para mim a civilisação, e se está representando em todos os theatros
da humanidade, ligados hoje pelo telegrapho. Uma affeição maior, um
interesse mais proximo, uma ligação mais intima, faz com que a scena,
quando se passa no Brasil, tenha para mim importancia especial, mas
isto não se confunde com a pura emoção intellectual; é um prazer ou
uma dôr, por assim dizer domestica, que interessa o coração; não é um
grande espectaculo, que prende e domina a intelligencia. A abolição
no Brasil me interessou mais do que todos os outros factos ou séries
de factos de que fui contemporaneo; a expulsão do Imperador me abalou
mais profundamente do que todas as quedas de thronos ou catastrophes
nacionaes que acompanhei de longe; por ultimo, não experimentei
nenhuma sensação tão cheia, tão prolongada, tão viva, durante mezes
ininterrompidos, como durante a ultima revolta, quando se ouvia o
canhão da guerra civil no mar e o silencio ainda peior do terror em
terra. Em tudo isto, porém, ha muito pouca politica: nesses tres
quadros, por exemplo, a politica suspende-se: o que ha é o drama
humano universal de que fallei, transportado para nossa terra. Não se
poderia dizer isto da lucta dos partidos, nem do que, exclusivamente, é
considerado _politica_ pelos profissionaes. Esta é uma absorpção como
a de qualquer habito, circumscreve a curiosidade a um campo visual
restricto: é uma especie de occlusão das palpebras. Esse gozo especial
do politico na lucta dos partidos não o conheci; procurei na politica o
lado moral, imaginei-a uma especie de cavallaria moderna, a cavallaria
andante dos principios e das reformas; tive nella emoções de tribuna,
por vezes de popularidade, mas não passei d’ahi: do limiar; nunca o
officialismo me tentou, nunca a sua deleitação me foi revelada; nunca
renunciei a imaginação, a curiosidade, o dilettantismo, para prestar
siquer os primeiros votos de obediencia; só vi de muito longe o véo
jacintho e purpura do Sanctum Sanctorum,--(tão de longe, que me pareceu
um velho reposteiro verde e amarello),--por traz do qual o Presidente
do Conselho contemplava sósinho face a face a majestade do poder
moderador.
Isto quer dizer que a minha ambição foi toda em politica de ordem
puramente intellectual, como a do orador, do poeta, do escriptor,
do reformador. Não ha, sem duvida, ambição mais alta do que a do
estadista, e eu não pensaria em reduzir os homens eminentes que merecem
aquelle nome em nossa politica ao papel de politicos de profissão; mas
para ser um homem de governo é indispensavel fixar, limitar, encerrar
a imaginação nas coisas do paiz e ser capaz de partilhar, si não
das paixões, de certo dos preconceitos dos partidos, ter com elles
a mais perfeita communhão de vida, _individuæ vitæ consuetuoinem_.
Assim, quando eu tivesse, que não tive, as qualidades precisas, estava
impedido para a politica pela incompressibilidade do meu interesse
humano. Politicamente, receio ter nascido cosmopolita. Não me seria
possivel reduzir as minhas faculdades ao serviço de uma religião local,
renunciar a qualidade que ellas têm de voltar-se espontaneamente para
fóra.
Assim, por exemplo, desses annos de minha vida, a que me refiro: em
1870, o meu maior interesse não está na politica do Brasil, está em
Sedan. No começo de 1871, não está na formação do gabinete Rio-Branco,
está no incendio de Pariz. Em 1871, durante mezes, está na lucta pela
emancipação,--mas não será tambem nesse anno o Brasil o ponto da terra
para o qual está voltado o dedo de Deus? Em 1872, o que me occupa o
espirito é o centenario dos _Luziadas_; estou então imprimindo um
livro sobre Camões, e a quem trabalha em um livro, apezar do seu
nenhum valor litterario, como o mostrou Theophilo Braga, não sobra
muita attenção ou interesse para dar ao que acontece em redor de si.
1873 é o meu anno, como disse, de fixação monarchica, mas tambem,--o
que mostra que a razão amadurece por partes,--o anno em que me atiro
contra a Egreja com o furor iconoclasta da mocidade, suppondo estar
dizendo coisas novas, nunca ouvidas por ella em 19 seculos de lucta,
pensando que ella vae gemer sob os golpes das terriveis hyperboles
que lhe arrojo em pamphletos e artigos da _Reforma_: _theocracia_,
_invasão ultramontana_, _conquista jesuita_!... Apezar disso, o anno
de 1873 é no meu registro o anno da primeira viagem á Europa, facto de
metamorphose pessoal, que é em minha vida a passagem da chrysalida para
a borboleta.
Não posso mais,--si feliz, si infelizmente, é uma questão que me
levaria muito longe deslindar,--não posso mais sentir o que sentia aos
24 annos, quando pela primeira vez me fiz de vapor, hoje eu preferiria
fazer-me de vela, para a Europa. Como já vi Leão XIII carregado na
_sedia gestatoria_ e tive a fortuna de fallar longamente a sós com um
Papa, creio que não faria mais uma viagem para conhecer nenhum grande
personagem, excepto, talvez, o imperador da China. Já que não vi um
rei mouro em Granada, passo bem sem ter visto Abdul-Hamid no Bosphoro.
Mesmo o imperador da China talvez eu me contentasse em conhecel-o pela
imagem que me dariam delle, si eu os avistasse, dois _rising men_
da alta diplomacia européa, de quem sou amigo, que tiveram occasião
de penetrar no recinto inviolavel e de estudar a infantil figura do
Incognoscivel sob as afflições da guerra japoneza. O que me interessa
nelle, bem se o póde imaginar, não é o seu throno de almofadas de seda,
o seu porta-voz, os seus cachimbos, os seus perfumadores, os seus
collares; é a originalidade que o envolve, maravilhosa como o proprio
sobrenatural, é a psychologia accumulada de seculos.
Em 1873, porém, a minha ambição de conhecer homens celebres de toda
ordem era sem limites; eu tel-os-ia ido procurar ao fim do mundo.
Do mesmo modo, com os logares. O que eu queria, era vêr todas as
_vistas_ do globo, tudo o que tem arrancado um grito de admiração a
um viajante intelligente. Nessa qualidade de camara photographica só
lastimava não ter o dom da ubiquidade. Esta febre itinerante passou-me
tambem. Posso lêr, sem perigo, qualquer geographia nova, o Elisée
Reclus inteiro; é só uma boa pagina de Pausanias ou de Strabão, com os
seus nomes antigos, que me perturba ainda. Os mais preciosos livros
da minha estante intima são os meus Baedekers; diversos logares ahi
estão marcados com um signal, e si eu pudesse, tomaria ainda, para
visital-os, o bilhete (hoje não se diz mais o bastão), do peregrino;
mas são os logares sómente a que está associada,--ha annos eu teria
dito uma impressão de minha vida,--uma das grandes impressões da
humanidade, uma das suas revelações na arte, ou na religião.
O que em materia de viagem, de paizagens me tentaria hoje,--quem sabe
si não é uma pura restituição de um atavismo longinquo? o meu avô
materno, que se transplantou em 1530 para Pernambuco e fundou o Morgado
do Cabo, João Paes Baretto, era de Vianna,--seria, talvez, o Lima, si
eu tivesse certeza de ter deante delle a mesma impressão dos soldados
romanos que chamaram ás suas margens Campos-Elyseos e lhe deram o bello
nome de Lethes. A verdade é que sinto cada dia mais forte o arrocho
do berço: cada vez sou mais servo da gleba brasileira, por essa lei
singular do coração que prende o homem á patria com tanto mais força
quanto mais infeliz ella é e quanto maiores são os riscos e incertezas
que elle mesmo corre.
N’esse tempo, porém, na minha éra antes de Christo, em pleno
polytheismo da mocidade, o mundo inteiro me attrahia por egual; cada
nova fascinação da arte, da natureza, da litteratura e, tambem, da
politica, era a mais forte; eu quizera conhecer as celebridades de
todos os partidos. Depois do Papa, a mais nobre figura da Europa era
para mim o conde de Chambord, que acabava de rejeitar a corôa de França
para não repudiar a bandeira branca; um Henrique V, bem pouco parecido
com Henrique IV, e, no emtanto, eu contava como uma boa fortuna a noite
que passei no salão de Monsieur Thiers[1].
[1] A respeito dessa visita, eis a nota que encontro no meu jornal
de 1874: «10 de Janeiro. Á noite fui com o Itajubá (o nosso arbitro
em Genebra) á casa de Monsieur Thiers, hotel Bagration, faubourg
Saint-Honoré. Apresentado a Monsieur Thiers, a Madame Thiers, a Mlle
Dosne. Apresentado a Jules Simon. Itinerario que este me deu: vêr
Pierrefonds. Coucy, Reims, Tarascon, Arles e a Grande Chartreuse.
Conversei com Monsieur Thiers sobre o Brasil. _Opinião delle sobre
a desegualdade da raça negra, de que provem o direito não de
escravisal-a, mas de forçal-a ao trabalho, como a Hollanda, faz com os
Javanezes._»
A viagem á Europa em taes condições não podia deixar de ser para
mim, como foi, o eterno impulso dado ao pendulo imaginativo. Pelo
sentimento, pela attitude, pelo emprego da vida, acredito ter sido,
em meu plano inferior, uma das mais consistentes figuras de nossa
politica; acredito mesmo que passarei nella como um homem de uma só
idéa, _persona unius dramatis_, porquanto a minha fidelidade monarchica
póde ser considerada, como a de André Rebouças, ainda um ultimo
compromisso, uma gratidão, um episodio da libertação dos escravos.
Quanto ás affinidades espontaneas, porém, ás sympathias naturaes, ao
movimento interior do espirito, difficilmente se encontrará um pendulo
que descreva um raio de oscillação mais largo do que a minha imaginação
e a minha curiosidade. O que é um homem politico assim dilettante,
viajante, a quem tudo attráe egualmente, que admira as grandes
construcções sociaes, qualquer que seja o systema da architectura,
convencido de que em todos ha o mesmo espirito, porque o espirito
_creador_ é um só?
Nós, brasileiros, o mesmo póde-se dizer dos outros povos americanos,
pertencemos á America pelo sedimento novo, fluctuante, do nosso
espirito, e á Europa, por suas camadas estratificadas. Desde que temos
a menor cultura, começa o predominio destas sobre aquelle. A nossa
imaginação não póde deixar de ser européa, isto é, de ser _humana_;
ella não pára na Primeira Missa no Brasil, para continuar d’ahi
recompondo as tradições dos selvagens que guarneciam as nossas praias
no momento da descoberta; segue pelas civilisações todas da humanidade,
como a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo commum de lingua,
religião, arte, direito e poesia, os mesmos seculos de civilisação
accumulada, e, portanto, desde que haja um raio de cultura, a mesma
imaginação historica.
Estamos assim condemnados á mais terrivel das instabilidades, e é isto
o que explica o facto de tantos sul-americanos preferirem viver na
Europa... Não são os prazeres do rastaquerismo, como se chrismou em
Pariz a vida elegante dos millionarios da Sul-America; a explicação é
mais delicada e mais profunda: é a attracção de affinidades esquecidas,
mas não apagadas, que estão em todos nós, da nossa commum origem
européa. A instabilidade a que me refiro, provem de que na America
falta á paizagem, á vida, ao horizonte, á architectura, a tudo o que
nos cerca, o fundo historico, a perspectiva humana; e que na Europa
nos falta a patria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vasado
ao nascer. De um lado do mar sente-se a ausencia do mundo; do outro,
a ausencia do paiz. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação
européa. As paizagens todas do Novo-Mundo, a floresta amazonica ou os
pampas argentinos, não valem para mim um trecho da Via Appia, uma volta
da estrada de Salerno a Amalfi, um pedaço do Caes do Sena á sombra
do velho Louvre. No meio do luxo dos theatros, da moda, da politica,
somos sempre _squatters_, como si estivessemos ainda derribando a matta
virgem.
Eu sei bem, para não sahir do Rio de Janeiro, que não ha nada mais
encantador _á vista_ do que, ao acaso, a escolha seria impossivel, os
parques de S. Clemente, o caminho que margeia o aqueducto de Paineiras
na direcção da Tijuca, a ponta de S. João, com o Pão de Assucar, vista
do Flamengo ao cahir do sol. Mas tudo isto é ainda, por assim dizer,
um trecho do planeta de que a humanidade não tomou posse; é como um
Paraiso Terrestre antes das primeiras lagrimas do homem, uma especie
de jardim infantil. Não quero dizer que haja duas humanidades, a
alta e a baixa, e que nós sejamos desta ultima; talvez a humanidade
se renove um dia pelos seus galhos americanos; mas, no seculo em que
vivemos, _o espirito humano_, que é um só e terrivelmente centralista,
está do outro lado do Atlantico; o Novo-Mundo para tudo o que é
imaginação esthetica ou historica é uma verdadeira solidão, em que
aquelle espirito se sente tão longe das suas reminiscencias, das suas
associações de idéas, como si o passado todo da raça humana se lhe
tivesse apagado da lembrança e elle devesse bulbuciar de novo, soletrar
outra vez, como creança, tudo o que apprendeu sob o céo da Attica...
Em um soberbo livro hespanhol, que faz honra á Sociedade de Jesus,
_Pequeñeces_, romance de um padre jesuita, que é um grande auctor, L.
Coloma, ha um personagem que diz a cada instante--_Usted me entiende_.
Todos nós temos algum conhecido que pontua as suas phrases com esse
fatigante _entende?_ que os nervos do marquez de Paraná não podiam
supportar. O _entende?_ do individuo que quer forçar o ouvinte a
nada perder do que elle diz, é muito diverso da formula habitual com
que o imbecil marquez de Villamelon exprimia o que lhe faltava força
para pensar. Ha tambem pontos, idéas, modos de sentir que o escriptor
desejaria expressar por um outro _Usted me entiende_, levantando apenas
a ponta do véo ao seu pensamento, alludindo a elle vagamente, sem
nada precisar, de facto, sem nada dizer. Cada um de nós é só o raio
esthetico que ha no interior do seu pensamento, e, emquanto não se
conhece a natureza desse raio, não se tem idéa do que o homem realmente
é. Nesta confissão da minha formação politica, devo, para não deixar
vêr sómente a mascara, o personagem, dar uma especie de photographia
dos symbolos que se imprimiram e reproduziram mais profundamente no
meu cerebro. Assim se reconhecerá que a politica não foi sinão uma
refracção daquelle filete luminoso que todos temos no espirito.
A instabilidade a que me estou referindo, está grandemente modificada;
a dualidade desappareceu em parte, não tão perfeitamente como em meu
amigo Taunay... Este, apezar do seu sangue de Cruzado, apezar de ter
escripto o seu livro classico em francez, e apezar da sua brilhante
propaganda contra o nativismo, é o mais genuino _nativista_ que eu
conheço, porque não comprehende siquer a vida em outra terra, em outra
natureza. Brasileiro de uma só peça é aquelle que não póde viver sinão
no Brasil. Na mocidade fui um erratico, como o proprio Imperador acabou
na velhice... Quando, porém, entre a patria, que é o sentimento, e o
mundo, que é o pensamento, vi que a imaginação podia quebrar a estreita
fôrma em que estavam a cozer ao sol tropical os meus pequenos debuxos
d’almas, _Ustedes me entienden_, deixei ir a Europa, a historia, a
arte, guardando do que é universal só a religião e as lettras.
V
PRIMEIRA VIAGEM Á EUROPA
De diversos modos a minha primeira ida á Europa influiu para
enfraquecer as tendencias republicanas que eu porventura tivesse, e
fortificar as monarchicas. Antes de tudo, o republicanismo francez,
que era e é o nosso, tem um fermento de odio, uma predisposição
egualitaria que logicamente leva á demagogia,--a sua maior figura é
Danton, o homem da Setembrisada,--ao passo que o liberalismo, mesmo
radical, não só é compativel com a monarchia, mas até parece alliar-se
com o temperamento aristocratico. Si fosse preciso personificar
o liberalismo, poder-se-ia chamar-lhe Lafayettismo, por ter sido
Lafayette o principal representante dos _gentilhommes libéraux_ de
1789. Esse estreito republicanismo, que confina nos dias de crise
com a demagogia, e, exasperado pelo perigo ou excitado pela posse
repentina, imprevista, do poder, chega á epidemia sanguinaria do
Terror, é um facto, póde-se dizer, de reclusão mental: dá-se sómente
quando o espirito se encerra em algum systema philosophico ou fanatismo
religioso, em uma doutrina ou em uma previsão social qualquer, e ahi
se isola inteiramente do mundo externo. A intolerancia é, ou era, o
caracteristico do republicanismo aggressivo francez, e a intolerancia
é uma _phobia_ da liberdade e do mundo; é um phenomeno de retracção
intellectual, produzindo a hypertrophia ingenua da personalidade.
É provavel que em mim tambem existisse o embryão republicano; não
duvido que, nascido em outra condição, si não tivesse meu pae na
mais alta hierarchia da politica, si não descobrisse, como tantos
outros que se revoltaram, modo de vencer o terrivel _multi sunt
vocati, pauci vero electi_ da antiga _oligarchia_, eu tambem tivesse
acompanhado o movimento republicano de 1870, do qual faziam parte
alguns dos espiritos que me fascinavam. Si assim fosse, porém, estou
certo que o movimento abolicionista me teria, mais tarde, destacado
delle, e que o 13 de maio me identificaria com a sorte da monarchia
libertadora. Si, apezar de tudo, eu me tivesse conservado republicano
até 15 de novembro,--nascesse eu em que condição nascesse, uma vez
que fosse o mesmo que sou, isto é, que tivesse recebido no berço os
mesmos rudimentos d’alma,--não tenho a menor duvida de que o abalo,
o choque do desterro do Imperador teria posto fim á minha phantasia
republicana e restabelecido a sinceridade e a lucidez dos meus sentidos
politicos. Como quer que fosse, a viagem de 1873 destruiu no germen
toda e qualquer inclinação republicana, todo indicio de fanatismo que
eu pudesse ter no segredo da minha natureza.
Não durou muito tempo essa viagem; foi apenas de um anno. A situação de
espirito que ella creou já tinha antecedentes nas minhas relações com a
pequena roda em que vivia então o corpo diplomatico em Petropolis e na
Côrte, na convivencia com ministros e secretarios estrangeiros, alguns
destes hoje ministros, e até embaixadores. A situação de espirito
_cosmopolita_ ou, antes, _mundana_, caracterisa-se pela comprehensão
das soluções oppostas dos mesmos problemas sociaes, pela tolerancia
de todas as opiniões, pela egual familiaridade com correligionarios
e adversarios, pela idéa, para dizer tudo, de que acima de quaesquer
partidos está _a boa sociedade_. Esse modo de ser, em politica, não
é necessariamente eclectico, nem, ainda menos, sceptico: é sómente
incompativel com o fanatismo, isto é, com a intolerancia, qualquer que
ella seja. Foi a viagem á Europa a grande deslocação que consolidou
a tendencia anti-systematica em que eu já estava, amortecendo em
mim o predominio da força politica até 1879, quando pela primeira
vez entro para o Parlamento; mesmo no Parlamento, porém, depois do
anno de estréa, em que as emoções da tribuna me fizeram tomar calor
e interesse pela lucta dos partidos, desde 1880 até 1889, quando
se fechou definitivamente para mim aquella carreira, posso dizer
que continuou o effeito da minha deslocação, de 1873, da politica
partidaria, porque todo o tempo que estive na Camara me acolhi sob uma
bandeira mais larga e me colloquei em um terreno politicamente neutro,
como era o da emancipação dos escravos.
Essa viagem que assim imprime á minha evolução politica o seu caracter
definitivo, durou, como eu disse, pouco tempo. Partindo em agosto de
1873, volto ao Rio de Janeiro em setembro de 1874. É menos de um anno
de Europa que tenho da primeira vez; desses onze mezes, mais ou menos,
passo cinco em Pariz, tres na Itália, um mez no lago de Genebra, um mez
em Londres, um mez em Fontainebleau. A razão desse mez de Ouchy e desse
mez de Fontainebleau é que, em viagem, sempre que um logar me falla,
eu me deixo prender por elle e me esqueço de viajar. É assim que,
mais tarde, pretendendo dar ao Niagara a hora indispensavel para vêr
as quedas, me deixo ficar vinte e tantos dias, sem poder arrancar-me
daquelle espectaculo até o ter inteiramente absorvido.
O mez de Ouchy quer dizer, sem fallar de Lausanne, que os primeiros
passeios a pé, á beira do lago, de um lado na direcção de Coppet, do
outro, na direcção de Clarens, as visitas a Genebra com a romaria
obrigada a Ferney, me collocavam no theatro litterario, talvez o mais
interessante da Europa moderna, depois de Weimar, porque Clarens é o
scenario da _Nova Heloisa_, e está cheio da eloquencia de Rousseau;
Ferney, o dos ultimos annos de Voltaire; Coppet, o da realeza de
Corinna com a sua côrte vinda de Pariz, da Allemanha, da Italia, não
esquecendo Lord Byron. Mais do que tudo, porém, nessa faixa de terra
que liga intellectualmente o seculo XVIII ao seculo XIX, o que me teria
prendido eternamente a Ouchy, si eu dispuzesse de algumas eternidades
nesta vida, é o lago, o seu córte, a sua moldura.
O mez de Fontainebleau tem outra explicação: não é o castello e
a floresta só por si o que me prende; é que volto da Inglaterra,
tendo pela primeira vez fallado inglez com todo o mundo, fascinado
por Londres, tocado de um começo de anglomania, que foi a doença da
sociedade em França, e, portanto, até isso, accusa a construcção
_franceza_ do meu espirito, e Fontainebleau, com o repouso dos seus
jardins symetricos, a frescura das suas aguas e das suas sombras,
a tranquillidade do seu silencio, era o mais admiravel retiro que
eu podia querer nesse mez da minha vida, que posso chamar o mez de
Thackeray. Foi esse o claustro ideal em que, fechado com _Vanity Fair_,
_Pendennis_, _The Newcomes_, não sei o que mais, sem diccionarios,
adivinhando o que não podia traduzir, comprehendendo tudo, exgottei em
mim mesmo até ás lagrimas a impressão do grande romancista inglez,--o
que fiz depois com George Eliot e Trollope, mas nunca fiz, sinto
dizel-o, com Dickens, nem com Sir Walter Scott.
De certo, em minutos póde abrir-se e fechar-se deante dos nossos olhos
um espectaculo que não esqueceremos nunca. Percorri em mezes a Italia,
as grandes capitaes antigas sómente, sinto tambem dizel-o: não fiz
siquer a romaria de arte pela Umbria; estive duas horas deante dos
quatro monumentos da velha Pisa, que inspiraram a Taine a sua pagina
mais eloquente: como esquecer, no emtanto, essa revelação immorredoura?
Keats não disse tudo com o seu verso:
_A thing of beauty is a joy for ever?_
Não só o que é verdadeiramente bello é «essa alegria», de que elle
falla, «para sempre», um raio interior que se incorpora á vida para
nunca mais se apagar, quaesquer que sejam as tempestades, d’ella, como
tambem uma só _thing of beauty_, um unico fragmento da verdadeira
belleza, basta para illuminar a existencia humana inteira. Nenhum homem
terá comprehendido bem duas grandes obras d’arte: a columna grega e a
ogiva gothica, um Miguel Angelo e um Piero della Francesca, nem tão
pouco duas vistas differentes de natureza: o oceano e os lagos de
montanha; as paizagens da neve e os céos do Oriente. Em caso algum,
porém, póde-se sentir uma obra d’arte _de passagem_, isto é, sem que
ella produza em nós uma vibração correspondente ao esforço, á sensação
do creador quando a compoz.
Como é que em minutos nos poderia penetrar a impressão do artista que
levou annos para realisar seu pensamento, e morreu ainda agitado por
elle? Eu _olhei_, por exemplo, para a cathedral de Reims, com Rodolpho
Dantas, em um dia que _roubámos_ a Pariz, linguagem do boulevard;
parei para vêr a cathedral de Amiens; _roubei_ outro dia a Pariz para
fazer a volta da cathedral de Rouen; fui a Strasburgo avistar o grande
Münster de Erwin von Steinbach; com Arthur de Carvalho Moreira, um
dos mais finos espiritos da nossa geração academica, fiz uma vez a
_tournée_ dos castellos historicos do Loire: Chenonceaux, Amboise,
Blois, Chambord. Horas para tudo isso! Para Francisco I, Diana de
Poitiers, a Renascença Franceza! Mais tarde, por não querer apressar-me
assim, não fiz com o mesmo companheiro, o qual deu annos de sua vida
intellectual exclusivamente aos _goethekenners_, a visita ás cidades
de Goethe: Frankfort, Leipzig,--Strasburgo, vi, mas sem pensar em
Frederica,--Wetzlar e Weimar. Por toda a parte, posso dizer, passei,
como passei em 1892, por Coimbra, Alcobaça, Mafra, a Batalha, sem
deixar siquer ás impressões o tempo de se gravarem no espirito. Uma
hora para a cathedral de Reims! só não foi um ultraje, uma offensa
áquella divina fachada, porque lá estive em verdadeira humilhação,
e não lancei olhares criticos ao seu sublime portal, a toda a sua
incomparavel legenda, como o _gamin_ lhe atira pedras. Uma hora em
Amiens! n’esse «_Parthenon da architectura gothica_», como lhe chamou
Viollet-le-Duc, e levando na mão a _Biblia de Amiens_ de John Ruskin,
o qual chega a invejar o humilde guarda, cuja funcção é espanar-lhe as
esculpturas de madeira, como nunca outras foram talhadas!
De passagem, póde-se vêr muita coisa, mas não se tem a revelação de
nada. A primeira condição para o espirito receber a impressão de uma
grande creação qualquer, seja ella de Deus, seja das epochas,--nada
é puramente individual,--é o repouso, a occasião, a passividade, o
apagamento do pensamento proprio; dar á fórma divina o tempo que ella
quizer para reflectir-se em nós, para deixar-nos comprehendel-a e
admiral-a, para revelar-nos o pensamento originario donde nasceu.