Cada uma das suas palavras, comparando os dois systemas de g

MINHA

FORMAÇÃO

POR

JOAQUIM NABUCO

DA ACADEMIA BRAZILEIRA

E DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO

H. GARNIER, LIVREIRO EDITOR

71-73, RUA MOREIRA CEZAR, 71-73

RIO DE JANEIRO

6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6

PARIS

MINHA FORMAÇÃO

_DO MESMO AUCTOR_:

UM ESTADISTA DO IMPERIO, _Nabuco de Araujo_, Sua Vida, Suas Opiniões,

Sua Epocha.

3 vol. in-4º, enc., 45$000; -- br., 30$000.

MINHA

FORMAÇÃO

POR

JOAQUIM NABUCO

DA ACADEMIA BRASILEIRA

E DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71-73, RUA MOREIRA CEZAR, 71-73

RIO DE JANEIRO

6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6

PARIS

1900

_Foram tirados d’esta edição 50 exemplares numerados em papel de

Hollanda, os quaes levam a rubrica do auctor._

A

MEUS FILHOS

PREFACIO

A maior parte de _Minha Formação_ appareceu primeiro no _Commercio de

S. Paulo_, em 1895; depois foi recolhida pela _Revista Brazileira_,

cujo agasalho nunca me faltou... Os capitulos que hoje accrescem

são tomados a um manuscripto mais antigo. Só a conclusão é nova. Na

revisão, entretanto, dos diversos artigos foram feitas emendas e

variantes. A data do livro para a leitura deve assim ser 1893-99,

havendo nelle idéas, modos de vêr, estados de espirito, de cada um

d’esses annos. Tudo o que se diz sobre os Estados-Unidos e a Inglaterra

foi escripto antes das guerras de Cuba e do Transvaal, que marcam uma

nova éra para os dois paizes. Algumas das allusões a amigos, como a

Taunay e a Rebouças, hoje fallecidos, foram feitas quando elles ainda

viviam. Foi para mim uma simples distracção reunir agora estas paginas:

seria, porém, mais do que isso uniformal-as e querer eliminar o que

não corresponde inteiramente ás modificações que soffri desde que ellas

primeiro foram escriptas.

Agora que ellas estão deante de mim em fórma de livro, e que as releio,

pergunto a mim mesmo qual será a impressão d’ellas... Está ahi muito

da minha vida... Será uma impressão de volubilidade, de fluctuação,

de dilettantismo, seguida de desalento, que ellas communicarão? Ou

antes de consagração, por um voto perpetuo, a uma tarefa capaz de

saciar a sêde de trabalho, de esforço e de dedicação da mocidade, e

sómente realisada a tarefa da vida, saciada aquella sêde,--ainda mais,

transformada por um terremoto a face da epocha, creado um novo meio

social, em que se tornam necessarias outras qualidades de acção, outras

faculdades de calculo para luctas de diverso caracter,--a renuncia á

politica, depois de dez annos de retrahimento forçado, e deante de uma

seducção intellectual mais forte, de uma perspectiva final do mundo

mais bella e mais radiante?... _Sed magis gratiarum actio._..

No todo a impressão, eu receio, será misturada; as deficiencias da

natureza apparecerão, cobertas pela clemencia da sorte: vêr-se-ha o

ephemero e o fundamental... Em todo o caso não precisarei de pleitear

minha propria causa, porque ella será sempre julgada pela raça mais

generosa entre todas... Si alguma cousa observei no estudo do nosso

passado, é quanto são futeis as nossas tentativas para deprimir, e como

sempre vinga a generosidade... Infeliz de quem entre nós não tem outro

talento ou outro gosto sinão o de abater! A nossa natureza está votada

á indulgencia, á doçura, ao enthusiasmo, á sympathia, e cada um póde

contar com a benevolencia illimitada de todos... Em nossa historia não

haverá nunca Inferno, nem siquer Purgatorio.

* * * * *

Não dou, entretanto, o _bon à tirer_ a este livro, sinão porque estou

convencido de que elle não enfraquecerá em ninguem o espirito de acção

e de lucta, a coragem e a resolução de combater por idéas que repute

essenciaes, mas sómente indicará algumas das condições para que o

triumpho possa ser considerado uma victoria nacional, ou uma victoria

humana, e para que a vida, sem ser uma obra d’arte, o que é dado a

muito poucas, realise ao menos uma parcella de belleza, e quando não

tenha o orgulho de ter reflectido brilhante sobre o paiz, tenha o

consolo de lhe haver sido carinhosamente inoffensiva.

A politica, entretanto, não foi a minha impressão dominante ao traçar

estas reminiscencias... Eu já me achava então fóra d’ella.

«Esta manhã, casaes de borboletas brancas, douradas, azues, passam

innumeras contra o fundo de bambús e samambaias da montanha. E um

prazer para mim vêl-as voar, não o seria, porém, apanhal-as, pregal-as

em um quadro... Eu não quizera guardar d’ellas sinão a impressão viva,

o fremito de alegria da natureza, quando ellas cruzam o ar, agitando

as flôres. Em uma collecção, é certo, eu as teria sempre deante da

vista, mortas, porém, como uma poeira conservada junta pelas côres sem

vida... O modo unico para mim de guardar essas borboletas eternamente

as mesmas, seria fixar o seu vôo instantaneo pela minha nota intima

equivalente... Como com as borboletas, assim com todos os outros

deslumbramentos da vida... De nada nos serve recolher o despojo; o

que importa, é só o raio interior que nos feriu, o nosso contacto com

elles... e este como que elles tambem o levam embora comsigo.»

Este traço indecifravel, com que, em Petropolis, tentei ha annos marcar

uma impressão de que me fugia o contorno animado, explicará as lacunas

d’este livro e muitas de suas paginas...

J. N.

San-Sebastian (Guipúzcoa), 8 de Abril de 1900.

MINHA FORMAÇÃO

I

COLLEGIO E ACADEMIA

Não preciso remontar ao collegio, ainda que alli, provavelmente,

tenha sido lançada no subsolo da minha razão a camada que lhe serviu

de alicerce: o fundo hereditario do meu liberalismo. Meu pae nessa

epocha (1864-1865) tinha terminado a sua passagem do campo conservador

para o liberal, marcha inconscientemente começada desde a Conciliação

(1853-57), consciente, pensada desde o discurso que ficou chamado do

_uti possidetis_ (1862). Houve diversas migrações em nossa historia

politica do lado liberal para o conservador. Os homens da Regencia,

que entraram na vida publica ou subiram ao poder representando a idéa

de revolução, foram com a madureza dos annos restringindo as suas

aspirações, aproveitando a experiencia, estreitando-se no circulo de

pequenas ambições e no desejo de simples aperfeiçoamento relativo,

que constitue o espirito conservador. O senador Nabuco, porém,

foi quem iniciou, guiou, arrastou um grande movimento em sentido

contrario, do campo conservador para o liberal, da velha experiencia

para a nova experimentação, das regras hieraticas de governo para as

aspirações ainda informes da democracia. Elle é quem encarnará em nossa

historia,--entre a antiga «oligarchia» e a Republica, que deve sahir

della no dia em que a escravidão se esboroar,--o espirito de reforma.

Elle é o nosso verdadeiro Luthero politico, o fundador do livre-exame

no seio dos partidos, o reformador da velha egreja _saquarema_, que,

com os Torres, os Paulinos, os Eusebios, dominava tudo no paiz.

Zacharias, Saraiva, Sinimbú, com os seus grandes e pequenos satellites,

Olinda mesmo, em sua orbita independente, não fazem sinão escapar-se

pela tangente que elle traçou com a sua iniciativa intellectual, a qual

parece um phenomeno da mesma ordem que o prophetismo e que, por isso

mesmo, só lhe consentia ter em politica um papel quasi imparcial: o de

oraculo.

No collegio eu ainda não comprehendia nada d’isto, mas sabia o

liberalismo de meu pae, e nesse tempo o que elle dissesse ou pensasse

era um dogma para mim: eu não tinha sido ainda invadido pelo espirito

de rebeldia e independencia, por essa petulancia da mocidade que me

fará mais tarde, na Academia, contrapôr ás vezes o meu modo de pensar

ao delle, em logar de apanhar religiosamente, como eu faria hoje, cada

palavra sua.

Era natural que eu seguisse aos quinze e deze-seis annos a politica

de meu pae, mesmo porque essa devoção era acompanhada de um certo

prazer, de uma satisfação de orgulho. Entre as sensações da infancia

que se me gravaram no espirito, lembra-me um dia em que, depois de

lêr o seu _Jornal_, o inspector do nosso anno me chamou á mesa,--era

um velho actor do theatro S. Pedro, que vivia da lembrança dos seus

pequenos papeis e do culto de João Caetano,--para dizer-me com grande

mysterio que meu pae tinha sido chamado a S. Christovão para organizar

o gabinete. Filho de Presidente do Conselho foi para mim uma vibração

de amor-proprio mais forte do que teria sido, imagino, a do primeiro

premio que o nosso camarada Rodrigues Alves tirava todos os annos. Eu

sentia cahir sobre mim um reflexo do nome paterno e elevava-me nesse

raio: era um começo de ambição politica que se insinuava em mim. A

atmosphera que eu respirava em casa, desenvolvia naturalmente as minhas

primeiras fidelidades á causa liberal. Recordo-me de que nesse tempo

tive uma fascinação por Pedro Luiz, cuja ode á Polonia, _Os Voluntarios

da Morte_, eu sabia de cór. Depois, a questão dos escravos, em

1871, nos separou; mais tarde a nossa camaradagem na Camara nos

tornou a unir. Em casa eu via muito a Tavares Bastos, que me mostrava

sympathia, todo o grupo politico da epocha; era para mim estudante um

desvanecimento descer e subir a rua do Ouvidor de braço com Theophilo

Ottoni; um prazer ir conversar no _Diario do Rio_ com Saldanha

Marinho e ouvir Quintino Bocayuva, que me parecia o joven Hercules da

imprensa, e cujo ataque contra Montezuma, a proposito da capitulação de

Uruguayana, me deu a primeira idéa de um polemista destemido.

Na situação em que fui para S. Paulo cursar o primeiro anno da

Academia, eu não podia deixar de ser um estudante liberal. Desde

o primeiro anno fundei um pequeno jornal para atacar o ministerio

Zacharias. Meu pae, que apoiava esse ministerio escrevia-me que

estudasse, me deixasse de jornaes e sobretudo de attitudes politicas

em que se podia vêr, sinão uma inspiração, pelo menos uma tolerancia

da parte delle. Eu, porém, prezava muito a minha _independencia de

jornalista_, a minha _emancipação de espirito_: queria sentir-me

livre, julgava-me compromettido perante a minha _classe_, a academica,

e assim illudia, sem pensar desobedecer, o desejo de meu pae, que,

provavelmente, não ligava grande importancia á minha opposição ao

ministerio amigo. Nesse tempo as _Cartas de Erasmo_, que produziam

no paiz uma reviviscencia conservadora, me pareciam a obra prima da

litteratura politica.

As minhas idéas eram, entretanto, uma mistura e uma confusão; havia

de tudo em meu espirito. Avido de impressões novas, fazendo os meus

primeiros conhecimentos com os grandes auctores, com os livros de

prestigio, com as idéas livres, tudo o que era brilhante, original,

harmonioso, me seduzia e arrebatava por egual. Era o deslumbramento

das descobertas continuas, a efflorescencia do espirito: todos os seus

galhos cobriam-se espontaneamente de rosas ephemeras.

As _Palavras de um Crente_ de Lamennais, a _Historia dos Girondinos_ de

Lamartine, o _Mundo caminha_ de Pelletan, os _Martyres da Liberdade_ de

Esquiros eram os quatro Evangelhos da nossa geração, e o _Ashaverus_ de

Quinet o seu Apocalypse. Victor Hugo e Henrique Heine creio que seriam

os poetas favoritos. Eu, porém, não tinha, (nem tenho), systematisado,

unificado siquer o meu lyrismo. Lia de tudo egualmente. O anno de 1866

foi para mim _o anno_ da Revolução Franceza: Lamartine, Thiers, Mignet,

Louis Blanc, Quinet, Mirabeau, Vergniaud e os Girondinos, tudo passa

successivamente pelo meu espirito; a Convenção está n’elle em sessão

permanente. Apezar disso, eu lia tambem Donoso Cortez e Joseph de

Maistre, e até escrevi um pequeno ensaio, com a infallibilidade dos

dezesete annos, sobre a Infallibilidade do Papa.

Posso dizer que não tinha idéa alguma, porque tinha todas. Quando

entrei para a Academia, levava a minha fé catholica virgem; sempre

me recordarei do espanto, do desprezo, da commoção com que ouvi pela

primeira vez tratar a Virgem Maria em tom libertino; em pouco tempo,

porém, não me restava daquella imagem sinão o pó dourado da saudade...

Ao catholicismo só vinte e tantos annos mais tarde me será dado voltar

por largos circuitos de que ainda um dia, si Deus me dér vida, tentarei

reconstruir o complicado roteiro. Basta-me dizer, por emquanto, que a

grande influencia litteraria que experimentei na vida, a embriaguez de

espirito mais perfeita que se podia dar, pelo narcotico de um estylo

de timbre sem egual em nenhuma litteratura, o meu _coup de foudre_

intellectual, foi a influencia de Renan.

Politicamente o fundo liberal ficou intacto, sem mistura siquer de

tradicionalismo. Seria difficil colher-se em todo o meu pensamento

um resquicio de tendencia conservadora. Liberal, eu o era de uma só

peça; o meu peso, a minha densidade democratica era maxima. Nesse

tempo dominava a Academia, com a seducção da sua palavra e de sua

figura, o segundo José Bonifacio. Os _leaders_ da Academia, Ferreira

de Menezes, que, apezar de formado, continuava academico e chefe

litterario da mocidade, Castro Alves, o poeta republicano de _Gonzaga_,

bebiam-lhe as palavras, absorviam-se nelle em extasis. Ruy Barbosa era

dessa geração; mas Ruy Barbosa, hoje a mais poderosa machina cerebral

do nosso paiz, que pelo numero das rotações e força de vibração faz

lembrar os machinismos que impellem através das ondas os grandes

«transatlanticos», levou vinte annos a tirar do minerio do seu talento,

a endurecer e temperar, o aço admiravel que é agora o seu estylo.

As minhas idéas, porém, fluctuavam, no meio das attracções differentes

desse periodo, entre a monarchia e a republica, sem preferencia

republicana, talvez sómente por causa do fundo hereditario de que

fallei e da facil carreira politica que tudo me augurava. Um livro

seductor e interessante,--é a minha impressão da epocha,--o _19

de Janeiro_, de Emilio Ollivier, tinha-me deixado nesse estado de

hesitação e de indifferença entre as duas fórmas de governo, e a

_France Nouvelle_, de Prévost-Paradol, que eu li com verdadeiro

encanto, não conseguiu, apezar de todo o seu arrastamento, fixar a

minha inclinação do lado da monarchia parlamentar. O que me decidiu foi

a _Constituição Ingleza_ de Bagehot. Devo a esse pequeno volume, que

hoje não será talvez lido por ninguem em nosso paiz, a minha fixação

monarchica inalteravel: tirei delle, transformando-a a meu modo, a

ferramenta toda com que trabalhei em politica, excluindo sómente a obra

da abolição, cujo _stock_ de idéas teve para mim outra procedencia.

II

BAGEHOT

Não sei a quem devo a fortuna de ter conhecido a obra de Bagehot, ou

si a encontrei por acaso entre as _novidades_ da livraria Lailhacar,

no Recife. Si soubesse quem me poz em communicação com aquelle grande

pensador inglez, eu lhe agradeceria as relações que fiz com elle em

1869. É desse anno a amizade litteraria intima que travei com Jules

Sandeau; a este quem me apresentou foi, recordo-me bem, o actual

conselheiro Lafayette, da antiga firma da _Actualidade_, Farnese,

Lafayette e Pedro Luiz, que eram, com Tavares Bastos, os directores da

mocidade liberal. A _Actualidade_ fôra talvez o primeiro jornal nosso

de inspiração puramente republicana. A semente que germinou depois, em

meu tempo, foi toda espalhada por ella.

Antes de lêr Bagehot, eu tinha lido muito sobre a Constituição Ingleza.

Tenho deante de mim um caderno de 1869, em que copiava as paginas

que em minhas leituras mais me feriam a imaginação, methodo de educar

o espirito, de adquirir a fórma do estylo, que eu recommendaria, si

tivesse auctoridade, aos que se destinam a escrever, porque, é preciso

fazer esta observação, ninguem escreve nunca sinão com o seu periodo, a

sua medida, Renan diria a sua eurythmia, dos vinte e um annos. O que se

faz mais tarde na madureza é tomar sómente o melhor do que se produz,

desprezar o restante, cortar as porções fracas, as repetições, tudo o

que desafina ou que sobra: a cadencia do periodo, a forma da phrase

ficará, porém, sempre a mesma. O periodo de Lafayette ou de Ferreira

Vianna, de Quintino ou de Machado de Assis, é hoje, com as modificações

da edade, que são inevitaveis em tudo, o mesmo com que elles começaram.

Está visto que eu não incluo nos começos de um escriptor as tentativas

que cada um faz para chegar á sua fórma propria; o que digo é que o

compasso se fixa logo muito cedo, e de vez, como a physionomia. Nesse

livro de minhas leituras de 1869, quarto anno da Academia, encontro

no indice, com muita _Escravidão_ e muito _Christianismo_, muita

_Eloquencia ingleza_, muito Fox e Pitt.

Nesse tempo a Camara dos Communs já tinha para mim o prestigio de

primeira Assembléa do mundo, mas a realeza ingleza era ainda a dos

quatro Jorges, principalmente a de Jorge III, a _bête noire_ de

Martinho de Campos, ao passo que a Camara dos Lords, essa, com todo

o cortejo das antigualhas dos Tudors, era para meu liberalismo,

americanisado por Laboulaye, sob o disfarce de carnaval historico,

uma odiosa procissão aristocratica em pleno mundo moderno. Dos dois

governos, o inglez e o norte-americano, o ultimo parecia-me mais livre,

mais popular. Por motivos differentes a monarchia constitucional,

democratisada por instituições radicaes, seria ainda para o Brasil um

governo preferivel á republica, mesmo pelo facto de já existir; mas, em

these, entre essa monarchia e a republica, a superioridade, si havia,

estava do lado desta. A _France Nouvelle_,--a ultima parte della foi

verdadeiramente prophetica,--com toda a sua preferencia raciocinada

pela monarchia constitucional, deixou-me, como já disse, suspenso,

porque todo o seu delicado apparelho tinha como peça principal, ou

pelo menos como peça de aperfeiçoamento, _a dissolução regia_, direito

proprio do monarcha, e exactamente essa especie de dissolução é que era

para a nossa escola a manivella do governo pessoal.

A _Constituição Ingleza_ de Bagehot é o livro de um pensador politico,

não de um historiador, nem de um jurista. Quem lê a massa inextricavel

de factos que se contêm, por exemplo, na _Historia Constitucional_ do

dr. Stubbs, ou um desses rapidos panoramas de uma epocha inteira, que

de repente Freeman nos desvenda em uma de suas paginas, não encontra

em Bagehot nada, historicamente fallando, que não lhe pareça, por assim

dizer, de segunda mão. O que, porém, nem Freeman, nem Stubbs, nem

Gneist, nem Erskine May, nem Green, nem Macaulay conseguiu nos dar tão

perfeitamente como Bagehot, aliás um leigo em historia e politica, um

simples amador, foi o segredo, as molas occultas da Constituição.

Freeman mostrára no seu pequeno livro _O Crescimento da Constituição

Ingleza_ que essa Constituição _nunca foi feita_; que _nunca nas

grandes luctas politicas da Inglaterra a voz da nação reclamou novas

leis, mas só o melhor cumprimento das leis existentes_; que _a vida,

a alma da lei Ingleza foi sempre o precedente_; que as medidas para

fortalecer a corôa alargaram os direitos do povo e vice-versa. Todo

elle é cheio de idéas suggestivas que illuminam, para o espirito, um

grande campo de visão. De repente encontra-se um quasi paradoxo, desses

que põem em confusão todas as idéas moraes em nome da experiencia

historica. S. Luiz, dirá elle, com as suas virtudes e prestigio,

preparou o caminho para o despotismo dos seus successores. Não será o

mesmo o effeito do reinado de Pedro II? «Para conquistar a liberdade

como uma herança perpetua ha epochas em que se precisa mais dos vicios

dos reis do que das suas virtudes. A tyrannia dos nossos senhores

Angevinos accordou a liberdade ingleza do seu tumulo momentaneo. Si

Ricardo, João e Henrique tivessem sido reis como Alfredo e S. Luiz, o

baculo de Estevão Langton, a espada de Roberto Fitzwalter, nunca teriam

reluzido á testa dos Barões e do povo de Inglaterra.»

Bagehot não tem dessas intuições retrospectivas, dessas vistas geraes

locaes; o que tem, é a comprehensão, a adivinhação do machinismo

que vê funccionar. Tomando a Constituição ingleza como si fosse um

relogio de cathedral, outros saberão melhor a historia desse relogio,

o modo da sua construcção, as alterações por que passou, as vezes que

esteve parado, ou explicarão o symbolismo das figuras que elle põe em

movimento, quando o seu poderoso martello bate as horas do dia; elle,

porém, conhece melhor o mechanismo actual, que simplifica explicando-o.

Bagehot, póde-se vèr, era um espirito de affinidades e sympathias

quasi republicanas, como Grote, Stuart Mill, John Morley, e todo o

radicalismo positivista inglez. Banqueiro de nascença, elle é um

exemplo mais dessa singular attracção para os estudos especulativos ou

de politica pura, que por vezes se notou na alta finança ingleza, com

o proprio Grote, Mr. Goschen, ou Gladstone. O seu genio era desses que

renovam todos os assumptos que tratam. Não não sei si me engano, mas

acredito que a Constituição ingleza é uma esphinge, da qual foi elle

quem decifrou o enigma.

As idéas que devo a Bagehot são poucas, mas são todas ellas, por assim

dizer, chaves de systemas e concepções politicas, de verdadeiros

estados do espirito moderno. Foi elle, por exemplo, quem me deu a

idéa do que elle chamou _governo de gabinete_, como sendo a alma da

moderna Constituição ingleza. «No governo de gabinete, diz elle, o

poder legislativo escolhe o executivo, especie de commissão, que elle

encarrega do que respeita á parte pratica dos negocios e assim os dois

poderes se harmonisam, porque o poder legislativo póde mudar a sua

commissão, si não está satisfeito com ella ou si lhe prefere outra. E,

no emtanto,--tal é a delicadeza do mechanismo,--o poder executivo não

fica absorvido a ponto de obedecer servilmente, porquanto tem o direito

de fazer a legislatura comparecer perante os eleitores, para que estes

lhe componham uma Camara mais favoravel ás suas idéas.»

Essa é a primeira idéa, ou grupo de idéas, que devi a Bagehot: o

governo de gabinete, o gabinete commissão da Camara, o gabinete

sahido da Camara tendo o direito de dissolver a Camara, _dissolução

ministerial_ (não a Corôa só, nem a Corôa com um gabinete contrario á

Camara): tudo, em summa, que depois daquelle pequeno livro se tornou

outros tantos logares communs, mas que elle foi o primeiro a revelar, a

fixar.

É elle quem destróe os dois modos classicos de explicar a Constituição

ingleza: o primeiro, que o systema inglez consiste na separação dos

tres poderes; o segundo, que consiste no equilibrio delles. Sua idéa é

que os dois poderes, o executivo e o legislativo, se unem por um laço

que é o Gabinete e que, de facto, assim só ha um poder, que é a Camara

dos Communs, de que o gabinete é _a principal_ commissão. «O systema

inglez, diz elle, não consiste na absorpção do poder executivo pelo

legislativo; consiste na fusão delles.» O rival desse systema é o que

elle chamou systema presidencial. Essas designações são hoje usadas

por todos, mas são todas delle. «A qualidade distinctiva do governo

presidencial é a independencia mutua do legislativo e do executivo, ao

passo que a fusão e a combinação desses poderes serve de principio ao

governo de gabinete.»

Cada uma das suas palavras, comparando os dois systemas de governo,

merece ser pesada. Resumindo essas paginas, eu contribuo de certo

melhor para a educação dos jovens politicos, chamo a sua attenção

para problemas mais delicados, do que se lhes désse idéas minhas.

«Comparemos primeiro, diz elle, esses dois governos em tempos calmos.

Em uma epocha civilisada, as necessidades da administração exigem que

se façam constantemente leis. Um dos principaes objectos da legislação

é o lançamento dos impostos. As despesas de um governo civilisado

variam sem cessar e devem variar, si o governo faz o seu dever...

Si as pessôas encarregadas de prevêr todas essas necessidades da

administração não são as que fazem as leis, haverá antagonismo entre

ellas e as outras. Os que devem marcar a importancia dos impostos

entrarão seguramente em conflicto com os que tiverem reclamado o

seu lançamento. Haverá paralysia na acção do poder executivo, por

falta de leis necessarias, e erro na da legislatura, por falta de

responsabilidade: o executivo não é mais digno desse nome, desde que

não póde executar o que elle decide; a legislatura, por seu lado,

desmoralisa-se pela sua independencia mesma, que lhe permitte tomar

certas decisões capazes de neutralisar as do poder rival.»

Da desordem financeira que resulte dessa falta de intelligencia entre

executivo e legislativo e dessa fabricação de orçamentos sem o governo,

quem é o principal interessado na perfeição da lei de meios, quem é o

responsavel? A quem se póde responsabilisar ou afastar da gestão dos

negocios publicos? «Não ha ninguem a censurar sinão uma legislatura,

reunião numerosa de pessôas diversas, que é difficil punir e que

estão armadas, ellas mesmas, do direito de punir.» Na Inglaterra, o

systema é differente. Em um momento grave, o gabinete póde recorrer

á dissolução: na America, é preciso esperar com paciencia, para

se resolver qualquer conflicto de opinião entre o executivo e o

legislativo, que expire o prazo de um delles. Até lá elles guerreiam-se

implacavelmente, como dois partidos rivaes.

Supponha-se que não ha motivo possivel de conflicto: «Os governos de

gabinete são os educadores dos povos, os governos presidenciaes não

o são; pelo contrario, pódem corrompel-os. Diz-se que a Inglaterra

inventou esta formula: _a opposição de Sua Magestade_; que, primeiro,

dentre todos os Estados, ella reconheceu que o direito de criticar

a administração é um direito tão necessario na organização politica

como a propria administração. Essa opposição que se encarrega da

critica, acompanha necessariamente o governo de gabinete. Que magnifico

theatro para os debates, que maravilhosa escola de instrucção popular

e controversia politica offerece a todos uma Assembléa Legislativa!

Um discurso que é ahi pronunciado por um estadista eminente, um

movimento de partido produzido por uma grande combinação politica, eis

os melhores modos conhecidos até hoje de despertar, animar e instruir

um povo... Os viajantes que na America percorreram mesmo os Estados

do Norte, isto é, o grande paiz onde se mostra por excellencia o

governo presidencial, observaram que a nação não tem gosto pronunciado

pela politica e que não se encontra uma opinião trabalhada com todo o

acabado e toda a perfeição que se nota na Inglaterra... Sob um governo

presidencial, o povo não tem sinão no momento das eleições a sua parte

de influencia... Nada excita tal povo a formar para si uma opinião ou

uma educação, como o faria sob um governo de gabinete. Sem duvida a sua

legislatura é um theatro para os debates, mas esses debates são como

que prologos não seguidos de peças; não trazem nenhum desfecho, porque

não se póde mudar a administração; não estando o poder á disposição

da legislatura, ninguem presta attenção aos debates legislativos. O

executivo, esse grande centro do poder e dos empregos, fica inabalavel.

Não se póde mudal-o. O modo de ensino que, pela educação do nosso

espirito publico, prepara as nossas resoluções e esclarece os nossos

juizos, não existe sob este systema. Um paiz presidencial não tem

necessidade de formar cada dia opiniões estudadas e não tem meio algum

de as formar.» O mesmo se dá com a acção da imprensa, que tambem não

póde deslocar a administração. Na Inglaterra, o _Times_ tem feito

muitos ministerios; nada de semelhante se podia dar na America...

Ninguem se preoccupa dos debates do Congresso, elles não dão resultado

algum, e ninguem lê os longos artigos de fundo, porque não têm

influencia sobre os acontecimentos.

Mas não é só o poder legislativo que é fraco por essa divisão, é tambem

o executivo. «Na Inglaterra, um gabinete solido obtem o concurso

da legislatura em todos os actos que têm por fim facilitar a acção

administrativa: elle é, por assim dizer, elle proprio, a legislatura.

Mas um Presidente póde ser embaraçado pelo poder legislativo e o é

quasi inevitavelmente. A tendencia natural dos membros de toda a

legislatura é impôr a sua personalidade. Elles querem satisfazer uma

ambição louvavel ou censuravel: querem, sobretudo, deixar vestigios da

sua actividade propria nos negocios publicos.»

Além do enfraquecimento causado por esse antagonismo do legislativo,

o systema presidencial enfraquece o poder executivo, _diminuindo-lhe

o seu valor intrinseco_. «Os homens de Estado entre quem a nação tem

o direito de escolher sob o governo presidencial são de qualidade

muito inferior aos que lhe offerece o governo de gabinete, e o corpo

eleitoral encarregado de escolher a administração é tambem muito menos

perspicaz.»

Todas essas vantagens, porém, são ainda mais preciosas em tempos

difficeis, do que nos tempos calmos: «Uma opinião publica bem

formada, uma legislatura que infunda respeito, habil e disciplinada,

um executivo convenientemente escolhido, um parlamento e uma

administração que não se embaraçam reciprocamente, mas que cooperam

juntos, são vantagens cuja importancia é maior quando se está a

braços com grandes questões, do que quando se trata de negocios

insignificantes; maior, quando se tem muito que fazer, do que um

trabalho facil. Accrescentemos, porém, que o governo parlamentar, em

que existe um gabinete, possúe, além disso, um merito particularmente

util nos tempos tormentosos: o de ter sempre á sua disposição uma

reserva de poder prompta para operar, quando circumstancias extremas o

exijam...»

«Sob um governo presidencial, nada semelhante é possivel. O governo

americano gaba-se de ser o governo do povo soberano; mas, quando

apparece uma crise subita, circumstancia na qual o uso da soberania se

torna sobretudo necessario, não se sabe onde encontrar o povo soberano.

Ha um Congresso eleito por um periodo fixo, que póde ser dividido em

fracções determinadas, de que se não póde apressar nem retardar a

duração: ha um Presidente escolhido tambem por um lapso de tempo fixo

e inamovivel durante todo elle; todos os arranjos estão previstos de

modo determinado. Não ha em tudo isso nada de elastico; tudo, pelo

contrario, é rigorosamente especificado e datado. Aconteça o que

acontecer, não se póde precipitar, nem adiar. É um governo encommendado

de antemão, e, convenha ou não, ande bem ou mal, preencha ou não as

condições desejadas, a lei obriga a conserval-o.»

Em tempo de guerra ou de relações diplomaticas complicadas, é que se

vê o defeito desse systema em toda a luz. Esse systema, diz Bagehot,

póde-se resumir em uma palavra:--«_governar pelo desconhecido_».

«Ninguem na America tinha a menor idéa do que podia ser M. Lincoln nem

do que elle poderia fazer. Sob o governo de gabinete, pelo contrario,

os homens de Estado principaes são familiarmente conhecidos de

todos, não sómente pelos seus nomes, mas pelas suas idéas. Nós nem

mesmo imaginamos que se possa confiar o exercicio da soberania a um

desconhecido.»

Devo outras idéas a Bagehot. Antes de o lêr, eu tinha o preconceito

democratico contra a hereditariedade, o principio dynastico e a

influencia aristocratica. Foi esse _democrata_ que me fez comprehender

como o que elle chamou as partes _imponentes_ da Constituição ingleza,

«as que produzem e conservam o respeito das populações», são tão

importantes como as _efficientes_, «as que dão á obra o movimento e a

direcção». Phrases como estas gravam-se no pensamento: «Uma segunda

e rarissima condição de governo effectivo é _a calma_ do espirito

nacional, isto é, essa disposição de espirito que permitte atravessar,

sem perder o equilibrio, todas as agitações necessarias que as

peripecias dos acontecimentos encerram. Nunca no estado de barbaria ou

de meia civilização um povo possuiu essa qualidade. A massa da gente

sem instrucção na Inglaterra não poderia ouvir hoje tranquillamente

estas simples palavras: _Ide escolher o vosso governo_; semelhante idéa

lhes perturbaria a razão e lhes faria receiar um perigo chimerico. _A

vantagem incalculavel_ (o italico é meu) _das instituições imponentes

em um paiz livre é que ellas impedem essa catastrophe_. _Si a nomeação

dos governantes se faz sem abalo, é graças á existencia apparente de

um governo não sujeito á eleição._ As classes pobres e ignorantes

imaginam ser governadas por uma rainha hereditaria e que governa pela

graça de Deus, quando na realidade são governadas por um gabinete e um

parlamento composto de homens escolhidos por ellas mesmas e que sáem

das suas fileiras.»

A pompa, a magestade, o apparato todo da realeza entrava assim para mim

nos artificios necessarios para governar e satisfazer a imaginação das

massas, qualquer que seja a cultura da sociedade; a realeza passava

naturalmente para a classe das instituições a que Herbert Spencer

chamou _cerimoniaes_, como os trophéos, os presentes, as visitas, as

prosternações, os titulos, etc. «Nada mais pueril na apparencia do que

o enthusiasmo dos Inglezes pelo casamento do principe de Galles. Mas

nenhum sentimento está mais em harmonia com a natureza humana. As

mulheres, que compõem ao menos metade da raça humana, preoccupam-se cem

vezes mais de um casamento do que de um ministerio.» E além: «Emquanto

a especie humana tiver muito coração e pouca razão, a realeza será um

governo forte, porque se harmonisa com os sentimentos espalhados por

toda parte, e a Republica um governo fraco, porque se dirige á razão.»

A idéa _principal_ que recebi de Bagehot foi essa da superioridade

pratica do governo de gabinete inglez sobre o systema presidencial

americano: por outra, que uma monarchia secular, de origens feudaes,

cercada de tradições e fórmas aristocraticas, como é a ingleza,

podia ser um governo mais directa e immediatamente do povo do que a

republica. «Uma vez que o povo americano escolheu o seu Presidente,

elle não póde mais nada, e o mesmo se dá com o collegio eleitoral que

lhe serviu de intermediario.» A Camara dos Communs, essa, porém, faz

e desfaz o gabinete, de modo que o governo está sempre nas mãos da

representação nacional. Si se dá um desaccordo entre elles, em que o

ministerio supponha ter de seu lado a opinião, dissolve a camara, e,

dentro de dias, a nação se pronuncia. Comparados os dois governos, o

norte-americano ficou-me parecendo um relogio que marca as horas da

opinião, o inglez, um relogio que marca até os segundos.

III

1871-1873. _A Reforma._

Sahi assim da Academia, tendo vencido o preconceito que torna

reluctante para certos espiritos a fórma monarchica, isto é, o

preconceito contra a não-electividade do chefe do Estado. Eu via

claramente nessa não-electividade o segredo da superioridade do

mechanismo monarchico sobre o republicano, condemnado a interrupções

periodicas, que são para certos paizes revoluções certas. Para não

sahir da relojoaria, a republica era, para mim, um relogio de que

fosse preciso renovar a mola no fim de pouco tempo; a monarchia, um

relogio por assim dizer perpetuo. Não foi pequena acquisição esta

que devi a Bagehot; sem ella, sem ter da monarchia parlamentar uma

concepção que me fizesse acceital-a como um apparelho mais sensivel

á opinião, mais rapido e mais delicado em apanhar-lhe as nuanças

fugitivas, guardando ao mesmo tempo inalteravel a tradição de governo

e a aspiração permanente do destino nacional, eu teria sido arrastado

irresistivelmente para o movimento republicano que começava. Ainda

assim, não foi logo, de uma vez, que cheguei a dominar as minhas

fascinações.

Em 1871 estava no poder o ministerio Rio-Branco. Nesses tres annos

de 71, 72 e 73 escrevi na _Reforma_, por vezes, artigos politicos.

Outras coisas, entretanto, me occupavam então mais do que a politica.

A vida, a sociedade, o mundo, as lettras, a arte, a philosophia mesmo,

tinham para mim maior encanto do que ella. Desde muito moço havia uma

preoccupação em meu espirito que ao mesmo tempo me attrahia para a

politica e em certo sentido era uma especie de amuleto contra ella: a

escravidão. Posso dizer que desde 1868 vi tudo em nosso paiz através

desse prisma. Nas tres defesas de jury que fiz na Academia,--o meu

amigo Alberto de Carvalho ha de rir,--alcancei tres galés perpetuas.

Eram todos crimes de escravos, ou antes imputados a escravos,--devo

ser coherente hoje com o que provavelmente disse no jury. No meu

5º anno no Recife levei a preparar um livro que ainda guardo, uma

especie de Perdigão Malheiro inedito, sobre a escravidão entre nós.

Eu traduzia documentos do _Anti-Slavery Reporter_ para meu pae que,

de 1868 a 1871, foi quem mais influiu para fazer amadurecer a idéa

da emancipação, formulada em 1866 em projecto de lei por S. Vicente

(Pimenta Bueno). A iniciativa, o desejo de que se levasse a questão ao

Parlamento, estou convencido, partiu do Imperador, que não descançou

emquanto o não conseguiu, a primeira vez de Zacharias, a segunda de

Rio-Branco. Eu já disse uma vez que possúo o autographo, por lettra

delle, da carta em resposta aos abolicionistas francezes, carta que foi

o ponto de partida de tudo. Eu tomava o maior interesse na attitude de

meu pae nessa questão; desejava para elle a gloria de ser pelo menos

o Sumner brasileiro. Recordo-me do prazer que tive quando, em 1869,

elle me referiu que se tinha posto de accordo com Salles Torres-Homem

para moverem a idéa no Senado, e que Salles estava escrevendo sobre a

escravidão um dialogo na fórma de Platão.

Eu disse ha pouco que não me tinha sido facil desprender-me da minha

attracção para tudo que era democracia ultra. O Imperador estava em

1871 a emprehender a sua primeira visita á Europa. Um artigo que

então escrevi na _Reforma_, com o titulo _Viagem do Imperador_, dá

bem idéa de quanto era pequeno nesse tempo o meu angulo de inclinação

monarchica. É ainda um escripto de mocidade, não ha nelle sinão

mocidade, mas o traço individual que tem cada escriptor já está fixo,

não mudará mais;--não só não mudará mais, como, vinte annos depois,

quando eu pensar em voltar, no escrever, á fórma litteraria, é ás

medidas da minha phrase dos vinte e um annos que hei de tornar. Esse

artigo é _quasi_ republicano. As minhas novas idéas inglezas não

estavam ainda senhoras da casa, não tinham força para eclipsar as

projecções, em parte phantasticas, que nesse tempo, com a sua lanterna

magica, Laboulaye acabava de fazer do mundo americano. Por isso eu

aconselhava ao Imperador que, em vez de ir á _velha_ Europa, fosse á

_joven_ America:

«Sobretudo elle comprehenderia uma coisa. Ao vêr os Estados-Unidos á

frente do progresso industrial e moral, comprehenderia que os reis

pódem bem ser uma hypothese, um luxo, uma superfetação. Ao vêr uma

sociedade amplamente liberal e livre, governando-se sem rei, elle

comprehenderia que, em certas epochas, os povos pódem dispensar

qualquer tutela. Ao vêr a familia honrada e respeitada»,--eu referia-me

á pureza do lar e ao respeito dos Americanos pela mulher,--«tornada uma

religião; ao vêr a religião feita o laço moral das almas e a trituração

dos cultos chegando quasi ao numero dos individuos sem produzir outro

effeito sinão o de uma maior tolerancia e maior fraternidade, ao vêr a

civilisação crescendo»,--em terra virgem,--«como uma arvore de enormes

raizes e de grande sombra; ao vêr a vanguarda do progresso occupada

por uma republica»,--não merecia eu um primeiro premio-Laboulaye?--«o

Imperador perderia o culto monarchico em que commungam os reis.

Ao vêr, por outro lado, esse poder que passa de um soldado para um

lenhador, para um alfaiate, sempre o mesmo, integro e perfeito, elle,

guardando o amor da familia, que cresceria, porque já não era a

dynastia, perderia o culto da hereditariedade.»

Essa era a minha linguagem dos vinte e um annos; nella encontra-se um

minimum de monarchismo e um maximum de republicanismo, o que produz

esta preferencia por uma monarchia sem hereditariedade, sem cerimonial,

sem veneração, toda ao nivel commum, como a magistratura popular da

Casa Branca. É só gradualmente que a influencia do systema monarchico

vae crescendo e prevalecendo sobre esse radicalismo espontaneo, esse

egualitarismo inflexivel. Aos vinte e um annos de certo eu não teria

comprehendido esta maxima politica de meu pae no Senado: «A utilidade

relativa das leis prefere á utilidade absoluta»; o relativo não existia

para mim.

Nesses annos o partido liberal leva o ministerio Rio-Branco para

onde quer. Seguramente a opinião liberal teve muito mais poder sobre

aquelle ministerio do que sobre o ministerio Sinimbú ou qualquer

outro do seu proprio partido,--excepto o ministerio Dantas, porque

neste o Presidente do Conselho era impressionavel á menor censura do

liberalismo. A verdade é que o ministerio Rio-Branco foi um ministerio

reformista como desde o gabinete Paraná não se tinha visto outro e

não se viu nenhum depois. O governo tinha o prurido das reformas, não

talvez por inclinação propria, mas para desarmar a opposição liberal.

Em dois pontos sómente elle mostrou-se conservador, á moda antiga: na

sua prevenção contra a eleição directa, que provavelmente era tambem

do Imperador, e em relação ao equilibrio do Prata. Em sua politica

externa manteve firme a tradição conservadora, ou melhor, a politica

tradicional de antes da Triplice Alliança, e a maior probabilidade é

que a politica liberal da Alliança, continuando, depois da guerra, nos

tratados de paz, teria creado uma situação no Prata muito diversa da

situação estavel e pacifica que resultou dessa mudança de attitude dos

conservadores. Em tudo mais foi um ministerio innovador como o partido

liberal não teria dado egual. O panno das reformas era fornecido pelos

liberaes; era todo de padrão liberal; mas o mestre conservador talhava

nelle com uma largueza de tesoura que faria chorar no poder toda a

alfaiataria contraria. Na questão religiosa, principalmente, á attitude

de Rio-Branco só se poderia chamar conservadora por ser Pombalina,

ultra regalista. O partido liberal, em vez de exultar, dizia-se

roubado, pleiteava as suas patentes de invenção, sua marcas de fabrica.

Nesse tempo, e durante alguns annos, o radicalismo me arrasta; eu sou,

por exemplo, dos que tomam parte mais activa na campanha maçonica

de 1873 contra os bispos e contra a Egreja. Entro até nas idéas de

Feijó, de uma Egreja Nacional, independente da disciplina romana;

faço conferencias, escrevo artigos, publico folhetos. Não quizera

mesmo hoje retirar uma só palavra do que disse então, advogando a

liberdade religiosa mais perfeita; entendo ainda, hoje mais do que

nunca, depois da esplendida experiencia do pontificado de Leão XIII,

que a Egreja tem tudo a ganhar com a liberdade e que o futuro do mundo

póde pertencer á alliança, já sellada no actual pontificado, da Egreja

Catholica com a democracia. Não é sob Leão XIII que o liberalismo ha

de mais ser suspeito, e provavelmente este pontificado não será um

_accidente feliz_, mas sim um ponto de partida definitivo, a data

de uma nova éra na historia do Catholicismo. Do que preciso fazer

renuncia, em favor das traças que os consumiram, é de tudo o que

nesses opusculos escrevi em espirito de antagonismo á religião, com a

mais soberba incomprehensão de seu papel e da necessidade, superior a

qualquer outra, de augmentar a sua influencia, a sua acção formativa,

reparadora, em todo o caso consoladora, em nossa vida publica e em

nossos costumes nacionaes, no fundo transmissivel da sociedade.

Naquelle tempo, porém, como teria eu acolhido uma manifestação como

esta, cada vez mais verdadeira, mas de que só hoje sinto a profundeza

e o alcance,--do senador Nabuco, em 1860, no Senado: «Ha duas

necessidades, a meu vêr, muito importantes na situação moral do nosso

paiz:--_a primeira_ é a diffusão do principio religioso no interesse

da familia e da sociedade...»? Posso dizer, fallando a nova giria

scientifica, que eu não tinha então nada de estatico, era todo dynamico.

Um ministerio conservador que se encarrega de realisar as reformas

liberaes, produz, forçosamente, no campo liberal, uma grande confusão.

Para quem começava, como eu, a vida politica automatica na imprensa e

no club do partido, a politica do ministerio pouco importava, o alvo

continuava o mesmo; não obstante, instinctivamente, pela voz do sangue,

a discutir com o governo conservador que fazia as reformas liberaes,

eu preferia discutir com a fracção que se separara do nosso partido

para formar o partido republicano. Já nesse tempo a questão da fórma

de governo começa a dominar em mim todas as outras; eu só exceptuaria

a dos escravos, mas a lei de 28 de setembro estava votada e a ella se

tinha seguido uma especie de tregua dada á escravidão. Travo, então, na

_Reforma_, um combate com a _Republica_, do ponto de vista monarchico.

Si, em 1871, eu podia pretender, como disse, o premio americano

Laboulaye, em 1873, no meu anno de fixação monarchica, eu entraria

em concurso para o premio inglez Bagehot, com esses artigos tambem

da _Reforma_. O seguinte trecho basta para mostrar, comparado ao da

_Viagem do Imperador_, a mudança que eu tinha soffrido em dois annos:

«É preciso realmente ser illudido, ou pelas palavras ou pelos symbolos,

para chamar ao rei do systema parlamentar um tyranno. Nem mesmo póde

comparar-se um Lincoln com uma Victoria: o Presidente americano

governa, administra, tem á sua disposição milhares de empregos

publicos, é o chefe de seu partido, tem uma responsabilidade inteira

no governo e uma iniciativa poderosa; póde ser um Washington ou, si

quizer, um Johnson. O soberano inglez não tem poder algum; o parlamento

indica-lhe o ministro que elle chama, não podendo chamar outro; esse

ministro imposto torna-se o chefe do Estado, apresenta as leis a que o

soberano não póde negar sancção, e dissolve a camara si ella lhe retira

a confiança; e emquanto o ministro _governa_, o rei sómente _reina_.

Não terá esse _tyranno_ inglez muito menos poder do que o _primeiro

magistrado_ americano?»

Dessas idéas eu não devia sahir mais, como se verá; não são como as de

1871, arrastamento, enthusiasmo, paixão; são dessas fórmas do espirito

que não deixam mais a intelligencia tomar outra fórma; têm para ella a

transparencia, a clareza da evidencia, como si fossem, e realmente são,

primeiros theoremas de geometria politica.

IV

ATTRACÇÃO DO MUNDO

Nesses annos de mocidade a que me estou referindo, a politica era,

de certo, para mim uma forte excitação; em qualquer scena do mundo o

lance politico interessava-me, prendia-me, agitava-me; por isso mesmo,

eu não era, nunca fui, o que se chama verdadeiramente um politico, um

espirito capaz de viver na pequena politica e de dar ahi o que tem de

melhor. Em minha vida vivi muito da Politica, com P grande, isto é, da

politica que é historia, e ainda hoje vivo, é certo que muito menos.

Mas para a politica propriamente dita, que é a local, a do paiz, a dos

partidos, tenho esta dupla incapacidade: não só um mundo de coisas me

parece superior a ella, como tambem minha curiosidade, o meu interesse,

vae sempre para o ponto onde a acção do drama contemporaneo universal é

mais complicada ou mais intensa.

Minha formação · 第 1 / 16 段