--Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor

de nácar e prata...--A principio, procurei-te... Depois, como a tortura

fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor

e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em

mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira

a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta scintillações do

calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche

de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas.

Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre

os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os

seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no

ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de

côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A

Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos

pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras

de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e

murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei

no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas

casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os

azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...

--Acredita que não foi por minha culpa...

--Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a

envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel

embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria

abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa

Seringe... Como quem corre atraz do sol e se encontra encerrado

n'um bêco. Nunca mais me escreveste!

Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...

--Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa

do viço. É necessario podar o coração...

--Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...

--Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que

a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças...

Filosofos!...

--Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser.

Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais

real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu

sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro

pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu

misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a

adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios

que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver

o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a

onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas

teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva

fresca. E desfazem-se em flocos de espuma, quebram-se umas contra

as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no

emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados,

despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de

esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca

aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As

mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu

sem se saber porquê...

Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras

que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos.

E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do

passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram

das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas

cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...

Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo

não chove...»

Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia

a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em

sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se

na agua do tanque.

O amante chorava...

* * * * *

PERFIL D'AVENTUREIRO

A EDUARDO DE MAYA CARDOZO.

PERFIL D'AVENTUREIRO

Desvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de

sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile.

Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para

crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão

d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto

glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para

reter os beijos, que queriam saír.

As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas

nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas

desmaiavam, maléficas e misteriosas.

Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume,

de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os, _allumeuse_

internacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias

que pagassem, generosas e discretas.

A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era

quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro,

um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo

aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido,

ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de

morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito

d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação

dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a

ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias

embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por

complicações de finanças internas, a más horas.

Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam

aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das

chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões.

O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de

cabello que lhe guarnecia o craneo rubro:

--Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha...

--Não ha de levar a melhor...

--Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem.

--A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel.

--Praça sitiada, praça tomada...

--Mas quem sitía é a condessa!...

--Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca

vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O

campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira

força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo.

--Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado...

--Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança

pesadas contribuições de guerra.

--Que paiz pagará?

--Mr. Alphonse?

--Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen...

--Aquella judia fanhosa?

--Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil

libras em tres mezes.

--É ante-semita. É _bien né_, o ser-se ante-semita! O começo da

liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos.

--Contava muito depressa... 12 de cada vez...

--Se é que contava pelos pés!

--Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel.

Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo

adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os

nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para

elle são _porte-bonheur_, dão um quebranto magico. A terrivel fama de

que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um

halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos

para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa

ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal

por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega.

Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não

permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do

Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a

politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que

Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da

vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios--hoje os nossos

plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e

pelo telegrafo--nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o

empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o

centro do Universo. Nihil humani a me alienum puto. Nada do que

pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz

elle. Não tem outra moral.

Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que

nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner...

A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania

oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao

som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle.

Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou:

--Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um

poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é

um força social.

--Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são

imprevistas, sorri-me.

--Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como

diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista

com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como

diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada

lado--tenho a Corôa da Prussia--e todas as placas. Quando me decido a

pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico em

_robe-de-chambre_. Defronte da minha psyché imperio, dou-me a ideia

d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou

dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe

conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com

elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no

mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma.

Conversavamos muito. Venha para aqui.

Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um

mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas

recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num

sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e

adormecedor. Escutei-o.

--Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para

empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a

personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando

os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe

não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais

faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je

porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma

vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes

longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira,

a que os olhos transparentes dão um encanto misterioso, uma sedução

que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem,

diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas

nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco

aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta

toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao

olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e

imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o

mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis.

Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria

feito este homem com o demonio?

--Talvez o mesmo que Dorian Grey...

--Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista,

amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato

magico! Ou Lazló?

Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os

hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral»

liquida em artigo de fundo.

--E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante.

O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial.

--Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou prolixo como o bom Tito

Livio. Entro em materia.

Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava,

para o afastar, o dinamarquez contou:

--Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do

reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas

vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian

Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido,

que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e

ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro

na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de

versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de

tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda.

A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar

gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes,

como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio,

cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de

flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as

ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se

pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas

áções sem logica, que nada faziam prever, quasi sem realidade, como

essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra.

Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas

palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas

lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos,

nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á

noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas,

collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que,

á luz, pareciam cinzas...

Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus

dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em

banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia

indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella

num tanque.

--A mulher deve ser como o Champagne: _extra dry_.

Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady

Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs,

tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza

profunda, maniaca, que interessasse.

Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a

mascara e falava-me do desenvolvimento da personalidade, toda a

theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche,

nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração

inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal

forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço,

desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros.

--É necessario viver a nossa vida, disse-me.

N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo

talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso

atavico--gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente--por

qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos

juntos, tomamos pelo _Boulevard des Côtes_, que vae contornando a

montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do

campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos,

alem a rua de _Genéve_, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos

perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o

lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado.

Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua

choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum.

Sir Arnold falava com fluencia:

--Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento

do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos

pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem

sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre.

Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás

conferencias, mas a uma pobre _caissière_, Eva Farland, d'um pequeno

restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não

encontrava emprego para o meu mister agradavel de _pique-assietes_. Ali,

por um shelling e meio tinha uma boa talhada de _mutton_ e uma caneca de

cerveja, para desalterar.

Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a

seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle

como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo

penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem,

dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha,

a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia--era um periodo

de _guigne_ extraordinaria!--persuadindo-se a pobre Eva que era por

amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem

para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar

á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle toda a

inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das

suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em

ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club,

frequentava os _music-halls_ nos camarotes do club, reencadernava-se,

emfim, de gentleman.

Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e

pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos

sensuaes e tristes.

N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario

da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo

Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça

do guineu pondo em cada sorriso, um soluço.

Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem

penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe

pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco

salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se

despediu, e que, se não morreu de dor--o que é pouco provavel--teve com

certeza uma lancinante crise de desespero.

Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do

pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois

habituára-o a pensar que o amôr pode ser um modo de vida e a

belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida.

Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro

levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se.

Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha

consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no

interessante combate travado com lady Hanswell.

Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell

começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha

alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos

olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro.

Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de

retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida,

que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura

constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros

deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á

circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os

volumes.

Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não

já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas

as que fizessem realçar a sua elegancia, largos decótes que

mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os

largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno,

remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam,

como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada

as laranjas d'oiro.

Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na

conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e

vaidade do sexo.

Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir,

entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente,

falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como

desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega.

Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que

a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra.

E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche

Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora

em que lady Hanswell costumava sair para o banho.

A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para

a porta constantemente, a cada movimento do _paravent_ estremecia,

lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face

muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das

massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se

encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe

lambia a face linda.

Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no

carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde,

depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam

e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold.

Quanto custaram á consolada viuva esses beijos?

N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina

Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para

elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente.

* * * * *

FUMO

A LUIZ O'NEIL.

FUMO

Para fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de

Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o

Léman tranquillo.

Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que

nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de

Londres.

Era a Volupia feita luz e feita dança. N'um _maillot_ de seda, parecia

nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes

segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e

os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos

loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues,

quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado

langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de

Smyrna. E do brilho das joias, como da florescencia musical dos

gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos

por toda a sala incendiada por lampadas poderosas.

Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras

que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no

palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos

crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca

sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo

flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao

explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe.

Flirts · 第 8 / 9 段