O verbo ser conjuga-se assim em francez

Je suis

Tu es

Il est

Nous sommes

Vous êtes

Ils sont

----

A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em

territorio.

----

Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de

Camillo, ha um botequim conhecido pelo _Café do Gato_.

«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com

filhos pequenos.

Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.

Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja

rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha

presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos

ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.

--Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.

Resposta d'elle:

--Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.

É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do

Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o

proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para

dentro.

Mas o caso vem a proposito para mostrar que n'estas e outras

rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em

Seide na treva e no desespero.

O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para

exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.

Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome

bucolico de _boninas_ as stratificações fecaes que matizam e embalsamam

os caminhos nas villas e aldeias do Minho.

Tem verdadeira graça pastoril: boninas!

* * * * *

Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.

A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha

desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois

da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de

familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com

palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.

O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:

--Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do _Protesto_,

disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer

a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»

--Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido e não tinha

odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe

mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.

Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa

deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas

uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o

dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu

nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que

até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se

nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de

que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.

No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se

eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado

ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do

_Protesto_ me causou.

Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.

O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se

muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.

A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:

--Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr.

visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso

dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,

procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.

* * * * *

D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da

bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas

estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de

ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois

meus: _A Jornada dos Seculos_ e a _Flor de myosótis_.

Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava

temporadas.

É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam

espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de

montes longinquos.

Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia

contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os

bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o

aposento.

A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que

a floresta dormente.

Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um

passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.

Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu

camilliano.

[Ilustração: RACHEL]

Foi n'esse mesmo andar que Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito

de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia.

Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da

casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge

entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano--esse piano que

era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do

Porto--mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das

muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em

noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta.

Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe

fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.

No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A

porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.

A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:

--Sr. Jorge, são horas do almoço.

Elle respondeu:

--Já vou.

Mas passou tempo sem que se levantasse.

Tornaram a chamal-o.

--Já vou, repetiu elle.

Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela

janella, o que foi empreza difficil.

Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico que, n'esse

momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade.

* * * * *

D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se

inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da

illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por

mim já publicada.

Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de

uma folha diaria:

«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz

Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a

companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e

enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos.

«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de

Landim, que logo previu o desenlace fatal.

«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter

debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro

laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo

com desmaios e não podendo conciliar o somno.

«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em

quando gemia e invocava a Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em

que morreu, foi ungido.

«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes

apparece nas doenças mentaes.

«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que

só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D.

Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.

«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado

da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da

nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e

soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se

engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.

«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá

desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma

campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas

bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os

dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que

eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso

avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se

parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se

prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo

d'este seu neto e afilhado, feita em casa de Nuno e sobre um piano, por

lhe ficar mais a geito.

«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde

viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada

de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de

Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora,

esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.

«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre

De V. etc.

_José de Azevedo e Meneses._

Os netos de Camillo · 第 7 / 23 题