarias por sensações quasi do mesmo valor...

Assim, por exemplo (o italico é para mostrar as opposições repentinas):

«19 de novembro. A sessão do Septennato (em que foi votada a prorogação

dos poderes do marechal).--21 de novembro.--Começo a ir ao processo

Bazaine.--22 de novembro. _Visita a Ernesto Renan._--2 de janeiro

(1874) Chateauroux.--3 de janeiro. De manhã. Route de la Châtre.

Bosques de álamos batidos pela ventania. Em Nohant ás 11 horas.

Esperavam-me desde a vespera, tinham um aposento para mim. Maurice

Sand, a mulher filha de Calamatta. Fazem-me almoçar. Ao meio-dia,

vem George Sand. Conversámos até as 3 horas. Pediu-me para ficar

algum tempo em Nohant. Fallámos de Renan, da Joconde, do theatro, de

Bressant, do Imperador, que ella não viu.--4 de janeiro. Orleans.

Cathedral. Casas de Jeanne d’Arc, Agnès Sorel, Diane de Poitiers.

_Noticia da queda de Castelar..._--3 de janeiro. Fomos ao château de

Chambord. Escadaria de pedra à double rampe. Os FF e as Salamandras

de Francisco I. O _Bourgeois Gentilhomme_, 1670. Souvent femme varie.

Château de Blois. Quarto de Henrique II. Escada exterior espiral.

Renascença Franceza.--10 de janeiro. _Visita a monsieur Thiers_».

Talvez o dia em que viram pela primeira vez a Venus de Milo ou a

Joconde tenha passado indifferente para muitos que notaram as suas

menores impressões politicas. Eu, porém, não poderia siquer lembrar-me

de que fôra politico deante do marmore dos marmores ou do colorido que

se esvae e de um traço que se apaga de Leonardo. Na propria politica

eu achava-me dividido pela mais positiva dualidade que se pudesse

dar. De sentimento, de temperamento, de razão, eu era um tão exaltado

partidario de Thiers como qualquer republicano francez; pela imaginação

historica e esthetica era porém legitimista; isto é, perante o artista

imperfeito e incompleto que ha em mim, a figura do conde de Chambord

reduzia a de Thiers a proporções moralmente insignificantes. Quando em

um mesmo homem ha um lyrico e um politico, a lenda tem para elle uma

projecção duas vezes maior que a da historia.

Nesse espaço de tempo a que me refiro, a Republica estava ainda em

questão em França; Thiers havia sido forçado a demittir-se, e a sua

substituição, com surpresa delle, recahira no seu general em chefe,

que dispunha, absolutamente, do exercito, o marechal de Mac-Mahon. A

reconciliação do conde de Pariz com o chefe da casa de França tinha-se

effectuado em Frohsdorf, em 5 de agosto; os cavallos para a entrada

solemne do rei em Pariz estavam sendo negociados, quando o ministerio

recuou, sentindo-se sem forças para impôr aos soldados a bandeira

branca. A Restauração, póde-dizer, tinha abortado; mas, de um momento

para outro, Henrique V podia inspirar-se no precedente de Henrique IV e

acceitar a bandeira da Revolução. Ainda ha pouco, o general du Barail,

que era o ministro da guerra do duque de Broglie, confessou que, si o

conde de Chambord _tivesse querido_, não era o septennato, era sim, a

monarchia que teria sido acclamada.

«O marechal, escreve elle, estava convencido de que o Principe cedêra

a uma consideração patriotica: ao receio de attrahir sobre o seu paiz

a animosidade e até as armas da Allemanha.» O testemunho recente do

duque de Broglie e do embaixador em Berlim, o conde de Gontaut-Biron,

indicam isso mesmo, que o conde de Chambord viu que a Restauração seria

a guerra com a Allemanha e quiz poupar á França uma segunda e peior

mutilação. Quem sabe, tambem, á vista dessas revelações diplomaticas,

si não foi esse mesmo o motivo secreto superior de Thiers para

desertar a monarchia?

Quem viu o velho estadista empenhar-se na consolidação da Republica com

todo o seu prestigio e o seu poder de persuasão, desde que levantára

a França dos campos de batalha onde jazia ferida e retirára do poder

da Communa Pariz ainda em chammas, póde pensar que não se dá toda essa

dedicação a uma causa que não se tenha intimamente a peito. A verdade é

que, si Thiers tivesse empregado em restaurar a monarchia a metade do

esforço e do trabalho que empregou em consolidar a Republica, a realeza

provavelmente teria sido proclamada, talvez ainda em Bordéos. Durante

muito tempo elle manteve-se como o fiel da balança entre os partidos.

Não se póde lêr sem emoção esses seus discursos de 1871, quando elle se

vê entre os dois lados da Assembléa e inventa distincções para impedir

que elles se tratem como inimigos deante do invasor estrangeiro, todas

essas distincções subtis, como entre _constituir_ e _reorganizar_,

entre _renunciar_ e _reservar_ o poder constituinte.

Eu era como politico francamente thierista, isto é, em França, de facto

republicano. Isto não quer dizer, porém, que me sentisse republicano de

principio; pelo contrario. A terceira Republica em França foi fundada

por monarchistas; foi uma transacção de estadistas monarchicos, como

Thiers, Dufaure, Rémusat, Léon Say, Casimir Périer, Waddington, e todo

o Centro Esquerdo.

«Sôa como um paradoxo, escreveu, com admiravel lucidez, um dos habeis

redactores da _Quarterly Review_ em 1890, mas não é por isso menos

exacto, que a principal barreira deante de uma restauração monarchica

em França é o crescente conservatismo que foi sempre inherente ao

caracter francez no meio de todas as ebullições do sentimento excitado.

O povo sabe que uma mudança na fórma de governo só poderia ser

realisada por meio de uma revolução ou como resultado de uma guerra, e

recúa deante da perspectiva de uma e outra eventualidade, preferindo

acceitar o presente estado de coisas, ainda que este não lhe desperte

enthusiasmo.»

* * * * *

Esse espirito conservador da França, inimigo das mudanças bruscas,

mesmo para melhorar, é bem caracterisado por esta anecdota, como a

contou ha annos um correspondente do _Times_. Durante as barricadas

de junho, quando se ouvia o canhão nas ruas de Pariz, mandaram uma

companhia guardar o Ministerio de Estrangeiros. O official que

commandava, de espada desembainhada, entrou na Secretaria, mas

parou á porta de uma das salas, vendo que os empregados continuavam

tranquillamente em suas mesas de trabalho, como si nada estivesse

acontecendo. Vendo-o, o director levanta-se com uma porção de papeis,

promptos para a assignatura do ministro, approxima-se d’elle e,

inclinando-se, pergunta-lhe com a maior deferencia e naturalidade: «É

ao novo governo que tenho a honra de dirigir-me?»

Era esse conservatismo que pelo orgão, principalmente, de Thiers

fundava então a terceira Republica; o mesmo que não deixou ainda

divorciar-se della o espirito da burguezia liberal,--espirito a que

se póde chamar _Centre Gauche_,--e nenhum analysta negará que a

quinta-essencia desse conservatismo fosse monarchica, mais sinceramente

monarchica do que o espirito de _fronde_ das _côteries_ restauradoras.

Essa primeira grande escola estrangeira em que apprendi, não me podia

fazer republicano de sentimento, como não fez republicano de sentimento

a nenhum dos seus fundadores, como não fez, nem faz, republicanos aos

liberaes e conservadores inglezes, ou ás testas corôadas da Europa,

que, sem má vontade á França, preferem a Republica á Realeza ou ao

Imperio; como não faz republicano ao Papa, que protege poderosamente o

actual systema francez. O grande effeito sobre mim daquella attitude

de Thiers e dos parlamentares da Monarchia de Julho era dar-me uma

grande prova experimental de que a fórma de governo não é uma questão

theorica, porém pratica, relativa, de tempo e de situação, o que em

relação ao Brasil era um poderoso alento para a minha predilecção

monarchica. O grande effeito era este: destruir o germen republicano

latente, germen de intolerancia e de fanatismo. E esse foi o grande

serviço de Thiers á França moderna: o de acabar com o antigo monopolio

jacobino sobre a idéa republicana.

É o mesmo escriptor da _Quarterly_ quem finamente observa: «Ainda que,

por um lado, o genuino sentimento realista esteja quasi extincto, por

outro, o sentimento republicano tambem por sua vez esfriou. A nova

geração é republicana no sentido de não acreditar na possibilidade

de uma restauração monarchica; o ardente republicanismo dos velhos

doutrinarios, esse, porém, está quasi tão morto como a advocacia do

direito divino dos reis.» Essa modificação, que está hoje terminada,

começou em 1871, e foi o resultado da adhesão, não foi conversão, do

Centro Esquerdo á situação republicana creada para a França na Europa

pela derrota de Sedan. Esse duplo e egual esfriamento do realismo e

do republicanismo, póde-se dizer que fórma a atmosphera natural do

liberalismo contemporaneo e da cultura politica moderna, e, assim como

elle aproveitava em França á republica, devia aproveitar no Brasil á

monarchia. Foi esta a grande influencia politica que exerceu sobre

mim a minha estada em França de 1873-74. Agora resta-me precisar a

influencia rival que soffri, e a que chamarei influencia litteraria,

graças á qual voltei da Europa consideravelmente menos politico do que

partira.

VII

ERNEST RENAN

Desde a Academia a litteratura e a politica alternaram uma com outra,

occupando a minha curiosidade e governando as minhas ambições. Nos

primeiros annos a politica teve o predominio; com a viagem á Europa em

1873 passou este para a litteratura, e esse meu periodo litterario,

começado então, dura até 1879, quando entro para a Camara...

Eu tinha sempre lido muito e de tudo na epocha em que me sentia mais

politico do que homem de lettras. Em philosophia tinha assimilado um

pouco de Spinosa, Plotino, Kant e Hegel; a nota mais sonora e mais

sustentada de cada um delles vibra a mesma em meu espirito ainda

hoje que sinto a grandeza da Philosophia Catholica e colloco Santo

Thomaz de Aquino entre Aristoteles e Platão. Em religião, eu estava

sob a influencia de Strauss, Renan, Havet, e formava, tambem eu, com

os fragmentos de todos elles a minha lenda pessoal de Jesus. Pelo

espirito, posso dizer que habitei longos annos, da praia do Flamengo,

as bordas solitarias e silenciosas do lago de Genezareth. Em critica

litteraria, achava-me todo imbuido de Sainte-Beuve, Taine, Scherer,

ainda que deste ultimo, de quem fallarei, não tanto como depois que o

conheci. Em poesia, tinha passado de Lamartine para Victor Hugo, o de

_Hernani_ quasi exclusivamente, e de V. Hugo para Musset, como devia

depois passar de Musset para Shelley, de Shelley para Goethe, escala

em que parei, mas onde não espero morrer, porque tenho deante de mim o

Dante,... o que não quer dizer que não tenha nos ouvidos a resonancia

das grandes rimas novas de um Banville, e não admire o cinzelado dos

fortes relevos de José-Maria Heredia. Em prosa, Chateaubriand e Renan

dividiam o imperio com Cicero, cujas cartas são talvez o livro mundano

que eu levaria commigo, si tivesse de ficar encerrado em uma ilha

deserta. A phrase, a eloquencia, o retrato e a enscenação historica

de Macaulay foi tambem uma influencia permanente que se imprimiu em

meu espirito; hoje eu teria de accrescentar Mommsen, Curtius, Ranke,

Taine, Burckhardt. Quanto ao romance, que é a imaginação abrangendo e

modelando a vida, eu ficára sob a impressão de Jules Sandeau; vivia á

sombra dos seus castellos antigos reconstruidos pela moderna burguezia,

entre as duas sociedades, a velha e a nova, que elle queria fundir

pelo amor, e mais que a poesia d’alma de Sandeau, que foi muito grande

e a que ainda um dia a França ha de voltar, era para mim indefinivel

a impressão, aristocratica e feminina a um tempo, dos ultimos

encantadores estudos de Cousin sobre a sociedade do seculo XVII.

Tudo isto formava o fundo do meu espirito, o humus da minha

intelligencia, quando começou a phase litteraria, aquella em que

senti uma impulsão interior irresistivel para entrar na litteratura.

O periodo anterior era de receptividade, de plantio, de assimilações;

a impressão, o prazer maior era o de lêr; agora, vinha a necessidade

de produzir, de crear, e dava-se um facto singular, resultado desses

annos de leituras francezas:--eu lia muito pouco o portuguez, ainda não

começara a lêr o inglez e desapprendêra o allemão da _Maria Stuart_ e

de _Wallenstein_, com verdadeira magua do meu velho mestre Goldschmidt.

O resultado foi que me senti solicitado, coagido pela espontaneidade

propria do pensamento, a escrever em francez.

Um brilhante frequentador da _Revista Brasileira_, que possúe entre

outras qualidades talvez a mais preciosa de todas, uma boa quantidade

do fluido sympathico, admira-se dessa minha affinidade franceza; com

effeito, não revelo nenhum segredo, dizendo que insensivelmente a minha

phrase é uma traducção livre, e que nada seria mais facil do que

vertel-a outra vez para o francez do qual ella procede. O que me admira

é que o mesmo não aconteça a todos os que têm lido tanto em francez

como eu, mais do que eu, e cuja vida intellectual tem sido assim em sua

parte principal, isto é, em toda a sua funcção acquisitiva, franceza. E

talvez que elles têm uma força de assimilação maior do que a minha,--ou

que eu tenho mais desenvolvida do que elles a faculdade imitativa? Não

sei; mas essa susceptibilidade á influencia franceza parece natural

em espiritos que recebem quasi tudo em francez e que têm horror á

traducção; o purismo portuguez, esse, sim, é que, até tornar-se

uma segunda natureza litteraria, exige uma constante vigilancia, a

rectificação exacta de todo o trabalho de acquisição intellectual.

A verdade, para dizer tudo, é esta: admirando a força, o acabado, ás

vezes a grandeza desse estylo vernaculo, em que ha uma peneira de

furos imperceptiveis para impedir qualquer imperfeição estranha, e

em que a nossa lingua modernisando-se parece conservar a tonalidade

antiga, a minha phonographia cerebral adaptou-se comtudo ás leituras

estrangeiras. Falta-me para reproduzir a sonoridade da grande prosa

portugueza o mesmo echo interior que repete e prolonga dentro em mim,

em gradações curiosamente mais intimas e profundas, á medida que se vão

amortecendo, o sussurro indefinivel, por exemplo, de uma pagina de

Renan. Tem ahi o dr. Graça Aranha a confissão da minha deficiencia em

relação á nossa lingua, cuja fibra forte, resistente, primitivamente

aspera, lastimo não possuir. Limito-me, talvez por isso mesmo, a

escrever, como elle vê, com aquelles dos seus fios e dos seus matizes

que se ajustam ao meu tear francez.

O momento em que me appareceu essa febre do verso francez,--era

em verso, ainda por cima, que eu me sentia forçado a compôr,--foi

caprichosamente mal escolhido, porquanto coincidiu com a minha primeira

viagem á Europa. Não ha duvida tambem que foi um resultado della. Da

impressão d’arte, da impressão historica, da impressão litteraria do

Velho Mundo, jorrava em mim a fonte desconhecida das Musas, que em

outros têm jorrado do amor e da mocidade. Eu trazia versos de tudo o

que vira, como outros viajantes trazem pedras ou folhas de hera do

Coliseu, do Forum, de Posilippo, de Sorrento, de Pompeia, do lago de

Genebra, de Versalhes. Esses versos, reuni-os em um volume--_Amour

et Dieu_. Deus no titulo era tudo o que restava de um longo poema

da Eternidade que eu tinha pensado em Ouchy, uma especie de réplica

theista ao _De Rerum Natura_. Quando comecei a escrever esses versos,

eu ignorava regras fundamentaes da prosodia franceza, como a da

alternação das rimas; em pouco tempo tinha-me familiarisado com os

segredos dos hiatos e hemistichios. Os meus versos de _Amour et Dieu_

pareceram-me,--a illusão do auctor é um dos mais finos estratagemas da

Creação,--não direi eguaes, mas semelhantes aos melhores da decadencia

em que a França já tinha entrado. Esses versos valiam muito pouco. Não

que fossem todos elles maus, mas, porque o que teria realmente valor

nelles, si fosse um novo caminho aberto por mim á imaginação, era de

facto uma estrada já muito percorrida por ella, uma especie de _via

sacra_ das procissões antigas, na qual muito maiores espiritos tinham

levantado por toda a parte columnas votivas. Isso por um lado, e por

outro, porque o que nelles podia soar agradavelmente era declamação

poetica, e não poesia: pertenceria á rhetorica, ou á eloquencia, e não

á arte, que em tudo é creação.

Desde que toquei na illusão do auctor, vou abrir um parenthesis para

uma reminiscencia, que talvez previna os jovens poetas contra uma das

ciladas mais frequentes no caminho da mocidade, e até da velhice, a do

elogio que de qualquer modo forçamos ou mesmo sómente desejamos.

Em 1872, quando Alexandre Dumas Filho escreveu a brochura

_L’Homme-Femme_ terminando pelo famoso _Tue-la!_, publiquei no Rio de

Janeiro uma carta em francez a Ernesto Renan com o titulo _Le droit au

Meurtre_. Um amigo entregou de minha parte um exemplar dessa brochura

ao grande escriptor, a quem só me faltou tratar de _divin maître_. Hoje

descubro, mesmo litterariamente fallando, os lados fracos da _maneira_

renaniana; naquelle tempo eu era o mais inteiramente suggestionado dos

nossos renanistas. O meu emissario foi Arthur de Carvalho Moreira,

de quem já fallei, e a carta que elle me escreveu dando conta da sua

missão, podia ter a assignatura de Chamfort. _L’Homme-Femme_, segundo

Renan, não era sinão _un méchant paradoxe_, que não valia a pena

refutar; _une plaisanterie_, que não se devia tomar ao sério. Quando

no anno seguinte fui a Pariz, uma das minhas primeiras visitas foi a

Renan. Elle lembrava-se do meu nome e não se demorou em responder ao

pedido que lhe fiz de alguns momentos para apresentar-lhe as minhas

homenagens. Ainda conservo esses curtos pequenos autographos: «C’est

moi qui serai enchanté de causer avec vous. Tous les jours vers 10

heures ¹⁄₂ ou onze heures, vous êtes sûr de me trouver. Votre très

affectueux et dévoué--_E. Renan_. Rue Vanneau, 29.» Tres dias depois,

eu subia os quatro andares do n. 29 da rua Vanneau e penetrava no

mesmissimo modesto «apartamento» que Carvalho Moreira me havia

photographado em sua carta. Dentro de minutos me apparecia Renan. Na

minha vida tenho conversado com muito homem de espirito e muito homem

illustre; ainda não se repetiu, entretanto, para mim, a impressão

dessa primeira conversa de Renan. Foi uma impressão de encantamento;

imagine-se um espectaculo incomparavel de que eu fosse espectador

unico, eis ahi a impressão. Eu me sentia na pequena bibliotheca, deante

dos deslumbramentos daquelle espirito sem rival, prodigalisando-se

deante de mim, litteralmente como Luiz II da Baviera na escuridão do

camarote real, no theatro vazio, vendo representar os _Nibelungen_ em

uma scena illuminada para elle só.

Dessa entrevista não sahi só fascinado, sahi reconhecido. Renan deu-me

cartas para os homens de lettras que eu desejava conhecer: para Taine,

Scherer, Littré, Laboulaye, Charles Edmond, que devia apresentar-me

a George Sand, Barthélemy Saint-Hilaire, por intermedio de quem eu

conheceria Monsieur Thiers. As nossas relações tornaram-se desde o

primeiro dia affectuosas, e, naturalmente, quando imprimi o meu _Amour

et Dieu_, mandei-lhe um dos primeiros exemplares. Aqui está a carta que

elle me escreveu:

Minha formação · 第 3 / 16 段