Camillo! como acreditar, como hei de
Entender estes versos que deixaste?
Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,
Cada anno te espera,--e não voltaste!
Já tantas vezes deu a sombra amiga,
Que tu gostavas tanto de gozar...
Florida, tem um ar de festa antiga
Na esperança de te vêr voltar!
Voltar? A velha arvore que cance!...
Por fim ha de ruir, n'uma amargura.
Prepáras lá um ultimo romance?
Suprema indiscreção! Genio e loucura!
Dolorosa novella desmanchada,
E que nos deixe pallidos e absortos,
Onde nos digas, grande camarada,
O gordo amor de brazileiros mortos!
Os Amorosos, que se vão chorando
Á porta do convento, e amortalhar-se...
Com habitos de terra aconchegando
Os esqueletos de ossos a chocar-se...
Um romance da cova, com morgados
Que o além desbastou; com almas finas
De mysticas de Amor, lindas Meninas
Em mosteiros chorando, abandonados!
E a descomposta, lugubre risada
De romantica bocca, que era a tua,
N'esses reinos da Morte gargalhada
Sobre defuntos namorando á lua!
E toda a vã e toda a derradeira
Esperança do cabo da viagem;
Com descriptivos, á tua maneira,
D'esse Minho da Morte da paisagem...
Ó Acacia! é já tempo: desesperas?
Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...
Nunca mais voltará esse que esperas,
Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!
E os versos d'elle, onde a saudade existe,
Que á despedida te gritou tambem,
Ah! não são mais que uma mentira triste:
Como tudo, a final, que nos faz bem.
Poetas! perguntae ao pensamento
Que mais chimeras e desgraças forge?
Antes te séque um raio, ou parta o vento!
Ó Acacia do Jorge...
* * * * *
Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual
pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as
portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo,
respeitosamente.
A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu
espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva.
Eu ia dizendo:
--Era aqui a casa de jantar.
[Ilustração: CAMILLO]
A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.
Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava
receber as suas visitas de maior cerimonia.
A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:
--Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.
E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de
desespero atroz.
--O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio,
onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha
visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando
chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr.
visconde parecia tranquillo antes do medico chegar.
O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:
--Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em
frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr.
visconde disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.»
Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte!
--É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde
ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O
doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O
sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação
para evitar um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª
viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se
então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava
prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento,
ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue
aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.
--O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?
--Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando
para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns
projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto.
Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.
--De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída.
A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:
--Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras.
Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.
E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos
demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se
vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de
baloiço, morrendo.
* * * * *
Subimos depois ao segundo andar.
Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.
No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do
antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.
A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a
irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a
impressão de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do
ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que
prostrára o valoroso artifice.
Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados
de mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns _croquis_ do Jorge,
e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.
Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha
dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seus _croquis_, prestei
attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os
bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como
companheiros fieis e amigos intimos.
São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse
que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.
Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o chefe do estado-maior no
exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do
romantismo.
A sua _toilette_ caracterisa nitidamente essa época literaria, em que os
neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e
_épater le bourgeois_ exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e
do córte.
Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de
cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os
literatos e os pintores.
Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido
resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os
mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de
cortezãos de Luiz XV.
Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa
noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.
A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de
hoje.
Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação
archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça
humana.
Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava
ainda, veste casaco de alamares--esse casaco-broquel, que defendia os
corações romanticos.
O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por
isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que
fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.
No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro
antigo.
Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de
nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao
pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de
marmore ou de um granadeiro em formatura.
Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de
aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma
encadernação condigna, forte e austera.
Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de
fitas garridas para adorno de damas.
E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso,
se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as
gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços.
O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem
buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o
effeito da _toileite_ compensa, como excentricidade de _pose_, a
deficiencia da cabelladura.
Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço, e sobre ella um
amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um
jardineiro, como a um escriptor em actividade--porque tudo isso foi o
auctor das _Guépes_, sendo elle proprio uma obra em trez volumes.
Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer
sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas
desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.
Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a
fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e
Karr.
Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.
* * * * *
Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de
Correia Botelho, igualmente desmobilado.
Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e
expirou.
D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um
aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.
Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte
surprehendel-a.
Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.
Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.
Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega
quando morreu.
Já não podia lêr, nem escrever.
Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.
Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o
amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira
feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes
o mesmo calix de amargura.
Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de
«pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.
Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali,
evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.
Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:
--Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa
Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe
que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o
chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir
para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o
«bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha
comprado no Porto.
* * * * *
Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do
grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado,
aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.
--O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e
manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?
Obtive esta resposta:
--Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os
não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.
Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.
Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu
conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse
n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha
casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom
ministro... constitucional.»
Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.
O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe:
--V. Ex.ª vai sem paletot?
Camillo respondeu passivamente:
[Ilustração: NUNO]
--A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.
Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:
--V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.
Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot
chegasse.
Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa,
passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou,
olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço.
Por isso é que eu o soffro.»
Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o
Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre
do que tinha ido.
Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio
do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.
E de repente ataquei um assumpto novo:
--Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.
A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:
--Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.
Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:
--V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto?
--Estou, sim, senhor.
--Tambem eu, minha senhora.
O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com
grande hombridade:
--Negal-o foi uma loucura.
Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara
que me constrangia.
--Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter
que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo
declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora
peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi
imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia,
na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de
familia, lhe causasse desgosto.
O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com
indulgente cortezia, dizendo:
--Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. Em 1892 o Nuno, estando nós
na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_; no dia seguinte tornámos a
vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver
aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é
certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar
n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a
pessoa que hoje me visitava com nome differente.
O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir
triumphalmente, esperando a occasião de dizer:
--A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa:
«Este não é o Alberto Pimentel?»
E o sr. Adriano Trêpa confirmou:
--Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.
--O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.
--Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.
O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na
Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu
ali fôra visitar Camillo.
A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me
officialmente o sr. Carvalho:
--É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito.
E, sorrindo, acrescentou:
--É o «José Fistula» do _Eusebio Macario_...
O sr. Carvalho atalhou jovialmente:
--Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o _Fado_.
Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o.
* * * * *
É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha
familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é
um camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo
Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita
perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se
João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete
inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande
romancista em horas de bom humor. Por exemplo:
Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de
Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um
pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.
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Em francez, _bonne nuit_ é boa noite; e _bon soir_, boa tarde.
Em inglez, _good night_ é boa noite.
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